Durante a 7ª edição do GreenFest, a SystemicSphere, em conjunto com a Universidade de Évora, dinamizou uma sessão na qual se pretendia, de forma simples e em apenas quatro horas, vislumbrar potenciais futuros cenários para Portugal em 2050. E, não surpreendentemente, o sentimento generalizado de incerteza face ao que nos espera foi norma
POR SOFIA SANTOS

Sofia Santos, Economista, Presidente da SystemicSphere – Trend and Scenarios for the New Economy
Sofia Santos, Economista, Presidente da SystemicSphere – Trend
and Scenarios for the New Economy

Durante a 7ª edição do GreenFest, a SystemicSphere, em conjunto com a Universidade de Évora, dinamizou uma sessão dirigida a adultos, na qual se pretendia, de forma muito simplista e em quatro horas, vislumbrar potenciais futuros cenários para Portugal em 2050. Nesta sessão, participou o número adequado de pessoas para o fim pretendido: cerca de 12, de várias gerações (dos 20 aos 60 anos) e provenientes de várias áreas (sociologia, geologia, economia, fotografia, engenharia, ensino, entre outras). Ao longo das quatro horas de sessão, o diálogo foi corrente e o interesse em questionar e pensar os potenciais futuros e, de seguida, desenvolver uma estratégia atendendo aos mesmos, foi estimulante e surpreendente.

Apesar de existir um conjunto de regras metódicas no desenvolvimento deste tipo de exercício, esta sessão, devido à sua curta duração, não permitiu seguir todas as etapas, mas, mesmo assim, os resultados são muito interessantes.

Uma vez que, normalmente, e com o actual contexto cultural e financeiro em Portugal, não temos disponibilidade mental para pensar o futuro e trazê-lo para o presente, o início da sessão foi dirigido ao “eu” dos presentes, à forma como cada um de nós percepciona o seu passado, presente e futuro, e aos sentimentos que essa percepção nos trás. O sentimento individual e personalizado de cada um reflectiu o sentimento generalizado de incerteza face ao futuro, quer por parte dos mais jovens, quer por parte daqueles que, tendo vivido o passado de certezas e conforto a nível profissional, constatam agora que o amanhã está longe de ser o que pensaram. Na realidade, o sentimento é partilhado por todos: indivíduos, empresas, organizações. Só sabemos uma coisa: que o futuro é incerto.

Neste contexto, torna-se facilmente compreensível a necessidade e/ou urgência de se pensar acerca do futuro incerto, para que nos possamos posicionar de acordo com as nossas ambições, e possamos ouvir o que o ecossistema nos vai “dizendo” diariamente. Com esta atitude em mente, e após alguma informação conceptual de base e dinâmica de grupo, os 12 chegaram a um consenso quanto aos quatro cenários possíveis para 2050, relativamente à questão: Como podem o Ambiente e a Sustentabilidade estarem implantados em Portugal em 2050? Esta resposta foi dada na óptica do cidadão.

Após um processo iterativo, concluiu-se que os dois principais factores que poderiam afectar Portugal seriam: a sabedoria (entendida como conhecimento aplicado com um sentido ético) e a existência de negócios verdes na economia.

Nesse contexto, foram alcançados quatro cenários possíveis para 2050:

  • Portugal em Harmonia: um futuro no qual Portugal gozasse de um vasto grau de sabedoria, em conjunto com negócios verdes implantados. Neste cenário viveríamos numa sociedade em que o conhecimento humanista e ético se tinha transformado numa prática corrente e, como tal, tinha sido dada a oportunidade de se desenvolver uma economia assente na boa gestão e exploração dos recursos naturais. Viveríamos, assim, numa economia onde o lucro apresentava uma componente ética e positiva na sociedade.
  • Portugal, uma Cuba Poluída: um futuro com um vasto grau de sabedoria, mas sem ter tido a capacidade de “convencer” a economia de mercado de que a aposta nos negócios verdes seria o melhor caminho a trilhar. Neste sentido, e à semelhança do que se percepciona hoje de Cuba, Portugal teria conhecimento, mas estaria desactualizado face às melhores práticas de gestão e de criação de negócios.
  • Portugal, um Dubai Ecológico: um futuro em que “ser verde” é lucrativo e, consequentemente, os negócios verdes florescem apenas porque dão dinheiro, sem existir ética na sua implementação ou outras preocupações humanistas. Ou seja, viveríamos num Portugal com capacidade para criar negócios ambientais geradores de grandes retornos financeiros, mas sem ter associado a esta dimensão uma sabedoria generalizada assente na preocupação com o bem comum.
  • Portugal, no Pântano: em que não existe sabedoria nem preocupações éticas, e no qual não será possível viver numa economia assente na exploração equilibrada dos recursos naturais. Aqui, neste pântano, Portugal é uma economia perdida, prestes a afundar, sem conseguir ter nem capacidade intelectual emotiva. nem tecnologia canalisada para a inovação.

Quando questionados sobre os cenários que consideravam ser mais plausíveis, as opiniões variaram entre o “Dubai Ecológico” e o “Cuba Poluída”, apesar de todos desejarem, obviamente, o “Portugal em Harmonia”. Uma certeza, porém: Portugal vive, actualmente, no “Pântano”, e não é nele que nos queremos “afundar”.

Ainda no âmbito do Greenfest, as crianças (de 7 e 8 anos) e os jovens (dos 13 aos 16 anos) foram igualmente convidados, no dia seguinte e em dois workshops distintos, a expressar a sua opinião sobre “como gostariam que Portugal fosse em 2050?”.

Com respostas simples – em que vigoraram adjectivações distintas como “equilibrado, acolhedor, limpo, com muito amor, em paz, em harmonia, azul, amarelo, verde” e com uma vontade expressa de contribuírem para o mesmo com “estudos e respeito pelo próximo”, a lição dos mais novos serve para que os adultos nela reflictam, colocando as mãos na sua própria consciência.