Mais um ano que chega ao fim, mais uma altura para olharmos para nós próprios e nos questionarmos em que mundo vivemos, que mundo queremos, que mundo podemos ter. À semelhança dos anos anteriores, a ética continua a ser um bem escasso, apregoado como palavra vazia e com uma aplicação prática muito reduzida. E por vezes é preciso sermos abanados por eventos extremos para ganharmos consciência de que, apesar de não nos podermos responsabilizar pela ética dos outros, temos também de dar melhor uso à que faz parte de nós
POR HELENA OLIVEIRA

Ao longo do ano, e como política editorial defendida desde o seu início, o VER foi dando conta de diversas iniciativas – empresariais, académicas, religiosas, da sociedade civil e até individuais – que continuam a fazer-nos acreditar que é possível mudar, mesmo numa escala reduzida, a desesperança que parece ter-se abatido no planeta ao longo dos últimos anos.

Prova disso e mais recentemente, foram as histórias partilhadas no recente Congresso Mundial da UNIAPAC, as quais espelharam uma renovada atenção sobre formas diferentes de se fazer negócios, mais assentes na solidariedade para com os que nos rodeiam e no cuidado para com o planeta que nos acolhe.

Helena Oliveira, Editora Executiva do VER

Mas também divulgámos o negro reverso da moeda, com casos de más práticas corporativas, a indiferença dos líderes mundiais face aos crescentes e em mutação desafios globais, o aparentemente interminável fosso das desigualdades, a injustiça salarial entre cargos de chefia e empregados “das bases”, a falta de equidade entre homens e mulheres, a ausência de confiança nas instituições, a crise que assola a liberdade de imprensa – e outras liberdades -, os dramas vividos geograficamente perto de nós, a par de queixumes breves face a locais mais longínquos e cujas imagens de terror nos vão passando pelos olhos, mas rapidamente são substituídas por outras menos tenebrosas, acompanhadas do habitual encolher de ombros que tão somente significa “o mundo está como está, mas não podemos fazer nada”.

Como afirmava D.H.Lawrence, “a ética, a equidade e os princípios de justiça não mudam com o calendário”. E não mudam. Antes se reforçam. Mas é verdade também que as nossas vidas dependem da ética dos outros, que é algo que não conseguimos controlar. Como afirmam muitos observadores e especialistas, em particular na área da gestão, a ética é cada vez mais vendida como uma crucial preciosidade, torna-se, na boca de muitos, uma palavra crescentemente pronunciada, mas continua a deixar muito a desejar no que respeita à sua aplicabilidade na prática.

Assim, e por muito que anunciemos iniciativas meritórias de empresas que estão a levar a cabo verdadeiras alterações comportamentais e estratégicas, que divulguemos novos paradigmas de gestão que visam o respeito primordial pelas pessoas e que têm como principal propósito servir o bem comum, sem com isso deixar de gerar lucro, são ainda poucas as organizações e os líderes que levam realmente a sério este ideal de progresso civilizacional. E continua-se a clamar pela ética.

O mesmo acontece com os líderes mundiais que, por muito ou pouco que se esforcem, não resolvem a pobreza, a destruição do planeta, o marchar do populismo, as contínuas guerras sangrentas que continuam a assolar muitas regiões, as crianças que morrem de fome, os hospitais que paralisam as suas funções por não terem medicamentos ou staff, os alertas de que temos 30 anos – se é que queremos continuar a viver “normalmente” na nossa Casa Comum, como lhe chama o Papa – para pôr um ponto final em políticas, lobbys e interesses que nem sequer são dissimulados porque o que realmente continua a importar são os dividendos, os resultados anuais, as fortunas, o aqui e o agora e o umbigo de cada um. Mas continua a falar-se de ética.

Na passada semana, e a convite do Parlamento Europeu, o VER esteve em Estrasburgo, para assistir e fazer a cobertura da entrega do Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento (v. artigo nesta edição). Como todos sabemos e um dia antes da entrega oficial do Prémio em causa, mais um ataque terrorista feria uma cidade francesa. Um dos mercados de Natal mais famosos e frequentados do Velho Continente, pejado de famílias com crianças de brilhos nos olhos e muitos locais e turistas que por ali passeavam, foi em poucos minutos abanado pelo troar dos tiros, manchado pelo sangue, ensurdecido pelo barulho das sirenes da polícia e pelos gritos de urgência angustiante de várias ambulâncias.

Perto do local à hora fatídica, e entre gritos e muita gente em fuga, a noite estava fria e gélida se tornou. Mais do que as poucas notícias que nos iam chegando – éramos um grupo de alguns jornalistas – estávamos ali com a certeza de que o que quer que fosse que tivesse acontecido, era grave. Dei por mim a contar as ambulâncias que saiam da ponte de acesso ao mercado de Natal em causa, aumentando a angústia com o número crescente das que continuavam a entrar no mesmo local. “Saíram três, entraram seis”, lembro-me de o ter referido. Incontáveis meios policiais iam chegando – não, ele não foi apanhado, ouvíamos dizer – e a confusão era total.

Mais do que medo, o sentimento era de incredulidade. Sim, já aconteceu várias vezes, sim, vai muito provavelmente continuar a acontecer, mas estava a acontecer naquele momento e eu só recordava os miúdos de bochechas coradas que passeavam pela mão dos pais e que tinha visto umas horas antes no mesmo local, os casais de velhotes de mãos dadas a fotografarem os prédios engalanados com motivos natalícios, os jovens (e menos jovens) a sorrir e a beber um “vin chaud” para aquecer a alma e o corpo. E em alguns segundos tudo isso se esfumou. O grito das sirenes sobrepôs-se a qualquer espírito natalício –afinal, é a paz que há milénios se busca – e a minha própria necessidade de me sentir segura fez-me ter vergonha. Terror, mortos e feridos e tudo o que desejava era sentir-me em segurança, voltar para junto dos meus e dar graças por ter escapado. Não me orgulho do que senti.

Este relato não pretende ser, e obviamente, sobre a minha experiência e a dos que me acompanhavam. Mas, e depois de digeridos aqueles momentos estranhos, serviu para reiterar a ideia de que por muito que nos orgulhemos da nossa ética, da nossa generosidade, do mal que sentimos quando vemos o que sofre “o outro”, das boas intenções que temos face a quem sofre e daqueles que, de uma forma ou outra, vamos tentando ajudar, no fim o que importa somos nós mesmos. E isso acontece, em maior ou menor grau, em todas as esferas da sociedade.

Acontece nas promessas não cumpridas dos políticos depois de eleitos; acontece nas empresas que clamam que o que interessa são as pessoas, mas que quando os lucros começam a perigar, estas são facilmente esquecidas e descartadas; acontece com os grandes gigantes empresariais que gastam milhões em programas de ética e de responsabilidade social, ao mesmo tempo que não abandonam as suas actividades poluidoras ou que continuam a comprar produtos feitos por mão-de-obra barata sem quererem saber das condições desumanas em que vivem os trabalhadores que os produziram; acontece com os países que assinam contratos de “bom comportamento” face ao estado do planeta mas que dão graças por os mesmos não serem vinculativos. Acontece com os CEO preocupados com os seus empregados, que oferecem majestosas festas de Natal, mas que enquanto dão pancadinhas nas costas face ao bom serviço prestado durante o ano que passou, estão a fazer contas de cabeça relativamente ao que vão ganhar com os seus chorudos bónus. Acontece com os senhores da guerra que vêem as suas populações serem dizimadas e apenas pensam no sabor inebriante do poder. Mas continua-se a falar de ética.

Particularmente em tempo de Natal, em que o amor ao próximo passa a fazer parte do léxico das populações, deixamos de ser um pouco menos egoístas. Estamos mais atentos aos sem-abrigo porque lhes é servida uma refeição quente que é divulgada pelos media, sentimos pena dos que não têm família e passam a consoada sozinhos, lembramo-nos dos velhos que são abandonados nos hospitais porque “não dão jeito”, damos uns segundos extra de atenção a todas as notícias que nos mostram o horror em que vivem milhões de pessoas e que demonstram que o Natal quando nasce, não é para todos. E até participamos em iniciativas solidárias tentando convencer-nos a nós próprios que estamos a fazer a nossa parte. Afinal a ética é fazer o que está certo.

Einstein afirmava que a ética é uma preocupação exclusiva do ser humano e que não existe nenhuma autoridade “super-humana” por trás dela. Mas temos de fazer mais, lutar pela nossa ética, mas também lutar pela dos outros. E fazer com que a ética possa ser o principal fundamento de qualquer pessoa, empresa, instituição ou governo, não como mera intenção, mas com verdadeira acção.

E que bom presente de Natal seria se tal acontecesse.

Nota: Pese embora o tom pouco optimista deste texto, o VER reconhece os bons exemplos de muitas iniciativas empresariais e de outros domínios da sociedade que integram a ética como parte do seu “ser e querer”. E é também por isso que continua fiel à sua missão de divulgar as histórias que realmente fazem a diferença. A todos os que as integram, bem hajam.

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