Os efeitos da pandemia na saúde mental de vários segmentos da população têm vindo a ser estudados praticamente desde o seu deflagrar, com resultados pouco animadores e significativamente preocupantes. Mas existem ainda poucos dados sobre os malefícios emocionais que afectam quem tem a responsabilidade de manter um negócio a funcionar num terreno com muitas areias movediças. Apesar de muitos líderes considerarem que a fadiga mental é uma “fraqueza” que só acontece aos outros, a verdade é que não existe uma imunidade garantida face a este estado. Reconhecer os sinais de burnout e atacá-los enquanto é tempo é crucial não só para os próprios líderes, mas também para toda a empresa
POR HELENA OLIVEIRA

Os grandes líderes partilham, e na maioria dos casos, uma característica comum: a capacidade de enfrentarem desafios complexos a partir de soluções inovadoras. E, em certas alturas, quando parece que o peso do mundo repousa nos seus ombros, todos esperam que estejam à altura de o suportarem. Com a pandemia global de Covid-19, os líderes foram forçados a enfrentar um número de situações extremamente difíceis e sem precedentes. O encerramento em simultâneo da economia global deixou-os num território perturbador e desconhecido e, na maioria dos casos, sem os recursos necessários para tomar decisões delicadas. No dia-a-dia, são forçados igualmente a manter operacionais os seus negócios e a salvaguardar a saúde e o bem-estar dos seus trabalhadores, mas sem a ajuda de qualquer bússola orientadora.

Todos nos lembramos (até porque apesar de parecer que a pandemia já nos acompanha há um tempo infindável, apenas passaram uns poucos meses) da altura em que ninguém sabia muito bem o que se estava a passar e que o que mais interessava na altura era aprender a assistir e a participar numa reunião do Zoom ou de qualquer outro seu congénere e a sobreviver ao caos em que se transformaram as nossas casas, com filhos a partilhar computadores, com avós a lamentar o isolamento e a falta de abraços, com o mundo a mudar à frente dos nossos olhos e sem nada podermos fazer. Pois bem. Nessa mesma altura, e enquanto todos estávamos preocupados com o vírus assassino e com a nossa segurança pessoal e profissional, o que na verdade queríamos – e até exigíamos – era a presença de líderes calmos, seguros de si e que fossem eles a tranquilizar-nos, mesmo tendo a consciência que nenhum deles tinha passado anteriormente por uma provação global deste calibre.

Adicionalmente, existe um outro factor que é comummente esquecido: os líderes que também são pais, mães e filhos, que foram igualmente obrigados a aprender a interagir de forma diferente com a sua família e amigos, a reinventarem a sua forma de trabalhar, a gerir de forma diferente os que deles dependem e, para os que ainda tinham algum tempo de sobra, a serem bombardeados com imagens e posts daqueles que, em tempo de confinamento, voltaram a redescobrir os simples prazeres da vida como cozer pão caseiro, dedicar-se a uma horta doméstica, seguir os vídeos de exercício ou relaxamento que entretanto inundaram a Internet, pôr “em dia” as séries ainda não vistas do Netflix e afins, ou, em suma, perceber que, para muitos, a chegada da pandemia até teve um lado “positivo”, uma espécie de férias e de afastamento das rotinas diárias que conseguem ser tão cansativas.

Na verdade, e apesar de ao longo destes últimos meses terem-se multiplicado os estudos e as análises sobre os efeitos da pandemia na população em geral, ou em certos segmentos em particular, não é muito comum falar-se na saúde mental daqueles que, muitas vezes, se sentem isolados no topo, ao mesmo tempo que carregam sozinhos a enorme responsabilidade de manterem um negócio e os respectivos postos de trabalho.

Em retrospectiva, liderar a mudança, em muitos casos radical, na forma como organizações inteiras operavam, em apenas alguns dias ou mesmo horas, não foi tarefa fácil. Depois veio a consciencialização de que o vírus não era apenas “uma gripezinha” e que iria fazer parte da nossa vida pelo menos durante algum tempo, em conjunto com a terrível percepção do impacto financeiro que teria nas empresas em todo o mundo, seguida pela pressão dos accionistas no sentido de se tomar decisões dolorosas em matéria de pessoal que fez muitos líderes sentirem-se excepcionalmente cruéis num momento tão terrível. Além disso, a tarefa de tentar manter uma cultura empresarial no meio de um furacão demolidor, ao mesmo tempo que tentavam projectar uma imagem de equilíbrio e profissionalismo para tranquilizar os trabalhadores para que estes pudessem sentir que tudo estava sob controlo foi, decerto, esgotante.

Por outro lado e como sabemos, ser líder sempre significou ter a responsabilidade pelo crescimento do negócio e pela produtividade dos trabalhadores ao seu cuidado e, como se tal não fosse já complexo o suficiente, dos líderes espera-se actualmente, nos tempos difíceis que vivemos, que sejam também especialistas de cuidados de saúde, sendo obrigados a prestar total atenção ao estado físico e ao bem-estar mental dos seus empregados. Ou seja, a pandemia não só teve impacto negativo na generalidade dos domínios que compõem as suas vidas (e as de todos nós), como ainda acrescentou uma camada extra de responsabilização na sua já longa lista de tarefas, ao que se soma a extrema dificuldade de estes saberem qual a melhor forma de protegerem as suas equipas quando as mensagens que são veiculadas pelas entidades de saúde e outros especialistas estão em contínua mudança. Ou e em suma, manter-se constantemente informado sobre as mais recentes notícias, conselhos e protocolos é, já por si, um trabalho a tempo inteiro.

Complementarmente, uma alteração súbita na forma como as equipas passaram a comunicar durante a pandemia constitui outro factor que contribuiu e muito para a ansiedade e stress contínuos da liderança. Saber como comunicar, o que comunicar e quando comunicar para ajudar os empregados a manterem a sua produtividade enquanto estão em casa, por exemplo, complica sobremaneira a gestão no seu todo. E, para os líderes que não estão habituados a gerir uma força de trabalho remota, o stress pode chegar a níveis perigosos à medida que são procuradas soluções exequíveis para problemas aparentemente insolucionáveis.

Assim e independentemente da situação particular de cada líder e respectiva empresa, a verdade é que quase oito meses passados sobre o início da pandemia, a ansiedade, o stress e a fadiga que os acompanha em qualquer que seja a decisão que tomam está a ter um efeito profundo na sua saúde mental e bem-estar e a nível global.

Se o líder não se cuida, contagia o resto da organização

Sendo óbvio que os líderes, enquanto humanos, não são imunes a estados de grande stress e fadiga emocional que podem conduzir a situações de verdadeiro burnout, muitos são aqueles que acreditam ter super-poderes e que consideram que uma má saúde mental é uma fraqueza que não podem demonstrar.

E lidar com corte de custos, despedimentos, queda do preço das acções e longas horas de trabalho para tentar equilibrar a empresa e não a deixar sucumbir contribui, muitas vezes e em primeiro lugar, para o aparecimento de problemas de sono. Como é comprovadamente sabido, a falta de sono não só contribui para aumentar o stress mental, como pode causar uma miríade de problemas comportamentais, os quais podem resultar num problema grave de saúde. E se a primeira consequência deste estado recai, normalmente, nos que são mais próximos do líder, a verdade é que depois acaba por ter consequências também na gestão da empresa. Um aumento de agressividade na comunicação com os trabalhadores, a falta de foco e clareza, uma preocupação extrema com os seus próprios pensamentos e um aumento desmesurado de exigência face aos outros são alguns dos primeiros sinais. Em cenários extremos, mas infelizmente não impossíveis, o líder mentalmente assoberbado poderá recorrer à violência ou refugiar-se no álcool, drogas ou narcóticos para aliviar a dolorosa angústia que o aflige.

Pelo contrário, a boa saúde mental dos líderes ajuda-os a serem mais perspicazes, observadores e vigilantes, sendo capazes de responder a situações de grande complexidade e ajustando a sua abordagem à medida que os problemas se vão desenrolando. A agilidade acompanha-os e, se mentalmente sãos, terão a vontade necessária para explorar novos horizontes, na perseguição de uma nova e melhor realidade para as suas famílias e organizações. Os líderes que sabem cuidar da sua saúde mental são mestres em nadar em mares revoltos sem se afogar, regressando de seguida à praia para ganharem novo fôlego, sabendo quando devem parar e descansar.

Como já anteriormente referido, a questão da comunicação com os trabalhadores ganhou uma importância significativa nos tempos actuais. O trabalho a partir de casa, que continua a ser uma tendência em muitas empresas, a falta de “ligação” ou de pertença, as questões da confiança, entre outras alterações, modificaram quase por completo a forma de trabalhar. E esta súbita mudança na forma como comunicamos e trabalhamos tem sido uma enorme fonte de stress para muitos líderes, na medida em que são eles os guardiões da comunicação entre a empresa e os seus constituintes. Ou seja e no actual ambiente laboral, é crescentemente importante para os líderes perceber o que comunicar, “quanto” comunicar e como comunicar. E dadas as condições peculiares em que vivemos, os líderes podem enfrentar um conjunto de problemas que inclui a utilização de um tom impróprio e/ou ofensivo, depararem-se com alguém que carece de empatia, comunicar com a audiência errada excluindo a certa, o que pode conduzir a uma duplicidade de trabalho para a equipa e a potenciais problemas de confiança.

Os líderes que apresentam uma boa saúde mental sabem utilizar a sua inteligência emocional e social para expressar exactamente o que querem transmitir, sendo que a empatia e a compaixão são claramente visíveis nas suas vozes, entoação e mensagens.

Este factor ajuda-os a construir a confiança, a positividade e uma atmosfera assente no propósito que deverá orientar a organização. Por outro lado, ajuda-os a resolver conflitos e a manter relações pacíficas, tanto na sua vida profissional como pessoal. Em tempos difíceis como os que estamos a testemunhar, manter uma ligação com os trabalhadores é imprescindível, bem como demonstrar preocupação relativamente à sua segurança e bem-estar físico e mental. E este tipo de líderes aprende rapidamente a customizar o seu estilo de comunicação, entoação, linguagem e transmissão da mensagem para assegurar o “toque” no coração e mente dos seus empregados. Apesar da distância física, os líderes da actualidade estão a dominar as tecnologias de colaboração virtual para estarem mais perto da sua força laboral, alimentando um sentimento de unidade no meio da crise.

Assim, cuidar da sua própria saúde mental é cuidar, ao mesmo tempo, da empresa e dos seus stakeholders, em particular dos trabalhadores que partilham com o líder as circunstâncias particulares desta gestão da incerteza.


Como aliviar a pressão, sua e da sua equipa

Na ânsia para gerir o melhor possível, os líderes não dão prioridade à sua saúde mental, bem-estar e resiliência, o que conduz mais facilmente a situações de burnout, “fadiga na decisão” e, mais importante ainda, à ausência de vitalidade necessária para enfrentar mais uma maratona que se avizinha. Seguem-se algumas sugestões para minimizar um possível esgotamento mental e emocional.

Desintoxicação digital

Graças ao trabalho remoto e à urgência na tomada de decisões exigida pela Covid-19, existe cada vez menos uma distinção entre os dias úteis e os fins-de-semana, bem como entre o “normal” dia de trabalho e as horas a mais que, em casa, nos habituámos a trabalhar. Desta forma, estabelecer horários bem definidos, para si e para a sua equipa, e concordar em cumpri-los e respeitá-los será talvez o mais importante passo a ser dado para se evitar situações de fadiga extrema. Mesmo que nem sempre se consiga terminar as tarefas agendadas para determinado período e mesmo que, por vezes, seja necessário – e também para nosso descanso mental – fazer algumas horas extra, a ideia é não deixar que a excepção se transforme em regra.

A importância de um círculo de pessoas em quem confia plenamente e que o podem apoiar

Um dos principais problemas do trabalho remoto – ou do simples isolamento do líder no topo – é a solidão. Apesar das tecnologias que nos permitem estabelecer contacto virtual com colegas ou superiores serem cada vez mais usadas, por vezes o que precisamos é de um pouco de “conversa fútil” que nos afaste, nem que seja por alguns minutos, dos problemas laborais. Se, no escritório, há sempre um tempinho para se tomar um café e dar dois dedos de conversa, em casa até o café se torna solitário. Assim, planeie pausas ao longo do dia nas quais possa ligar a um amigo, ou mesmo a um colega, desde que o tema de conversa são seja exclusivamente relacionado com o trabalho. E, para os líderes que não têm um mentor ou um coach, é uma boa altura para pensar no assunto. Se, por outro lado, não se sentir confortável em falar com pessoas da sua empresa, sector ou até mesmo do seu país, uma das possibilidades é juntar-se a uma rede de pares de qualquer parte do mundo. E poderá ficar agradavelmente surpreendido com o apoio que irá encontrar.

Manter a ligação à equipa é imprescindível

Com o passar do tempo e com tantas frentes de fogos que tem de apagar, é normal que se sinta tentado a diminuir o contacto e a ligação com a sua equipa mais alargada, o que é um erro que, mais cedo ou mais tarde, poderá vir a pagar caro. Manter o contacto com toda a equipa não só é vital para o seu próprio bem-estar, mas crucial para manter a “frente unida” em tempo de crise. E se no escritório físico existia algum tipo de tradição – como beber uma cerveja ao final do dia de sexta-feira, por exemplo – mantenha-a, mesmo que em modo online, para não perder a ligação com os seus pares.

É obrigatório arranjar tempo para actividades extra-trabalho

Fazer exercício, socializar (mesmo que virtualmente), ler ou ouvir música, ou dedicar-se a qualquer que seja o seu hobby, é imprescindível para manter a sua sanidade mental. O exercício, em particular, deve mesmo ser cumprido, nem que seja para assegurar uma melhor forma física, pois quanto mais saudável, mais defesas terá para enfrentar o vírus, caso este lhe bata à porta.

Esteja sempre sintonizado com a sua bússola moral

Numa altura em que não existe nenhum mapa orientador que nos permita circular nas complexas avenidas da pandemia, a sua bússola moral torna-se companhia indispensável. Tomar decisões que sejam contra aquilo que considera errado ou pouco ético só contribuirá para causar mais stress a longo prazo.

Assegure-se de que tem as pessoas certas no seu “barco”

Apesar de não dever negligenciar o contacto com a sua equipa alargada, ter uma pequena equipa que o apoia incondicionalmente e com a qual sabe poder sempre contar vale mais do que ouro no período complexo que atravessamos. Esta não é definitivamente a altura para se rodear de pessoas que não estão realmente envolvidas com a missão da empresa, que têm comportamentos negativistas ou que sejam, por norma, disruptivos. Por outro lado, incluir, nessa mesma equipa mais intima, algumas pessoas com saberes complementares ao seu e com um conjunto diferente de competências é também uma boa jogada. Ter acesso a perspectivas diferentes sobre a tempestade que uiva lá fora só o irá enriquecer e, em muitos casos, tornará mais fácil e menos emocionalmente desgastante suportar as agruras do quotidiano.

Não tente fazer tudo sozinho e de uma só vez

São muitos os líderes, em particular nos negócios de menor dimensão, que consideram ser muito difícil delegar funções ou tarefas de forma eficaz quando se está em trabalho remoto. Todavia, é exactamente nesta altura que deverá conferir maior poder a outros membros da sua equipa de liderança e adoptar um estilo de gestão mais colaborativo. E, ao fazê-lo, não só será capaz de abrandar o seu ritmo – algo imprescindível para ir fazendo um balanço da performance da empresa – como terá mais tempo e capacidade para a tomada de decisão.

Manter, ao máximo, a “normalidade possível”

Todos sabemos já que a pandemia veio virar de cabeça para o ar tudo a que estávamos habituados. Todavia, e se for possível, manter os processos de negócio habituais para não perder o foco e evitar sentir-se esmagado pela situação, poderá ser o melhor a fazer para manter a saúde da empresa e, principalmente, a sua. Obviamente que muitos ajustes terão de ser feitos, mas conseguir instituir uma certa ordem no caos poderá fazer toda a diferença.

Repensar a forma como passa os seus dias

Quase oito meses passados sobre o início da pandemia e já muitos estudos comprovaram que as reuniões virtuais acabam por ser exaustivas e bem mais cansativas do que as presenciais. Assim, diminua o número de reuniões que tem por dia, bem como a sua duração e não ceda à tentação de arranjar motivos para convocar os seus pares ou trabalhadores para mais uma logo que encontra um problema. Lembre-se que é importante saber distinguir o que é urgente do que é importante e que há assuntos que podem perfeitamente ficar para o dia seguinte.

Concentrar-se no que é realmente importante

Ao que tudo indica, temos ainda pela frente uma provável longa maratona. E nem todos nós teremos a capacidade necessária para trabalhar em constante stress, numa contínua imprevisibilidade e sempre com medo que algo de mal aconteça à nossa família, aos nossos trabalhadores e ao nosso negócio. Pensar no pior e esperar o melhor é um conselho que se está a popularizar, mas a verdade é que temos mesmo de cuidar da nossa saúde mental – e da dos nossos colaboradores – pois são demasiadas as incógnitas que rodeiam o futuro. Caso o stress e o desgaste emocional atinjam níveis que não consegue mesmo controlar, procure ajuda. E nunca se esqueça que é humano e não um ser com super-poderes.


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