A nova direcção do GRACE, cuja presidente, Margarida Couto, tomou posse em Janeiro deste ano, quer fortalecer a posição da Economia Social em Portugal com “redes colaborativas” e “iniciativas que estimulem a reflexão crítica e a partilha” entre o meio empresarial. Em entrevista, a representante da Vieira de Almeida & Associados na Associação defende que hoje “as empresas estão mais atentas aos problemas societais” e são “mais exigentes e rigorosas no que toca ao investimento que fazem” em responsabilidade social e em sustentabilidade
POR GABRIELA COSTA

No ano em que cumpre 18 anos de actuação em prol da cidadania empresarial, dinamizando o sector da Economia Social em Portugal, o GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial inicia um novo ciclo de crescimento e consolidação da massa associativa, constituída já por 160 associados, liderado pela nova direcção presidida por Margarida Couto, em representação da Vieira de Almeida & Associados (a qual sucede à direcção mandatada por Paula Guimarães, que ocupou o cargo de 2013 a 2017, em representação da Fundação Montepio).

Como explica, em entrevista ao VER, Margarida Couto, no âmbito das suas Linhas de Orientação e Plano de Acção para 2018/2020 a associação sem fins lucrativos dedicada à promoção da responsabilidade social corporativa assume o compromisso central de fortalecer a sua posição“tanto a nível nacional como internacional, através de parcerias e redes colaborativas”.

Dando continuidade a projectos-bandeira como a Academia GRACE (que, no âmbito do projecto Uni.Network, promove a ligação entre os meios empresarial e académico, estando abertas, até ao dia 30 de Abril, as candidaturas para a IV Edição da iniciativa, cujos temas a concurso são o Intra-empreendedorismo Social e a Tecnologia ao serviço da RSC); a mostra de boas práticas “RSE de Sucesso”; ou as iniciativas de voluntariado empresarial GIRO eVoluntariado em Família (este ano ambos dedicadas ao Ano Europeu do Património Cultural), entre muitos outros, o GRACE afirma-se com um renovado sentido de responsabilidade para ajudar os seus associados a enfrentar os muitos desafios que o mercado e a sociedade lhes colocam. Na certeza de que é fundamental “que as empresas assumam o seu papel na promoção de uma cultura de sustentabilidade”, e que hoje – também graças ao seu contributo – estas “estabelecem parcerias mais duradouras, impactantes e sustentáveis com entidades da Economia Social e intervêm mais rápida e eficazmente na comunidade”.

Com que expectativas assumiu a direcção do GRACE e com que prioridades inicia este novo ciclo? O que destaca das Linhas de Orientação e do Plano de Acção para 2018?

Com o legado da anterior direcção e a crescente exigência dos associados, foi com muito entusiasmo e grande sentido de responsabilidade que assumi a Presidência do GRACE, em nome da Vieira de Almeida & Associados (VdA).

[quote_center]Paradoxalmente os anos de crise económico-financeira tornaram as empresas mais conscientes do seu papel, quer na sociedade quer “na sua” comunidade[/quote_center]

Para 2018, e respondendo sempre aos reptos que constantemente nos são lançados pelos associados, esta nova direcção estabeleceu, como um dos principais compromissos, o fortalecimento da posição do GRACE tanto a nível nacional como internacional, através de parcerias e redes colaborativas, e principalmente de iniciativas que estimulem a reflexão crítica e a partilha entre as “empresas GRACE”.

É nosso desejo continuar a sensibilizar o tecido empresarial, e os stakeholders que o rodeiam, para os novos desafios da responsabilidade social corporativa. É muito importante que as empresas assumam o seu papel na promoção de uma cultura de sustentabilidade, cumprindo os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidos pelas Nações Unidas.

No seu mandato, um dos objectivos é “actualizar práticas e antecipar as tendências de evolução no âmbito da responsabilidade social corporativa e da sustentabilidade”. Como caracteriza actualmente estas tendências em Portugal, e o que se pode esperar das empresas a este nível, no futuro?

Os anos de crise económico-financeira que o nosso País atravessou, com aumento de desemprego e crescimento de situações de precariedade e exclusão social, paradoxalmente tornaram as empresas mais conscientes do seu papel, quer na sociedade em geral quer “na sua” comunidade.

Hoje, as empresas estão mais atentas aos problemas societais, estabelecem parcerias mais duradouras, impactantes e sustentáveis com entidades da Economia Social, e intervêm mais rápida e eficazmente na comunidade. Tornaram-se também mais exigentes e rigorosas no que toca ao investimento que fazem em responsabilidade social corporativa, em sustentabilidade ambiental, em responsabilidade social interna, etc., tanto mais que sabem que passarão a ter de reportar o que fazem nestas matérias, ao abrigo da Directiva sobre o Reporte de Informação Não Financeira, já transposta em Portugal e em vigor desde o ano passado.

[quote_center]O GRACE associa-se à celebração da importância do património cultural, num momento em que as identidades das nações são postas em causa diariamente[/quote_center]

Temas como impacto social, avaliação e reporte e medição de impacto estão a ser crescentemente postos em cima da mesa e as organizações de Economia Social adquirem crescente consciência de que necessitam de se adaptar a este novo paradigma se quiserem manter e aumentar parcerias com as empresas, as quais, por sua vez, são cada vez mais importantes para a própria sustentabilidade dessas organizações.

A Academia GRACE é um dos vários projectos-bandeira do GRACE. Como irá decorrer esta 4ª edição e que significado tem para os autores vencedores dos melhores trabalhos a oportunidade de terem uma experiência profissional numa empresa associada do GRACE?

No que respeita à Academia GRACE, estamos a trabalhar intensamente para que cada vez mais alunos de todas as entidades académicas protocoladas participem neste projecto, numa lógica de crescente cobertura territorial do projecto.

É indispensável que os vencedores da Academia sintam que o seu esforço e mérito é recompensado, e daí o facto de o GRACE lhes proporcionar um Estágio de Verão em contexto empresarial. É sempre uma experiência enriquecedora porque, além de lhes oferecer um primeiro contacto com “o mundo do trabalho”, alarga a sua rede de contactos, desenvolve novas competências e, muitas vezes, proporciona-lhes contacto com as áreas de sustentabilidade e/ou de responsabilidade social das empresas onde realizam o estágio, dando-lhes assim noção da importância crescente que estas áreas assumem no mundo empresarial.

Que balanço faz do Uni.Network, ao nível da missão já alcançada, da dinâmica do projecto e do número de empresas associadas e parceiros académicos?

Este projecto, que tem como missão alavancar e intensificar a relação entre entidades académicas e empresas em torno do tema da responsabilidade social corporativa, tem crescido todos os anos, tanto em termos de número de parceiros académicos como de número de empresas envolvidas.

[quote_center]O Uni.Network coloca as empresas e as instituições de ensino superior a falar umas com as outras e a partilhar experiências[/quote_center]

O balanço que fazemos é assim muito positivo, não apenas em virtude do constante crescimento do projecto, mas também porque sentimos que o Uni.Network, além de levar o tema da responsabilidade social corporativa para dentro das instituições de ensino superior, as faz “falar umas com as outras” e partilhar experiências, o que é uma enorme mais-valia do projecto.

Recentemente realizaram no Porto mais uma edição da“RSE de Sucesso”. Qual é a relevância para o sector empresarial e organizações da sociedade civil de promover mostras de boas práticas de responsabilidade e intervenção social?

Regressámos ao Porto pela quinta vez para mais uma RSE de Sucesso, em parceria com a Fundação Manuel António da Mota (nosso associado), numa clara missão de aproximação entre empresas, sociedade civil e Economia Social. Esta iniciativa constitui uma excelente oportunidade para as empresas mostrarem aos seus “clientes e consumidores” o que fazem para além da sua actividade normal, conduzindo a que estes façam escolhas cada vez mais responsáveis.

A evolução tem sido muito positiva e as vantagens do contacto empresa-público são evidentes. Também o número de entidades de Economia Social que nos visitam aumentou, permitindo uma maior aproximação. Acreditamos que é uma iniciativa na qual todos ganham.

O evento integrou um encontro temático dedicado ao Património Cultural.Em que medida é o debate sobre o património cultural fundamental para a sustentabilidade?

Relativamente ao encontro temático da tarde, as intervenções dos oradores deixaram clara a importância do Património Cultural e da sua preservação. O nosso património, seja ele cultural, ambiental ou outro, é a herança de um povo, parte intrínseca da sua história e da sua identidade. A celebração europeia, à qual o GRACE se associou, pretende precisamente alertar para a importância do património cultural material e imaterial, num momento em que as identidades das nações são postas em causa diariamente em todo o mundo.

O GRACE está a desenvolver várias iniciativas em torno deste tema, que assumem como um dos ‘lemes’ da vossa actuação em 2018. Quais são os vossos objectivos perante as empresas, com esta mobilização para o Ano Europeu do Património Cultural? Que outras iniciativas têm já previstas, no âmbito do AEPC?

Entre as 160 empresas que constituem o GRACE são muitos os exemplos de boas práticas em termos de preservação de património cultural, nomeadamente em matéria de artes plásticas e de edificado. É porém necessário sensibilizar as empresas e os seus colaboradores para a variedade de legado e herança que temos: dos costumes ao artesanato, passando por tradições musicais, festivas, gastronómicas, religiosas e linguísticas – tudo isto faz parte da identidade do povo português.

[quote_center]No âmbito do AEPC iremos encorajar os voluntários a explorar e conhecer o valor único do património cultural nacional[/quote_center]

Trata-se de um património que é necessário valorizar e preservar e o papel das empresas nessa matéria é fundamental. É por isso sobre esta temática que incidirão as nossas principais iniciativas de voluntariado: o Voluntariado em Família e o GIRO. No âmbito do AEPC, iremos encorajar os voluntários a explorar e conhecer o valor único do património cultural nacional, inclusivamente como fonte de inspiração para a criação contemporânea e a inovação; e ainda sensibilizar todos os envolvidos para as graves consequências decorrentes das alterações climáticas para o património cultural.

Que perspectivas têm para as próximas edições do Voluntariado em Família (em Maio) e do GIRO (em Outubro)? Na sua opinião, qual é o estado-da-arte do voluntariado em Portugal?

O Voluntariado em Família decorre já no próximo dia 12 de Maio, em cinco localidades de norte a sul do país e esperamos ter o envolvimento de muitos colaboradores das empresas associadas do GRACE e das respectivas famílias. Quanto ao GIRO, o programa ainda está em fase de desenvolvimento, estando apenas definido que terá lugar no dia 12 de Outubro, com diversas iniciativas em todo o território continental e nas ilhas.

[quote_center]Os ODS já começam a estar integrados nas estratégias de gestão empresarial[/quote_center]

O voluntariado corporativo em Portugal ainda está a dar os seus primeiros passos, e acreditamos que o GRACE pode continuar a dar um forte contributo para a disseminação desta boa prática, tornando-a parte intrínseca da actividade das empresas.

Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável são outra prioridade na actuação do GRACE, que integra a Aliança dos ODS em Portugal. Que resultados têm vindo a alcançar junto dos vossos associados e parceiros, no que respeita à integração destes Objectivos nas suas estratégias a nível empresarial?

Em 2016 o GRACE integrou a Aliança para os ODS, assumindo o objectivo de sensibilizar os seus associados e respectivos colaboradores para a importância do cumprimento das metas estabelecidas pelas Nações Unidas. Desde então, promovemos e participámos em várias iniciativas dedicadas ao tema, e o que observamos hoje é que os ODS já começam a estar integrados nas estratégias de gestão empresarial. Há um conhecimento cada vez maior sobre os vários ODS e as empresas conseguiram adaptar as suas formas de actuação para que a implementação de um ou mais dos 17 Objectivos seja uma realidade visível.

O GRACE tem procurado destacar que os ODS se dirigem a cada um de nós, enquanto cidadãos e não apenas a empresas e governos. Todos temos um papel importante a desempenhar.

Gabriela Costa

Jornalista