Até pode ser que Portugal esteja a passar por uma crise, mas uma coisa é certa: a crise pode ser financeira e económica, não tem é que ser de valores. Aí temos potencial para dar cartas e, também neste campo, ganhar o jogo
POR SÉRGIO PEREIRA

A civilização ocidental foi erigida sob noções de ética. Desde a Grécia Antiga, quando Aristóteles escreveu “Ética a Nicómaco”, passando pela obra “Ética” de Espinoza que este tema está presente no ideário civilizacional.

Contudo, ultimamente parece que a noção de ética tem perdido força, sobretudo nos meandros da cultura popular… Neste sentido, surge uma das citações que, na altura, mais fizeram correr “tinta” na secção dos “fait-divers” da imprensa nacional. Teresa Guilherme, na altura apresentadora do Big Brother, disse-o com todas as letras: “Quem tem ética passa fome”. A apresentadora não será, que eu saiba, uma entendida em Direito, Economia ou Filosofia. Mas toca num ponto importante: será que vivemos numa sociedade em que a ética está relegada para segundo plano?

E se sim, o que podemos fazer? Há um papel a desempenhar pelas empresas, e sobretudo pela Banca, na mudança de paradigma? Estou plenamente convicto que sim.

Estou longe de achar que as empresas se devem deixar de reger pelo lucro. Não cedo a populismos que dizem que o lucro é vil e que a Banca se devia reger pelos trâmites da Idade Média em que lucrar com empréstimos era visto como agiotagem e, assim sendo, pecado. Num Estado de Direito, com regras bem definidas, quem lucra dentro da lei não comete nenhuma transgressão. Presta um serviço e é, por isso mesmo, recompensado. E, quanto mais lucra, mais tal significa que o serviço prestado é desejado e apreciado. Relativamente a isso, nada contra. Tudo decorre com natural legitimidade.

[quote_center]Nas “B Corporations” as obrigações fiduciárias para com os accionistas vão para além de garantir lucro[/quote_center]

Agora, enquanto sociedade, podemo-nos questionar: haverá lugar para negócios que não visem apenas o lucro, mas que tenham como intuito a sustentabilidade, nomeadamente na área ambiental e ecológica? Na minha opinião, sim. E tal não precisa de ser feito através do Estado, mas pode surgir organicamente dos arranjos da iniciativa privada. E isto não é uma utopia. Na verdade, é algo que até já tem dado cartas lá fora.

Um exemplo a dar é o da Banca ética. O objectivo? Financiar pequenos empreendedores, com projectos que incentivem a economia social e sustentável, que não consigam fundos através da Banca tradicional, uma vez que as suas perspectivas não são consideradas suficientemente lucrativas. E de onde surge o financiamento? Na Croácia mais de 400 cooperativas estão a juntar capital para financiar estes empreendimentos. Formam o que podemos chamar de “Banco Ético”.

Já dos Estados Unidos surge o caso das “Benefit Corporations”. São empresas que possuem certos benefícios jurídicos por salvaguardarem interesses éticos, ao invés de se focarem somente nos lucros. A ideia surgiu em 2010, no Estado norte-americano do Maryland e já há 30 Estados (mais o Distrito de Colúmbia) que aplicam legislação que reconhece este tipo de empresas.

E o que as diferencia das empresas ditas “tradicionais”? Nas “B Corporations” como são conhecidas, as obrigações fiduciárias para com os accionistas vão para além de garantir lucro. É preciso garantir que a empresa cumpra alguns standards ambientais e sociais, além de ter que considerar os efeitos das suas decisões nos funcionários, clientes e comunidade envolvente.

E porque é que os investidores se devem sentir atraídos por estas empresas? Em primeiro lugar, porque, segundo a conclusão de uma análise a 200 estudos académicos, “88% das fontes revistas concluíram que empresas com práticas de sustentabilidade robustas demonstram uma melhor performance operativa” o que “ultimamente se traduz em cash flow”. Além disso, e com os millennials a fazerem cada vez mais parte da força de trabalho e consumo, ter empresas com uma missão sustentável pode atrair este segmento populacional que se preocupa com estas questões.

As opções existem e já vão sendo experimentadas em vários pontos do mundo. E porque não em Portugal? Acabo este texto levantando as seguintes questões: Falta vontade empresarial? Falta iniciativa dos legisladores? Não existe uma vaga de fundo social que se preocupe com estas questões?

Recuso-me a acreditar que tal seja verdade e a crer que um país com tanto espírito de iniciativa não encontre um modo de aplicar este conceito à economia nacional. Até pode ser que Portugal esteja a passar por uma crise, mas uma coisa é certa: a crise pode ser financeira e económica, não tem é que ser de valores. Aí temos potencial para dar cartas e, também neste campo, ganhar o jogo.

Sergio Pereira

Director-geral e fundador do ComparaJá.pt