As disparidades salariais entre CEOs e trabalhadores “normais” continuam a provocar incredulidade. Com a obrigatoriedade de revelarem o fosso remuneratório existente entre executivos de topo e empregados, as empresas nos Estados Unidos estão cada vez mais debaixo de olho por parte de analistas que fazem contas às suas contas. Dois relatórios recentes, publicados pelo Economic Policy Institute e pelo Institute for Policy Studies, fazem saber, respectivamente, que em 40 anos, as compensações dos CEOs aumentaram 940% e que em 50 gigantes empresariais, um trabalhador médio teria de trabalhar 1000 anos para ganhar o mesmo que os seus CEOs auferiram no ano de 2018
POR HELENA OLIVEIRA

Desde há dois anos que as empresas cotadas em bolsa nos Estados Unidos são obrigadas a cumprir um mandato federal que as obriga a divulgar o fosso remuneratório existente entre os seus CEOs e a compensação média dos seus empregados. E as revelações resultantes desta obrigatoriedade são inimagináveis. Apesar de serem muitos os americanos, e de todo o espectro político, a censurar vivamente as disparidades salariais existentes há já várias décadas, a verdade é que a esmagadora maioria subestima a dimensão que caracteriza este fosso. Para os analistas, este diferencial de remuneração é penalizador em várias frentes, sendo um dos grandes responsáveis pela desigualdade extrema que grassa nos Estados Unidos (e não só), minando a eficácia dos negócios e colocando em perigo a democracia e a economia alargada.

Nos últimos meses, dois relatórios divulgados por duas entidades credíveis – o Economic Policy Institute (EPI) e o Institute for Policy Studies (IPS) – deram a conhecer os resultados sobre a diferença das compensações entre CEOs e trabalhadores médios. Apesar de diferentes na forma (o primeiro foi publicado em Agosto último e o segundo esta semana), as conclusões que apresentam não só parecem absolutamente inacreditáveis, como fazem transparecer a desigualdade crescente em termos de rendimentos nos Estados Unidos. O VER dá conta das principais conclusões de ambos os relatórios.

EPI: entre 1978 e 2018, o aumento das compensações dos CEOs foi de 940%

As compensações dos CEOs das maiores 350 empresas dos Estados Unidos em 2018 foram, em média, de 17,2 milhões de dólares, de acordo com uma análise divulgada pelo Economic Policy Institute (EPI) em Agosto último. Entre 1978 e 2018, os pacotes salariais dos CEOs cresceram 940%, ao mesmo tempo que os auferidos pelos trabalhadores médios não foram além de 12% de aumento. O rácio de compensação “CEO-para-trabalhador” foi de 278 para 1 – um valor consideravelmente superior ao de 20 para 1 em 1965 e 4,8 vezes maior do que 58 para 1 vigente m 1989.

Os CEOs das maiores empresas nos Estados Unidos não só ganham mais hoje do que em meados dos anos de 1990 e muitas vezes mais do que auferiam nos anos de 1960 e 70. Adicionalmente, a diferença relativa aos salários dos trabalhadores “típicos” é muito mais acentuada, sendo que os seus pacotes remuneratórios cresceram também muito mais rapidamente. De acordo com o EPI, este crescimento gigantesco das remunerações dos executivos de topo destas empresas não reflecte um valor crescente das suas competências, mas antes o poder que têm nas mãos para estabelecerem o seu próprio pacote remuneratório. Sem esquecer que este poder crescente tem vindo a ser um motor para o aumento da desigualdade no país.

O trabalho desenvolvido pelo EPI faz parte de uma série contínua de relatórios realizados anualmente que monitorizam as tendências nas compensações dos CEOs. Neste relatório, são analisadas as tendências actuais para determinar quão longe se encontram as suas compensações comparativamente às dos empregados “normais”

(até 2018) e às dos trabalhadores que se posicionam no topo do 0,1% da população mais rica (até 2017). A relação entre as compensações dos CEOs e o mercado de valores é igualmente analisada.

Como afirma Lawrence Mishel, responsável pelo relatório, “enquanto a evolução dos salários da maioria dos americanos tem-se mantido estagnada, as remunerações dos CEOs continuam a crescer fortemente ao longo dos anos”. E, acrescenta, “este escalar das suas compensações tem contribuído para o crescimento dos rendimentos do um por cento do topo e a disseminar a desigualdade em todo o país”. O responsável defende também que se os CEOs ganhassem menos ou fossem alvo de uma maior carga de impostos, não existiria nenhum impacto adverso nem na economia nem no emprego.

Ao longo de várias décadas, os pacotes remuneratórios dos CEOs têm aumentado muito mais rapidamente do que os lucros das empresas, do que os pagamentos auferidos até pelos assalariados que se posicionam no 0,1 por cento mais rico (cerca de cinco vezes mais) e do que as remunerações ganhas pelos licenciados. E as compensações dos CEOs correspondem, em larga medida, mais ao desempenho global do mercado de valores do que propriamente à performance individual das empresas em causa. Mishel e a assistente de investigação do estudo, Julia Wolfe, argumentam que tal evidencia que estes executivos de topo ganham mais devido ao poder que conseguem imprimir nos conselhos de administração e não porque são mais produtivos, por terem talentos especiais ou por terem mais graus académicos. “O inflacionamento das remunerações dos CEOs não é um reflexo do mercado de talentos dos executivos”, garante Wolf.

IPS: Nas 50 empresas com maior disparidade salarial, um trabalhador médio teria de trabalhar 1000 anos para auferir o mesmo que um CEO num ano

Se regressarmos às décadas de 1960 e 1970, eram poucos os CEOs americanos que embolsavam cerca de 40 a 50 vezes mais do que os seus trabalhadores e analistas de negócios como o famoso “pai” da gestão, Peter Drucker, considerava esta diferença como alargada demais. Drucker defendia que o rácio CEO-empregado não devia ser superior a 20 para 1 (o qual vigorava, como o estudo acima referido da EPI afirma, na década de 60). E, de acordo com o Executive Excess 2019: Making Corporations Pay for Big Pay Gaps, o americano médio da actualidade gostaria que o fosso entre ambas as remunerações fosse bem mais pequeno. Como afirmam os responsáveis pelo estudo do IPS, Michael Norton, da Harvard Business School, e Bhavya Mohan, da Universidade de São Francisco, a sua pesquisa demonstra que os americanos acreditam que um rácio de 7 para 1 seria o ideal.

O contraste entre o sentimento público e a realidade das compensações dos CEOs na actualidade não podia ser maior. Nas 50 empresas cotadas em bolsa que apresentam as maiores disparidades salariais em 2018, um empregado médio teria de trabalhar pelo menos mil anos – sim, um milénio inteiro – para ganhar o mesmo que um CEO num ano.

O sector do retalho, de baixos rendimentos, é aquele que inclui o maior número de empresas com fossos salariais excepcionalmente alargados. São catorze as empresas auscultadas que apresentam um diferencial remuneratório de 1000 para 1. E o mesmo acontece em outros dois sectores de baixos salários, o da fast food e o do fabrico de vestuário, que colocam mais cinco empresas nesta lista. Claro que as disparidades salariais não afectam só as indústrias conhecidas por pagarem mal aos seus empregados. A lista integra igualmente cinco empresas de tecnologia, três fabricantes de peças de automóveis e 18 outras empresas não particularmente mal-afamadas por pagarem salários reduzidos.

De acordo com as novas regras da SEC, que obrigam à divulgação do rácio remuneratório, as empresas têm de incluir toda a sua força de trabalho no cálculo dos salários médios (embora nem todas o façam). Nas empresas com fossos salariais de 1000 para 1 e que identificaram a localização dos seus empregados médios, quase um terço – 31% – tem os seus empregados a trabalhar na China, no México e em outros países de baixos salários.

CEOs enriquecem desmesuradamente à custa da exploração dos empregados, diz relatório

Para além dos 1000 anos que um trabalhador médio teria de trabalhar para auferir o mesmo salário que um dos CEOs das 50 empresas que maiores fossos remuneratórios apresentam, o relatório do IPS sublinha ainda outros resultados.

Por exemplo, e nestas mesmas 50 empresas, o salário médio dos CEOs ascendeu aos 15,9 milhões em 2018 comparativamente a cerca de 10 mil dólares auferidos pelos seus trabalhadores. E em 49 das 500 maiores empresas cotadas em bolsa, o salário de um trabalhador médio fica abaixo da linha de pobreza dos Estados Unidos tendo em conta uma família de quatro elementos. Ou e por outras palavras, pelo menos 3,7 milhões dos 7,4 milhões de pessoas que trabalham nestas empresas estão a ganhar demasiado pouco para o trabalho que fazem para manter as suas famílias fora do contexto de pobreza. O salário médio dos CEOs destas 49 empresas foi de 12,3 milhões.

Entre as empresas que integram o S&P 500, cerca de 80% das mesmas pagaram aos seus CEOs cem vezes mais do que o que foi pago aos trabalhadores médios. E, ainda no S&P 500, é a cadeia retalhista GAP que detém o recorde de maior fosso salarial, com o seu CEO a auferir 3,566 vezes mais do que os empregados da famosa fabricante de roupa e acessórios.

O relatório fez também contas adicionais que conferem um quadro abrangente do que representam estes pacotes remuneratórios verdadeiramente gigantescos e o que aconteceria se estas mesmas empresas fossem obrigadas a pagar uma penalização adicional nos seus impostos, medida que está a ser crescentemente defendida por vários sectores da sociedade.

Os autores defendem que sanções fiscais para disparidades salariais extremas iriam encorajar as grandes empresas a estreitar este fosso, ou aumentando os salários dos seus trabalhadores ou diminuindo as compensações dos seus executivos de topo. Este tipo de reforma poderia impulsionar igualmente os negócios de menor dimensão e as cooperativas que partilham os seus recursos de uma forma muito mais equitativa do que a maioria dos gigantes empresariais. Mas a verdade é que ao contrário de terem sido aprovadas penalizações fiscais para os grandes salários, uma lei aprovada pelos republicanos em 2017 reduziu a tributação das empresas de 35% para 21%, com a promessa de que estas iriam investir este lucro inesperado nos trabalhadores e nas suas famílias. Ao invés, as empresas nos Estados Unidos anunciaram um valor recordista de um bilião de dólares em recompra de acções, uma manobra que, para os responsáveis do relatório serve apenas para enriquecer ainda mais os abastados accionistas e os executivos de topo.

Assim, e de regresso às contas, se as empresas que pagam 100 vezes mais aos seus CEOs comparativamente aos salários auferidos pelos seus trabalhadores tivessem de pagar um imposto extra, os gigantes empresariais que pertencem ao S&P 500 “deveriam” 17,2 mil milhões de dólares a mais em impostos federais no ano de 2018. Este rendimento adicional seria suficiente para financiar 232,228 empregos no sector das energias limpas; 212,839 posições de professores do 1º ciclo e as propinas de 488,470 estudantes.

Para as empresas que têm um fosso salarial na ordem dos 500 para 1, cinco por cento de aumento nos seus impostos poderia gerar receitas significativas o suficiente para ir ao encontro das necessidades básicas de milhões de americanos.

A Walmart, com uma disparidade salarial de 1076 para 1- e caso pagasse a mesma penalização – deveria 794 milhões de dólares em impostos, os quais poderiam ser aproveitados pelo governo federal para estender os benefícios das senhas alimentares a 520,997 pessoas durante um ano inteiro.

A Marathon Petroleum, com um gap de 714 para 1, teria de entregar aos cofres do estado cerca de 228 milhões de dólares, mais do que o suficiente para fornecer aquecimento nas casas de 126 mil habitantes de baixo rendimento no Minnesota.

A CVS, a cadeia farmacêutica com um rácio de 618 para 1, pagaria impostos adicionais suficientes para oferecer os benefícios do sistema de saúde Medicare a 33,977 seniores.

Ainda de acordo com o relatório do IPS, estas compensações desenfreadas dos CEOs coloca em perigo a democracia e a própria economia, na medida em que o nível ultrajante de compensações confere aos executivos um maior incentivo para correrem riscos. Os responsáveis pelo estudo recordam a “cultura do bónus” imprudente que vigorava em Wall Street e que em muito contribuiu para a crise de 2008. E, acrescentam, as práticas de compensações dos executivos de topo que reinam na actualidade também contribuem para a tomada de decisão de curto prazo que acabam por diminuir o investimento em salários, em formação e em investigação e desenvolvimento. Para os autores, a melhor evidência de que os salários escandalosos dos CEOs contribuem igualmente para minar a democracia reside no facto de mais de 80% dos 100 principais doadores políticos para as eleições intercalares de 2018 serem executivos de topo, uns já reformados e outros ainda no activo.


Ninguém brinca com a Mattel?

O gigantesco fabricante de brinquedos Mattel oferece agora uma extensa linha de “bonecas de carreira”, a qual inclui Barbies pilotos, bombeiras e engenheiras de robótica. Mas quem não está representado nesta linha de bonecas? A mulher típica que consta na folha de pagamentos da famosa empresa, que trabalha numa fábrica na Indonésia e que auferiu 5,489 dólares em 2018.

Por seu turno, o CEO da Mattel, Ynon Kreiz, levou para casa, no mesmo ano, a quantia de 18,7 milhões, uma compensação total 3,408 vezes superior à da trabalhadora indonésia. A empresa de brinquedos reporta ainda que 82% dos seus empregados trabalham fora dos Estados Unidos, em países onde os salários são dramaticamente baixos.

Uma investigação relativa às condições de trabalho em duas grandes fábricas que produzem os brinquedos da Mattel na China, e que ocorreu ao longo do período natalício de 2018, encontrou evidências substanciais que comprovam que os gestores das mesmas obrigam os seus trabalhadores a trabalharem muito mais horas do que o legalmente estabelecido, entre outras violações dos direitos laborais.