O VER entrevistou Paul Samson Lusamba-Dikassa, director do Programa Africano de Controlo da Oncocercose, vencedor do Prémio de Visão, no valor de um milhão de euros, atribuído pela Fundação Champalimaud. A doença, conhecida como “cegueira dos rios” afecta cerca de 38 milhões de pessoas, 99% das quais em África. Mas, com a ajuda necessária, poderá ser eficazmente erradicada
POR HELENA OLIVEIRA

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© Presidência da República
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Atribuído, nos anos ímpares, a organizações não governamentais que tenham contribuído para minimizar os efeitos das perturbações e perda de visão, o Prémio António Champalimaud de Visão galardoou, no passado dia 10 de Setembro, o Programa Africano de Controlo da Oncocercose. A doença, mais conhecida por “cegueira dos rios”, está presente na maioria dos países africanos e, para além de representar um problema de saúde pública, tem ainda custos sociais e económicos. Em entrevista ao VER, o Dr. Paul Samson Lusamba-Dikassa, director da organização, explica em detalhe os efeitos da doença e os projectos que, há 15 anos, muito têm contribuído para a ajudar a erradicar.

A oncocercose, também conhecida por cegueira dos rios, é uma doença pouco conhecida na Europa. Gostaria que clarificasse de que doença se trata, de que forma afecta as pessoas e qual o número estimado de vítimas.  
A cegueira dos rios é causada por um parasita (verme da filaria) – o onchocerca volvulus. É transmitida através da picada da mosca-preta existente na proximidade de rios com correnteza forte, daí o seu nome de “cegueira dos rios”. No corpo humano, o verme fêmea produtos milhares de larvas, as chamadas microfilárias, que migram através da pele, dos olhos, etc. Na pele, a doença é caracterizada por vários tipos de lesões: nódulos, despigmentação, pela escamada, …, causando uma comichão absolutamente intolerável que obriga a pessoa a coçar, piorando as condições da pele. Nos olhos, a inflamação causada pelo parasita origina a perda de visão e cegueira, normalmente em idades mais avançadas. Para além das consequências para a saúde, a doença causa igualmente isolamento social e prejuízos económicos, na medida em que os indivíduos afectados deixam de ser produtivos e as populações acabam por abandonar as zonas afectadas. As estimativas apontam para 38 milhões de pessoas afectadas, sendo que 99% destas vivem em África.

Na medida em que é um problema de saúde pública, o que o que o mundo tem feito para a tentar erradicar?
Os programas de controlo da oncocercose em larga escala foram desenvolvidos e implementados desde os anos de 1970. Em África, o Programa de Controlo da Oncocercose (PCO) foi lançado em 1974 numa tentativa de eliminar a doença em 11 países da África ocidental. No início, o PCO utilizou uma estratégia de controlo de vectores. Mais tarde, quando a Ivermectina foi disponibilizada em 1987, optou-se por uma estratégia combinada entre o controlo de vectores e o tratamento massificado com a Ivermectina.  Em 2002, o PCO conseguiu eliminar a doença, enquanto problema de saúde pública, na maioria dos países ocidentais africanos que estavam a participar no programa, com excepção para aqueles que se encontravam em situação de conflito armado. O APOC (Programa Africano de Controlo da Oncocercose) foi lançado em 1995 para alargar os esforços do controlo da oncocercoese em mais 19 países, exteriores à zona do PCO. A estratégia do APOC é o tratamento por Ivermectina direccionado para as comunidades.

Quais são os principais desafios enfrentados por estas comunidades para lidarem com a doença?
O APOC capacita as comunidades para o controlo da oncocercose. E, nestes esforços, a comunidade tem de se organizar de forma a planear a distribuição da Ivermectina (distribuidores da comunidade), seleccionar as pessoas que ficarão responsáveis pela sua distribuição, os que a irão monitorizar e decidir a melhorar altura para implementar uma distribuição em massa. Uma das questões prende-se com a motivação destes distribuidores comunitários no sentido de os manter “em funcionamento”. O outro é o de monitorizar adequadamente a distribuição do medicamento e assegurar que todas as pessoas elegíveis o tomam. Acima de tudo, os esforços têm de ser sustentáveis ao longo de um período longo, pois a intervenção tem de ser continuada, com uma cobertura alargada de mais de 14 anos para que a doença seja eliminada. E, em algumas áreas, a oncocercose coexiste com outras doenças como a infecção do parasita loa loa, com a filária linfática, etc,

E quais são as principais dificuldades enfrentadas actualmente pelo APOC?
No geral, as intervenções estão bem implementadas. Todavia, alguns projectos não atingem os 100% em termos de cobertura geográfica e ficam abaixo dos 65% no que respeita à cobertura terapêutica. Em algumas áreas, existem atritos elevados entre os distribuidores comunitários. E, em outras, devido à coexistência da oncocercose e da doença provocada pelo parasita loa loa, as pessoas que têm ambas as doenças e que recebem a Ivermectina podem sofrer de efeitos secundários que podem conduzir a situações de coma ou morte. Por outro lado, nos locais em que existem conflitos armados torna-se extremamente difícil implementar e monitorizar a distribuição do fármaco.

Relativamente aos resultados do APOC nos últimos 15 anos, quais os que elege como os mais produtivos?
Como resultado das operações iniciadas com o apoio do APOC, vários milhões de pessoas foram tratadas com a Ivermectina; 20 milhões de casos de prurido severo foram evitados, a par de 500 mil casos de cegueira; a infecção foi eliminada em nove locais e 38 milhões de pessoas tiveram acesso a múltiplas intervenções na saúde.

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A vossa estratégia para eliminar esta doença assenta fortemente numa participação comunitária activa. Em termos práticos, de trabalho de campo, o que faz o APOC para alcançar este objectivo?
O APOC dá formação a profissionais de saúde para levarem a cabo a estratégia nestas comunidades. Ao nível comunitário, os profissionais da saúde organizam reuniões com toda a comunidade para explicar a nossa estratégia. Se esta a decidir adoptar, tem que decidir quem vai distribuir o fármaco, quem serão os membros a serem seleccionados para receber a formação enquanto distribuidores comunitários e como motivá-los. De seguida, os profissionais de saúde dão formação aos distribuidores para levarem a cabo os seus novos deveres: conduzir um censo na comunidade; estimar as quantidades necessárias de Ivermectina para administrar a cada uma das pessoas elegíveis; detectar e tratar efeitos secundários; referenciar quaisquer acontecimentos adversos ao posto de saúde; preencher os formulários de tratamento; manter os registos actualizados; reportar dados sobre a campanha de tratamento. Adicionalmente, o APOC organiza regularmente sessões de monitorização e avaliação da implementação dos projectos.

Em 2015, o APOC pretende transferir a responsabilidade total relativamente ao controlo da oncocercose para os ministros da saúde [dos países envolvidos]. Por que motivo foi tomada essa decisão e qual o seu grau de optimismo relativamente a esta nova estratégia?
Esta decisão foi tomada em conjunto pelo conselho de administração do APOC, pelos estados-membros, pelo Fórum de Acção Conjunta, pelos órgãos financiadores, pelas Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento, as agências patrocinadoras e os parceiros privados que fornecem a Ivermectina. E a decisão teve como base a necessidade de se transferir para os diferentes países a capacidade de implementarem estas acções de controlo.

Todavia, está bem demonstrado que a estratégia utilizada pelo APOC não só é eficaz em controlar a doença como também, num prazo mais alargado, poderá erradicá-la. Desta forma, estamos perante uma mudança de paradigma. Os dados disponíveis apontam para que em 2015 a eliminação da oncocercose seja atingida em alguns locais, mas em nenhum dos países nos quais o APOC intervém. Para 2020, e se as previsões actuais se mantiverem, a maioria dos países cobertos pelas operações do APOC terá erradicado a doença, com excepção para três ou quatro países que estão a enfrentar desafios extremos. Em suma, a estratégia do APOC é extremamente eficaz, mas a linha de tempo para a eliminação é mais longa do que a do seu controlo.

O APOC recebeu o Prémio António Champalimau de Visão. O que significa, para o APOC em geral, a atribuição deste prémio e, para si, em particular?
Obviamente que o prémio significa muito para nós. É o reconhecimento de um trabalho conjunto realizado por todos os nossos stakeholders: as comunidades, os governos, os doadores, as empresas privadas que fornecem a Ivermectina gratuitamente, os cientistas, as agências patrocinadoras. O prémio eleva igualmente o estatuto da oncocercose, na medida em que esta é uma doença que, a par de outras, é muito negligenciada. Tal irá chamar a atenção do mundo para a mesma e para o facto de que existe uma intervenção eficaz que tem que ser sustentada. Para mim, pessoalmente, este prémio é um tributo ao trabalho dos meus antecessores e um incentivo para continuar a seguir o caminho por eles trilhado.

Um milhão de euros é uma quantia considerável. De que forma é que este montante poderá ajudar na persecução do vosso principal objectivo?
Continuam a existir vários desafios em algumas áreas. Existem países cujos projectos estão a necessitar de um empurrão de forma a melhorar a sua performance. Existem locais onde, com financiamentos modestos, muito poderá ser atingido. Acreditamos que vale a pena investir nesses locais e obter resultados céleres que possam estimular outras instituições a investir nos esforços de eliminação da oncocercose.

Helena Oliveira

Editora Executiva