Na fórmula do sucesso, em particular no competitivo mundo dos negócios, o trabalho árduo, a dedicação, a perseverança e o talento assumem-se como as características principais que o permitem alcançar. Mas existe um factor, raramente ou nunca admitido pelos que são “bem-sucedidos” que, e de acordo com um novo livro, tem um peso igual ou até mesmo superior face aos elencados: a sorte
POR HELENA OLIVEIRA

Robert Frank, professor de Economia e Gestão na Cornell University e colunista no The New York Times, define a sorte como qualquer coisa pela qual não somos responsáveis, por algo que acontece por acaso e não como resultado das nossas acções, sendo que quando se refere ao sucesso neste caso em particular, fá-lo em termos materiais. E isto porque publicou recentemente um livro que está a dar que falar, pois supostamente diminui, em termos de esforço,  (sem na verdade o fazer) os feitos arrojados dos “self-made-business-men”.

Intitulado Success and Luck: Good Fortune and The Myth of the Meritocracy  e tendo como base o trabalho de cientistas sociais que “descobriram” que a sorte tem um papel muito mais importante e dominante nos eventos da vida do que aquilo que imaginamos, o autor explora as implicações surpreendentes destas mesmas descobertas para demonstrar os motivos devido aos quais os ricos subestimam a importância desta no sucesso e o facto deste menosprezo causar mal a toda a gente, inclusivamente aos próprios afortunados.

O autor descreve como, num mundo crescentemente dominado por “winner-take-all-markets” (o título do best-seller The Winner-Take-All Society: Why the Few at the Top Get So Much More Than the Rest of Us escrito por ele próprio em 1996), a sorte tem um papel crucial para os “vencedores” e que esta realidade tem implicações importantes nas políticas levadas a cabo pelos governos, sendo que, nos Estados Unidos, a questão da sorte versus a do esforço e do talento está muito relacionada com a ideologia política, ou seja com a visão distinta que conservadores e liberais têm do sucesso. Ou seja, para os primeiros, a sua narrativa do sucesso tem como prioridade o trabalho árduo e as competências, ao passo que os liberais privilegiam, na mesma narrativa, os constrangimentos estruturais e o privilégio. Se bem que nenhuma das narrativas esteja completamente certa, para o autor, os liberais estão mais perto da verdade, pelo menos no que diz respeito às premissas que compõem o seu livro.

Assim, defende, num mundo crescentemente dominado por winner-take-all-markets, as oportunidades trazidas pela sorte e um conjunto de vantagens triviais acabam por traduzir-se, muitas vezes e com o tempo, em benefícios de peso – e em substanciais diferenças de rendimentos. O livro explora também como são persistentes as crenças falsas sobre a sorte e como os mitos ou as narrativas sobre o sucesso pessoal e a sorte acabam por moldar as escolhas individuais e políticas mediante formas prejudiciais.

Meritocracia e o privilégio dos privilegiados

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Numa entrevista que concedeu à Vox, Robert Frank começa por afirmar que na altura de escolher o subtítulo da sua obra – o mito da meritocracia – não se sentiu muito confortável quando o editor o propôs, pois poderia induzir em erro face ao próprio objectivo do livro. Ou seja, apesar de concordar que os mercados não são perfeitamente meritocráticos, também é verdade que existe mais meritocracia hoje do que noutras eras, tal como o privilégio continua a ser importante, mas tendo tido um peso muito mais determinante outrora. Ou e por outras palavras, a maioria das pessoas que emergem como “grandes vencedores” tendem a ter talento e a ser trabalhadores árduos – tendo por isso o seu mérito – mas o que é igualmente verdade é que muita gente igualmente meritória e trabalhadora não consegue simplesmente entrar para o clube dos bem-sucedidos. E isto porque a sorte conta. E muito.

O autor sublinha que as pessoas que têm sucesso em grande escala tendem a acreditar que o mesmo se deve exclusivamente a si mesmas. O que, a seu ver, é prejudicial, pois incita a um sentimento negativo de posse e de direitos nas pessoas que o detêm. Por sua vez, este mesmo sentimento de “ganhei graças ao meu esforço e porque mereci”, fá-los ser menos generosos face aos demais e, caso o governo tente taxá-los com impostos, eles consideram tal acto como um roubo. Robert Frank assegura que acreditar que toda a boa fortuna que aparece nos seus caminhos foi “merecida” no sentido tradicional da palavra é difícil de manter assim que se olha para a forma como os variados “concursos” da vida se desenrolam e o papel que a sorte tem em muitos eventos da nossa existência.

Numa outra entrevista publicada pelo TheHustle, Frank salvaguarda, contudo, a ideia de que, e obviamente, o trabalho árduo e o talento são imprescindíveis para o sucesso. Acrescenta que o mercado – em particular o das tecnologias, mas não só – é extremamente competitivo, portanto há que ter estas qualidades para nele vencer. Todavia, sublinha, a sua premissa assenta no facto de que estas mesmas características não são, só por si, suficientes para se alcançar o clube dos mais privilegiados. E dá um exemplo: “imagine um concurso de meritocracia onde 98% do sucesso para se ser escolhido para um bom emprego se baseia no talento e no trabalho árduo e os restantes 2% em sorte. Você pode concorrer mil vezes e, apesar de ser a pessoa com mais talento e mais trabalhadora, nunca ganhar. Para vencer, tem de ser trabalhador e talentoso, mas tem de ser igual e incrivelmente sortudo”.

Robert Frank explica igualmente o que entende por “winner take all markets”. Quando se chega ao topo da hierarquia de qualquer profissão, existem tantas pessoas igualmente boas que a diferença no nível de competências é quase imperceptível. Um “winner take all market” é um mercado onde alguém apenas 1% melhor do que outra pessoa pode ganhar, e comparativamente, uma quota desproporcionalmente elevada de recompensas.

Normalmente, a pessoa nº 1 e a pessoa nº 10 não estão assim tão “separadas” em termos de talento. O mais reconhecido dos sopranos, exemplifica, pode ter um fôlego um bocadinho melhor do que um seu congénere que, comparativamente, ocupa a 10ª posição. Mas, e neste tipo de mercados, o primeiro ganha rios de dinheiro, enquanto o segundo pode acabar a dar aulas numa escola de música qualquer. O primeiro foi afortunado, o segundo não. Neste tipo de mercados, existem também muito mais pessoas a competirem por oferecerem o melhor produto, sendo que o vencedor fica com o prémio inteiro para si. E, argumenta, sob estas circunstâncias, a capacidade e o esforço são importantes, mas a sorte também o é. Frank utiliza simulações matemáticas no seu livro para comprovar que, quanto mais alargados forem estes “concursos”, mais importante a sorte se torna para determinar o resultado final, sendo que o vencedor não será muito provavelmente o mais talentoso, mas aquele a que a sorte lhe sorriu.

O pior de tudo é que a sorte – ou o azar – começa bem antes de nascermos. A nossa predisposição genética, misturada com factores ambientais, com os pais que temos ou com o local onde nascemos determina substancialmente o nosso futuro. Por exemplo, e como escreve no livro, cerca de metade da variação de rendimentos existente em todo o mundo é explicada por dois factores: pelo país de residência e pela distribuição de rendimentos no interior desse mesmo país, o que significa que o rendimento dos nossos pais e o local onde nascemos importam e muito. No livro, e entre vários exemplos, o autor cita um estudo revelador da correlação existente entre os rendimentos dos progenitores e as possibilidades dos filhos se licenciarem: miúdos provenientes do escalão mais baixo de rendimentos que ficaram no quartil superior em termos de resultados em testes de matemática no 8º ano tinham muito menos hipóteses de chegarem à universidade do que os estudantes que ficaram no último quartil, mas que tinham a sorte de viver em agregados com pais que se posicionavam no terço mais elevado da distribuição de rendimentos.

Por isso, os acontecimentos aleatórios como o nascer na família “certa” (a influência dos genes e o “destino” passado da própria família) ou o país “certo” (a influência do ambiente físico, financeiro, cultural e educacional do mesmo) contribuem grandemente para se alcançar o sucesso – ou não.

Não podemos mudar o que não podemos controlar?

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Uma outra ideia do livro é que pequenos detalhes sobre os quais nunca pensamos – factores que estão absolutamente fora do nosso controlo – podem ter um impacto crucial nas hipóteses de virmos a ter ou não sucesso. Por exemplo, assegura o autor, aqueles que nascem em Junho ou em Julho têm menos probabilidades de virem a ocupar cargos de CEO. E porquê? Porque essas pessoas são, geralmente, as mais novas das turmas e ao longo de todo o seu percurso escolar têm menos probabilidades de ocuparem posições de liderança (o chamado efeito da idade relativa). Por outro lado, acrescenta, não podemos escolher a altura que temos, mas a mesma faz uma enorme diferença. Como exemplifica, o CEO médio das empresas que compõem o ranking 500 da Fortune é seis centímetros mais alto do que o americano médio e, no geral, 58% dos CEOs de topo são 15 centímetros mais altos que 14,5% da população dos Estados Unidos, sem esquecer que as mulheres ocupam apenas 5% das posições de CEO no mesmo ranking.

E se a tendência é para não darmos a mínima importância a estes pequenos detalhes, a verdade é que, e de acordo com o autor, os mesmos podem mudar por completo uma carreira e, consequentemente, uma vida.

Questionado sobre se existe um fundo de verdade nas máximas que dizem “somos nós que criamos a nossa própria sorte” ou “a sorte aparece quando a preparação encontra oportunidade”, o professor da Cornell admite que sim, mas também não desarma. É óbvio que temos de estar preparados para agarrar as oportunidades que surjam, mas ao mesmo tempo é preciso que haja sorte para elas aparecerem.

Mas e porque motivo – outro foco do livro – as pessoas de sucesso saltam de imediato para a defensiva quando alguém lhes fala no papel que a sorte teve no seu percurso? De acordo com o autor e apesar da enorme explanação que faz sobre esta realidade, a resposta é simples: quando as pessoas olham para as suas vidas e pensam por que motivo foram bem-sucedidas, lembram-se muito mais depressa do esforço que tiveram de fazer e não dos acontecimentos afortunados que contribuíram para que esse sucesso fosse uma realidade (é o chamado enviesamento da perspectiva). Ao TheHustle, Frank exemplifica com uma metáfora: a dos ventos contrários e ventos favoráveis. Se estamos a batalhar para superar um obstáculo, temos consciência desse facto e sabemos que temos de trabalhar arduamente para o ultrapassar; mas se algo nos está a “empurrar” para o caminho certo, muitas vezes nem sequer notamos e é menos provável que integremos esse “bom vento” na narrativa do nosso sucesso.

Adicionalmente, quando recordamos a alguém que teve sorte num determinado feito alcançado, a pessoa enfurece-se, porque aquilo que está a ouvir é “não mereces esse sucesso”. Todavia, se perguntarmos a essa mesma pessoa para pensar em um ou dois momentos da sua vida que foram particularmente afortunados, ela não demonstra qualquer problema em relembrá-los. E, desta forma, pensam na questão da sorte de uma forma completamente diferente, o que leva Frank a afirmar que não se deve demonizar as pessoas por causa desta tendência natural para sobrevalorizarem os seus talentos e esforços, mas ajudá-las a encontrar formas que os ajude a reconhecer que não basta o trabalho árduo e as competências para se chegar onde elas chegaram.

Com base na economia comportamental e na psicologia, o autor discute vários preconceitos cognitivos que levam as pessoas a não apreciarem o papel da sorte no seu sucesso, pois aparentemente é muito mais difícil sentir gratificação e automotivação se acreditarmos que é a sorte, e não o esforço, que tem um papel importante nas nossas vidas. Complementarmente, ignorar o papel da sorte torna as pessoas de sucesso mais hostis relativamente ao pagamento de impostos (existe um capítulo dedicado a esta temática com propostas de políticas que visam aumentar alguns impostos e combater o sub-investimento público). Para o autor, e em particular nos Estados Unidos, esta indisponibilidade para apoiar impostos mais elevados está a prejudicar seriamente as infra-estruturas físicas e sociais do país, incluindo as estradas, as auto-estradas ou a educação pública das quais a população inteira depende. Para além disso, o sub-investimento em bens públicos é prejudicial até para os membros mais bem-sucedidos da sociedade, pois também eles dependem dos mesmos. A analogia utilizada pelo autor é discutível, mas a mesma afirma que é melhor conduzir um Porsche de 150 mil dólares numa estrada em boas condições, do que ir ao volante de um Ferrari de 333 mil dólares numa estrada cheia de buracos.

Mas se é a sorte uma das grandes responsáveis pelo sucesso – sendo os bem-sucedidos sortudos no nascimento, na comunidade e na proximidade com outras pessoas igualmente sortudas (o efeito de rede) – como encarar o esforço e o trabalho árduo que tanta gente faz sem atingir o sucesso? Como alinhar esta narrativa com os mais básicos fundamentos morais da nossa sociedade?

A resposta de Robert Frank não é propriamente animadora. É quase certo que ninguém será bem-sucedido se não for suficientemente bom em alguma coisa que os outros reconheçam, sendo que ser bom implica muito esforço e muito trabalho. Assim, não encoraja ninguém, mesmo que essa pessoa se sinta bafejada pela sorte, a ficar sentado à espera que o sucesso lhe bata à porta. Pelo contrário, Frank defende que se deve sempre dizer às pessoas que tentem merecer seja o que for que desejem. “Isso não significa que o vão alcançar, mas é muito mais certo não o atingir de todo se não fizerem por o merecer”.

Assim, resta-nos acrescentar: boa sorte.