Não foi exactamente com estas palavras que o secretário-geral das Nações Unidas brindou as empresas presentes na Cimeira que teve lugar no último fim-de-semana, mas a mensagem é inequívoca. Depois da aprovação formal e unânime dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável que irão vigorar até 2030, o papel do sector privado será crucial para o sucesso dos mesmos. Mas antes de se acenar com bandeiras do bem, seria mais vantajoso, pelo menos para o planeta, um compromisso para não se piorar o que já de mau existe
POR
HELENA OLIVEIRA

“Os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) não têm precedentes na sua ambição – mas as formas fundamentais mediante as quais as empresas podem contribuir para o seu alcance permanecem inalteradas”, afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon a 26 de Setembro último perante 350 líderes de negócios, governamentais, da sociedade civil e da própria ONU, por ocasião da Cimeira das Nações Unidas, inserida na Semana do Clima, que teve lugar em Nova Iorque entre 21 e 28 de Setembro.

“Em primeiro lugar, as empresas precisam de operar os seus negócios de forma responsável e, de seguida, perseguirem novas oportunidades”, acrescentou ainda Ban Ki-moon, num tom mais elegante e mais politicamente correcto do que aquele que escolheu para a sua afirmação seguinte: “antes de as empresas tentarem melhorar os problemas globais, deverão não contribuir para os tornar piores do que já estão”. Uma sugestão sábia e legítima, sem dúvida, mas pouco animadora face ao comportamento ainda “irresponsável” do sector privado – e que, ironicamente, atingiu um dos seus extremos com o astronómico escândalo da Volkswagen na mesma semana em que decorria esta cimeira – e às pretensões, realmente ambiciosas, que integram a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, unanimemente aprovada pelos 193 Estados-membros da ONU, no passado sábado.

Numa espécie de adeus antecipado aos 8 Objectivos do Desenvolvimento do Milénio (ODM), com início em 2000 e vigentes até ao final 2015 – sendo que sobre o sucesso dos mesmos não existe consenso, de todo, unânime – os 193 membros da ONU comprometeram-se a cobrir mais de o dobro de novos objectivos, nos próximos 15 anos. Os 17 objectivos, em conjunto com 169 metas para os países desenvolvidos e em desenvolvimento, foram apresentados num documento formal intitulado “Transformando o nosso mundo” e que pode ser “dividido” em cinco grandes áreas, ou em cinco Ps: Pessoas, Planeta, Prosperidade, Paz e Parcerias.

Mas, e ao contrário do que aconteceu com os ODM, o sector privado tem estado activamente envolvido neste processo de criação, em conjunto com a participação directa dos Estados-membros da ONU e da sociedade, sendo possível afirmar que os ODS foram gerados a partir de extensas e amplas consultas em todo o mundo e que, ao contrário dos seus antecessores ODM abordam não só as causas, mas também as consequências da pobreza, cuja erradicação consiste no Objectivo número 1, sendo transversal a todos os outros.

[pull_quote_left]Na medida em que são vários os países que têm vindo a cortar a sua ajuda ao desenvolvimento, o financiamento privado – especialmente o que for originário do sector empresarial – será crucial para se atingir, pelo menos, alguns destes objectivos[/pull_quote_left]

Como noticiou o The Guardian, que declara ter lido atentamente os 17 objectivos e as 169 metas, os cépticos dos OMD sempre defenderam que a única razão que levou a que cerca de mil milhões de pessoas tenham “saído” do estado de pobreza, nos últimos 15 anos, se deveu exclusivamente ao crescimento económico dos mercados de rendimento médio e aos dos países em desenvolvimento, tendo a China e a Índia em muito contribuído para tal proeza. Assim, faz sentido que os ODS tenham sido construídos com base na premissa de que o sector privado é, definitivamente, um dos principais meios para gerar desenvolvimento e reduzir a pobreza. De sublinhar também que uma outra diferença fundamental nestes novos objectivos diz respeito ao facto de os mesmos não abordarem apenas as fragilidades dos países pobres, mas também as economias ricas. O “Ocidente próspero” terá também de trabalhar com vista à criação de cidades sustentáveis, melhor educação, mais segurança, agricultura mais “limpa”, entre outras metas especificamente definidas para as economias mais afortunadas.

Quanto às habituais críticas e temores, e à semelhança do que aconteceu com os ODM, a não existência de compromissos vinculativos sobre que entidades são responsáveis por determinado objectivo ou metas aparece no topo. Adicionalmente, o leque de desafios é tão amplo que o mais certo é o mundo perder-se, literalmente, no meio de tanta complexidade. Ou, pior ainda, existe uma forte probabilidade de os países começarem a seguir uma política de “escolha”, por motivos financeiros ou políticos e, como resultado, em vez de abordarem as questões mais urgentes – como as alterações climáticas, as migrações, a segurança ou a justiça – optarem por aquelas que maiores “vitórias” eleitorais lhes poderão conceder.

[pull_quote_left]Existem muitas dúvidas no que respeita à capacidade e vontade das empresas em traduzir objectivos aspiracionais em acções práticas[/pull_quote_left]

Mas e sem surpresas, a questão principal que se coloca ao sucesso, mesmo que relativo, destes novos objectivos globais diz respeito ao financiamento – o qual já tinha merecido destaque especial numa reunião em Adis Abeba, em Julho último. Na altura, e na tentativa de ilustrar o gigantesco esforço financeiro que a concretização destes objectivos implicará anualmente, o Banco Mundial e outros bancos de desenvolvimento cunharam até a frase “from billions to trillions”. Assim e na medida em que são vários os países que têm vindo a cortar a sua ajuda ao desenvolvimento, o financiamento privado – especialmente o que for originário do sector empresarial – será crucial para atingir, pelo menos, alguns destes objectivos.

A supostamente boa notícia é que, na semana que antecedeu esta Cimeira, muitas foram as empresas que, publicamente, anunciaram compromissos ousados – resta saber se não por demais irrealistas – para cortar nas emissões de carbono, adoptar energias renováveis e apoiar, através de financiamento directo, os ditos ODS.

A título de exemplo, 93 empresas, membros do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), assinaram uma carta conjunta, no passado dia 24, na qual independentemente de questões de fé, reconheceram o apelo do Papa Francisco, lançado a toda a humanidade que partilha esta “casa comum”, naquela que ficará conhecida como a primeira encíclica papal completamente dedicada ao bem-estar do planeta (e sobre a qual o VER escreveu), comprometendo-se a fazer “a sua parte” na transição para uma economia que seja menos prejudicial para o ambiente. Sem, contudo, esmiuçarem o “como”, gigantes como a Siemens, a Unilever, a Kellogg ou a Procter & Gamble, mas também um conjunto bastante significativo de empresas portuguesas como a Accenture Portugal, a Brisa, a EDP, a Efacec, a Sonae ou a Vieira de Almeida e Associados, entre muitas outras, comprometeram-se, através dos seus líderes, a “utilizar a sua inovação, escala e espírito empreendedor para procurar formas de abordar tanto os desafios ambientais, como os sociais criados pelas alterações climáticas”, para além de prometerem igualmente fazer a sua parte para facilitarem a transição para uma economia de baixo carbono em antecipação às negociações sobre o clima, que, este ano, terão lugar em Paris em Dezembro próximo.

[pull_quote_left]A não abordagem destes objectivos globais seria a maior falha de mercado dos nossos tempos, Mark Wilson, CEO da Aviva[/pull_quote_left]

Por seu turno, algumas das multinacionais já acima referidas, em conjunto com outras, pertencentes a nove indústrias, como a Salesforce, a Nike, a Goldman Sachs, a Starbucks, a Johnson & Johnson, a Steelcase, a Voya International e a Walmart, foram mais longe com as suas promessas no passado dia 23 e garantiram (?) a sua transição para a utilização exclusiva de energias alternativas, juntando-se ao grupo das RE 100 [100% renováveis], iniciado pela fabricante de chocolates Mars Inc. e oficialmente lançado na Cimeira do Clima, também em Nova Iorque, na sua edição de 2014. Para “suavizar” esta transição ambiciosa, o United States Council for International Business lançou, no mesmo dia, o portal Business for 2030, com ferramentas que ajudam as empresas a apoiar os ODS, em particular, os que mais relacionados estão com os vários desafios inerentes às alterações climáticas.

Adicionalmente, o gigante da construção chinês Broad Grop, o grupo de telecomunicações africano Econet, a fabricante de cosméticos brasileira Natura, a Unilever e o Grupo de Investimento Internacional Virgin – membros do denominado B-Team – comprometeram-se também a transformar as suas operações em “zero emissões até 2050”.

Todos estes compromissos e promessas “cabem” no 13º Objectivo – o combate às alterações climáticas, mas as empresas deverão estar ao corrente da sua transversalidade face aos demais que lhes dizem directamente respeito.

Mas e acima de tudo, quem acredita, mesmo, no seu envolvimento legítimo?

Empresas e as promessas que têm (devem) de ser cumpridas

01102015_QuandoNaoPiorarNo meio dos numerosos cépticos, existe um grupo particular de críticos que afirma que os ODS nunca serão atingidos porque o sector privado não será capaz, ou não se dará ao trabalho, de se empenhar verdadeiramente no seu cumprimento. Uns dizem que será uma luta demasiado dispendiosa e outros têm dúvidas que as empresas tenham a capacidade de traduzir estes objectivos aspiracionais em acções práticas.

Teresa Fogelberg, directora executiva adjunta do GRI insurge-se violentamente contra estas afirmações. Citando o objectivo 12, relativo ao consumo responsável, recorda que uma das suas metas prevê incentivar as empresas, especialmente as de grande dimensão e transnacionais, a adoptar práticas sustentáveis e a integrar informação sobre a sustentabilidade nos seus relatórios de actividades. Apesar de esta não ser propriamente uma novidade, o GRI, em conjunto com o UN Global Compact e com o WBCSD, desenvolveu uma ferramenta, apresentada nesta cimeira e denominada SDG Compass, a qual serve como um mapa de orientação que as empresas podem usar para alinhar as suas estratégias com os ODS mais relevantes, avaliando e gerindo os seus impactos.

E se existe consenso no papel principal que as empresas devem representar neste palco tão abrangente, é igualmente unânime a ideia de que a sociedade civil, através das ONG, deverá redefinir o seu relacionamento com o sector privado, apostando mais em colaboração do que em confronto.

[pull_quote_left]Um ambiente de negócios ético poderá ser um bom caminho para se atingir, pelo menos, alguns dos ODS, Mogens Lykketoft, Presidente da 70ª Assembleia Geral da ONU[/pull_quote_left]

Como refere Gib Bulloch, fundador e antigo director executivo da Accenture Development Partnerships, no que respeita aos ODM, as empresas envolveram-se demasiado tarde no processo e fizeram muito pouco, para além de privilegiarem a sua acção em “questões de imagem, de responsabilidade social corporativa e de obrigação moral, em oposição a um business case robusto”. Bulloch sublinha ainda numerosas conversas que tem vindo a ter com vários líderes de negócios, “os quais citaram uma miríade de oportunidades, em particular no que respeita aos big data & analytics, os actuais grandes marcos da revolução digital, e que são destinados a transformar a maneira como as doenças são detectadas e erradicadas, ou como a performance educacional é maximizada ou ainda como os padrões climáticos são monitorizados de forma a melhorar o ‘desempenho’ das culturas e colheitas”, todos eles eixos ou metas dos actuais ODS. Todavia, Bulloch tem também noção de que, para além dos suspeitos do costume, o envolvimento legítimo das empresas com as questões do desenvolvimento continua a ser insuficiente, principalmente porque os ganhos de curto prazo continuam a sobrepor-se a planos de longo prazo, cruciais para qualquer iniciativa ou objectivo sustentável.

Mas talvez existam motivos para se ter esperanças renovadas. O Fórum do Sector Privado, que reúne, anualmente, desde 2008 e integra líderes empresariais e chefes de Estado na discussão de questões globais prementes como as alterações climáticas, o desenvolvimento global e os direitos humanos, decorreu igualmente como um dos eventos paralelos à Cimeira das Nações Unidas. Organizado pelo UN Global Compact, em estreita colaboração com a UNICEF, a UN Women, a UN Volunteers, entre outras entidades, o fórum deste ano teve como principal objectivo aumentar a compreensão dos esforços em curso liderados pelo sector privado e pela sociedade civil, anunciar os seus objectivos de longo prazo e as parcerias que contribuirão para alcançar “o desenvolvimento sustentável para todos” e para lançar uma ferramenta, já anteriormente mencionada e apelidada de SDG Compass. Como afirmou Peter Bagger, presidente e CEO do WBCSD, o lançamento desta ferramenta “irá facilitar a vida a todas as empresas do mundo que pretendam olhar para os ODS, alinhar as suas estratégias e gerir tudo o que possa ajudar a contribuir para se atingir os objectivos globais, apostando na transparência total sobre os progressos que forem sendo feitos”. Esta ferramenta, que serve também como guia orientador, foi concebida para, em cinco passos, maximizar o contributo do sector privado para os ODS: compreender, definir prioridades e estabelecer objectivos constituem os três primeiros passos, aos que se seguem a sua monitorização e comunicação, esta última também dificultada devido ao número exorbitante de objectivos e metas.

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Lentes cor-de-rosa ou optimismo cauteloso?

O Fórum do Sector Privado reuniu não só o secretário-geral da ONU, a chanceler alemã Angela Merkel, a administradora do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, Helen Clark, mas também vários líderes empresariais, como o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, o CEO da Unilever, Paul Polman, entre outros. É que apesar de os maiores esforços financeiros no que respeita à implementação dos inúmeros projectos que visam contribuir para o sucesso dos ODS recaírem – desde as questões das energias renováveis, da água potável ou do empowerment das mulheres, por exemplo – nos governos, existem algumas “lacunas” que apenas as multinacionais serão capazes de preencher.

E é aqui que entram empresas como a Unilever, a SkyPower Global ou a Aviva, todas elas representadas pelos seus líderes neste Fórum. Por exemplo, Mark Wilson, CEO da Aviva, afirmou que “a não abordagem destes objectivos globais seria a maior falha de mercado dos nossos tempos”, acrescentando que os ODS consistem numa potencial “Magna Carta” para as empresas estabelecerem o seu “legado”.

[pull_quote_left]Ao se conectar mais pessoas nos países em desenvolvimento, teremos a oportunidade de criar mais 140 milhões de novos postos de trabalho, tirar 160 milhões da pobreza e oferecer, a mais de 600 milhões de crianças o acesso a ferramentas de aprendizagem gratuitas – Mark Zuckerberg, fundador do Facebook[/pull_quote_left]

Mas nem todos pensam de igual forma no que respeita ao peso do sector privado nestas questões globais. Uma questão colocada pelo recém-empossado Presidente da Assembleia Geral da ONU, neste seu 70º aniversário, o dinamarquês Mogens Lykketoft, espelha algumas das divergências em causa. Se, por um lado, e neste Fórum em particular, Lykketoft afirmou que “é necessário mobilizar um conjunto muito maior e muito mais variado de recursos financeiros do que aqueles que foram investidos nos ODM”, por outro, aproveitou a mesma ocasião para fazer uma advertência pública às empresas presentes, sublinhando a importância de uma aplicação, mais severa, de legislação e tributação fiscal às mesmas. O também Presidente do Parlamento da Dinamarca tornou bem claro que as empresas, bem como os indivíduos com grandes fortunas, deverão pagar os seus impostos onde ganham o seu dinheiro como forma de assegurar a capacidade dessas mesmas economias construírem infra-estruturas duradouras e aumentarem a sua capacidade para lutarem contra a corrupção, por exemplo. Como escreve o próprio UN Dispatch, o que Lykketoft quis realmente dizer, ou alertar, “é que as empresas não podem – ou não devem – saltar de pára-quedas no mundo em desenvolvimento sem que o país em causa colha a sua quota-parte de benefícios derivada dos investimentos que nele forem feitos, para além dos salários pagos aos trabalhadores dos mesmos ou dos projectos de infra-estruturas ali desenvolvidos”. O “aviso” poderá ser direccionado para alguns países em desenvolvimento em particular que estão à procura de investimento, e que devem aproveitar a oportunidade colocada pelas empresas dispostas a investir, seguindo a lei e lutando contra a corrupção. Ou, em suma, o que Lykketoft quis deixar claro é que um ambiente de negócios ético poderá ser um bom caminho para se atingir, pelo menos, alguns dos ODS.

Num registo completamente diferente, mas promissor, foi a intervenção de Mark Zuckerberg. O fundador do Facebook aproveitou o Fórum do Sector Privado para chamar a atenção para a sua iniciativa denominada internet.org, a qual tem como objectivo fornecer o acesso gratuito à Internet aos milhares de milhões de pessoas que, em todo o mundo, ainda não têm essa possibilidade, indo ao encontro do que muita gente já disse: que o acesso à Internet e a redução da pobreza estão interligados. A diferença face aos demais que já fizeram esta “ligação” está na capacidade de Zuckerberg em muito poder contribuir para esta realidade. “As pesquisas demonstram que por cada 10 pessoas que ganham acesso à Internet, pelo menos uma é retirada da situação de pobreza”, afirmou. Acrescentando ainda algumas “contas” a esta equação simples – apesar de não as ter suportado em evidências, Zuckerberg sublinhou ainda que, ao se conectar mais pessoas nos países em desenvolvimento, “teremos a oportunidade de criar mais 140 milhões de novos postos de trabalho, tirar 160 milhões da pobreza e oferecer, a mais de 600 milhões de crianças o acesso a ferramentas de aprendizagem gratuitas”. O que seria uma excelente ajuda para vários dos ODS, sem dúvida.

Resta saber se o optimismo do senhor dos likes possa vir a ser uma realidade.