O tema opõe críticos e defensores há várias décadas. Se para uns o prestígio e as mais-valias de se investir tempo e dinheiro num programa de MBA são inegáveis, para outros, as escolas de negócios que os administram consideram-nos apenas como um produto que tem de ser vendido, e de preferência, bem caro, a um conjunto de consumidores sedentos de poder e de expectativas financeiras bem elevadas. A resposta certa não é facilmente reconhecível e o debate promete continuar nas décadas que se seguem. Uma pequena viagem aos bastidores das três letras mais ambicionadas no currículo de qualquer executivo
POR
HELENA OLIVEIRA

“Será uma escola de negócios verdadeiramente uma escola de negócios se não oferecer um MBA?”, Stephen Hodges, presidente da Hult International Business School

A pergunta acima formulada dá origem a uma questão que, não sendo de todo nova, ganha, ciclicamente, novos contornos de importância: será que ser-se detentor de um MBA continua a fazer sentido no século XXI, ou o prestigio das três tão (re)conhecidas letras que qualquer profissional da gestão ostenta orgulhosamente no topo do seu CV tem vindo a decrescer?

Na verdade, esta questão não é de fácil resposta. Se nos determos nos relatórios que analisam o valor do MBA ou nos rankings que oferecem informação específica sobre as diferenças salariais, por exemplo, entre aqueles que o têm e os que não o têm, o seu ROI (Return On Investment) parece não suscitar dúvida alguma. Ser detentor de um Master in Business Administration não só confere prestígio, como aumenta em alguns zeros o pacote de compensações dos seus respectivos “proprietários”. Por exemplo e de acordo com o famoso ranking anual elaborado pela revista The Economist, dados de 2015 apontavam para que o salário médio pós-MBA rondasse os 100 mil dólares anuais, um aumento de 88% – sim, leu bem – face ao período anterior à frequência do mesmo.

O mais recente Alumni Perspectives Survey Report, já para o ano 2016 (mas que integra estatísticas e dados variados de anos anteriores também),e publicado pelo Graduate Management Admission Council (GMAC), considerado como a mais credível “fonte” no que a estas matérias diz respeito, oferece resultados similares. A partir de uma ampla pesquisa, e depois de entrevistarem 14,279 alumni que completaram o seu MBA em 275 escolas de negócios espalhadas pelo mundo, as estimativas apontam para um aumento do salário base, ao longo das duas décadas que se seguirão à sua graduação, num total superior a um milhão de dólares – comparativamente ao que receberiam caso não tivessem frequentado o programa em causa.

Mas e se assim é, por que motivo somos confrontados, em particular nos media mais especializados em questões relacionadas com a gestão e com a liderança, com dúvidas acerca do seu verdadeiro valor para os negócios e, em muitos casos até, com afirmações claras de que um MBA em pouco ou nada ajuda ao bom trabalho de um gestor ou executivo de topo?

Como afirmámos no início deste artigo, esta “dúvida” é formulada há várias décadas, e a primeira vez que foi publicamente anunciada corria o ano de 1959. Dois grandes relatórios, encomendados pela Ford Foundation e pela Carnegie Foundation (o desta última seria editado em livro), alertavam para a mediocridade dos MBA, considerando-os fracos e irrelevantes e argumentando que as suas matérias curriculares eram demasiado centradas em competências vocacionais. E uma das principais recomendações que faziam às escolas de negócios na altura era a de que se deviam tornar mais analíticas e significativamente mais rigorosas nas suas abordagens.

E se em muitos casos, as mais reconhecidas business schools seguiram alguns destes conselhos, houve contudo uma outra recomendação que não foi nem particularmente bem acolhida, e muito menos colocada em prática. Como escreve Rakesh Khurana, docente na Harvard Business School e autor de “From Higher Aims to Hired Hands: The Social Transformation of American Business School and the Unfulfilled Promise of Management as a Profession”, a ideia de que os negócios (e a sua gestão, é claro) se deveriam transformar numa “verdadeira” profissão, com um código de conduta próprio e uma ideologia clara sobre o seu papel na sociedade, nunca foi bem aceite.

Famoso ficou também um tema de capa da revista Business Week (já não disponível, mas citado por inúmeras fontes consultadas para este artigo), no final dos anos de 1980 que, a propósito do ranking dos programas de MBA nos Estado Unidos nessa altura, optou por recolher a opinião de recrutadores empresariais (e de estudantes do segundo ano [do MBA]), sendo que os primeiros lamentavam a incapacidade dos que frequentavam estes programas em saber comunicar, a sua excessiva confiança e dependência das técnicas matemáticas da gestão, em conjunto com as suas expectativas de se tornarem presidentes dos conselhos de administração das empresas em quatro semanas. Ironias à parte, foram várias as publicações na altura que começaram a analisar mais de perto os rankings em causa e a questão do MBA enquanto um produto mais comercial do que educativo começou a pairar no competitivo ambiente de negócios.

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É o MBA um produto e os estudantes meros compradores?

Na transição para o novo século, e com os escândalos protagonizados pela Enron e pela WorldCom, os executivos destas – e de outras empresas “mal comportadas” – passaram igualmente a estar no radar dos observadores, que não deixaram escapar o facto de os responsáveis pela ruína de gigantes empresariais serem, na sua maioria, detentores de MBA das mais reconhecidas escolas de negócios norte-americanas. E o mesmo cenário repetir-se-ia, já depois da crise financeira global em 2008, com a grande falência da “ética dos grandes gestores” – e das instituições que lideravam -, o que deu origem a uma subida de tom nas críticas à “educação dos executivos”.

Como refere um excelente artigo do The New York Times, publicado em 2009, foram muitos os que ciclicamente se insurgiram contra os conteúdos programáticos ensinados pelas escolas de negócios. “Alguns afirmavam que as escolas se tinham tornado demasiado científicas e desligadas das questões do mundo real; outros declaravam que os estudantes eram ensinados para conferir soluções precipitadas a problemas complexos; e muitos argumentavam que as escolas davam aos seus estudantes uma visão limitada e distorcida do seu verdadeiro papel – na medida em que estes terminavam o MBA com um enfoque na maximização do valor para os accionistas e com uma compreensão muito limitada das considerações éticas e sociais, essenciais á liderança nos negócios”.

A dúvida mantém-se e foi-se estendendo também aos empregadores. Em 2008, dois professores de Harvard iniciaram um extenso projecto de investigação que visava lançar luz sobre a evolução do “mercado dos MBA” ao longo das últimas décadas. O projecto daria origem ao livro “Rethinking the MBA: Business Education at a Crossroads” e os seus autores, Skrikant M. Datar e David A. Garvin, escreviam que apesar das empresas continuarem a valorizar a capacidade daqueles que tinham frequentado programas de MBA no que respeitava à análise de problemas complexos inerentes à natureza dos negócios, existia algo “em falta”. Numa entrevista publicada pela Harvard Business Review, Garvin afirmava que continuava a “existir a necessidade de se alargar o enfoque analítico dos programas de MBA, conferindo um ênfase mais vincado nas competências e no sentido de propósito e de identidade dos mesmos”.

Numa linha similar, outros relatórios comprovavam também que os próprios estudantes dariam as boas-vindas a uma aposta nas “competências de carácter”, as quais continuavam ausentes dos currículos académicos destes programas. Por exemplo e em 2007, o Aspen Institute Center for Business Education, visitou 15 escolas de negócios com o intuito de entrevistar os estudantes de MBA sobre as suas atitudes no que respeitava ao relacionamento entre negócios e sociedade. Os resultados do estudo apontavam para uma maior consciência, por parte dos entrevistados, das principais responsabilidades das empresas, juntando à maximização do lucro para os accionistas e à satisfação dos clientes, a “criação de valor para as comunidades nas quais estas operavam”, com 26% dos respondentes a expressarem um maior interesse num “trabalho que tenha potencial para contribuir para a sociedade” face a apenas 15% em 2002.

Todavia, e no mesmo estudo, os estudantes confessavam também que nem as escolas de negócio nem as empresas os tinham “convencido” que as questões ambientais e sociais poderiam contribuir para o sucesso financeiro das segundas. E mesmo com um maior número de estudantes, em 2007 e face a 2002, a acreditarem que iriam enfrentar conflitos de valores no seu local de trabalho, à medida que iam avançando no seu MBA, menos confiantes se sentiam de que a formação que lhes estava a ser administrada pela escola de negócios em causa os estaria a reparar adequadamente para gerirem esses mesmos conflitos.

Num artigo publicado no London Times, em 2009 (não disponível, mas citado por várias fontes e republicado na íntegra aqui), intitulado Harvard’s Masters of the Apocalypse, Philip Broughton, antigo estudante de Harvard e autor do livro “What They Teach You at Harvard”, escrevia: “Os Masters of Business Administration, essa classe de inchados e habituados a debitar jargão, de financeiros e consultores destruidores de valor fizeram mais do que qualquer outro grupo de pessoas para criar a miséria na qual nos encontramos (…) E é possível fazer uma lista dos maiores empreendedores da história recente, desde Larry Page e Sergey Brin da Google, a Bill Gates da Microsoft, sem esquecer Michael Dell, Richard Branson ou Lak-shmi Mittal, que não frequentaram nenhum programa de MBA. Mas e mesmo assim, a indústria continua a crescer e as escolas de negócios fornecem rendimentos vitais para as instituições académicas (…). E desde o Royal Bank of Scotland até ao Merril Lynch, ou da HBOS ao Lehman Brothers, os Mestres do Desastre deixaram as suas impressões digitais em todos os fiascos financeiros recentes”.

É certo que as inúmeras críticas que se fizeram sentir, essencialmente nos anos que se seguiram à crise financeira global, abalaram, de certa forma, o “valor” dos MBAs. Mas a ideia que vigora há já várias décadas de que as escolas de negócios optaram pela “venda de um produto” em detrimento da oferta de profissionalismo, ética e conteúdos relevantes aos seus “consumidores”, continua a ter muitos seguidores. Regressando a Rakesh Khurana e apesar do seu livro contar já com uns bons anos, muitos observadores continuam a concordar com as críticas que o professor de Harvard avançava na altura, em particular a de que “as escolas de negócios, outrora animadas e inspiradas por ideias profissionais e morais, foram conquistadas pela perspectiva de que os gestores são meros agentes dos accionistas e dependentes da ‘causa’ da partilha de lucros”, sendo que não é de todo surpreendente assistirmos – ou continuarmos a assistir – à ascensão da” maleficência e negligência das grandes empresas”.

Em suma, o rejuvenescimento intelectual e moral inerente à formação dos futuros líderes de negócios há muito que é considerado como crucial. Todavia, a questão mantém-se: será que todas estas críticas tiveram algum efeito nos vários protagonistas deste suculento mercado?

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MBA: um must-have ou um nice-to-have?

Num artigo publicado em Outubro de 2015 pela revista The Economist, e exactamente intitulado “Business Schools: Still a must-have”, a revista britânica escrevia que só nos Estados Unidos e no ano de 2012, 192 mil pessoas tinham completado o seu programa de MBA e que, em todo o mundo e em 2014, 688 mil tinham feito o GMAT, o exame obrigatório de entrada neste programa em específico. Apontando uma quebra comparativamente a 2008, ano em que 745 mil estudantes se dedicaram a estudar afincadamente para o GMAT, o artigo em causa, dedicado aos problemas de longo prazo dos MBA, sugeria também que existia um excesso de oferta destes programas, mas concluía que a sua importância se mantinha incólume. Mas, nove meses mais tarde, em Junho de 2016, o mesmo tema, na mesma revista, oferecia uma abordagem diferente: em “Nothing special: MBAs are no longer prized by employers” , questionava-se se tirar um MBA não era apenas uma perda de tempo (e de dinheiro) e destacava-se o discurso dos críticos que clamavam que a preponderância das instituições em todo o mundo que oferecem um MBA, ou algo similar, resultou num declínio dos padrões de ensino. E entre o resultado de um estudo que afirma que “apenas 7% dos graduados das 5500 escolas de negócio da Índia conseguem encontrar emprego”, outros argumentam que não são os MBAs que estão a perder o seu rigor, mas sim que é a maior facilidade ao seu acesso que está a alterar o seu valor aos olhos dos empregadores.

Assim, e entre defensores e críticos, a que conclusões chegou, realmente, o mais recente estudo sobre o ROI de um MBA, realizado pelo Graduate Management Admission Council, e que avaliou as perspectivas de 14,279 alumni, entre Outubro e Novembro de 2015, os quais representam mais de 275 programas de MBA, em 70 universidades espalhadas pelos quatro cantos do mundo, incluindo também Portugal?

  • A vasta maioria dos entrevistados afirmou que o MBA foi pessoalmente (93%), profissionalmente (89%) e financeiramente (75%) recompensador, que o recomendariam aos seus pares, sendo que nove em cada 10 garantiram voltar a fazê-lo, exactamente devido aos resultados atingidos, caso não o tivessem frequentado;
  • Em média, o investimento financeiro realizado por estes alumni será recuperado num período de quatro anos, sendo que as estimativas apontam para que estes ganhem, em média, 2,5 milhões de dólares (cumulativos) ao longo dos próximos 20 anos, o que se traduz em um milhão de dólares adicional face aos seus pares que não investiram num MBA;
  • As áreas de produtos e serviços (19%), finanças e contabilidade (19%) e tecnologia (17%) são as indústrias que mais alumni empregam, apesar de os mesmos “conseguirem” trabalhar em qualquer que seja o sector. Três em quatro alumni (73%) afirmaram que o MBA os ajudou a avançarem na sua carreira, com 59% a confessarem terem-no frequentado para aumentar o seu salário e 81% a declararem que o mesmo aumentou o “poder” dos seus rendimentos. Dois terços dos entrevistados mostraram-se satisfeitos com o seu emprego actual, bem como com o seu empregador, sendo que a satisfação e o número de horas trabalhadas semanalmente tendem a aumentar à medida que vão subindo degraus na hierarquia empresarial;
  • A maioria dos alumni afirmou igualmente que o MBA desenvolveu as suas competências em termos de análise qualitativa (88%), análise quantitativa (84%) e no que respeita às soft skills (76%). Adicionalmente, 80% asseguram que o MBA os ajudou a desenvolver o seu “potencial de liderança” e a aumentar as suas redes profissionais (70%). E se muitas das competências “soft” são consideradas essenciais em qualquer que seja o tipo de trabalho – comunicação, resolução de problemas e pensamento crítico, entre outras – a importância das mesmas varia consoante os níveis funcionais em que os gestores e/ou executivos se encontram.

Em suma, a resposta à pergunta que abriu este artigo, e depois de apresentados os números mais recentes face ao valor actual do MBA, parece estar dada, na medida em que parecem não existir dúvidas que aqueles que têm a possibilidade de o frequentar ganham em todas as frentes.

Mas resta saber se, para além dos “valores seguros” em termos de salários e satisfação com o trabalho, existem também valores morais e éticos para as empresas que os acolhem. Caso contrário, e à semelhança do que acontece desde os anos 50 do século passado, a questão do valor e dos valores inerentes a um MBA continuarão a ser tema de pesquisa. E também de discórdia.

Leia também nesta edição: Há novos degraus a subir para os que ambicionam ser CEO

Helena Oliveira

Editora Executiva