As velhas certezas, que ainda hoje sustentam os currículos das escolas, estão desfasadas e, na verdade, não sabemos o que as vai substituir. Como será possível equipar os jovens para a idade adulta se nem sequer é possível saber que empregos existirão no futuro ou como serão as suas condições de vida? A pensar no que não é possível prever, mas com a certeza de que os jovens de hoje precisam de desenvolver as suas capacidades individuais, uma “task force multistakeholders”, apoiada pela UNESCO, está a desenvolver, a partir de sete domínios de aprendizagem identificados, ferramentas adequadas para a sua implementação em qualquer lugar
© Stanford Social Innovation Review
Adaptado por HELENA OLIVEIRA

Saberão as escolas o que estarão a fazer os seus alunos daqui a 20 anos? Na verdade, não. De todo. E não acredite em ninguém que afirme que o sabe. O ritmo de mudança na sociedade e no local de trabalho é de tal forma acelerado que a única certeza que podemos ter é a de que o futuro será completamente diferente do que é hoje.

E este é um problema comum a escolas de todo o mundo. Como é que será possível equipar os jovens para a idade adulta se nem sequer é possível saber que empregos existirão no futuro ou de que forma serão as suas condições de vida? Na verdade, a situação é ainda pior do que se afigura. A lista de imponderáveis vai esticando: relações sociais e comunicação, a sua construção e distribuição, a cultura política e a governança, o envolvimento cívico, a própria natureza do trabalho – tudo está a mudar mediante formas sobre as quais podemos apenas especular. As velhas certezas, que ainda hoje sustentam os currículos das escolas, já estão desfasadas e, na verdade, não sabemos o que as vai substituir.

Na medida em que não sabemos o mundo que nos espera, as escolas deviam, muto provavelmente, concentrar-se em desenvolver as capacidades individuais e “deixar” a preparação vocacional para a aprendizagem em idade adulta e contínua, à qual é, na verdade, onde a mesma pertence. Este objectivo não é oferecido nas escolas da actualidade: o currículo tradicional é demasiado estreito, e áreas importantes das experiências humanas são postas de lado. Claro que é correcto conferir prioridade às línguas, à matemática e às ciências – todas elas disciplinas de extrema importância – mas quando áreas como as artes e a cidadania são consideradas como tendo um estatuto de menoridade, a verdade é que aspectos importantes do desenvolvimento pessoal estão a ser negligenciados.

Desenvolver a capacidades dos jovens na sua plenitude consiste num empreendimento por demais valioso, o qual nem sequer precisa de ser justificado. Mas também faz todo o sentido numa perspectiva de longo prazo. Quem é que estará melhor posicionado para ser bem-sucedido em futuros desconhecidos – aqueles que são versados apenas nas competências estreitas que constituem os conteúdos programáticos prioritários nos estabelecimentos de ensino da actualidade ou adultos “plenos” com um conjunto alargado de competências?

Têm existido inúmeras tentativas para reconceptualizar o currículo “normal” para uma base mais alargada. E uma das abordagens mais reconhecidas consiste nos Sete Domínios da Aprendizagem, produzidos pela Learning Metrics Task Force, uma parceria multistakeholder [da qual faz parte a UNESCO] que trabalha para melhorar os resultados de aprendizagem dos alunos em todo o mundo, com um enfoque específico no fortalecimento de sistemas de avaliação.

Fonte: Toward Universal Learning: What Every Child Should Learn. Montreal, PQ/Washington, DC, UNESCO Institute for Statistics/Brookings Institution

Todavia, e enquanto são muitos os que reconhecem a relevância de estruturas de abordagem como esta, o caminho para a sua ampla adopção é ainda muito longínquo. E tal está relacionado, em parte, com o “imperativo da avaliação”, no qual tanto as escolas como os alunos estão focados, e que assenta no conjunto de nas competências e conhecimentos que são tradicionalmente avaliados e, em particular, no sistema de testes de “risco elevado” que podem afectar o progresso dos estudantes ao longo do seu percurso escolar ou no seu acesso à educação superior. Por outro lado, e caso o trabalho em equipa não seja avaliado, o mesmo acaba por ser marginalizado na sala de aula.

[pull_quote_left]Claro que é correcto conferir prioridade às línguas, à matemática e às ciências – todas elas disciplinas de extrema importância – mas quando áreas como as artes e a cidadania são consideradas como tendo um estatuto de menoridade, a verdade é que aspectos importantes do desenvolvimento pessoal estão a ser negligenciados[/pull_quote_left]

Através da documentação sistemática das oportunidades de aprendizagens que os estudantes têm de desenvolver no que respeita às competências identificadas nos Sete Domínios da Aprendizagem. O que iria implicar o escrutínio dos currículos nacionais e dos programas escolares em termos da sua cobertura [relativa aos sete domínios em causa] através da recolha de informação sobre a alocação de tempo, recursos, input por parte dos professores, contributo para a avaliação e certificação relativa a cada um dos domínios, os dados que emergissem deste tipo de exercício forneceriam bases factuais para responsabilizar os sistemas educativos e as escolas, bem como para avaliar o quão bem estes facilitariam o desenvolvimento pleno dos jovens e os equipariam para a vida adulta.

E é precisamente o que defende Seamus Hegarty, professor na Universidade de Warwick e que assina este artigo. O autor foi presidente do denominado Standard Working Group of the Laerning Metrics Task Force e trabalha actualmente com a Brookings Institution (no Reino Unido)no projecto Breadth of Learning Opportunies através do denominado Center for Universal Education e em parceria com a Educational International.

E, como explica, o principal objectivo do trabalho que ali é feito tem como base o desenvolvimento de um conjunto de ferramentas que avaliam as oportunidades de aprendizagem ao longo dos sete domínios abertos aos estudantes, tanto nos currículos nacionais como nas salas de aula.

A primeira ferramenta aborda o nível das políticas implementadas. Ao analisar os programas curriculares, as práticas de avaliação e os documentos de políticas relevantes, tem como objectivo retratar sistematicamente o currículo desejado numa qualquer jurisdição (seja num país, numa província ou numa cidade). Para cada um dos sete domínios do LMTF, a ferramenta em causa detalha as orientações curriculares, constata se estas são normativas ou facultativas, especifica o tempo alocado a cada uma delas e especifica o seu papel nas avaliações e exames nacionais.

A segunda ferramenta, a qual foi desenvolvida e serviu de projecto-piloto com associações de professores no Quénia e na Zâmbia, examina a amplitude/abrangência dos domínios em causa da perspectiva dos professores. Concentra-se na preparação do professor e no desenvolvimento profissional contínuo, em particular no que respeita ao ensino dos sete domínios, aos recursos existentes no interior das escolas e ao tempo despendido nos diferentes domínios de aprendizagem.

[pull_quote_left]Não conseguimos prever que oportunidades de trabalho ou na vida em geral os estudantes que iniciam agora os seus percursos escolares terão em 2037, tal como não fazíamos ideia de que os alunos que entraram na escola em 1997 iriam ser capazes, hoje, de trabalhar em empresas como o Snapchat ou o Skype[/pull_quote_left]Já a terceira ferramenta, e ainda em desenvolvimento, tem como enfoque os próprios alunos e a “dimensão” das oportunidades de aprendizagem que realmente têm ao dispor nas escolas onde estudam. Uma estrutura abrangente para um currículo nacional não serve de muito até que as escolas a traduzam em termos práticos. O esforço, neste caso em particular, será o de documentar as oportunidades de aprendizagem de que os estudantes realmente gozam e estabelecer de que forma essas mesmas oportunidades vão ao encontro dos currículos nacionais e dos programas das próprias escolas.

Todas as ferramentas, incluindo esta última, serão testadas em projectos-piloto já este Verão, no Quénia e no México. Quando finalizadas, ficarão gratuitamente disponíveis e acompanhadas com notas e documentos explicativos que ajudarão na sua utilização.

O propósito destas ferramentas não é o de elaborar tabelas de classificação com o objectivo de fazer qualquer ranking por país ou “prescrever” a quantidade de tempo que deverá será alocada a qualquer um dos sete domínios. Ao invés, ao documentar o quão amplas ou estreitas são as oportunidades de aprendizagem dos estudantes, poderão fornecer uma base para considerar se (e até que ponto) o que o currículo oferece, confere, de facto, um conjunto alargado de experiências de aprendizagem e quais as lacunas que deverá abordar.

Tomemos como exemplo uma área como a da cidadania. Alguns países abordam já a cidadania como uma disciplina específica, em particular ao nível do secundário, ao passo que em outros locais a mesma é ensinada como “aprendizagem difundida” em várias áreas de estudo. Os dados que serão fornecidos através da ferramenta dedicada às políticas de ensino poderão possibilitar considerar se os estudantes possuem as oportunidades adequadas, tendo em conta toda o currículo escolar, para se desenvolverem enquanto jovens cidadãos. Já no que respeita à ferramenta mais centrada nas escolas, a ênfase será a de demonstrar a profundidade da política adoptada, sendo que os professores poderão mostrar o quão bem ou mal equipados estão para “ensinar” uma cidadania com impacto aos seus estudantes. As três ferramentas combinadas poderão, assim, estimular, o debate público sobre os conteúdos ministrados pelas escolas e contribuir para a sua revisão ou reforma.

Como afirma o professor Hegarty, a esperança reside no facto de estas ferramentas poderem ajudar os sistemas educativos, desde os decisores políticos aos professores, a examinar os seus currículos e a alcançar a clareza necessária sobre a abrangência da aprendizagem dos alunos.

Não conseguimos prever que oportunidades de trabalho ou na vida em geral os estudantes que iniciam agora os seus percursos escolares terão em 2037, tal como não fazíamos ideia de que os alunos que entraram na escola em 1997 iriam ser capazes, hoje, de trabalhar em empresas como o Snapchat ou o Skype.

O futuro tem inúmeras avenidas possíveis para o desenvolvimento da vida e do trabalho. E precisamos começar a oferecer aos estudantes um domínio o mais completo possível de experiências e de hipóteses de aprendizagem, o mais rapidamente possível, para que os mesmos se possam preparar e equipar para navegarem neste mundo em acelerada mudança.

Adaptado, com permissão de Developing Breadth of Learning. © Stanford Social Innovation Review 2017.