As imagens de esplanadas cheias de gente, de ruas novamente movimentadas ou de jardins apinhados de pais, crianças e jovens marcaram a semana em que o país inaugurou a segunda fase do segundo desconfinamento, numa espécie de novo respirar colectivo que saúda alguma da liberdade perdida. Todavia e em paralelo, são também muitas as pessoas que se recusam a abandonar aquele que foi o seu porto seguro ao longo do último ano ou que sentem uma enorme dificuldade em fazê-lo. O fenómeno, clinicamente conhecido como perturbação de ansiedade social, está em ascensão por causa da pandemia e poderá vir a ter efeitos perniciosos não só na saúde mental de muitos indivíduos, como na sua capacidade de se voltarem a readaptar ao que, até há um ano, era só a vida de todos os dias
POR HELENA OLIVEIRA

“Esplanar ou esplanadar”. Os verbos não existem no nosso léxico, mas têm sido profusamente conjugados ao longo desta semana. Com a Primavera a saudar a fase 2 do segundo desconfinamento e depois de 80 dias com grilhetas reforçadas no já habitual estado de isolamento, não deve ser muito arriscado afirmar que, no guia do que “podemos voltar a fazer”, ir a uma esplanada apanhar ar, beber um café ou uma cerveja e conversar com os (ainda poucos) amigos que há tanto tempo não vemos se encontra entre as principais prioridades e satisfações para muitos dos portugueses que saúdam esta reabertura de portas, mesmo que ainda a conta-gotas.

Apesar de ainda mergulhados em índices de transmissibilidade, no x que (para já) se mantém no verde, nos números aos quais já ninguém liga, na preocupação expressada pela Organização Mundial de Saúde face ao contínuo crescimento de casos na Europa, nos atrasos na vacinação e em todas as variantes – não só do vírus – desta história que tem sido a nossa realidade há mais de um ano, a vontade de sair à rua e voltar a ter permissão para os pequenos grandes prazeres que colocámos em pausa durante tanto tempo parece irredutível. Afinal, quem não quer meter o nariz fora de casa e, mesmo de máscara, inspirar esta aragem de liberdade?

Na verdade, nem todos o querem fazer ou se sentem à vontade e/ou com vontade para tal aventura. Dados provenientes de outros países que já passaram pela euforia do regresso à normalidade possível, mesmo sendo esta minimalista, demonstram que existe uma mistura de reacções e sentimentos no que respeita a voltar a socializar, a andar pelas ruas que já não se encontram vazias, a interagir com aqueles com quem se vão cruzando e, em muitos casos também, a regressar ao trabalho ou às escolas. De acordo com Amy Cirbus, Directora do Talkpace, um grupo online de saúde mental que conta actualmente com mais de um milhão de utilizadores provenientes de várias partes do mundo, “muitas pessoas sentem-se aliviadas e felizes por voltarem ao ‘quase-normal’, mas outras tantas estão a experimentar estados de ansiedade frequentes, pois sentem que não estão prontas para enfrentar esta reentrada”.

Depois de reportados os inúmeros males, psicológicos e físicos, decorrentes do estado de confinamento que fomos obrigados a cumprir, a verdade é que o “ficar em casa” foi, para muitas pessoas, motivo de conforto, segurança e até prazer e não vai ser fácil ou imediato voltar “lá para fora”. E esta internalização do isolamento é considerada por muitos psiquiatras e psicólogos como uma base de comportamento disfuncional, o qual poderá vir a ter efeitos perniciosos não só na saúde mental de muitos indivíduos, como na sua capacidade de se voltarem a readaptar ao que, até há um ano, era só a vida de todos os dias.

Como afirma ao The Guardian Emma Warnock-Parkes, psicóloga e investigadora do que é denominado como “perturbação de ansiedade social” (ou fobia social), “na medida em que todos nós estivemos socialmente privados ao longo do último ano, é normal que algumas pessoas se sintam desconfortáveis a voltar a abrir a janela da socialização, ainda para mais no meio de uma situação que se apresenta ainda longe de estar controlada e onde as próprias normas e rituais sociais sofreram transformações profundas”.

Por outro lado, e sendo a espécie humana, apesar de adaptável, muito dada a hábitos e a rotinas, se no início o ajustamento à pandemia e ao isolamento forçado foi extremamente difícil, a verdade é que quase toda a gente acabou por se acostumar a viver a sua vida dentro de quatro paredes e não é completamente descabido que surjam dificuldades de readaptação a uma velha mas simultaneamente nova realidade. Ou, e em suma, é normal a existência de alguma ansiedade neste regresso, em particular porque subsiste o medo do contágio, a par de algum receio em reaprender as normas da socialização, em particular porque também estas sofreram alterações. Ou seja, e embora ainda não seja este o caso, o ajustamento ao mundo pós-pandémico, mesmo que há muito o desejemos, poderá não ser livre de algum tipo de desconforto.

Por outro lado, está igualmente comprovado que longos períodos de isolamento aumentam a ansiedade ou fobia social, o que irá agravar o estado de quem já convivia com este transtorno psicológico, mas também passar a ser uma inevitabilidade para muitas pessoas que, entretanto, se habituaram a considerar as suas casas e o seu isolamento como o único porto seguro possível. E mesmo que há muito sonhemos com um mundo em que as reuniões com amigos e familiares voltem a ser possíveis, onde possamos voltar a ver os sorrisos dos que connosco interagem, onde as conversas não sejam abruptamente interrompidas porque a reunião do Zoom chegou ao fim, é tanto o tempo em que tudo isso nos foi negado que voltar a fazê-lo poderá transformar-se num factor de angústia e perturbação.

Sair da “bolha” não vai ser fácil nem igual para todos

Como afirma à USAToday Lynn Bufka, directora sénior na American Psychological Association (APA), “a Covid mudou definitivamente a nossa experiência, a nossa percepção do que é considerado normal e devemos esperar que haja um período de tempo em que a forma como respondemos ao mundo à nossa volta será diferente e durante o qual nos poderemos sentir potencialmente estranhos”. Na medida em que a pandemia nos forçou a uma experiência social maciça – nunca antes tínhamos sofrido este isolamento obrigatório e em tão grande escala – será que a mesma mudou fundamentalmente as nossas vidas sociais ou simplesmente as interrompeu? De acordo com o relatório “Stress in America 2021: Pandemic Stress One Year On”, quase metade dos inquiridos afirma sentir-se desconfortável quando pensa na interacção presencial com os seus pares na altura em que a pandemia der tréguas, sendo que este mal-estar provou-se idêntico tanto para os que ainda não receberam a vacina como para os que já foram inoculados, e com muitos dos respondentes a confessarem que “há um ano que desejo este regresso e agora que está perto não sei como vou lidar com ele”.

Vários especialistas, por seu turno, alertam para a existência de um período de ajustamento colectivo, com uma ampla variabilidade nas atitudes e comportamentos das pessoas nos meses que se irão seguir à reabertura progressiva da sociedade e, mais ainda, no período pós-pandémico. Todavia, e como refere Martin Antony, professor de psicologia na Universidade de Ryersonm em Toronto, e co-autor do livro “The Anti-Anxiety Program”, também é certo que o fenómeno vai afectar as pessoas de forma distinta, ou seja, “nem toda a gente irá padecer de ansiedade social, com algumas a sofrerem desta disfunção e outras a não terem qualquer tipo de problema”.

Como todos sabemos, a pandemia redefiniu quase por completo as interacções sociais tal como as conhecíamos, mantendo-nos à distância de todos aqueles com quem estávamos habituados a interagir. Deixámos de partilhar elevadores ou de fazer uma pausa no trabalho para tomarmos café com um colega, os apertos de mão foram proibidos, já para não falar nas nossas relações mais íntimas com familiares e amigos. Desta forma, e mesmo que estejamos no início da nossa reintegração social, não fazemos ideia de como a mesma irá decorrer e durante quanto tempo se irá manter. O fantasma de uma outra vaga pandémica ou da necessidade de darmos passos atrás continua a pairar e não existe ainda certeza alguma sobre coisa nenhuma no horizonte mais próximo.

Continua a ser muito difícil imaginar como será a nossa vida quando tudo isto terminar porque, e como sabemos, ainda estamos no meio deste “isto”. Assim, como iremos reagir, por exemplo, ao simples facto de estarmos no meio de uma multidão? Será que alguma vez voltaremos a sentir a mesma segurança e normalidade que tínhamos antes da pandemia? Ou, a um nível psicológico mais alargado, será que voltaremos a sentirmo-nos novamente confortáveis “lá fora” ou esse conforto não passará de uma mera recordação nostálgica de tempos que não voltam mais?

De acordo com Tamar Chansky, psicóloga e terapeuta especializada em ansiedade, e numa entrevista à Vox, é importante não esquecer o papel importante que o medo desempenhou e continua a desempenhar no fenómeno que vivemos e na medida em que estamos perante um ataque à nossa própria sobrevivência. E, a seu ver, vai ser necessário algum tempo até que consigamos renunciar a esse medo, “até que nos digam que é seguro fazê-lo, sendo que esta cautela é saudável”. Adicionalmente, “esse sinal de segurança não soará como uma trombeta, mas materializar-se-á através de um processo gradual. Assim, cada pessoa terá de fazer o seu próprio caminho nesta readaptação, sem esquecer também que, e por exemplo “alguém que perdeu um ente querido por causa da Covid terá provavelmente um processo diferente do que alguém que foi menos afectado por este acontecimento histórico e sem precedentes”.

Por outro lado, e na medida em que todos nós temos experimentado vários períodos de isolamento e solidão, não é de admirar que tenhamos ficado privados dos muitos benefícios que a socialização pode trazer. Vários estudos comprovam que o isolamento tornou as pessoas mais distraídas, mais lentas, mais cansadas, mais desconcentradas, sendo que estes distúrbios cognitivos podem afectar o nosso desempenho não só no trabalho como nas interacções sociais que temos fora dele.

Embora saibamos que os humanos são criaturas profundamente sociais, só agora é que os psicólogos começam a reconhecer a extrema importância da interacção social integral no que respeita a todos os aspectos do nosso bem-estar e capacidades e de que formas o isolamento poderão afectar a nossa saúde mental e aptidões.

Os especialistas são unânimes em afirmar que é natural sentirmo-nos ansiosos e com algum tipo de disfunção social após termos vivido um ano de pandemia global. Como afirma Leslie Adams, terapeuta no Northwestern Medicine Central DuPage Hospital, no Illinois, “lidar com longos períodos de isolamento pode aumentar a ansiedade social e mesmo aqueles que se consideram naturalmente mais extrovertidos poderão ter dificuldades em lidar com esta reentrada em território que passou a ser quase desconhecido”. Por outro lado, acrescenta, “a mensagem tem sido, ‘ficar longe das pessoas’, o que vai contra a nossa própria natureza, a qual está formatada para viver em comunidade”. Adicionalmente, e apesar de terem sido úteis em diferentes domínios, confiar principalmente em chamadas de vídeo para socializar também tem sido uma tensão. Como explica Adams, “perdemos formas subtis de comunicação no processo de ‘sobreviver’ à pandemia, tais como o contacto visual, os sinais faciais ou a linguagem corporal, que não são necessariamente ‘visíveis’ através de vídeo e das quais os humanos dependem para se ligarem uns com os outros”.

Assim, e como prenuncia Leslie Adams, “estar fora da nossa bolha poderá ser uma experiência esmagadora na medida em que representa uma mudança drástica” e iremos estar particularmente atentos – e ansiosos – a todas as subtilezas que não vemos nem ouvimos nas videochamadas que passaram a fazer parte do nosso quotidiano e da única forma que encontrámos para continuar a socializar. Ou seja, e como explica a terapeuta, “vamos sentir que estamos em esforço, a lutar, pois todos os nossos sentidos estarão em alerta máximo”.

Como enfrentar o que está lá fora?

Existem algumas formas simples que podem ajudar nesta “transição” para um período de maior normalização. As dicas foram publicadas no The Guardian e adaptadas para este artigo.

Interiorizar que sentir alguma ansiedade é normal

Faz parte do que é ser humano, afirma Emma Warnock-Parkes, psicóloga clínica e investigadora na área das perturbações de ansiedade social na Universidade de Oxford. Ao termos sido privados, ao longo de um ano, das formas “normais” de socialização, é comum sentirmo-nos estranhos, reticentes ou confusos em voltar a fazê-lo. Além disso, existem também novas normas sociais – ou a extinção das antigas – que podem contribuir para um certo mal-estar. Seja a utilização obrigatória de máscaras, seja a “proibição” de um aperto de mão ou de um abraço, estamos também perante uma reaprendizagem que, para muitos, poderá ser custosa e “anti-natural”. Assim, sendo compreensível existir algum tipo de ansiedade, há que dar tempo e espaço para a readaptação sem nos sentirmos culpados por isso.

Ter a noção que não podemos perder as nossas competências sociais

“Adquirimos a maior parte das nossas competências sociais entre os zero e os sete anos”, afirma a psicóloga clínica Linda Blair, acrescentando que, por vezes, estas são “difíceis de recuperar, tendo para isso que escavar mais fundo pois elas estão lá”. Para a psicóloga clínica e em algumas situações, poderá ser necessário um “lembrete” do que é socialmente aceitável, sem esquecer, contudo, que as nossas capacidades fundamentais não terão sofrido um enfraquecimento irremediável. Importante é também recordarmo-nos de que as alterações às restrições serão graduais e que não precisamos de nos preparar para “algo que se pareça com um tsunami”.

Não evitar situações sociais

Pode parecer a opção mais fácil, mas não vai ajudar a longo prazo. “Evitar ajuda a encubar a ansiedade”, diz Emma Warnock-Parkes, e pode igualmente dar origem a consequências negativas, tais como a perda de oportunidades de emprego ou de amizades. “O mundo encolheu à nossa volta e é confortável, mas não é bom para nós”, afirma ainda Nadia Finer, coach e fundadora da Shy and Mighty Society. “Quando se é tímido é preciso, para avançar e experimentar plenamente a vida, praticar a bravura”. E a situação em que vivemos pode realmente despertar esta “timidez”.

Saber aliviar a pressão

“As pessoas que se sentem mais socialmente ansiosas tendem a sê-lo porque exercem muita pressão sobre si próprias e, provavelmente, será esse o caso à medida que se for registando uma maior abertura para o que está lá fora”, diz Warnock-Parkes. A psicóloga de Oxford afirma também que é importante ter em mente que as interacções sociais não são um “desempenho”, mas simplesmente o acto de estar com outras pessoas. “Um dos receios mais comuns das pessoas é o de sentirem que as suas vidas devem ser interessantes para os outros”, diz. Mas a verdade é que a maioria de nós teve uma existência bastante enfadonha ao longo do último ano. “Partilhar simplesmente o quão aborrecido se tem sentido no confinamento é provavelmente suficiente, porque essa é também a experiência partilhada por outras pessoas”, acrescenta. O mesmo acontece com as expectativas elevadas que tendemos a ter relativamente a nós mesmos: seja a pressão para se ter sempre algo espirituoso ou construtivo para dizer e não se conseguir, ou ter medo de tropeçar nas palavras, são caminhos que conduzem facilmente a estados de ansiedade. E, neste momento, cumprir padrões elevados de “saber estar” não faz sentido. Há que dar tempo ao tempo.

Pensar que, e mais uma vez, estamos juntos no mesmo barco

Warnock-Parkes lembra-nos que “as interacções sociais são uma via de dois sentidos”. Ou seja, as outras pessoas que interagem socialmente connosco não estão à espera que sejamos interessantes, eloquentes ou divertidos. É preciso interiorizar que interagir socialmente é, simplesmente, estar junto com outras pessoas. Não vale a pena auto-analisarmo-nos demasiado ou pensarmos de antemão no que vamos dizer ou quais os tópicos de conversa que deverão ser trazidos para a conversa. Pelo contrário, este comportamento acaba por ser contraproducente, tornando-nos mais egocêntricos e mais ansiosos. Há que deixar a conversa fluir, naturalmente.

Afinal, sempre foi assim que aconteceu e é assim que voltará a acontecer.

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