Em 146 países, e apesar de algumas carências ao nível da educação, Portugal situa-se em 24º lugar no Índice de Progresso Social. A média mundial encontra-se nos 63,43%, o que significa que o planeta apresenta um desempenho aquém do esperado. Estas são algumas das principais conclusões da mais recente edição do Índice de Progresso Social, que mede “a capacidade de uma sociedade satisfazer as necessidades básicas dos seus cidadãos”. A Noruega, a Islândia e a Suíça lideram este ranking, e a República Centro Africana, o Chade e o Afeganistão são as nações que apresentam os valores mais baixos
POR MÁRIA POMBO

Tendo vindo a ocupar um lugar crescente na agenda de líderes empresariais e governamentais e na própria sociedade civil, o Progresso Social define-se como “a capacidade de uma sociedade satisfazer as necessidades básicas dos seus cidadãos, estabelecer os elementos base que permitem que os cidadãos e as comunidades alcancem e sustentem a sua qualidade de vida, e criar condições para que todos os cidadãos atinjam o seu máximo potencial”.

Embora exista uma forte relação entre progresso social e PIB per capita (que, até há poucos anos, era a principal forma de analisar a qualidade de vida dos cidadãos), a verdade é que os dois conceitos não são sinónimo um do outro. É certo que os países mais ricos são aqueles que, à partida, oferecem melhores condições aos seus habitantes, nomeadamente no que respeita a educação, saneamento básico e acesso a água potável – que são as principais carências dos países mais pobres; porém, analisando países com níveis semelhantes de riqueza, verifica-se que podem existir grandes discrepâncias no que respeita à qualidade de vida dos seus cidadãos, sendo que a segurança não é necessariamente melhor em países com rendimentos mais satisfatórios do que em países menos desenvolvidos.

Através de três grandes categorias – necessidades básicas humanas, promoção de bem-estar, e oportunidades –, as quais se dividem em 21 indicadores, a mais recente edição do Índice de Progresso Social analisa a qualidade de vida dos cidadãos de 146 países, a nível mundial, dividindo-os em seis escalões. Trata-se de um estudo anual levado a cabo, desde 2014 e sob iniciativa de académicos como Michael Porter ou Nicolas Stern, pelo Imperativo de Progresso Social, com o intuito de promover a mudança e procurar estratégias que melhorem a vida dos cidadãos a nível mundial.

Ao contrário de outros índices – igualmente relevantes – que medem questões mais subjectivas como a satisfação da população ou a sua felicidade perante a vida, esta análise foca-se antes em aspectos mais “matemáticos” relacionados com a educação, a nutrição e o alojamento.

[quote_center]Se o mundo fosse um país, o seu progresso social encontrava-se (apenas) nos 63%[/quote_center]

Se o mundo fosse um país, o seu progresso social encontrava-se nos 63,43%. Isto significa que a média mundial se situa no quarto (ou antepenúltimo) escalão, tendo um desempenho aquém do esperado. A nutrição e os cuidados médicos (83,21%), o acesso a educação básica (81,42%), o alojamento (76,03%) e o saneamento e qualidade da água (74,95%) são os indicadores mais bem ‘pontuados’. Por seu turno, o acesso a educação avançada (39,36%) e a inclusão (40,17%) são claramente aqueles em que o planeta mais precisa de melhorar.

Comparando com a análise realizada em 2014, que revelava que a média mundial era de 61,80%, o planeta Terra tem feito um progresso positivo. O acesso a informação, a habitação e o acesso a educação avançada são as áreas em que se registou um progresso mais acentuado, sendo que também se verificam melhorias em questões relacionadas com a saúde e o bem-estar, a nutrição, o saneamento, a qualidade do ar, as liberdades individuais e o acesso a educação básica.

Todavia, o planeta regrediu em termos de direitos pessoais (75 países revelam um declínio e 31 consideram que não ocorreram mudanças significativas neste aspecto) e também no que respeita a inclusão (a qual está pior em 56 países e igual em 22). Já no que toca a segurança pessoal, verifica-se uma estagnação, o que significa que não ocorreram mudanças significativas.

Analisando os países, a Noruega (90,26%), a Islândia (90,24%) e a Suíça (89,97%) são os países que têm o melhor desempenho em termos de progresso social, sendo importante referir que, entre o primeiro e o último país (que é o Canadá) que compõem o primeiro escalão, a diferença é inferior a dois pontos percentuais. No pólo oposto, encontram-se a República Centro Africana (26,01%), o Chade (28,20%) e o Afeganistão (32,96%).

Comparativamente a 2014, verificam-se progressos em 133 nações (das 146 analisadas). A Gâmbia, o Nepal, a Etiópia, a Tanzânia, a Suazilândia e Myanmar são as nações que registam as principais melhorias. Verifica-se, assim, que os países em desenvolvimento fizeram progressos de uma forma mais rápida, ao passo que nas nações economicamente mais desenvolvidas se assiste a uma melhoria mais lenta e gradual da qualidade de vida dos cidadãos.

No pólo oposto, o Iémen, a Tailândia e a Turquia são as nações que mais regrediram, sendo que, por falta de dados, os autores do estudo não conseguiram contabilizar alguns países em crise ou em conflito armado, como a Síria e a Venezuela. Uma nota importante vai para o facto de o Brasil e os Estados Unidos também terem registado grandes declínios no que respeita ao progresso social.


O melhor, o pior, os Estados Unidos e Portugal

Com um PIB per capita que lhe permite ser a quinta nação mais rica, das 146 analisadas, a Noruega também é o melhor país em termos de progresso social. A promoção de bem-estar é a sua categoria mais forte e, dentro desta, o acesso a educação básica, a qualidade da internet e o acesso a serviços essenciais de saúde são os indicadores que estão mais bem pontuados. Todavia, o país também tem aspectos que precisam de ser melhorados, nomeadamente em termos de acesso ao ensino superior, que é um dos seus pontos mais fracos.

[quote_center]A Gâmbia, o Nepal, a Etiópia, a Tanzânia, a Suazilândia e Myanmar são as nações que registam as principais melhorias[/quote_center]

Na base deste ranking, a República Centro Africana é a pior nação e o que se verifica é que são escassos os indicadores que não apresentam valores negativos. As três grandes categorias – necessidades básicas humanas, promoção de bem-estar e oportunidades – encontram-se abaixo do que era suposto (e desejado), e o país falha bastante em termos de acesso a educação e a informação, cuidados básicos de saúde, direitos humanos e segurança.

Tendo condições para estar entre os melhores – mas não estando – os Estados Unidos são, possivelmente o caso mais estranho entre os 146 países, sendo esse o motivo pelo qual “merece” destaque na análise. Já desde a primeira edição deste estudo, realizada em 2014, esta nação apresenta um progresso social bastante inferior ao que éesperado, principalmente tendo em conta o seu PIB per capita. Esta nação é, de facto, uma excepção entre as grandes potências mundiais.

Se o PIB per capita deste país lhe dá o quarto lugar entre os 146 países analisados, a verdade é que o seu progresso social não lhe permite ir além da 25ª posição, ficando atrás de países como a Eslovénia e até Portugal,que se encontra em 24º lugar. No que respeita a acesso a educação básica, os resultados também são catastróficos, fazendo com que a nação liderada por Trump fique em 50º lugar (atrás do Uzbequistão, por exemplo). Em termos de saúde e bem-estar, os EUA encontram-se ao lado do Equador e no que respeita a segurança pessoal, os valores são inferiores aos do Gana e da Indonésia.

E como se não bastasse o facto de os EUA se encontrarem entre os piores países em diversos aspectos, os autores do estudo revelam que, comparando os resultados desta edição com os de 2014, este país regrediu significativamente em aspectos tão importantes como a inclusão, a segurança e os direitos humanos, sendo que também apresenta resultados piores em termos de saúde e bem-estar e no que respeita ao acesso a educação básica.

[quote_center]Portugal apresenta uma percentagem de progresso social na ordem dos 85%, ocupando o 24º lugar a nível mundial[/quote_center]

Por cá, encontramo-nos na primeira metade do segundo escalão, com uma percentagem de progresso social na ordem dos 85,36%, ocupando assim o 24º lugar a nível mundial. A satisfação das necessidades básicas é a categoria em que Portugal apresenta uma percentagem mais elevada, seguindo-se a promoção de bem-estar e por fim o acesso a oportunidades.

Em termos mais específicos, o alojamento, a qualidade do fornecimento de electricidade, a segurança e os baixos níveis de criminalidade são alguns dos indicadores em que o País é mais forte, apresentando igualmente bons resultados no que respeita à saúde e bem-estar, à qualidade do ar, à inclusão e à prevenção da violência contra as minorias. Por outro lado, os indicadores relacionados com a educação são aqueles que apresentam as percentagens mais baixas, destacando-se a literacia na idade adulta, a paridade de género nas matrículas do ensino secundário e o acesso ao ensino superior.

Deste modo conclui-se que Portugal precisa de apostar mais em melhores condições de acesso a educação, e especificamente a educação superior, necessitando de incentivar os adultos a interessarem-se pelos estudos e tomando medidas que diminuam o fosso entre o acesso à universidade por parte de homens e de mulheres.

Mais do que olhar para o passado e o presente, os autores do documento referem que importa construir uma linguagem comum e uma plataforma que, ao conter o maior número de informação possível, permitirá criar melhores mecanismos de medição de resultados, sendo estes fundamentais para que se procurem e inventem estratégias que resolvam alguns dos principais problemas da humanidade, dando a melhor qualidade de vida possível a todos os cidadãos do planeta.

Através deste índice, o Imperativo de Progresso Social pretende juntar governos, líderes empresariais, académicos e organizações da sociedade civil para que, juntos, se comprometam a promover o progresso social, melhorando os aspectos negativos e fortalecendo ainda mais os aspectos positivos, através de diálogo e de acções que originem uma mudança e melhorem a qualidade de vida das populações.

Este é, aliás, um trabalho que já começou a ser desenvolvido, sendo que o Imperativo do Progresso Social conta actualmente com parceiros de diversos sectores em 47 países. A América Latina é uma região onde o Índice tem ganho particular destaque, estando a ser implementadas estratégias – como planos de nutrição, segurança urbana e medidas de controlo das cadeias de valor das grandes empresas – que melhoram a vida da população.