Corajoso é o melhor adjectivo que qualifica o artigo publicado na revista de Stanford e que o VER aqui reproduz. Escrito por um professor da Harvard Business School, Michel Anteby põe a nu, sem medo de represálias, o silêncio institucionalmente “aconselhado” pela escola de negócios onde lecciona, no que respeita à aprovação de um qualquer ponto de vista ético específico por parte do seu corpo docente. E exorta a colocar um ponto final neste modelo educacional construído com base numa abordagem silenciosa da moralidade
Traduzido e adaptado por HELENA OLIVEIRA
© Stanford Social Innovation Review

A questão da ética nos negócios – ou da sua escassez – tem vindo a ocupar uma posição de relevo em particular ao longo da última década. Desde a falência da Enron em 2001, graças às gigantescas fraudes contabilísticas em que incorria, até ao acordo no valor de 13 mil milhões de dólares feito pelo JP Morgan em 2013 relativo às suas práticas hipotecárias mais do que duvidosas, as grandes organizações têm estado, de forma crescente, sob um atento escrutínio. Na medida em que muitas das pessoas que lideraram ou lideram estas e outras grandes corporações tiveram uma formação académica ministrada em escolas de negócios de topo, será lógico partir do princípio que é exactamente este terreno o lugar “natural” para se abordar este problema. Assim, o que podem ou devem fazer as escolas de negócios no que respeita ao “ensino” da ética? Para Michel Anteby, professor associado de gestão das organizações na Harvard Business School, autor de Manufacturing Morals: The Values of Silence in Business School Education e que assina este artigo, a resposta à pergunta é:“muito mais do que têm feito”, na medida em que, historicamente, muitas destas escolas têm sido – e continuam a ser – muito relutantes no que respeita à adopção de medidas normativas institucionais. Os programas de MBA dotam os seus estudantes de um conjunto de competências técnicas e analíticas de excelência, mas permanecem “silenciosos” no que respeita aos seus propósitos futuros mais alargados.

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De acordo com o autor, ele próprio sentiu este silêncio enquanto professor novato numa das mais antigas escolas de negócios do mundo, a Harvard Business School. Como narra neste artigo, numa altura em que estava a ensinar um caso centrado na linha de produção de uma fábrica, perguntou aos seus alunos qual seria o pior medo que o gestor da fábrica em questão poderia ter. “Um sindicato”, retorquiu um dos estudantes. Com esta resposta, o aluno pretendia dizer que o principal temor seria o de uma greve que travaria o trabalho na linha de produção. Na altura, e enquanto professor sem experiência, Michel Anteby não tinha ainda aprendido que o que a escola pretenderia da sua parte seria o silêncio face à resposta. Ao invés, Anteby relembrou aos seus estudantes os prós inerentes aos sindicatos, tornando a sua posição mais do que evidente. Todavia, a discussão e o debate que pretendia originar não deu qualquer resultado. Nesse dia, conta, aprendeu ele próprio uma lição: enquanto membro de uma instituição de ensino, declarar uma posição normativa constituía, aparentemente, uma perfeita inutilidade. Ou, como refere, “a ética tem muitos sabores e quantos mais, melhor”.

Assim, e como afirma, o facto de se ser relativamente silencioso face às nossas próprias opiniões poder ser considerado como uma postura inconveniente nesta era da polarização, Anteby admite ter sido forçado a aprender esta “verdade” tarde demais. O professor e autor confessa que deveria ter lido, enquanto tirava o seu próprio MBA, um texto intitulado “O Silêncio do Céu”. O mesmo deveria ter-lhe ensinado que “olhamos para o mundo com olhos inquisidores, em busca de um significado, mas acabamos por voltar às nossas questões sem qualquer tipo de resposta”. E também deveria ter aprendido “que procuramos, em vão, os valores, a virtude, a causa final… mas que o céu continua silencioso”. As implicações do texto em causa eram claras: a clareza moral absoluta é evasiva, senão mesmo completamente ilusória. E tivesse sido o autor mais fortemente socializado no interior da cultura da escola, e teria percebido que o seu papel enquanto instrutor seria o de pactuar com este céu silencioso.

São vários os dados em arquivo, ao longo da sua história, que comprovam que a Harvard Business School desejou – ou mesmo orquestrou – este silêncio normativo como comportamento ideal do seu corpo docente. Mesmo na actualidade, a escola abstém-se de definir uma conduta apropriada para o mundo dos negócios, apesar de no seu currículo formal de ética existirem notas que alertam para o facto de as acções dos gestores deverem ser “orientadas e consistentes com as normas éticas relevantes”. Todavia, a verdade é que se mantém silenciosa no que respeita à natureza dessas mesmas normas. E um silêncio similar prevalece nas outras centenas de notas que constituem o “esqueleto” dos currículos dos programas de MBA. Uma análise das mesmas demonstra que raramente aludem a objectivos alargados como o da criação de emprego ou o de contribuírem para o crescimento da economia de uma nação. Ao invés, descrevem somente os passos adequados que os líderes devem privilegiar para atingir objectivos não especificados, abstendo-se de analisar os meios que conduzem aos fins. Michael Anteby sublinha ainda que o pressuposto continua a ser a “não-especificidade” da moralidade como o caminho a seguir.

“Mas o que tem a ver o silêncio como o ensino e com a ética?”, questiona. “Muito”, responde. Oito anos depois de se ter juntado ao corpo docente da prestigiada escola de negócios, Anteby afirma ter aprendido a apreciar aquilo que o silêncio permite e de que forma é que o mesmo consegue estimular o debate no interior da sala de aula. Todavia, e quando analisados conjuntamente, os resultados são confusos e desordenados. A escola de negócios de Harvard já formou, ao longo de mais de um século, muitos estudantes com elevados níveis de sucesso. Muitas figuras marcantes do mundo dos negócios – incluindo um anteriormente louvado mayor da cidade de Nova Iorque, bem como o fortemente criticado antigo CEO da Enron – fizeram a sua formação em Harvard. Obviamente que os mesmos não foram somente “feitos” no campus, na medida em que eram já adultos formados quando nele entraram. Mas todos eles passaram dois anos intensos a viver num contexto único, no qual a aprovação institucional de qualquer ponto de vista moral específico parece ser afastada.

Assim, questiona o professor, que tipo de marca emana deste modelo específico de socialização? E o que significa, numa perspectiva mais alargada, para a educação em gestão? As respostas para estas perguntas residem, em parte, num reconhecimento aberto sobre quem deverá beneficiar deste tipo de silêncio. Apesar dos currículos inovadores e das pesquisas de ponta, as escolas de negócios permanecem como comunidades antigas vestidas com roupagens novas, reflectindo e preservando as normas seguidas pelas antigas elites. Assim, o silêncio beneficia a ordem estabelecida. Ao permanecerem silenciosas no que respeita aos objectivos morais, as escolas de negócios tornam muito mais fácil ignorar as gritantes desigualdades sociais. Se o facto de se ganhar uma quota de mercado é encarado como tão importante quanto criar empregos, as injustiças flagrantes são tão difíceis de apontar como de abordar.

Um modelo educacional construído com base numa abordagem silenciosa da moralidade – e que permite a coexistência dos seus “muitos sabores” – parece assegurar as noções de liberdade que são queridas de muitos de nós, mas que acabam também por despolitizar ao máximo as questões de maior importância. E quando existem evidências inegáveis de que alguns comportamentos corporativos são flagrantemente imorais e que milhões de pessoas enfrentam condições de vida radicalmente empobrecidas por causa dos actos perpetrados por meia dúzia de eleitos, o silêncio não pode constituir a resposta. O silêncio torna-se, assim, numa desculpa para se fechar os olhos ou para não se agir.

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Para Michel Anteby, é chegado o momento das escolas de negócios quebrarem o ciclo do silêncio institucional. E para o fazerem, precisam de dar prioridade às necessidades daqueles que menos beneficiaram da riqueza gerada pelas empresas do século XXI. Um passo importante, a seu ver, consiste em se atingir este objectivo de reconhecimento de que a promoção do silêncio constitui uma forma de aprovação de um ponto de vista normativo – aquele que encerra o desejo das elites em lidar com (ou evitar) o conflito. Esse silêncio, ou a não especificação da moralidade, acaba por constituir o caminho “único” que implica uma escolha feita por essa meia dúzia de eleitos. Compreender esta escolha exige um” desfazer” dos mecanismos que contribuíram para naturalizar a narrativa “moral” em conjunto com os estudantes de escolas de negócios elitistas e ajudá-los a identificar os seus principais beneficiários.

Enquanto educador, afirma Michel Anteby, “uma das minhas esperanças é a de desmistificar a naturalização desta construção histórica, ou daquilo que consideramos como dados adquiridos, na vida quotidiana”. E desfazer o silêncio contribui para esta desmistificação. Na verdade, acrescenta, “é ilusório acreditar que, no silêncio, todos os sabores da ética podem coexistir debaixo do sol”. Uma realidade atestada por todos aqueles que se situam no fim da fila dos acordos levados a cabo pelas empresas. Algumas formas de ética beneficiam apenas aqueles que já se posicionam nos corredores do poder, podendo destruir a segurança e a esperança dos demais. Está na altura de reconhecer estes limites do silêncio e esperar que os futuros líderes empresariais, que sairão formados destas escolas de negócios, não os esqueçam.

Copyright © 2014.Stanford Social Innovation Review. Republicado com permissão.

Helena Oliveira

Editora Executiva