Como afirmava Hans Christian Andersen, “onde falham as palavras, fala a música”. E esta afirmação está em linha com os projectos que, na categoria de Música, foram seleccionados para a primeira edição do PARTIS. De jovens reclusos que cantam ópera, a miúdos provenientes de bairros onde a exclusão social é norma, a um coro de surdos que faz dos gestos uma dança, a variabilidade de cenários que promove a integração dos que estão “fora” comprova que é possível, através desta linguagem universal, ultrapassar barreiras aparentemente intransponíveis
POR
HELENA OLIVEIRA

© Fundação Calouste Gulbenkian
© Fundação Calouste Gulbenkian

Festival de Música de Setúbal e Ensemble Juvenil
“Nós somos o ensemble”

“O ensemble é um grupo de amigos que faz música e se diverte. Aqui não há diferenças”.

Quem o afirma é uma participante do Ensemble Juvenil de Setúbal, que junta jovens músicos clássicos provenientes do conservatório local – da classe média – com miúdos desfavorecidos – percussionistas e sem formação musical -, e ainda jovens com necessidades especiais numa pequena – mas grande – orquestra juvenil verdadeiramente inclusiva. Inserido no Festival de Música de Setúbal, o “Ensemble Juvenil” é apoiado pelo PARTIS desde 2014 e, como refere Narcisa Costa, responsável da entidade promotora do projecto, a A7M Associação Festival de Música de Setúbal, “é um reflexo da sociedade local”. Para Ian Ritchie, director artístico da orquestra, tão importante quanto o abolir de barreiras culturais e sociais, é também a oportunidade dos que têm formação em música clássica experimentarem uma “qualidade improvisada”, proveniente dos jovens que fazem percussão sem lerem pautas.

Adicionalmente, os participantes com necessidades especiais, muitas vezes apoiados por instrumentos electrónicos, de que é exemplo o Skoog, uma peça com cinco botões, ligada a um sintetizador e computador, que viabiliza que pessoas com deficiências complicadas, até motoras, possam tocar com o cotovelo ou com o punho, por exemplo, “ensina-nos que é possível alargar o mundo dos sons e ampliar, também, oportunidades criativas para os compositores”, afirma ainda Ian Ritchie. É que uma outra característica deste projecto é proporcionar trabalho regular a jovens compositores, uma vez que é necessário criar um reportório com obras especialmente compostas ou arranjadas para este “formato único de democracia musical”, que junta vários estilos.

Já Rui Borges Maia, director do ensemble, confessa que, o facto de começarem do zero, com jovens com formações absolutamente distintas, provenientes de mundos igualmente diferentes e com backgrounds profundamente díspares, “obrigou-nos a questionar seriamente ‘como vai isto funcionar?’. Da primeira actuação em público, Rui Borges Maia recorda, essencialmente, o “brilho nos olhos” de todos os jovens que integram a orquestra juvenil e a certeza de que “todos desfrutaram do trabalho feito”, um processo lento, moroso e de árduo trabalho que culminou numa “actuação absolutamente emocionante”.

A actividade deste ensemble juvenil é desenvolvida ao longo de todo o ano, mas tem o seu “ponto alto” performativo no Festival de Música de Setúbal que, ao longo de quatro dias e com várias apresentações públicas, enche de sons a cidade de Setúbal e atrai milhares de visitantes.

Para além do sucesso que passa pela reunião de três grupos muito distintos de jovens num espaço verdadeiramente inclusivo, o impacto social do projecto é amplamente visível: não só no que respeita à integração social bem-sucedida, com um perfeito cruzamento de mundos, mas também ao nível dos jovens com necessidades especiais – que começaram a “sair de casa” (alguns têm mesmo aulas particulares de música), aos que pertencem aos bairros mais problemáticos da zona e que saem também da sua “zona de exclusão”, e, inclusive, na abertura de novos horizontes aos jovens provenientes do conservatório, no que respeita a uma maior apetência para as questões sociais e para tomarem consciência da realidade que os circunda, à qual é tão mais fácil fechar os olhos.

Como sublinha ainda Narcisa Costa, para estes jovens, provenientes de mundos tão distintos e, sem se conhecerem, o tempo e o trabalho desenvolvido em conjunto comprova que os mesmos têm agora uma “identidade comum”. E que é tão simplesmente manifestada pela expressão “nós somos o ensemble”.

© Fundação Calouste Gulbenkian
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Orquestra Geração Centro Cultural de Amarante
“É aquela sensação de estar a fazer uma coisa bonita e fantástica”

Promovida pelo Centro Cultural de Amarante, e à semelhança do que ocorre em outras zonas do país, a Orquestra Geração tem como público-alvo crianças e jovens em risco de exclusão, deste concelho em particular, e dois objectivos por excelência: apoiar a integração dos que se encontram em maior situação de vulnerabilidade, numa região em que a desigualdade social é “norma” e combater o elevado insucesso e abandono escolares que também a caracterizam.

Sinalizados pelas escolas, segue-se o processo de recrutamentos dos jovens para integrarem a Orquestra. Como refere Taí Larangeira, director do Centro Cultural de Amarante, um dos efeitos positivos deste projecto começa logo por um maior aproximação com os pais, também eles significativamente envolvidos no mesmo. Semanalmente, e como explica Vânia Rodet, coordenadora e maestrina, os jovens têm aulas de instrumentos, aulas de grupo de acordo com o instrumento musical que tocam e também aulas de formação musical. “Aprender a estar em grupo, a melhorar a sua concentração e foco, pois a música a isso exige”, é um dos efeitos mais visíveis deste projecto. E, como reforça a maestrina, “face há uns anos, em que era quase necessária uma escolta para os ‘amarrar’ a algum sítio ou ganhar a sua atenção, neste momento sentimos um enorme orgulho neles, e vamos juntos para qualquer lado, sem qualquer tipo de problema”.

Como confessa uma participante da Orquestra, “antes era muito mais rebelde, mas agora sou muito mais calma, não procuro meter-me em problemas e percebi que tocar violoncelo, e fazer parte de uma orquestra, é uma enorme responsabilidade”. Opinião similar tem uma outra participante do projecto, que confirma que a música a ajudou a aumentar significativamente os seus níveis de concentração, ajudando-a no seu percurso escolar, nomeadamente no que às notas diz respeito e “que melhoraram muito”, acrescentando ainda que, apesar de não ser fácil acordar cedo, nunca falta aos ensaios e que a “música nos liga uns aos outros”. Vânia Rodet sublinha ainda que a partir do momento em começaram a sair, para actuarem, em diversos sítios – o grupo já esteve, por exemplo, no Brasil -, os jovens aumentaram significativamente a sua auto-estima, traduzida no orgulho que sentem e esforçando-se sempre para mostrarem o quão bons são naquilo que fazem. E, o melhor de tudo, é que esse orgulho acaba por contagiar os círculos de relações à sua volta, desde a família, à própria escola, aos professores ou directores escolares, cumprindo, desta forma, um dos requisitos por excelência do próprio PARTIS. “De crianças e jovens a quem ninguém ligava, porque causavam problemas, passaram a ser uma fonte de orgulho”, diz ainda a maestrina.

“Esta é uma forma de jovens problemáticos, que têm uma vida difícil e que estão constantemente a pensar sobre tudo o que de mau pode acontecer no futuro, conseguirem abstrair-se, aqui, quando tocamos todos juntos, dos problemas. Porque a música é uma arte, é uma paixão e não tenho palavras para descrever o que sinto quando estou a tocar”, afirma ainda outra participante do projecto. “É aquela sensação de estar a fazer uma coisa bonita e fantástica”, acrescenta.

Para além da componente artística, os objectivos previstos para a dimensão do sucesso escolar foram já ultrapassados. E, de tal forma o projecto é promissor, que a Faculdade de Letras do Porto está a efectuar um estudo sobre o impacto social do mesmo nos jovens ao nível, exactamente, do abandono e insucesso escolares.

© Fundação Calouste Gulbenkian
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Ópera na Prisão – Dom Giovanni 1003 – Leporello 2015
De “nós somos presos, não há aqui cantores” a “foi mágico”

Trabalhar a ópera em contexto prisional e aproximar, ao longo de três anos, 50 jovens reclusos, da ‘Prisão Escola de Leiria – Jovens’, ao universo de Mozart parece, sem dúvida, uma missão impossível. “Nós somos presos, não há aqui cantores”, recorda um dos jovens participantes que, no início do projecto, pouco ou nada acreditava na sua exequibilidade. Mas e como explica o director artístico Paulo Lameiro, os jovens reclusos começaram por ter aulas de grupo, para aprender a vocalizar, com alguns deles a terem aulas individuais para elevar o nível de performance e, aos poucos, a incredulidade deu lugar à possibilidade. “A ideia era conseguir, com uma equipa de profissionais, com maestros, com encenadores e com um co-repetidor, aquilo que é uma ópera”, acrescenta. Trabalhar as competências destes jovens em meio de reclusão, promover a sua auto-estima, o seu autocontrolo, ensinar-lhes a trabalhar em grupo, promovendo também uma formação pessoal e cívica, é um dos objectivos principais deste projecto que, ao longo do último ano, despertou a curiosidade dos media, dando origem a várias reportagens e notícias. Como objectivo futuro, a ideia é promover a integração social nas comunidades a que pertencem estes jovens – no final da pena – envolvendo estruturas artísticas locais. E, como afirma Paulo Lameiro, “se apenas um destes jovens se transformar num cantor lírico, já ganhámos o projecto”.

Desenvolvido pela Sociedade Artística e Musical dos Pousos (SAMP), e até agora, todos os objectivos do projecto foram substancialmente superados, tendo este um enorme potencial para ascender ao estatuto de projecto-bandeira do PARTIS, na medida em que consiste num exemplo de excelência tanto na dimensão artística, como na dimensão de inclusão social.

Opinião similar tem o chefe da guarda prisional Alfeu Almeida, que afirma que “se fez aqui um bom trabalho”, e que “esquecer o tempo, esquecer tudo” é o que acontece aos jovens enquanto se perdem no drama (e na comédia) de Dom Giovanni, o nobre que seduz as donzelas, abandonando-as de seguida, de Leporello, seu servo ou ainda do Comendador, outra personagem daquela que é a 10ª ópera mais executada em todo o mundo. Surpreendente é também o facto de a personagem do Comendador ser interpretada pelo mesmo homem que afirma que o projecto em causa tem alcançado resultados muito positivos no que respeita “à motivação, mudança de comportamentos e estabilização dos jovens”. E esse homem é José Ricardo Nunes, director do estabelecimento prisional em causa.

A convite da Fundação Calouste Gulbenkian, o fotógrafo Tiago Figueiredo contou, num podcast com cinco episódios, as histórias passadas nestes improváveis bastidores, um desafio que o artista aceitou e cumpriu com entusiasmo. E se é bom saber que “quando estamos no projecto, pensamos em coisas boas, estamos reunidos, como se fossemos uma família e quando vêm pessoas de fora, sentimos muito carinho”, como afirmou um dos reclusos, nada parece superar o entusiasmo de “ir lá para fora, transmitir o que aprendemos” como refere um outro participante [os jovens já fizeram algumas apresentação não só entre muros, como fora deles] e que acaba por resumir numa pequena frase o que significou para ele actuar à frente da sua família: “foi mágico”. Que a magia se repita a 30 de Junho, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, que receberá no seu palco a talvez mais original interpretação da ópera do génio austríaco, Wolfgang Amadeus Mozart.

© Associação Histórias para Pensar
© Associação Histórias para Pensar

Mãos que cantam
O som do silêncio

“Mãos que cantam” é um projecto de pessoas surdas que se juntaram para fazer música, explica, com simplicidade, o director artístico Sérgio Peixoto. O projecto inicial, nascido na Universidade Católica, começou com a criação de um coro de surdos entre os alunos da licenciatura e mestrado em Língua Gestual Portuguesa do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica, com o objectivo de actuar em conjunto com o coro da Universidade. E se o propósito era uma melhor integração na vida académica – “ porque não através da arte ou porque não através da música?”, questiona Sérgio Peixoto.

Tendo como entidade promotora a Associação Histórias para Pensar, este coro de surdos trabalha com um conjunto de músicos, ouvintes, tendo sempre como base a letra das canções que ensaiam. Apesar de contar com um número reduzido de participantes, o projecto deu já origem a um e-book, um livro com signos gestuais, com o objectivo de ser apresentado às escolas e de servir como ponto de partida para o ensino da música a estudantes surdos. Como explica uma das participantes, a ideia é “convencer” todas as pessoas, desde crianças, jovens ou adultos, que a música pode ser ´sentida’ por todos, mesmo por aqueles que não a ouvem, e que os seus sentimentos podem, também, ser expressos através da música”. Através de coisas muito simples, como “o ritmo, a respiração e outros conceitos mais elaborados como a polifonia”, é possível transmitir o ensino da música, garante o director artístico do projecto. Em palco, actuam em conjunto com músicos ouvintes e são os seus gestos, trabalhados esteticamente como se “uma dança se tratasse”, aliando-os à música em causa, que mais “arte” transmitem. “Apesar de não perceber o que está a ser cantado, percebo o som, se é uma voz calma, se me transmite paz”, afirma uma das participantes. Um aumento de auto-estima e a possibilidade se expressarem artisticamente são efeitos comprovados do projecto. Mas quando actuam em palco – o coro já fez diversas apresentações – é o público que “tocam”, com as suas mãos e gestos silenciosos, gerando muita emoção e lágrimas, como garante uma outra beneficiária do projecto. A motivação para continuar ganhou novo empurrão, na medida em que o projecto (que chegou ao final da sua duração no PARTIS em 2015) foi também um dos apoiados pelo Prémio BPI Capacitar.

© Fundação Calouste Gulbenkian
© Fundação Calouste Gulbenkian

Sons à margem
“Oferecer o que não tivemos”

Da responsabilidade da Associação Sons à Margem, e em parceria com a Escola de Tecnologias Inovação e Criação (EIC), este foi um dos quatro projectos que, na 1ª edição do PARTIS, teve apenas a duração de 12 meses. Reunindo 30 jovens de bairros problemáticos dos concelhos de Loures e do Seixal, e através da música urbana (hip hop, música africana – ou a “música que é possível fazer com poucos recursos”), o objectivo era, como explicou Armando Leandro, monitor do projecto, “oferecer aquilo que nós não tivemos – um espaço para gravações – quando nos iniciámos nesta prática artística, a possibilidade de convidar outros artistas da área para partilhar ideias e a criação de algo, em conjunto, a partir daí”. O projecto contou com diversos ateliers de produção e escrita criativa, sendo que a ETIC proporcionou também a oferta de um curso de formação nestas áreas durante um ano, numa componente mais técnica e certificando alguns dos seus participantes. Estimular não só as capacidades técnicas e artísticas destes jovens, mas convidá-los a sair das suas habituais “zonas de conforto” era também objectivo do projecto, o qual, apesar de bem desenhado, acabou por não funcionar tão bem quanto se esperava, devido a rivalidades entre os dois territórios intervencionados.

NOTA: Uma parte considerável da informação utilizada para “contar a história” dos projectos apoiados pelo PARTIS, foi retirada da visualização dos vídeos sobre os mesmos, realizados pela Fundação Calouste Gulbenkian, através do seu Programa de Desenvolvimento Humano, e que podem ser consultados aqui

Este artigo faz parte integrante do Especial PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social