Com vista a apoiar as empresas na definição dos seus programas educativos, a Sair da Casca realizou um estudo entre professores, do pré-escolar ao ensino secundário, que avalia o contributo dado pelo meio empresarial à educação das crianças e jovens, concluindo que o mesmo ultrapassa a mera sensibilização, atingindo hoje uma mudança efectiva de atitudes. A evolução da relação entre escolas e empresas reflecte ainda uma tendência para alargar a abordagem às tradicionais temáticas da alimentação e do ambiente a desafios emergentes, como o envelhecimento ou os direitos humanos
POR GABRIELA COSTA

Os programas educativos desenvolvidos por empresas contribuem “não apenas para uma melhor informação dos alunos” mas, e sobretudo, para “uma mudança efectiva de comportamentos”. Esta é uma das principais conclusões do estudo “Mecenato Educativo: A perspectiva dos professores”, expressa por uma larga maioria (86%) dos professores auscultados pela Sair da Casca, com o objectivo de avaliar os impactos destes programas, bem como as necessidades mais prementes das escolas, no actual contexto do País.

O estudo, realizado pela Sair da Casca junto de mais de cem professores do ensino pré-escolar, básico e secundário, e recentemente divulgado, revela ainda que os docentes reconhecem os benefícios dos patrocínios e apoios disponibilizados pelo meio empresarial às escolas.

Tendo como finalidade apoiar as empresas na definição dos seus programas educativos, a consultora analisa, no documento concluído em Junho, o papel das empresas na educação, a importância e o impacto dos programas educativos liderados e financiados por empresas na comunidade escolar, a relação das escolas com os stakeholders, e o que mudou nas instituições de ensino, ao nível das temáticas prioritárias, dos suportes e dinâmicas utilizados e da comunicação associada aos projectos.

A partir de uma amostra que recolheu uma taxa de adesão de 10%, validando 118 respostas de docentes de 16 distritos nacionais – 9% do pré-escolar, 40% do 1.º ciclo, 30% dos 2.º e 3.º ciclos e 21% do ensino secundário, maioritariamente em escolas públicas (75%) -, o estudo assentou numa metodologia que incluiu a construção de um questionário online e a selecção aleatória de programas educativos da Sair da Casca; o envio de um e-mailing a professores de todo o país, dos vários ciclos de ensino; e a posterior análise quantitativa e qualitativa dos dados, reflexão a partir da qual se tecem recomendações, a divulgar numa comunicação às empresas.

Desafios emergentes no centro dos programas educativos

Um dos aspectos mais relevantes do estudo da Sair da Casca é verificar que relativamente às necessidades e centros de interesse das escolas, “a evolução é nítida e reflecte uma mudança cultural interessante”: nos últimos dez anos os temas relacionados com alimentação/nutrição e ambiente eram “os mais populares” junto dos professores, “de forma quase exclusiva”. Hoje, prevalece uma maior abertura e motivação para acompanhar temáticas como o envelhecimento da população, os direitos humanos, o empreendedorismo ou os valores éticos, conclui a consultora.

09072015_ProgramasEmpresariaisEducamParalelamente, é crescente a preocupação das escolas com a sua própria gestão, bem como com o incremento da colaboração com empresas para que, “através da cedência de voluntários ou da criação de conteúdos”, ajudem a melhorar o seu desempenho.

A Sair da Casca impulsiona há mais de vinte anos o desenvolvimento de programas educativos para apoiar as escolas na abordagem de temas como o ambiente, a reciclagem, a prevenção rodoviária ou a educação alimentar, sendo pioneira na implementação desta prática em Portugal, e tendo criado um código de conduta em 1994 para garantir o respeito pela autonomia da escola “como território educativo e não como território comercial”.

Hoje, o caminho percorrido permite que as empresas combinem “as suas competências técnicas com recursos financeiros”, e que disponibilizem à comunidade educativa “dinâmicas que incluem animações, jogos, programas online gratuitos e várias actividades que apoiam os professores no seu trabalho”, defende a consultora.

Os resultados do estudo “Mecenato Educativo: A perspectiva dos professores” comprovam isso mesmo, com 60% dos professores a afirmar que as empresas contribuem para a educação de crianças e jovens através de patrocínios e ofertas, mas também de projectos educativos e de apoio ao meio escolar. De referir que 30% dos professores inquiridos revelam desconhecer as vantagens que as organizações do sector privado podem trazer à formação académica e cívica da geração estudantil, constituindo assim um “público-alvo a esclarecer sobre a mais-valia destes projectos”.

Relativamente ao impacto dos programas educativos, 86% dos professores consideraram que os mesmos superam a mera sensibilização, contribuindo, efectivamente para uma mudança de atitudes e comportamentos nas crianças e jovens. Mudança essa visível através de aprendizagens individuais, incluindo a adopção de hábitos quotidianos sustentáveis, como reciclar ou desligar as luzes; mas também através de aprendizagens colectivas, com destaque para a mobilização da comunidade educativa; da partilha de informação com as famílias; e de uma maior responsabilização e sentido crítico, “característicos das gerações Y e Z” (respectivamente, os indivíduos nascidos após 1980 até meados da década de 1990, e os seus sucessores, nascidos até 2010), conclui o estudo.

Quanto à relação das escolas com as partes interessadas, e no que concerne pais e encarregados de Educação, assinala-se, pela positiva, que estes se mostram receptivos a actividades relacionadas com os projectos em que os filhos colaboram, e que as associações de pais “têm vindo a ajudar no estabelecimento de uma relação mais próxima escola/casa”. Contudo, e pela negativa, 43% dos professores não consegue comunicar com este público, alerta a Sair da Casca, devido a factores tão díspares como a dificuldade em conciliar horários, um meio envolvente não favorável, formação pessoal e académica baixa ou, simplesmente, a falta de espírito colaborativo.

Já o relacionamento com entidades oficiais, como câmaras municipais e juntas de freguesia, é favorável, com 64% dos professores a confirmarem a sua participação ou apoio pontual, por exemplo em acções de sensibilização ou disponibilização de transporte e materiais para eventos. O estudo indica que existe espaço para explorar e potenciar este envolvimento, particularmente com os municípios, mas que “ainda não existe uma fase de desenvolvimento específica” para estas entidades.

A Escola está a mudar, e com a ajuda das empresas

Com os olhos postos no futuro, na senda da sua “missão societal” assente numa actuação “orientada para resultados”, a Sair da Casca quis avaliar, no recente estudo, o que mudou na Escola.

[pull_quote_left]É crescente a preocupação das escolas com a sua própria gestão e com a colaboração com empresas, para melhorarem o seu desempenho[/pull_quote_left]

Os resultados revelam que actualmente a maioria das instituições de ensino está equipada com Web 2.0.. Em 73% dos casos analisados, existe nas escolas “uma geração de professores e de educadores que facilmente adoptam os suportes digitais”. Mas estes professores “precisam de conteúdos técnicos específicos, apelativos e que facilitem a preparação das aulas” – ou seja, de “suportes chave-na-mão”, conclui a consultora. Ainda assim, os suportes digitais já são utilizados não só como instrumentos de apoio a pesquisa e consulta, mas como ferramentas de aprendizagem que integram o dia-a-dia de professores e alunos.

Para além da evolução tecnológica, o que também mudou foram as temáticas a explorar nos projectos educativos: na amostra recolhida, 79% dos professores elegem a “cidadania”, reflectindo a evolução do papel da Escola enquanto “um importante contexto” para o seu exercício, através de preocupações transversais à sociedade, trabalhadas em áreas como a educação para os direitos humanos, a educação ambiental e o desenvolvimento sustentável, a educação rodoviária, a educação financeira, a educação do consumidor, a educação para o empreendedorismo, a educação para a igualdade de género e o voluntariado.

A mesma percentagem de professores afirma trabalhar, na sua escola, as questões relacionadas com a alimentação, e 74%, as problemáticas que dizem respeito ao ambiente. Ambos os temas são constantes há 15 anos, nota a Sair da Casca.

No entanto, os novos temas associados à mudança social e demográfica e ao contexto do País – como envelhecimento activo, agricultura e gestão e sustentabilidade ambiental – são agora “emergentes”, bem como as temáticas que implicam um novo – e essencial – modelo de gestão escolar, que integre a melhoria do desempenho das escolas em aspectos como eficiência energética ou reciclagem, ou promoção de iniciativas responsáveis, como hortas pedagógicas. Neste contexto, empreendedorismo social, cidadania e voluntariado, projecto de vida e valores, ou a importância da educação são temas referidos pelos docentes.

Face a estes resultados, é hoje estratégico “responder a novas preocupações”, o que permite inovar e fazer evoluir a gestão escolar, conclui o estudo da Sair da Casca. Há que questionar quais são os novos temas que respondem às necessidades, preocupações e expectativas quer das escolas, quer da sociedade, e que estejam alinhados com a estratégia da empresa. E há que avaliar em que medida a empresa pode contribuir para um melhor desempenho da escola.

Quanto a públicos-alvo, é necessário definir como se pode envolver as partes interessadas (pais, câmaras municipais e demais parceiros que possam dinamizar e tornar visíveis as acções), para gerar um maior impacto e eficácia dos programas educativos. Para além destas recomendações, é também táctico basear os suportes educativos em conteúdos online, mas assegurando alguma actividade presencial, e dinamizar desafios e concursos com prémios.

Já a postura face às empresas parceiras deve ser o mais transparente possível, clarificando-se, na mecânica de apresentação ou lançamento dos projectos, o seu esforço e contributo, e especificando o seu papel relativamente à participação ou apoio que presta a determinado programa educativo.

A Sair da Casca, que é a primeira empresa a actuar em Portugal na área da consultoria em desenvolvimento sustentável e responsabilidade social, já desenvolveu mais de 200 projectos educativos no País, desde 1994. Paralelamente a outras áreas de intervenção, como gestão da sustentabilidade ou inovação social, a consultora aposta na comunicação e, especificamente na comunicação escolar.

Na base desta aposta estão duas convicções: é na escola que “é criada a base dos conhecimentos que vão equipar as crianças e jovens para fazerem as suas escolhas e decidirem o seu futuro”. E as empresas “estão cada vez mais dispostas a assumir o seu papel” na educação para o desenvolvimento sustentável.


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Alunos empreendedores no Young VolunTeam

O Programa Young VolunTeam, na sua 3ª edição, é uma iniciativa da Caixa Geral de Depósitos, em parceria com a Sair da Casca e a ENTRAJUDA, que tem como objectivo sensibilizar a comunidade educativa para a prática do voluntariado como expressão de cidadania.

Dedicado a alunos do ensino Secundário, o programa (que reúne o apoio da Direcção-Geral da Educação e do Programa Juventude em Acção da Comissão Europeia), promove a importância da prática do voluntariado para o desenvolvimento de competências nos jovens em diferentes eixos, como inclusão social, educação, empreendedorismo, emprego e cidadania. A finalidade é contribuir para a consolidação de uma cultura de voluntariado e empreendedorismo social a nível nacional, impulsionando estas temáticas junto das escolas.

Para participar na iniciativa, cada escola deve formar um grupo constituído por um professor e um limite de 12 ‘alunos embaixadores’, que se destaquem pela sua capacidade de mobilização. Os estudantes “actuarão como agentes de mudança na escola, implementando as acções que lhes são propostas no âmbito do programa e disseminando os valores do voluntariado”, não só entre os colegas, mas também junto de alunos de outros ciclos, das famílias e da comunidade local.


Gabriela Costa

Jornalista