De acordo com um relatório divulgado pela CNBC e apenas um mês passado sobre a pandemia, as vendas de livros tinham aumentado 777% face ao mês anterior. Seja porque passamos mais tempo em casa ou porque aproveitamos o confinamento para colocar em dia as leituras de obras que, de outra forma, ficariam a apanhar pó nas prateleiras, a verdade é que se existe um efeito colateral positivo dos tempos estranhos que vivemos é o de ter aumentado o número de leitores um pouco por todo o mundo. Assim, e para este final de ano, recomendamos um conjunto de livros que se destacaram nas listas dos mais vendidos em 2020
POR HELENA OLIVEIRA

Da importância da inclusão e diversidade nas empresas, à reinvenção do capitalismo – que continua a estar na ordem do(s) dia(s) -, passando pelo cada vez mais incerto “mapear” do futuro e do impacto que as máquinas terão no trabalho do amanhã, seguem-se alguns livros que poderão ajudar a desligar – ou a ligar – o cérebro em tempos de reclusão. Com um inevitável olhar para a catástrofe provocada pela Covid-19 a encerrar as sugestões.

Inclusify: The Power of Uniqueness and Belonging to Build Innovative Teams 

Stefanie K. Johnson

Os humanos têm dois desejos básicos: o de se destacarem e o de se integrarem. Mas, e na maioria dos casos, as empresas têm tendência para criarem grupos que tocam os extremos – ou onde todos se encaixam e ninguém se destaca, ou onde todos se destacam e ninguém se encaixa. Este foi o ponto de partida escolhido por Stefanie K. Johnson – professora de gestão na Universidade do Colorado, colaboradora da Harvard Business Review e especialista na intersecção entre liderança e diversidade -, para escrever Inclusify e encontrar um meio-termo adequado que as empresas pudessem seguir com o objectivo dos seus trabalhadores poderem demonstrar a sua individualidade e, ao mesmo tempo, terem direito ao sempre desejável sentimento de pertença.

Num ano em que a diversidade e a inclusão nas empresas foi tema “quente” na gestão, o livro de Stephanie Johnson – um bestseller do Wall Street Journal e incluido na lista dos melhores livros do ano publicada por vários meios – mergulha num conjunto rico de pesquisa para explorar os comportamentos que mais contribuem para minar a cultura inclusiva nas organizações.

No decorrer da sua investigação, Johnson identificou problemas comuns expostos por líderes que viram frustradas as suas tentativas de criar equipas diversas e coesas. Ou seja, líderes que subestimam a importância da coerência e dinâmica de grupo têm frequentemente empregados que não sentem que pertencem à organização, o mesmo acontecendo com líderes que ignoram os benefícios de ouvir diferentes perspectivas, o que resulta em empregados que não podem ou não devem mostrar a sua autenticidade.

O termo “inclusify”, cunhado para título da sua obra, junta [em inglês] os verbos incluir e diversificar, numa tentativa de alertar para o facto de que este inclusifying significa um esforço contínuo e sustentado no sentido de ajudar equipas com membros distintos a sentirem-se comprometidos, aceites e valorizados.

Ao longo do livro são identificados vários estudos que demonstram os benefícios da inclusão e do saber honrar perspectivas diversas. Assim, os líderes que inclusify têm melhores relacionamentos com as suas equipas, auferem de maiores níveis de produtividade por parte dos seus trabalhadores e são capazes de criar um ambiente mais positivo para toda a organização. Dado que as descrições que utiliza são detalhadas, específicas e ilustradas com histórias do mundo real dos negócios, o livro assume-se como um recurso valioso para os líderes que procuram inculcar práticas inclusivas nas suas organizações.

Reimagining Capitalism In a World On Fire

Rebecca Henderson

“O capitalismo de livre mercado é uma das maiores invenções da humanidade e a maior fonte de prosperidade que o mundo alguma vez viu. Ao mesmo tempo, a sua procura de lucro, enquanto objectivo primordial, levou a uma desigualdade desenfreada e à iminente ameaça de catástrofe climática – ameaçando agora destruir a sociedade da qual depende”.

É mais um livro que pretende reinventar o capitalismo, tema que continua em voga, e crescentemente, nos conselhos de administração de muitas empresas e na visão que especialistas de várias áreas têm para “salvar o mundo”.

Sejam os eventos climatéricos cada vez mais extremados que têm vindo a unir as pessoas quanto à urgência e importância de enfrentar as alterações climáticas, seja a indignação causada pela desigualdade crescente na riqueza entre ricos e pobres ou o apoio inadequado que as empresas dão aos seus empregados, particularmente sublinhado pelos impactos causados pela pandemia de Covid-19 neste momento, a verdade é que continua a existir uma enorme incoerência entre as empresas e a sociedade.

Rebeca Henderson, professora na Harvard Business School, onde lecciona uma cadeira exactamente dedicada ao “reimaginar do capitalismo”, junta neste livro uma investigação rigorosa e interdisciplinar, combinando dados da economia, da psicologia e do comportamento organizacional com os seus muitos anos de trabalho em empresas de todo o mundo para demonstrar que o caminho para um novo capitalismo existe e que o único objectivo dos negócios não é, nem pode ser, ganhar dinheiro e maximizar o valor para os accionistas. E garante que é possível reimaginar e “implementar” um capitalismo que não seja apenas um motor de prosperidade, mas também um sistema que esteja em harmonia com as realidades ambientais, que lute pela justiça social e que responda às exigências de instituições verdadeiramente democráticas.

A sua profunda compreensão de como esta mudança pode ocorrer, combinada com histórias fascinantes de empresas que deram os primeiros passos no sentido de reinventar o capitalismo, fornece uma visão inspiradora sobre o que este pode vir a ser. Com debates ricos sobre como os mundos das finanças, da governação e da liderança devem também evoluir, Henderson fornece a base pragmática para navegar num mundo confrontado com um desafio sem precedentes, mas também com uma oportunidade extraordinária para aqueles que o conseguirem superar. O livro integra o ranking dos melhores livros de 2020 do Financial Times.

Uncharted: How to Map the Future Together

Margaret Heffernan

Num ano em que os planeamentos rígidos e as previsões impraticáveis foram expostos como mais do que inúteis, o presciente livro de Margaret Heffernan mostra que é possível estar preparado e ser adaptável e resiliente face a inevitáveis crises e incertezas que podem estar sempre o virar da esquina. A empreendedora, ex-CEO, escritora e oradora com mérito mundialmente reconhecido e cujo motto é “não vamos jogar o jogo, vamos antes mudá-lo” escolhe como protagonistas do seu mais recente livro as pessoas e as empresas que não se assustam com a incerteza.

A impossibilidade das previsões serve de premissa básica ao livro de Heffernan e o conceito é explorado através de múltiplos ângulos, sendo que o primeiro assenta na distinção entre o que é complicado e o que é complexo. De acordo com a autora, podemos enfrentar, como seres humanos e através das nossas organizações, situações muito complicadas, e a nossa capacidade de as analisar nos pequenos detalhes é fundamental. Mas quando enfrentamos a complexidade, onde reina a ambiguidade, deixamos de ser eficazes.

Para Heffernan, a história tem mostrado, demasiadas vezes, a nossa ambição, como seres humanos, de “prever o futuro”. Mas nunca foi realmente possível fazê-lo. Como seres humanos, tendemos a misturar a causa e o efeito com a moralidade e a ética e, frequentemente, as nossas teorias acabam por não sobreviver ao longo do tempo. Adicionalmente, defende, os modelos são, acima de tudo, representações subjectivas e incompletas de realidades complexas. As agendas, em segunda instância, estão sempre embutidas em cada modelo, porque são simplesmente uma aplicação dos modelos mentais do seu criador.

Afirmando que as crises existenciais revelam a componente social vital da resiliência, Heffernan recorda também que a morte é certa, mas a forma como a abordamos tem impacto no futuro daqueles que deixamos para trás, acrescentando ainda que a preparação – fazendo hoje tudo o que possa ser necessário para enfrentar o amanhã – fornece o antídoto para a passividade e a previsão. Mas a verdade é que o tema das “previsões” continua a vender como pãezinhos quentes, mesmo que 2020 seja a prova de que é impossível prever o que quer que seja.

A World Without Work: Technology, Automation, and How We Should Respond

Daniel Susskind

As novas tecnologias sempre provocaram o pânico relativamente à potencial substituição dos trabalhadores pelas máquinas. E, como sabemos, com os avanços tecnológicos sem precedentes que temos vindo a observar em particular nos últimos anos, esse receio tem originado múltiplos estudos, ensaios, artigos e livros que alertam para o desemprego em massa graças às máquinas que vão roubar os nossos empregos.

No passado, tais receios acabaram por se mostrar infundados, sendo muitos os economistas e especialistas em vários domínios que continuam a sustentar que o mesmo irá acontecer na era da Inteligência Artificial, do machine learning e da automação no geral. No entanto, Daniel Susskind, professor em Oxford e co-autor, com o seu pai, do bestseller The Future of Professions [e sobre o qual o VER já escreveu], mostra nesta sua mais recente incursão na escrita porque é que desta vez é realmente diferente. A seu ver, os avanços na inteligência artificial significam que (quase) todos os tipos de empregos correm um risco cada vez maior.

O autor argumenta que as máquinas já não precisam de raciocinar como os humanos para os superarem. Cada vez mais, tarefas que antes estavam para além da capacidade dos computadores – desde o diagnóstico de doenças até à elaboração de contratos legais – estão agora ao seu alcance. Assim, a ameaça de desemprego tecnológico é real.

E, se assim for, como será possível prosperar num mundo com menos trabalho? Susskind advoga – e não é o primeiro a fazê-lo – que o progresso tecnológico pode trazer uma prosperidade sem precedentes, resolvendo um dos problemas mais antigos da humanidade: assegurar que todos tenham o suficiente para viver. O desafio será distribuir esta prosperidade de forma justa, limitar o poder crescente da Big Tech e dar sentido a um mundo onde o trabalho já não é ou será  o centro das nossas vidas.

The COVID-19 Catastrophe: What’s Gone Wrong and How to Stop It Happening Again

 Richard Horton

O livro “ácido” do editor de uma das publicações mais respeitadas na área da medicina – a The Lancet – foi terminado em Maio. Apesar de muita coisa ter acontecido desde então, uma boa parte encontra-se prefigurada no livro, a par de muitos alertas não estarem ainda a receber a atenção urgente a que Horton apela. A sua primeira crítica é simples e dirigida directamente aos decisores políticos, acusando-os de não terem respondido adequada e atempadamente às provas acumuladas e produzidas por muitos cientistas. Ou seja, caso o tivessem feito, quase tudo o que aconteceu ao longo destes últimos meses poderia ter sido evitado. E, mais grave ainda, é o facto de o autor acreditar que, pelo menos a Europa e os Estados Unidos – e ao contrário da China, Coreia do Sul, Taiwan e Singapura – não tenham ainda aprendido o que era suposto depois da terrível experiência a que temos estado expostos desde o deflagrar da pandemia. O editor da prestigiada revista médica receia igualmente que esta falta de aprendizagem signifique uma oportunidade perdida para reorientar radicalmente a forma como olhamos para a saúde pública, para a ciência médica e para a elaboração de políticas de saúde adequadas.

Para o autor, perdeu-se um tempo valioso enquanto o vírus se espalhava sem controlo, deixando os sistemas de saúde, sem a preparação devida, à mercê da avalanche de infecções que se seguiram. Com base nos seus próprios conhecimentos científicos e médicos, Horton delineia as medidas que devem ser postas em prática, a nível global, para evitar que este tipo de catástrofe se repita. Como escreve, “seria suposto vivermos numa época em que os seres humanos se assumem como a influência dominante no ambiente, mas a Covid-19 veio revelar a fragilidade das nossas sociedades e a rapidez com que os nossos sistemas podem vir a colapsar”.

E é crucial aprendermos todas as lições desta crise sanitária, e rapidamente, porque a próxima pandemia poderá chegar mais cedo do que pensamos.