É um facto inegável que a pandemia do Covid-19 atirou para o desemprego milhões de pessoas em todo o mundo. Sabemos que há negócios que nunca recuperarão e não percebemos como vamos sobreviver a meses de confinamento. Há milhões de pessoas a precisarem de algum tipo de apoio. Mas o que fazer quando as organizações, que dão suporte às pessoas que estão em vulnerabilidade, colapsarem também?
POR CLÁUDIA PEDRA

Num recente webinar sobre a resposta da filantropia à crise pandémica, promovido pela Stanford, uma financiadora disse que era inquestionável que uma das primeiras ações a fazer era manter o financiamento às organizações que apoiam os mais vulneráveis da sua comunidade. Na sua mente, essa ação decorria do facto de saber que quanto mais pessoas vulneráveis há, mais necessidade há de organizações que os apoiam. Mas será assim uma verdade tão absoluta? Será que todos os financiadores pensam assim? E será que essas organizações aguentarão o impacto da crise, se o dinheiro que as financia for desviado para respostas urgentes no âmbito da saúde?

A resposta mais simples é não. Muitas organizações sociais não têm reservas financeiras que permitam aguentar o impacto de um evento catastrófico. Isso quer dizer que meses de financiamento reduzido atirarão para o desemprego muitas pessoas e ditarão o fim de algumas organizações. Chegaríamos a um ciclo insustentável de pessoas sem suporte, a precisarem de um apoio inexistente, com uma sociedade civil colapsada. Os Estados não serão a solução, pois estarão assoberbados, a desenhar respostas que mantenham a pandemia controlada, a dar suporte ao sistema de saúde, e a lutar por uma vacina que consiga fazer a normalidade regressar.

É por isso urgente que os grandes financiadores privados mundiais não esqueçam as organizações sociais e de suporte à comunidade. Que os muitos fundos acrescidos necessários para o combate à COVID-19 não canibalizem o dinheiro dos financiamentos regulares às organizações. Que seja “dinheiro novo”, como o caracterizaram no dito webinar. Dinheiro angariado para esse fim, com doações de agentes multimilionários e de todas as pessoas que quiserem contribuir. A oradora da Fundação Bill e Melinda Gates dizia que a par dos contributos de Bill e Melinda, tinha havido donativos tão baixos como 10 dólares e tão altos como 25 milhões.

Mas o que fazer em países em que não existe cultura de doação? Em que as pessoas individuais raramente doam para organizações? Que fazer em países onde não existe informação detalhada de cada organização, que nos permite escolher as organizações com ética, bem geridas e com elevado impacto social?

Cabe às organizações dar visibilidade a essa gestão, aos seus princípios, ao seu impacto. Promover a transparência da informação. Explicar como são importantes atores na sociedade. Comunicar esse impacto. Cabe aos financiadores promover processos de seleção, com rigor e critérios bem definidos, que permitam identificar as organizações mais impactantes. Cabe a eles manter o financiamento habitual, não desviar o dinheiro de fundos existentes. Perceber que será mais importante do que nunca juntar ao apoio financeiro, apoio não financeiro – promover adaptação tecnológica, capacidade de fazer reflexão estratégica, repensar modelos de negócio, fazer angariação de fundos, comunicar, medir o impacto, etc. Investir em desenvolvimento organizacional. Cabe aos financiadores perceber que será necessária flexibilidade. Permitir que as organizações voltem a respirar depois deste primeiro impacto que lhes tirou o fôlego, e pensar como podem aplicar mecanismos de inovação social que lhes façam reinventar projetos e modelos de negócios sociais. Dar-lhes tempo.

Muitos financiadores perceberam isso no primeiro momento. Escreveram às suas parceiras estendendo-lhes esse apoio, permitindo essa flexibilidade, dando esse apoio não financeiro. Lançaram fundos de apoio à pandemia, à investigação e desenvolvimento, à saúde, mas também aos outros atores da sociedade civil, tão importantes neste momento. Aplicaram os seus recursos a favor dessas organizações, dando-lhes acesso a tecnologia, instrumentos e especialistas que os possam apoiar neste momento.

Como em todas as emergências, todos os dias são lançados novos fundos, uns de fundações ou investidores sociais e outros de consórcios de fundações que se coligaram para conseguir uma maior abrangência e impacto. Esses fundos são um importante recurso para essas organizações. Claro que, como sempre, é preciso saber que existem, percebê-los, saber onde procurá-los. Esse é também um importante papel do financiador – furar o ruído da comunicação, passar pelas entrelinhas da COVID-19 e chegar às organizações atoladas nas suas várias emergências.

Enquanto todos esses processos estão em andamento (ou não) o que pode o indivíduo fazer? Pode perceber se está em condições de desviar algum do seu rendimento para suporte às organizações da sua comunidade. Caso tenha poupanças, um salário fixo, ou o trabalho remoto esteja a traduzir-se em algum dinheiro adicional – menos gastos em combustível, alimentação etc. – considere usar esse dinheiro para apoiar uma organização. Começar por aquelas organizações que lhe estão mais próximas – pode ser a geografia ou a causa – e doar. Dar um pouco mais cedo do que costuma – não esperar pelo Natal ou a data do seu aniversário. Lembrar-se que muitas pequenas doações dão muito dinheiro. Dinheiro que permite apoiar pessoas que perderam as suas casas, famílias inteiras que ficaram sem rendimento, crianças que não têm acesso à educação, idosos que estão em isolamento social, pessoas com deficiência que precisam de terapias neurosensoriais, ecossistemas que precisam de intervenções diárias. Os problemas do mundo não se eclipsaram durante a pandemia, em muitos casos agravaram-se. E é preciso que a urgência do momento não nos faça esquecer de que são necessárias respostas para o longo prazo, para promover impacto sistémico positivo no mundo.

Cabe-nos a todos o papel de impedir que as organizações colapsem. Não deixemos para o Estado, nem para os financiadores privados esse papel. Como indivíduos podemos colaborar para esse esforço e como organizações podemos saber mudar. Porque, quando o suporte também colapsa, o que resta acima dos escombros?