Em 2026, quando olharmos para trás para o que foi feito, quando analisarmos as medidas executadas e avaliarmos se fomos ou não bem-sucedidos, iremos falar de pessoas e de líderes que foram ou não capazes, que tiveram ou não impacto. É por isso que acredito que o tema é sobretudo de liderança responsável
POR NUNO VAZ NETO

A crise resultante da Covid-19 é um dos maiores desafios de sempre da União Europeia (UE) no que diz respeito ao seu impacto na sociedade. Foi com este contexto bem presente que a UE desenhou o Recovery and Resilience Facility (RRF), um fundo no valor de mais de €670 mil milhões de euros em seis anos, com o objetivo de mitigar o impacto económico e social da pandemia e tornar as economias da UE mais sustentáveis, resilientes e melhor preparadas para os desafios colocados pelas transições digital e energética.

No domínio da transição digital, Portugal e os restantes países da UE têm agora de se concentrar em acelerar a digitalização das suas economias através de reformas estruturais concretas financiadas pelo RRF. “Os planos não devem incluir uma colcha de retalhos de pequenas medidas com pouco impacto”, disse Valdis Dombrovskis, Comissário Europeu. “Em vez disso, os países devem refletir uma estratégia clara para abraçar as transições gêmeas (digital e energética) e implementar reformas de acordo com as recomendações específicas do país.”.

O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de Portugal prevê perto de 14 mil milhões de euros em subvenções. Destes, quase 20% dizem respeito à dimensão Transição Digital, que prevê cinco domínios: i) Escola Digital (559M€), ii) Empresas 4.0 (650M€), iii) Qualidade e Sustentabilidade das Finanças Públicas (406M€), iv) Justiça Económica e Ambiente de Negócios (267M€), e v) Administração Pública – Digitalização, Interoperabilidade e Cibersegurança (812M€).

A proposta inclui investimentos para a infraestrutura tecnológica das escolas (equipamentos, acesso à internet, reforço de competências digitais dos professores e conteúdos educativos digitais), para reforço da digitalização das empresas (capacitar colaboradores com competências digitais, modernizar processos de produção, criar modelos de negócio digitais para a comercialização de produtos e serviços sobretudo em PMEs), e também investimentos que visam modernizar o conjunto de sistemas de informação do Estado, para que, por exemplo, se crie uma perspetiva mais integrada do Cidadão/Empresas nas várias interações com os organismos da Administração Pública (Seg. Social, Finanças, Justiça, etc.), com processos mais simples, mais eficazes, para uma verdadeira prestação de serviços públicos digitais.

Quem gere empresas sabe que os seus mercados, clientes e colaboradores já se tornaram digitais. Segundo a Accenture, as empresas líderes estão a comprimir uma década de transformação digital em cerca de dois anos, e as empresas pioneiras digitais estão a aumentar as suas receitas 5x mais rápido do que as restantes, contra 2x entre 2015 e 2018. O investimento na transformação digital é assim um imperativo de sobrevivência.

Para terem sucesso, as empresas devem ser capazes de analisar a tecnologia disponível e encontrar a combinação apropriada que melhor responda às necessidades e jornadas de compra do seu cliente. Essa combinação deve poder endereçar uma abordagem omnicanal que inclua comércio phygital (físico combinado com digital), uma visão integrada do cliente e uma experiência simples, fácil, relevante e sobretudo consistente em todos os canais, conseguida através de uma revisão integral dos processos atuais.

Da mesma forma, não faltam exemplos de necessidades também para o Estado, que melhorem a relação entre o Cidadão/Utente e as entidades públicas. Existem vários “pain points” conhecidos. Por exemplo, estão ainda bem presentes na nossa memória as enormes dificuldades que o SNS teve em integrar dados e atuar sobre eles de forma rápida, simples e eficaz, tendo os hospitais que usar vários sistemas para registo e reporte de casos covid-19…).

Também no ensino o investimento digital é essencial, dado o papel da escola como elevador social. Aproveitar o contexto de mudança para introduzir ferramentas e conteúdos pedagógicos diferentes, que explorem oportunidades relacionadas com as competências humanas diferenciadoras (as soft-skills), é fundamental. Porque as tecnologias da 4ª Revolução Industrial (Inteligência Artificial, Blockchain e Internet das Coisas, a Robotização, entre outras) não são algo que “vem aí”, já cá estão, e vão continuar a alargar o seu âmbito e impacto, tornando-se cada vez mais comuns, potenciando profundamente a transformação da nossa sociedade e abrindo novos caminhos para maior prosperidade. É também por este facto que o Propósito deve estar bem presente na execução do triple-bottom-line ‘Pessoas, Planeta e Prosperidade’ referenciado nos ODS da ONU.

Este é, pois, o momento de a sociedade discutir o mérito/demérito de cada iniciativa, em cada domínio, e/ou o seu peso no investimento. Acredito que também devemos introduzir uma outra lente sobre o tema e abordar o PPR Transição Digital naquilo que ele genuinamente é: um instrumento de progresso e de prosperidade, objetivos que não podem ser um dado adquirido. Se queremos de facto tirar partido desta oportunidade, o Estado, as empresas e todas as instituições devem apoiar os seus líderes a se reconectarem para uma forma totalmente nova de liderança, associando o conhecimento de tecnologia a uma perspetiva de gestão mais ampla e holística que explora Valores e Propósito de uma forma inovadora. Importa notar que a parte comum, invisível, aos cinco domínios de investimentos atrás referidos é porventura aquela que poderá acelerar ou constituir um travão ao sucesso do Plano, não só em Portugal como nos restantes países da UE: a liderança responsável.

Uma liderança responsável, seja ela de carácter público ou privado, tem de focar incontornavelmente a criação e expansão de ecossistemas de cooperação em rede entre empresas, instituições de ensino e todos os stakeholders importantes para a formulação de soluções que visem a melhoria do relacionamento entre Consumidores e Empresas, entre Cidadão e Estado.

Liderança responsável e transição digital implica procurar obter maior impacto, mais produtividade, construindo novas formas de trabalho através de uma profunda revisão dos processos, da execução de programas para garantir que as pessoas cujos perfis de trabalho serão substituídos no futuro possam obter qualificações para outros perfis laborais, induzindo por esta via um forte ímpeto na capacitação dos recursos humanos. Porque o melhor que uma liderança responsável pode construir é uma equipa de pessoas capazes de prosperar, de desafiar, de ter impacto e, sim, no final do dia, poderem estar em condições de a substituir! Para tal, acredito que uma liderança responsável, neste contexto, deve ter quatro características-base:

1) Líder como Technologist, ou seja, que acelera as possibilidades com a tecnologia, reconhecendo que para ter impacto profundamente transformador deve pensar e agir de forma exponencial e não da forma tradicional linear – “X vezes mais” não é igual a X% mais”;

2) Líder como Futurist, no sentido em que imagina ideias ousadas e ambiciosas, estabelece a visão e relaciona padrões/tendências com tecnologia, multiplicando o impacto através de colaboração, de parcerias, e sempre com autenticidade e resiliência;

3) Líder como um Innovator, isto é, que sabe que “a ficção científica está a tornar-se facto científico”, e por isso pensa primeiro no propósito e na sustentabilidade e, em seguida, na tecnologia que o suporta;

4) Líder como Mindfulness Humanitarian, catalisando o impacto da mudança nas pessoas, conectando redes de conhecimento para obter resultados estruturalmente diferentes e efeitos mais sustentáveis, e que encoraje a diversidade de experiências e mentalidades para encontrar soluções abrangentes, inovadoras e sustentáveis.

Os investimentos propostos no PPR para a Transição Digital trazem consigo uma oportunidade para todos os líderes expandirem as suas responsabilidades e desempenharem um papel crítico ao executarem também uma transformação com Propósito e profundamente humana!

Em 2026, quando olharmos para trás para o que foi feito, quando analisarmos as medidas executadas e avaliarmos se fomos ou não bem-sucedidos, iremos falar de pessoas e de líderes que foram ou não capazes, que tiveram ou não impacto. É por isso que acredito que o tema é sobretudo de liderança responsável.