O impacto social da crise “veio questionar profundamente o modelo da sociedade ocidental”, e foi aí que nasceu “o terreno fértil para extremismos de direita e de esquerda e líderes populistas, o que “complica muito a resposta a problemas globais que exigem concertação”. Numa intervenção admirável sobrea falta de valores numa economia de mercado sem contraponto moral, Raúl Galamba defendeu, esta semana, que “precisamos de um upgrade que reintroduza limites onde o mercado (sozinho) não funciona para servir a sociedade”
POR 
GABRIELA COSTA

Assumindo-se “um verdadeiro crente nas vantagens de uma economia de mercado como se ensina nos cursos de economia” – com princípios básicos de funcionamento e modelos potentes para explicar a realidade, incluindo a criação de incentivos que “fazem aumentar a produtividade, crescer a economia e, no final, melhorar o bem-estar”, Raúl Galamba abordou esta semana, em Lisboa, o “reverso da medalha” de um tema nada fácil e sobre o qual, alerta, não pretende fazer polémica.

Sob a temática “O mercado e os seus limites morais: Governance, regulação e valores”, e a convite da ACEGE para ser o orador do seu último Almoço-debate, realizado a 24 de Maio, o Director Emeritus da McKinsey & Company começou por citar o economista Steven Levitt para avaliar a série de teses sociais (essas sim, polémicas) que o autor do livro “Freakonomics” sustenta, em 2005, e que relacionam de uma forma muito directa as alavancas de mercado com aquilo que se passa no âmbito social. Segundo o economista de Chicago, “a moral basicamente representa a forma como nós gostaríamos que o mundo funcionasse. A economia representa a forma como ele realmente funciona”. Sublinhando a brutalidade da frase, Galamba comenta como a tese de Levitt “implica uma leitura absolutista do papel dos incentivos desprezando quaisquer juízos morais”.

Dirigindo-se à plateia de gestores católicos para sugerir que, naquela sala, “é fácil defender que o mundo funciona também com base em julgamentos morais”, pois, quando no centro estão decisões “tomadas por homens capazes de julgamentos sobre o que está certo e o que está errado, não há outra solução”, o consultor defende “uma tese que não questiona a de Levitt”: é que “mesmo que a lógica pura económica não tenha moral”, não se pode nunca “deixar que os méritos dessa lógica extravasem o domínio dos problemas onde a economia resolve, mas onde a moral é necessária”.

Não se pode nunca deixar que os méritos da lógica pura económica extravasem o domínio dos problemas onde a economia resolve, mas a moral é necessária

E, considerando que esses problemas “são os mais complexos e os que enfrentamos todos os dias, nas nossas empresas e na vida em sociedade”, Raúl Galamba sustenta a sua tese ilustrando quatro pontos complementares:

. O “triunfo do mercado”, sobre o qual comenta como de uma forma relativamente rápida (“foram só trinta anos”) as economias de mercado vieram assumir-se realmente como a única solução, e adquiriram “uma primazia tal que nos anestesiaram para os efeitos secundários desta lógica” – aquilo a que se poderia chamar “uma certa indiferença ou insensibilidade moral”, na linha defendida por Levitt em “Freakonomics”.

. Um conjunto de casos concretos do mundo empresarial, todos eles recentes, que demonstram “algumas implicações desta indiferença” e questionam “como foi possível tudo isto acontecer”.

. Um “desvio”, para estabelecer a relação sobre “como esta indiferença moral contamina a sociedade e a própria sociedade contamina o âmbito das empresas”.

. E, “porque somos cristãos e porque temos esperança”, os desafios e oportunidades que, “como gestores e empresários temos nas nossas mãos e que podem fazer a diferença”, através de algumas propostas concretas que o Director Emeritus da McKinsey propõe ilustrar.

O despertar doloroso do sucesso da economia de mercado

Socorrendo-se de casos práticos para ilustrar “problemas muito complexos” que não domina na sua totalidade, pois é “acima de tudo um prático da gestão de empresas”, Raúl Galamba começa por contextualizar: “recuemos trinta anos. Foi uma década tremenda, Thatcher foi eleita em 79 e, um ano depois, Reagan foi eleito nos EUA. Isto depois de uns anos 70 muito complicados, em que os mercados sentiram a crise do petróleo”.

Para o orador, “estes dois líderes vieram defender uma mesma ideia: que eram os mercados, e não os governos, a chave do crescimento. E mais ainda, eram a chave da própria liberdade e o bem-estar social e o progresso seriam uma consequência disso”. Como conclui, “tanto o Reaganomics como o Thatcherism tinham uma mesma lógica de supply-side economics” – uma lógica de redução de impostos, redução de custo do trabalho, desregulamentação e privatizações em escala, para aumentar a eficiência dos mercados e, por essa via, promover o crescimento, explicita.

O sucesso da lógica de mercado de alguma maneira anestesiou a sociedade

Ainda nos anos 80, “assistimos a outros acontecimentos absolutamente extraordinários”, como a queda do muro de Berlim em 89, a dissolução da União Soviética no final de 91, ou a política de easy money da reserva federal americana. Marcado do ponto de vista político, este período deu ainda lugar ao surgimento de líderes como Tony Blair e Bill Clinton, “que matizaram de uma série de formas estes princípios”.

A partir do início dos anos 80 os mercados “evoluíram num bull market muito forte”, com “uma valorização na ordem dos 10%, em média, ao longo dos trinta anos [até ao irromper da crise financeira de 2008]”. Como sublinha o Director Emeritus da McKinsey, “o rebentar da borbulha do dot com e depois o 11 de Setembro provocaram uma estabilização, mas não uma queda, e o mercado começou outra vez a subir até à crise. Portanto, esta década de ouro só acabou realmente em 2008, com o colapso do Lehman Brothers”, o qual marca a crise financeira que cumpre dez anos em Setembro próximo.

Serve esta resenha sobre a economia de mercado para demonstrar que este período de trinta anos “teve um impacto enorme na perspectiva que as sociedades tinham dos mercados” (em particular dos financeiros), e “quase sem nos darmos conta”. Desde logo “os bancos foram rotulados como os maus da fita, porque tinham provocado a crise e porque depois muitos deles exigiram injecções de capital que foram um esforço enorme para o capital público”.

Mas, “pior que isso (e o mais importante para esta discussão), o impacto social da crise associado ao aumento do desemprego, à austeridade imposta pelos gastos do Estado, à recuperação assimétrica dos mercados e ao agravamento das desigualdades – um tema que começa a estar finalmente na agenda -, veio questionar profundamente o modelo da sociedade ocidental”, recorda Galamba. E foi aí que nasceu “o terreno fértil para muitos dos problemas que agora enfrentamos: extremismos de direita e de esquerda e aparecimento de líderes populistas, o que afectou quase todos os países da UE (vimos isso na Holanda, Alemanha Itália, etc.) e também os EUA. “Naturalmente”, esta conjuntura “complica muito mais a resposta a problemas globais que exigem justamente uma concertação e uma visão de futuro diferente”.

O problema da moralidade prende-se com políticas e comportamentos das empresas que promovem ou prejudicam o progresso social

Chegados aqui, importa regressar ao ponto de partida para questionar: “como é que isto aconteceu? E porque aconteceu sem que quase nos déssemos conta? A explicação que Raúl Galamba propõe é que “o sucesso desta lógica de mercado, destes trinta anos, de alguma maneira anestesiou a sociedade. E, pior ainda, com a queda do muro de Berlim, também perdeu o contraponto moral”, pois “não havia ninguém a fazer o discurso contrário”.

Trinta anos depois “o despertar foi doloroso: as regras de mercado afinal não tinham chegado, tomaram-se decisões erradas, esconderam-se problemas, o Estado já não protegiaos cidadãos”. E se há hoje facto inquestionável é a perda de confiança dos cidadãos nas instituições.

Corrupção: de Madoff ao Facebook 

Haverá sempre ciclos económicos (e neles crises, por vezes). Mas a questão não é essa, diz Raúl Galamba. O problema da moralidade prende-se com aquilo que as instituições fazem durante cada ciclo, ou, por outras palavras, as atitudes que as organizações e empresas têm nas fases negativas e positivas, “com políticas e comportamentos que promovem o progresso social ou, pelo contrário, que são inocentes, clinicamente puras e que, no final, prejudicam o progresso social”.

Ora, parece evidente que nestes últimos trinta anos “os mercados não têm boa nota neste capítulo”, defende. E, portanto, “precisamos não de descartar o mercado – não é disso que se trata -, mas como que de um upgrade que reintroduza limites morais onde o mercado (sozinho) não funciona para servir a sociedade humana”.

E, “para ilustrar a falta deste upgrade, não é difícil encontrar casos, quase todos com rótulos de escândalo”, já que “há um sentimento quase de satisfação social sobre estes escândalos empresariais”, comenta Galamba. Para, “esperançosamente”, dar uma ideia da amplitude (e da gravidade, nalguns casos) “das situações que temos tido”, o Director Emeritus da McKinsey elegeu de forma aleatória uma série de exemplos internacionais, todos recentes.

Situações que só acontecem quando muita gente faz parte delas impressionam, porque não se trata de ter maças podres, mas de algo que envolveu a própria organização

No que respeita a fraudes contabilísticas e financeiras, são de destacar, entre outras empresas no sector do Retalho, por exemplo, a compra da Autonomy pela HP, as previsões da Olympus ou, no início da crise financeira, o conhecido caso Madoff (com o seu esquema de Ponzi).

A Volkswagen perdeu “um terço do seu valor” em Setembro de 2015, devido ao incumprimento da regulamentação do mercado. Numa “fraude que envolveu muitos bancos”, o crime de manipulação de mercado manchou o sector da banca, com o Barclays a ser o primeiro banco a confessar, acabando “por entregar todos os demais”, um escândalo que rebentou nos finais de 2013. Inúmeros casos de corrupção e pagamento de subornos foram referenciados em todo o mundo. Já o HSBC e o BNP Paribas foram multados por lavagem de dinheiro nos últimos anos, “com uma mão pesada”, recorda Raúl Galamba. A Equifax e o Facebook (que lesou os seus 90 milhões de clientes, com o recente escândalo associado à empresa de dados Cambridge Analytica) saltam à vista no que concerne a utilização indevida de informação de clientes.

A culpa é da falta de capacidade dos agentes para discernir, quando esquecem os limites morais e ficam à mercê da sorte, como um carro sem travões

Sobre más práticas comerciais, o orador do Almoço-debate da ACEGE ilustrou casos do sector financeiro e dos bens de consumo. Finalmente, e no que respeita o envolvimento em negócios não éticos, é de destacar o caso da Google em que “cinco mil colaboradores assinaram uma petição” para suspender um projecto comercial que visava que a gigante tecnológica trabalhasse para o Pentágono, ajudando-o “a desenvolver projectos associados aos drones e à sua capacidade ofensiva”. Mas também más práticas na área da indústria farmacêutica, através de instituições que compram outras instituições e que mudam os preços de um dia para o outro em mais de 1000%, associadas a doenças raras, o que “naturalmente tem implicações brutais” nos doentes. Ou ainda o caso de dois bancos nos EUA que, nos últimos meses, “foram assinalados como tendo uma disparidade de assimetrias de compensação entre o gender gap”, e que Raúl Galamba refere “por representarem o tema mais abrangente das assimetrias de rendimento entre sectores e entre realidades económicas”.

Entre os distintos comentários que “esta pequena amostra” de um mundo empresarial cheio de más práticas empresariais merece, Raúl Galamba realça o facto de serem muitos, e também no terceiro sector; de se passarem em todos os países e em todos os sectores; de terem vários níveis de gravidade, e consequentemente várias escalas de visibilidade; de serem situações muito diferentes, umas mais óbvias que outras (porquanto em muitos casos de corporate scandals não era evidente que não se estava a cumprir a lei – por exemplo, “não foi por não cumprir a lei que a Lehman caiu”, e há áreas, como as políticas de pricing ou de RH, onde não há regras escritas, sendo que é nesse espaço, “do domínio da ética e do discernimento, que ficam os casos mais complicados”).

Por último, o consultor confessa que lhe chamam muito a atenção todos os escândalos “que envolvem muitas pessoas”, isto é, situações “que só acontecem quando muita gente faz parte delas”. O que impressiona porque “não se trata de ter numa organização um par de pessoas que erraram num julgamento (aquilo a que se chama as maçãs podres), mas sim de algo que, “de facto, envolveu a própria organização”, como fica patente em alguns casos que Galamba referiu.

Os debates éticos entre corromper ou discernir

Na óptica de Raúl Galamba, uma perspectiva mais liberal questionaria se em todos estes casos o problema foi o mercado. Ou se foram culpa do mercado. Mas, quando fala dos limites morais do mercado, o orador acredita que, e antes pelo contrário, “a culpa é da falta de entendimento dos agentes” que praticam no mercado uma transacção de um bem ou de um serviço sem lhe associarem “um bom entendimento das regras não escritas”. Ou seja, é “da falta de capacidade para discernir, quando esquecem os limites morais e ficam à mercê da sorte, como um carro sem travões”.

É muito ineficiente tentar cumprir tudo pela lei e, pior ainda, pode ser contraproducente

Neste contexto, impõe-se a pergunta: como é que hoje em dia se lida com estas situações? Para Galamba, do lado das empresas, através do compliance, “que foi inventado para apoiar as organizações a garantir que cumprem a lei”, e cuja importância cresceu de uma forma “tremenda”. Mas também através do governance, área onde “se têm tentado encontrar formas de melhorar a capacidade de discernimento das organizações. Já do lado do Estado, o “law enforcement, que é um elemento dissuasor importantíssimo”, não chega: “é muito ineficiente tentar cumprir tudo pela lei e, pior ainda, pode ser contraproducente”.

Analisando a dinâmica da relação entre aquilo que se passa no mercado e o que se passa na sociedade, “à primeira vista, com estes casos parece que ficámos todos mais alerta”. Mas a ideia de que a sociedade está, por essa razão, a ficar mais exigente “pode ser algo optimista”, defende: “há um factor de efeito pouco óbvio, que tem que ver justamente com o funcionamento dos mercados”.

É que ao longo das últimas décadas “o impacto do crescimento económico no progresso, associado ao tal triunfo da lógica do mercado, transportou para a sociedade valores e formas de funcionar que são importantíssimos”, mas que ainda não tinham encontrado aplicação na mesma. “Habituámo-nos a raciocínios económicos e, sem darmos por isso, começámos a usa-los para tudo: nos bens e serviços que consumimos, em tudo o que faz parte da nossa vida. E por essa via hoje em dia há muitas poucas áreas onde, por lei, o mercado não pode entrar”, conclui o Director Emeritus da McKinsey, ironizando: “não se podem comprar órgãos humanos, não se podem comprar votos, não se podem comprar árbitros (não se podem…), mas quase tudo o resto se compra”.

Dando alguns exemplos de como esta lógica de mercado dominou as mais variadas (e impensáveis) áreas, do negócio do plasma aos Golden Visa, passando pelas barrigas de aluguer, pela venda de serviços espirituais por organizações comercialmente agressivas, pela monetização das filas de espera ou pelos incentivos pagos “para que os nossos filhos leiam, estudem ou tirem boas notas”, o consultor cita o livro “What Money Can’t Buy, The Moral Limits of Markets”, do professor de Harvard Michael Sandel, “que defende que, para discernir se o dinheiro pode ou não comprar, há dois debates éticos a ter”.

O primeiro, se a transacção suscita um problema de desigualdade, isto é, quando se paga pela doação de sangue ou pela esterilização de uma mãe. “A decisão é livre? Porque se essa pessoa vive condicionada por recursos, não é”, diz. O segundo, se o facto de realizar a transacção corrompe o próprio bem – “quando se dá sangue não se trata apenas de dar sangue, há um acto de solidariedade. E esse fica corrompido se a maior parte do sangue realmente é pago”. Por outro lado, questiona, “os vistos Gold corrompem ou não o papel de cidadania?”

Para Raúl Galamba, não há uma resposta única para estes debates, porque “o que está em causa é justamente uma avaliação dos valores da sociedade”. Mas é muito importante discuti-los e se não tivermos este critério dos valores, “se for só a lógica de mercado, vamos precisar cada vez mais de leis para dizer às pessoas o que está certo e o que está mal”.

Em conclusão, “uma forma de pensar limpa dos mercados, que parece tão apelativa e elegante, pode ser realmente insidiosa quando transposta para a vida em sociedade”. E “numa sociedade que está contaminada por isso”, dificilmente será possível que as empresas tenham critério para escolherem definir aquilo que é justo, em vez de definir só aquilo que tem de ser feito para cumprir a lei.

No artigo seguinte, apresentamos algumas propostas nas áreas da regulação, do governance e dos valores no âmbito das quais o Director Emeritus da McKinsey defende que os gestores “têm a oportunidade de fazer diferente” para, “numa lógica de mercado (e sem a recusar)”, contribuir para o progresso social.