Promovendo a educação para o empreendedorismo, a literacia financeira e competências para a empregabilidade, a Junior Achievement tem na sua génese o voluntariado, através do qual cria uma ponte entre o mundo académico e o empresarial. Em entrevista, a CEO da organização em Portugal explica como, ao conhecerem a realidade das empresas ainda na escola, os jovens adoptam uma atitude adequada ao mercado de trabalho, “com menos medo de arriscar e inovar”
POR GABRIELA COSTA

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“Não se nasce empreendedor. Aprende-se”
Na Junior Achievement, o empreendedorismo é uma atitude de vida que se constrói e desenvolve. Inspirar e preparar os jovens para terem sucesso numa economia global é o grande desafio da organização sem fins lucrativos, a maior e mais antiga a nível mundial na área educativa.

Desenvolvendo o empreendedorismo, o gosto pelo risco, a criatividade, a responsabilidade, a capacidade de iniciativa e a inovação, a Junior Achievement Portugal (JAP) empenha-se, desde 2005, em levar às escolas programas que incutem nas crianças e jovens o espírito empreendedor. Para a congénere portuguesa da JA, estes são “requisitos obrigatórios para o desenvolvimento de Portugal e para o aumento quantitativo e qualitativo de iniciativas empresariais”.

Em entrevista ao VER, Erica Nascimento, CEO da Junior Achievement Portugal, sublinha a importância de aproximar o mundo académico do mercado de trabalho, num contexto em que “uma das principais justificações para as elevadas taxas de desemprego é a falta de comunicação que existe entre as escolas e as empresas”. Os programas da JAP permitem precisamente que alunos tenham, ao longo do seu percurso académico, “uma preparação muito maior para enfrentar desafios e sucessos”, através da educação para o empreendedorismo.

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Erica Nascimento, CEO da Junior
Achievement Portugal
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Para a Junior Achievement Portugal, o empreendedorismo é uma atitude de vida que precisa de ser construída e desenvolvida. De que modo é que os programas de educação para o empreendedorismo que levam às escolas inspiram e preparam as crianças e jovens para terem sucesso futuro, numa economia global?
Os programas da Junior Achievement (JA) são muito práticos e visualmente apelativos, e pretendem complementar o currículo tradicional nas escolas e universidades, tornando-os mais aliciantes e mais próximos de conceitos do dia-a-dia e do mercado de trabalho. O objectivo é que os alunos tenham ao longo do seu percurso académico, pelo menos, três contactos com educação para o empreendedorismo. A 4ª experiência já será em contexto real e os alunos terão, então, uma preparação muito maior para enfrentar desafios e sucessos.

A JA tem programas próprios para cada idade, que os professores implementam em parceria com voluntários, representantes do mundo empresarial. A ponte que criamos entre estes dois mundos – académico e empresarial – é a forma ideal de levarmos o empreendedorismo até aos nossos alunos. Ao terem contacto com as empresas desde cedo, e ao conhecerem esta realidade ainda na escola, perdem alguns receios, adoptam a atitude que o mercado vai esperar deles, escolhem as profissões que no futuro vão existir e ser mais relevantes e criam trabalho, com menos medo de arriscar e serem inovadores.

Enquanto organização congénere da maior e mais antiga organização mundial educativa sem fins lucrativos, acreditam que o empreendedorismo, o gosto pelo risco, a criatividade, a responsabilidade e a inovação “são requisitos obrigatórios” para o desenvolvimento de Portugal e da iniciativa empresarial. Qual vem sendo o contributo da JAP na formação de uma nova geração de gestores e líderes empresariais éticos?
A Junior Achievement prepara as gerações futuras. Através dos seus programas, torna os jovens mais empreendedores, com mais apetência e aptidão para criarem os seus próprios negócios, arriscar e serem felizes, porque fizeram escolhas mais conscientes e acertadas ao longo da sua vida, como nos confirmam os estudos internacionais que realizamos.

Acreditamos que estamos a deixar uma semente que dará fruto nas próximas gerações, quando os nossos alunos entrarem no mercado de trabalho. Se olharmos para os maiores gestores e líderes da actualidade, identificamos facilmente as competências que estimulamos nos nossos alunos.

Que relevância assume no projecto o voluntariado, através do qual envolveram, desde 2005, mais de 6 mil pessoas, na concretização de experiências empreendedoras a 136 500 alunos?
A promoção dos três pilares fundamentais da JA – educação para o empreendedorismo, literacia financeira e competências para a empregabilidade – tem na sua génese o voluntariado. Defendemos que é responsabilidade de todos a preocupação, hoje, com as gerações futuras. E o papel que as empresas podem assumir neste âmbito é crucial.

Uma das principais justificações para as elevadas taxas de desemprego é a falta de comunicação que existe entre as escolas e as empresas. As escolas preparam os seus alunos para profissões que vão deixar de existir, para um mundo que está totalmente diferente. As empresas procuram competências que não estão a ser desenvolvidas e trabalhadas nas escolas.

A JAP, através dos seus voluntários, cria pontes entre os dois mundos que estão, de uma forma incompreensível, fechados sobre si mesmos e ainda muito afastados. Acreditamos que a presença de voluntários, que representam o mundo empresarial, é uma das razões do sucesso da história da JA, quase centenária.

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A formação da JAP abrange conteúdos programáticos em áreas como cidadania, ética, desenvolvimento de carreiras ou literacia financeira. Que programas destaca, entre os inúmeros que desenvolvem para o ensino básico, secundário e universitário, face ao seu impacto no actual contexto socioeconómico?
Através dos nossos programas, dentro e fora de sala de aula, procuramos desenvolver os três pilares referidos, adaptando-os à idade dos alunos e ao currículo escolar. Em todos os programas da JA pretende-se, acima de tudo, o desenvolvimento nos alunos de competências empreendedoras fundamentais em qualquer situação profissional que venham a ter.

Quanto ao impacto no actual contexto socioeconómico, em que é necessário criar cada vez mais trabalho (preocupação que é claramente sentida e manifestada pelos nossos jovens), destaco quatro: “É o meu negócio!”, “A Empresa”, “Start Up Programme” e “Braço Direito – um dia no teu futuro!”

Logo no 3º ciclo do ensino básico começamos a dar noções de empreendedorismo associado a uma ideia inovadora, à criação de um projecto, às oportunidades de mercado, ao planeamento, à gestão de um orçamento e à criação de equipas multidisciplinares. Assim, no “É o meu negócio!”, no 7º ano, os alunos já têm de identificar as suas características de empreendedores e criar um projecto de sala de clube juvenil na sua escola, que acrescente valor ao que já exista na sua escola.

As iniciativas “A Empresa” e “Start Up Programme” pretendem que os alunos criem e desenvolvam ideias de negócio inovadoras e com potencial de mercado, durante um semestre ou um ano lectivo, no ensino secundário e universitário, respectivamente. Mas há diferenças: No primeiro, e porque os alunos têm 15 a 21 anos, estamos a falar de um programa fundamentalmente educativo, mas que pretende colocá-los em situação de “aprender, fazendo”, no ambiente protegido e controlado que é a escola. Os alunos passam por todas as etapas de um ciclo empresarial, desenvolvendo competências em cada uma delas: liderança, tomada de decisão, trabalho em equipa, comunicação oral, não aversão ao risco.

No segundo já se pretende que os alunos possam realmente usufruir do programa para ter uma experiência prévia de criação de um negócio. O objectivo, em ambos os programas, é que os alunos arrisquem e errem e, com esses erros, aprendam, se possível, ainda antes da primeira experiência realmente a sério, no mercado de trabalho.

Finalmente, no “Braço Direito – Um dia no teu futuro!”, alunos entre os 15 e os 25 anos acompanham um profissional, no seu local de trabalho. Este programa de um dia, que já transformou muitos jovens, dá-lhes as ferramentas e os conhecimentos necessários para fazerem escolhas acertadas (e serem naturalmente mais felizes, ao fazê-lo), em momentos de tomada de decisões difíceis, em termos vocacionais e profissionais, com impacto no seu futuro.

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Como comenta o facto de a JAP ter sido distinguida em 2014, e pelo 6º ano consecutivo, com o Model Nation Award, prémio que reconhece as organizações membros da rede europeia pela sua qualidade na implementação de programas de educação para o empreendedorismo? 
Para nosso orgulho e motivação, a JAP tem sido muito bem reconhecida e distinguida no seio da Junior Achievement-Young Enterprise Europe (JA-YE Europe) e Worldwide. Logo nos primeiros anos, fomos apontados como um caso de sucesso por sermos a organização que mais cresceu num menor espaço de tempo.

Ser-nos atribuído, pelo 6º ano consecutivo, o Model Nation Award é uma honra, naturalmente, que nos dá ânimo para continuar, fazendo mais e melhor. Mas, fundamentalmente, aumenta a nossa responsabilidade no papel relevante que acreditamos que temos desempenhado na promoção de uma cultura empreendedora e empresarial no nosso país. Dá-nos também o dever de sermos cada vez mais profissionais e atentos ao que se passa nas escolas, com os nossos alunos e professores, nas empresas, com os nossos voluntários, associados e parceiros, e com os nossos Alumni, garantindo que a fantástica experiência que têm connosco se prolonga e reflecte no seu sucesso pessoal e profissional.

Que valores essenciais transmitem a estas crianças e jovens, e de que modo é que a cultura de empreendedorismo que praticam é primordial na formação de uma nova geração capaz de transformar os enormes desafios da globalização, em prol de uma sociedade mais sustentável?
Entre os valores inerentes ao empreendedorismo, como a liderança, a tomada de decisão, o trabalho em equipa, a responsabilidade individual, o não ter medo de arriscar, a comunicação oral, o procurar oportunidades e lacunas, a iniciativa… escolheria todos. Acreditamos que é este conjunto de competências que farão dos nossos jovens melhores cidadãos no futuro, e profissionais melhor preparados para uma competitiva economia global.

Que balanço faz da actuação da JA a nível global, hoje presente em 121 países, através de programas de empreendedorismo que abrangem, anualmente, mais de 10 milhões de crianças e jovens de todas as idades?
A nível global a Junior Achievement tem tido um crescimento, quantitativo e qualitativo, muito grande. Tem também tido um reconhecimento grande por parte de organizações europeias e mundiais. A JA é imediatamente associada a questões de empreendedorismo, empregabilidade, responsabilidade social ou voluntariado.

Há uma preocupação grande com o tema do desemprego jovem e o alinhamento com as estratégias nacionais e mundiais neste âmbito. Os programas da JA têm também acompanhado as evoluções naturais das escolas e dos alunos, sendo, por exemplo, cada vez mais digitais. Os manuais são agora plataformas, estão disponíveis para smartphones e outros dispositivos.

Há cada vez mais empresas a lançarem-nos desafios nas áreas das chamadas STEMs (Science, Tecnology, Engineering, Maths), em eventos que se  focam na promoção de competências de resolução de problemas e inovação, através de um desafio específico  que os alunos têm de resolver num curtíssimo espaço de tempo. Esta ligação que a JA faz entre a educação e as empresas ajuda os alunos a desenvolverem competências fundamentais para o mercado de trabalho, permitindo-lhes aplicar a sua aprendizagem académica na vida real.

Alunos JA garantem emprego
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A Junior Achievement investe constantemente em pesquisas sobre o seu impacto. Ao longo dos anos, o número de alunos JA que entram na força de trabalho e participam na economia tem vindo a aumentar, e a organização controla hoje, a longo prazo, os impactos dos seus programas.

Segundo a JAP, estudos recentes demonstram que 14% dos Alumni da Junior Achievement (Johansen 2010) estão envolvidos em actividades empreendedoras. De acordo com um estudo de impacto do Boston Consulting Group (BCG, 2011), alunos que participaram nos programas da Junior Achievement são 25% menos propensos a ficar desempregados após a licenciatura, comparativamente a alunos ‘não-JA’.

Gabriela Costa

Jornalista