Assinalou-se, a 12 de Março último, 30 anos passados sobre a entrega do documento em que Tim Berners-Lee propunha um sistema de gestão de informação “interligado” e “universal” ao seu supervisor do CERN. Nascia a web e com ela a promessa da criação de oportunidades inimagináveis até então. Hoje, muitas dessas promessas foram cumpridas, mas um número considerável de ameaças paira sobre todos aqueles que a ela acedem constantemente. Adicionalmente, a web que devia ser para todos, não o é. Falta de controlo sobre os dados pessoais, proliferação de discursos de ódio, monopólio dos “grandes”, assédio, promoção das desigualdades, entre outros problemas complexos, estão na lista da web que não queremos ter. Mas todos podemos ajudar para que os seus desígnios sejam fielmente cumpridos
POR
HELENA OLIVEIRA

“A web transformou-se numa praça, numa biblioteca, num consultório médico, numa loja, numa escola, num estúdio de design, num escritório, num cinema, num banco e em tantas outras coisas. Mas, e por cada nova funcionalidade, por cada novo website, a divisão entre aqueles que estão online e os que não estão aumenta, tornando imperativo que a web esteja acessível a todos.

(…) E enquanto criou oportunidades, dando voz a grupos marginalizados, tornando as nossas vidas mais fáceis, criou igualmente a oportunidade para a existência de burlões, dando voz aos que espalham o ódio e tornando todos os tipos de crime mais fáceis de cometer”

Sir Tim Berners-Lee, 12 de Março de 2019

Assinalou-se, na passada terça-feira, 12 de Março, 30 anos passados sobre a entrega do documento em que Tim Berners-Lee propunha um sistema de gestão de informação “interligado” e “universal” ao seu supervisor. Estávamos em 1989 e, na qualidade de jovem cientista do CERN, Sir Tim – como agora é chamado – tinha a perfeita noção de que existia informação valiosa “enclausurada” no interior das instituições, reconhecendo que a incapacidade de partilhar esta mesma informação estava a enfraquecer o seu valor.

E foi em reacção a esta situação que acabaria por criar a World Wide Web, uma plataforma aberta para partilhar e trocar informação, acessível a qualquer um que tivesse um computador e uma ligação à internet. Um ano mais tarde, em 1990, existia um website. Hoje, são quase dois mil milhões, um para cada quatro pessoas no mundo. No próprio dia do 30º aniversário, Sir Tim publicou uma carta aberta, através da sua Web Foundation – criada em 2009 com o objectivo de promover o desenvolvimento da rede e o acesso à Internet em todo o mundo -, na qual reflecte sobre as gigantescas alterações sofridas pela web e sobre a forma como esta alterou completamente as nossas vidas, mas reiterando também a sua preocupação face às suas falhas e sublinhando a necessidade de termos todos – governos, empresas e cidadãos – de construir uma “web melhor que sirva toda a humanidade”.

[pull_quote_left]Mais de metade da população mundial não está ainda ligada à Internet[/pull_quote_left]

Em Novembro último, e na Web Summit que teve lugar em Lisboa, Sir Tim lançaria igualmente um conjunto de nove princípios que fazem parte do apelidado Contrato para a Web (v.Caixa), o qual funcionará, até Maio de este ano, como um convite à participação de todos para debater e “consertar” a web da actualidade.

Lançado em conjunto com a campanha #ForTheWeb foi também o relatório intitulado The Case for the Webo qual reflecte sobre o que a mesma permitiu à humanidade atingir ao longo dos últimos 30 anos, analisa as principais tendências que ameaçam o seu futuro e sublinha acções que devem obrigatoriamente ser postas em curso para assegurar que esta permaneça de acesso livre e disponível para toda a gente.

E é sobre este relatório que escrevemos esta semana.

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Celebrações, preocupações e os infoexcluídos

Não podem existir dúvidas de que web alterou por completo as nossas vidas, ao mesmo tempo que alterou o curso da História. A web conferiu poder às pessoas para denunciar a corrupção e chamar a atenção sobre ela, para derrubar ditadores, para fazer ouvir a voz dos mais fracos e para dizer a verdade a quem detém o poder. “Permitiu a Prisca fazer o exame de que precisava para entrar na universidade de medicina na Nigéria, foi graças a ela que a comunidade Vinodha na Índia conseguiu subsídios para a habitação e deu poder a Stephen, no Reino Unido, para limpar o seu nome de um crime que não tinha cometido”, exemplifica ainda o relatório. Para além disso, mudou drasticamente a maneira como comunicamos uns com os outros, abrindo novos mundos e novas formas de pensamento e até alterou a forma, para muitos, de procurar e encontrar o amor. E como escreveu Sir Tim num tweet que se tornou famoso nos Jogos Olímpicos de 2012, “isto é para todos”.

[pull_quote_left]A maioria dos que se encontram offline vive em países de baixo e médio rendimento, sendo que a percentagem de europeus online ascende agora aos 80%, o que se traduz em quase quatro vezes mais face aos africanos (22%)[/pull_quote_left]

A verdade é que a web não é para todos, sublinha o relatório, com mais de metade da população mundial a não estar ainda ligada à Internet (estima-se que o patamar 50/50 seja atingido em Maio deste ano), sendo que a esmagadora maioria dos excluídos pertence a países de rendimentos baixos e médios, com as mulheres a representarem o maior grupo de exclusão.

O crescimento dos utilizadores de Internet ao longo destas três décadas não foi, de todo, despiciendo. Em 2005, menos de 16% da população global estava online e a internet era predominantemente “ocidentalizada” – com cerca de 50% de utilizadores europeus online comparativamente a apenas 2% dos africanos. Assim, e tendo em conta que actualmente cerca de 50% da população se encontra ligada, não é possível esquecer que a divisão digital está intimamente relacionada com questões geográficas, de rendimento e de género. A maioria dos quase quatro mil milhões de pessoas que ainda não têm ligação à Internet são mulheres – com as pesquisas a apontarem para que estas, residentes nas zonas urbanas pobres, tenham 50% a menos de probabilidades de ficarem online face aos homens das mesmas comunidades. A maioria dos que se encontram offline vive em países de baixo e médio rendimento, sendo que a percentagem de europeus online ascende agora aos 80%, o que se traduz em quase quatro vezes mais face aos africanos (22%).

[pull_quote_right]As decisões online com consequências sérias para a vida de todos nós estão a ser tomadas, de forma crescente, por algoritmos e máquinas que estão a replicar os preconceitos do mundo real e a reforçar as desigualdades[/pull_quote_right]

É preciso não esquecer, sobretudo, que estar offline na actualidade significa uma marginalização com consequências graves, seja a perda de oportunidades económicas, a ausência de participação em debates públicos globais, em trocas culturais e sociais, no acesso a serviços governamentais básicos e ao empowerment democrático. E à medida que as nossas vidas se tornam crescentemente digitais, estas populações excluídas continuam a ser empurradas para as margens da sociedade, consolidando-se as desigualdades existentes e aniquilando as oportunidades de um desenvolvimento global sustentável.

Adicionalmente, e segundo o relatório, apesar do número de pessoas online continuar a crescer em todo mundo, o ritmo dessa “entrada” está a abrandar, com os dados a demonstrarem que entre 2005 e 2014 os novos utilizadores estavam a crescer em 12% anualmente, sendo que essa percentagem declinou para os 6,5% entre 2015 e 2017. Uma das principais razões para este declínio é, e como não poderia deixar de ser, os custos elevados subjacentes à entrada no mundo online, identificados como uma das grandes barreiras que ainda não consegue ser ultrapassada pelos mais pobres e, sobretudo, pelas mulheres, na medida em que na maioria dos casos ganham menos do que os seus pares masculinos.

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A inevitável quebra da confiança

Todos sabemos que os milhares de milhões de pessoas que acedem à web o fazem através de uma mão mal cheia de empresas gigantescas e com uma posição muito próxima do monopólio. Mais de 90% das pesquisas online são feitas através da Google, o que confere à empresa um poder astronómico sobre o que as pessoas vêem quando fazem as suas buscas; por seu turno, mais de metade dos serviços de computação em nuvem é da responsabilidade da Amazon; o Facebook gaba-se de ter 2,2 mil milhões de utilizadores activos por mês, em conjunto com 1,5 mil milhões a utilizar o WhatsApp.

[pull_quote_left]Ferramentas automatizadas utilizadas para o recrutamento estão a usar algoritmos que favorecem candidatos masculinos e brancos, ao mesmo tempo que os anúncios que apresentam empréstimos com taxas de juro abusivas estão a ser predominantemente mostrados a pessoas com baixos rendimentos[/pull_quote_left]

Por outro lado, as decisões online com consequências sérias para a vida de todos nós estão a ser tomadas, de forma crescente, por algoritmos e máquinas que estão a replicar os preconceitos do mundo real e a reforçar as desigualdades. Por exemplo, foi recentemente revelado que algumas ferramentas automatizadas utilizadas para o recrutamento estão a usar algoritmos que favorecem candidatos masculinos e brancos, ao mesmo tempo que os anúncios que apresentam empréstimos com taxas de juro abusivas estão a ser predominantemente mostrados a pessoas com baixos rendimentos. Para além do mais, identificar e consertar estas questões torna-se crescentemente difícil na medida em que o código que lhes está subjacente não está aberto ao escrutínio público.

Um outro problema prende-se, e como todos já tivemos a oportunidade de perceber, com a protecção – ou mais precisamente com a sua falta – dos nossos dados pessoais que circulam na internet por caminhos muitas vezes inimagináveis. O relatório em causa cita um estudo realizado pelo Pew Research Center o qual acusa um declínio na proporção de pessoas que, nos Estados Unidos, acreditam que a Internet tem sido “principalmente uma coisa boa para a sociedade”, comparativamente há quatro anos e, no Reino Unido, oito em cada dez pessoas revelam uma preocupação crescente em estar online. Assim, reconstruir uma atitude de confiança face à web exige que os seus utilizadores não sintam medo em ser prejudicados, que saibam que estão a ser protegidos de potenciais riscos e que estejam resguardados de indivíduos e instituições que utilizem os seus dados sem permissão para ir ao encontro de interesses ou motivos indesejáveis.

[pull_quote_right]Basta passar algum tempo nas redes sociais ou a ler comentários em artigos e blogs, e ficamos a saber que o discurso de ódio continua bem vivo, desenfreado e que é particularmente dedicado às mulheres, aos jovens e às minorias étnicas[/pull_quote_right]

O relatório da Web Foundation estima que, diariamente, sejam produzidos cerca de 2 mil milhões de GB de informação por dia, sendo que a sua maioria é proveniente das interacções dos utilizadores na web. Estejamos a fazer uma pesquisa ou a escrever um email, a fazer compras online ou a utilizar as redes sociais, a verdade é que todos nós deixamos um “rasto de migalhas”, traduzidos em dados, pelo caminho. E, como também é do conhecimento público, muitas empresas online cresceram através de modelos de negócio assentes na capacidade de “varrer” estas migalhas de dados para as usar com propósitos publicitários. E, como resultado, as grandes empresas recolhem e armazenam uma quantidade extraordinária dos nossos dados pessoais, incluindo informações sobre a nossa localização, os nossos padrões comportamentais, as nossas preferências sociais, as nossas escolhas políticas, entre muitas outras.

Apesar de muitas pessoas terem já conhecimento de que os seus dados são recolhidos à medida que usam a web, na maioria das vezes não sabem exactamente que tipo de informação é recolhida e qual a extensão desta recolha, o que é particularmente preocupante face ao número crescente de violações de dados existentes. Apesar da entrada em vigor do Regulamento Geral da Protecção de Dados na Europa ser considerada como um bom passo em frente, são ainda muitos os países que não têm qualquer política – ou as que têm não são significativas – para que os internautas se sintam descansados face ao destino das suas informações pessoais.

Adicionalmente, as quantidades astronómicas de dados que produzimos através das nossas interacções online são recolhidas e processadas com o objectivo de “aprenderem” mais sobre nós mesmos e, em troca, optimizarem os serviços com os quais interagimos na web. E para ordenar/classificar esta quantidade massiva de dados, as empresas e os governos estão a confiar cada vez mais em processos automatizados, os quais são “conduzidos” por algoritmos que podem, por exemplo, ajudar a classificar o conteúdo em causa, a etiquetar e classificar fotografias e a adequar os anúncios que vemos de acordo com os nossos interesses ou preferências. E, enquanto estamos online, interagimos com estes algoritmos e processos automatizados de uma forma regular, os quais priorizam os resultados que encontramos quando procuramos por algo específico online, organizam as notícias que vemos no Twitter ou no Facebook e as fotos que são visualizadas no Instagram.

[pull_quote_left]Criar condições para uma diversidade de culturas e línguas que possam crescer online irá ajudar a preservar ideias, pensamentos, perspectivas e linguagens que, de outra forma, poderão desaparecer para sempre[/pull_quote_left]

Se é verdade que o crescimento destes processos baseados em algoritmos pode ter uma grande utilidade, com esta automação a ter o poder de produzir mudanças positivas enormes ao aumentarem a relevância e a eficiência de produtos e serviços, não nos podemos esquecer que o seu desenho defeituoso ou fraudulento pode resultar na utilização de processos automatizados que acabam por prejudicar segmentos populacionais que, supostamente, deviam ajudar. E estes sistemas automatizados alimentados por dados de “má qualidade” ou por algoritmos tendenciosos e preconceituosos têm contribuído para inúmeras situações verdadeiramente prejudiciais. Os exemplos são muitos, mas o relatório da Web Foundation cita o facto de, em muitos casos, as mulheres não serem contempladas em anúncios de trabalho pagos acima da média ou ocasiões em que informações digitais importantes são “varridas” da web devido a ferramentas concebidas, supostamente, para eliminar conteúdos ofensivos.

Estes erros só contribuem para reforçar os preconceitos e a discriminação, para aumentar as desigualdades e para fazer da web um local cada vez menos “bem-vindo”.

Por outro lado, o assédio e os abusos online permanecem como um problema crescentemente sério. Basta passar algum tempo nas redes sociais ou a ler comentários em artigos e blogs, e ficamos a saber que o discurso de ódio continua bem vivo, desenfreado e que é particularmente dedicado às mulheres, aos jovens (com o bullying a ganhar pontos) e às minorias étnicas.

Uma pesquisa realizada pela Amnistia Internacional demonstra que uma em cada cinco mulheres já foi vítima de assédio ou abuso online. Mais de 40% das mulheres inquiridas expressaram preocupações face à sua segurança física depois de terem sido alvo deste tipo de abuso e 30% reportaram que o mesmo era de natureza sexual ou física. Por seu turno, os jovens são igualmente vítimas de altas taxas de abuso online. Pesquisas realizadas em quatro países de elevado rendimento comprovaram que pelo menos um quarto dos adolescentes sofreu assédio online, o qual afecta desproporcionalmente jovens do sexo feminino e imigrantes. Percentagens ainda mais elevadas foram encontradas em países como a Tailândia (49%), Israel (82%) e Indonésia (80%). Pesquisa feita pela própria Web Foundation revelou também que muitos adolescentes em países de baixos e médios rendimentos se sentem impotentes em protegerem-se a si mesmos destes riscos online. E, em particular nos últimos anos, testemunhámos também a emergência da materialização do discurso de ódio online em ofensas físicas offline, particularmente no que respeita às minorias étnicas, que crescentemente se tornam vítimas de violência física na vida “cá fora” devido a informação falsa disseminada online.

Tão ou mais preocupante é o número crescente de países, incluindo os Estados Unidos, a China, o Reino Unido, a Coreia do Norte, a Turquia, o México, entre outros, que estão a utilizar a web para vigiar os seus cidadãos, seja “em nome da segurança nacional”, seja quanto esforços intencionais para identificar e fazer calar vozes “dissonantes”.

Complementarmente, a capacidade da web para chegar a milhares de milhões de pessoas de forma instantânea acabou por resultar na sua utilização por parte dos governos para manipular a opinião pública. Um estudo publicado pelo Oxford Internet Institute demonstrou que pelo menos 28 países já usaram bots nas redes sociais, aplicações online e pessoas contratadas para moldar a opinião pública a seu favor, sendo que vários serviços secretos e grupos locais orquestraram igualmente esforços específicos para disseminarem desinformação para influenciar processos democráticos em países vários, incluindo o Reino Unido e os Estados Unido.

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Diversidade e a neutralidade da Internet

É algo que, muito provavelmente, não nos preenche o pensamento, mas a verdade é que a web é desproporcionalmente “enviesada” para aqueles que falam inglês e para as populações do mundo ocidental. Mais de metade (54%) dos 10 milhões de websites mais acedidos em toda a web são em inglês, apesar de a maioria dos cidadãos do planeta (75%) não dominar a língua inglesa. Apesar de o panorama ter melhorado e de ter existido um aumento de conteúdos produzidos noutras línguas, este é muito lento, para além de quase não contemplar línguas não indo-europeias.

[pull_quote_right]O problema é que uma ausência de neutralidade, ou o facto de esta ser “fraca” ou “limitada”, está a criar um espaço digital “pay-to-play”, no qual aos que podem pagar um “extra” às operadoras que controlam o tráfego online é conferida prioridade e uma vantagem desleal[/pull_quote_right]

Uma questão distinta, apesar de relacionada com esta última, que mantém muita gente offline é também a ausência de conteúdos relevantes para diversas populações, incluindo para pessoas com incapacidades e para as populações indígenas. De acordo com a Web Foundation, as razões para este problema são muitas: os utilizadores são tradicionalmente consumidores de conteúdos e não produtores dos mesmos, e muitos deles não têm as competências para os produzir e partilhar, nem capacidade financeira para aceder à web ou com este mesmo acesso a depender de ligações instáveis e intermitentes.

De acordo com o relatório, não existir espaço para estes grupos marginalizados é arriscar perder culturas únicas e singulares e formas diferentes de ver o mundo. Criar condições para uma diversidade de culturas e línguas que possam crescer online irá ajudar a preservar ideias, pensamentos, perspectivas e linguagens que, de outra forma, poderão desaparecer para sempre.  O relatório cita ainda estimativas que apontam para que o fracasso no desenvolvimento e protecção da diversidade online poderá contribuir para a extinção digital de mais de 95% de línguas minoritárias.

Paralelamente à questão da diversidade, está o tema da neutralidade da Internet que, para a Web Foundation, constitui o ponto central dos fundamentos da web e do seu subsequente sucesso e popularidade. A neutralidade da Internet é um princípio segundo o qual o tráfego de Internet não pode ser discriminado em função da sua origem/tipo. Ou seja, os prestadores de serviços de acesso à Internet não podem tornar uma ligação web mais lenta ou bloqueá-la em função do tipo de conteúdo, aplicação ou serviço que o cliente está a usar ou a gerar. É o princípio da Internet aberta. E esta neutralidade é crucial para o futuro da web enquanto uma plataforma aberta para a criatividade e onde toda a gente tem a oportunidade para partilhar as suas ideias. O problema é que uma ausência de neutralidade, ou o facto de esta ser “fraca” ou “limitada”, está a criar um espaço digital “pay-to-play”, no qual aos que podem pagar um “extra” às operadoras que controlam o tráfego online é conferida prioridade e uma vantagem desleal. Esta situação diminui o poder do consumidor na sua escolha de produtos e serviços e ameaça limitar a liberdade de expressão, a concorrência e a inovação.

Infelizmente, e como acusa o relatório, a neutralidade da Internet está em risco, estimando-se que 1,2 mil milhões de utilizadores vivam em países onde a mesma não é protegida. A título de exemplo, os Estados Unidos rejeitaram um conjunto de regras que estavam em curso para assegurar uma aplicação adequada desta protecção, colocando os pequenos negócios, as empresas que estão a tentar entrar no mercado e os consumidores à mercê de empresas com um “historial mais longo e os bolsos mais cheios”.

Adicionalmente, apesar da web ter sido criada para ser uma plataforma descentralizada para a qual qualquer pessoa pudesse contribuir e que nenhum criador singular deveria ter vantagem sobre os demais, a verdade é que a sua actividade tem vindo a ser dominada por um número cada vez mais pequeno de empresas poderosas com uma influência astronómica sobre aquilo que vemos – e sobre o que não vemos. O crescente desequilíbrio entre os indivíduos e esses actores possantes ameaça limitar e enfraquecer o poder de uma web livre e aberta. Estima-se que, na actualidade, um restrito grupo de empresas tem influência sobre mais de 70% do tráfego online, o que significa que muitos de nós só tem acesso ao que é distribuído online através das grandes plataformas. Estas empresas estão, de forma crescente, a ter o poder necessário para agirem como intermediários de informação, determinando que tipo de conteúdos devem ter prioridade e quais os que devem aparecer no topo dos resultados de pesquisa ou nos feeds dos media sociais.


Subscrever os nove princípios do Contrato para a Web

A web foi desenhada para unir as pessoas e para tornar o conhecimento gratuitamente disponível para todos. E todos temos um papel a desempenhar para assegurar que a mesma continua a servir estes propósitos. Ao se comprometerem com os princípios que se seguem, governos, empresas e cidadãos em todo o mundo poderão ajudar a proteger a web aberta enquanto um bem público e um direito básico para todos

GOVERNOS

  • Garantir o acesso à Internet para todos, para que qualquer pessoa, independentemente de quem seja ou onde viva, possa participar activamente online;
  • Manter a Internet permanentemente disponível, para que o direito ao acesso total à internet não seja negado a ninguém;
  • Respeitar a privacidade enquanto direito fundamental, para que todas as pessoas possam usar a internet livremente, com segurança e sem medo.

EMPRESAS

  • Permitir que a Internet seja financeiramente viável e acessível para todos, para que ninguém seja excluído de usar e moldar a web;
  • Respeitar a privacidade e os dados pessoais dos consumidores, para que as pessoas tenham controlo sobre as suas vidas online;
  • Desenvolver tecnologias que estimulem o que de melhor há na humanidade e que contestem o que nela há de pior, para que a web seja, verdadeiramente, um bem público que coloca as pessoas em primeiro lugar.

CIDADÃOS

  • Serem criadores e colaboradores da web, para que esta tenha conteúdos diversificados e relevantes para todos;
  • Desenvolver comunidades fortes que respeitem o discurso público e a dignidade humana, para que todos se sintam seguros e bem-vindos online.
  • Lutar pela web, para quepermaneça aberta e se mantenha como um recurso público global para pessoas de todos os lugares, agora e no futuro.

Se concorda, a nível individual e/ou empresarial, em subscrever estes princípios, faça-o aqui.


Helena Oliveira

Editora Executiva