É com nervosismo e expectativa que muitas crianças, jovens, professores e pais enfrentam, por esta altura, o início de mais um ano lectivo. Diversos são os estudantes que prometem ter melhores notas e prestar mais atenção nas aulas. E se, ao invés de lhes perguntarmos o que é que eles sabem, começarmos por questionar o que querem que nós saibamos? Este foi o exercício que fez Kyle Schwartz, uma docente norte-americana, junto da sua turma do terceiro ano. Dar voz aos alunos foi o seu principal objectivo. E o resultado tornou-se viral
POR
MÁRIA POMBO

O início do ano lectivo não deixa ninguém indiferente, sejam os pais, os professores e, principalmente, os alunos. É tempo de crianças e jovens, no geral, voltarem a ter rotinas, resmungarem por terem de acordar cedo, mas também estabelecerem novas prioridades e objectivos. É época para se fazerem novas promessas, do estilo “este ano vou deixar o telemóvel no silêncio e ter boas notas”. E também é a altura em que os estudantes, um pouco por toda a parte, retomam o contacto com alguns colegas que não viram durante o Verão, fazem novos amigos, conhecem os professores, preparam o material escolar e folheiam os manuais pela primeira vez… É tempo de aprenderem novas matérias, de conhecerem o mundo um pouco mais e de pensarem no que querem ser quando forem crescidos. No fundo, é tempo de serem felizes e voltarem a inserir-se numa comunidade chamada escola.

E é com base na ideia de que, mais do que ensinar conceitos, os professores “ensinam [e educam] pessoas” que Kyle Schwartz, uma docente do primeiro ciclo de uma escola de Denver, nos Estados Unidos, considera que “o mais importante na sala de aula é construir uma comunidade”. Esta cidadã que escolheu o ensino como profissão lecciona numa vulgar escola pública do Estado do Colorado que, tal como muitas outras, enfrenta um problema severo: o elevado número de crianças que vivem em situação de precariedade e se deparam com muitos desafios, de ordem variada, no seu dia-a-dia. De acordo com o National Center for Children in Poverty, 44% das crianças residentes nos Estados Unidos vivem em agregados de baixos rendimentos, sendo a pobreza apontada como um dos principais factores que motivam a existência de problemas a nível social, emocional e comportamental.

© DR - Eu gostava que a minha professora soubesse que temos pouco dinheiro e precisamos de ir a um banco alimentar buscar comida.
© DR – Eu gostava que a minha professora soubesse que temos pouco dinheiro e precisamos de ir a um banco alimentar buscar comida.

Face a estas circunstâncias, a “professora que adora ensinar os alunos a escrever poesia” acredita que “não existe nenhum poder mágico que separe os problemas das alegrias”, nem que permita deixar em casa o que acontece no interior das suas quatro paredes. Enquanto educadora, a docente norte-americana entende que é seu dever honrar as memórias, os pensamentos e os sentimentos dos alunos, incentivando a partilha dos mesmos na sala de aula, principalmente porque considera que, ao longo da vida, “as diversas experiências moldam os alunos e influenciam o seu desenvolvimento académico”, sendo por isso necessário conhecê-los.

Apesar de os horrores da pobreza assoberbarem muitos professores ao longo da carreira, dando-lhes a sensação de impotência perante situações que são tão injustas, conhecê-la pode fazer a diferença entre promover o sucesso ou contribuir (mesmo que involuntariamente) para o insucesso de um aluno ou de uma turma com estas características em particular. Para combater a frustração, Schwartz acredita que é importante procurar sempre as forças, as motivações e os interesses dos alunos – e não as suas fraquezas – porque é a partir destes que o professor tem a capacidade de os motivar, estimulando o seu interesse pela escola e a vontade de aprender.

E tudo isto poderia ser muito interessante na teoria, mas não ter qualquer efeito na prática. Tal como este artigo poderia ser escrito bem ao estilo de “10 ideias para motivar os jovens, na sala de aula”, recorrendo a uma comum professora do terceiro ano de uma escola pública norte-americana para falar da dura realidade que a mesma enfrenta, no seu país. Ou porque não escolher uma professora portuguesa, do mesmo grau escolar, com alunos que vivem também na precariedade, sem termos de fazer uma travessia pelo Atlântico? A resposta reside no facto de existir algo realmente diferente – e inquietante – na estratégia que Schwartz encontrou para “ensinar pessoas e não conceitos”, transformando a sua turma numa verdadeira comunidade onde se promove a partilha de ideias e se tentam remover algumas barreiras que impedem muitos estudantes de continuar a aprender. E que, mais importante que tudo, poderá ser replicada em qualquer lugar do mundo, inclusivamente no nosso país.

Porque um exercício pode mudar a vida… também da professora

Entre os múltiplos exercícios a que recorre com regularidade para estabelecer uma ligação de confiança entre si e os seus alunos, Schwartz experimentou um que fez (e está a fazer) a diferença na sua carreira e vida, e também na de outros educadores em vários cantos do planeta. Assumindo, junto dos seus alunos do terceiro ano, que gostaria de conhecê-los melhor, a docente escreveu, um dia, no quadro a frase “Eu gostava que a minha professora soubesse…”, pedindo-lhes que a completassem, individualmente e por escrito.

Manifestando “honestidade, humor e vulnerabilidade”, algumas crianças falaram do seu desporto ou prato favoritos, outras alertaram-na para diversos conflitos com colegas e situações de bullying, outras escreveram sobre as pessoas de quem mais gostam, da relação que têm com os irmãos e das saudades que sentem dos pais que, por algum motivo, não vêem regularmente. Alguns alunos revelaram os seus sonhos e o que desejam para o futuro, outros falaram das dificuldades, a nível financeiro, que enfrentam no dia-a-dia; outros ainda assumiram a vontade que têm de aprender mais acerca de uma determinada matéria. Cada resposta “foi única” e, no final, este exercício demonstrou que conhecer verdadeiramente os seus alunos é um imperativo para Schwartz e uma importante ferramenta que lhe permite preparar as aulas de acordo com o plano curricular que tem de cumprir, mas também com base nos desejos e nas dificuldades dos alunos. Complementarmente, este exercício deu aos estudantes a consciência de que a sua professora é alguém que os educa, mas que também os ouve e se preocupa com eles.

© DR - Eu gostava que a minha professora soubesse que não tenho lápis em casa para fazer os TPC.
© DR – Eu gostava que a minha professora soubesse que não tenho lápis em casa para fazer os TPC.

Apesar de ter tido um grande impacto para Schwartz, aquele exercício não passou disso mesmo: uma dinâmica de sala de aula – na sala 207 da Doull Elementary, em Denver, se quisermos ser mais precisos. Todos os ‘papelinhos’ que aquelas crianças escreveram foram lidos e relidos, mas não divulgados. Contudo, existiu um bilhete que, mais do que outros, lhe tirou o sono e a obrigou a agir.

“Eu gostava que a minha professora soubesse que não tenho lápis em casa para fazer os TPC”. Estas foram as palavras de uma aluna que sempre revelou vontade de ir à escola, de aprender, de ter sucesso e de ultrapassar os desafios propostos pela professora. E este bilhete teve uma enorme importância na vida de Schwartz, porque lhe demonstrou que não conhecia minimamente a realidade em que viviam alguns dos seus alunos, estando longe de imaginar que aquela criança, aplicada e motivada, vivia tais dificuldades.

Por este motivo, os bilhetes de alguns alunos foram partilhados, de forma anónima, com outros professores da mesma escola e, posteriormente, com o mundo inteiro, através das redes sociais. Demonstrar que “os alunos falam sobre as suas realidades se simplesmente os convidarmos a fazê-lo” foi o principal objectivo da divulgação daquilo que os alunos de Schwartz queriam que ela soubesse. A docente não tem dúvidas de que, no exercício da sua profissão, existe cada vez mais o “dever de perguntar, para que os alunos respondam”, mas também a “obrigação de escutar, para que estes se sintam ouvidos”, acreditando que “os alunos que sentem que têm voz são mais abertos, mais empenhados e estão mais dispostos a arriscar na escola”.

Quando se parte e reparte e todos ficam com a melhor parte

Com cerca de 13 mil seguidores no Twitter, Schwartz transformou esta – aparentemente – simples questão num autêntico fenómeno viral, também presente em outras redes sociais, denominado #IWishMyTeacherKnew. Mais recentemente, e no seguimento deste inesperado sucesso, a docente de Denver publicou um livro com o mesmo nome do movimento (e da frase) que lhe deu visibilidade, ou seja, “Eu gostava que o meu professor soubesse”. Este livro traduz-se num guia prático para educadores e pode (e deve) inclusivamente ser utilizado por pais e outros familiares. O mesmo pode ainda ser adaptado ao meio empresarial, dada a sua capacidade de auxiliar os gestores e líderes a estabelecer relações de confiança com os trabalhadores, formando assim empresas mais fortes e apostando em equipas mais comprometidas e empenhadas.

Utilizando as respostas dos alunos como autênticas premissas (ou ideias) a partir das quais aconselha os docentes sobre algumas estratégias ou posturas que podem adoptar, Schwartz pretende partilhar o que a própria experiência lhe tem vindo a ensinar, tentando evitar que outros professores cometam alguns dos erros que já cometeu e ajudando-os a estar, no futuro, mais atentos às verdadeiras necessidades dos alunos.

© DR - Eu gostava que a minha professora soubesse que o meu pai tem dois trabalhos e não o vejo muitas vezes.
© DR – Eu gostava que a minha professora soubesse que o meu pai tem dois trabalhos e não o vejo muitas vezes.

A este propósito, a docente recorda uma situação em que teria agido de outra forma se tivesse tido conhecimento prévio da realidade em causa. Trata-se de uma aluna a quem ofereceu, em tempos, a inscrição num campo de férias dedicado às ciências, durante os meses de Verão, dado o fascínio que a mesma revelou ter por esta área; pensando estar a ajudar esta jovem, Schwartz veio mais tarde a saber que a frágil situação financeira da família da aluna impediu que os pais não lhe tivessem conseguido garantir o transporte para o local onde iriam decorrer as actividades. Pensando estar a oferecer uma oportunidade a esta jovem, a docente acabou por contribuir assim para que tivesse aumentado o seu sentimento de frustração.

E é também por este motivo que no seu livro Schwartz defende que é crucial que os professores tenham conhecimento, através das direcções das escolas, dos alunos que vivem em situações mais complexas, de modo a saberem de antemão quais são as suas verdadeiras necessidades e motivações, dando-lhes assim um apoio mais adequado logo desde o primeiro dia de aulas. Considerando que “os pais são os primeiros e os melhores educadores das crianças”, Schwartz defende também a necessidade e a importância de trabalhar em conjunto com estes na educação dos seus alunos, apostando na criação de uma relação de confiança entre os diversos educadores dos miúdos. Ainda no seu livro, a docente do terceiro ano explica que as salas de aula podem ser um local onde as crianças e os jovens aprendem a suportar e a lidar com o sofrimento, sugerindo que as escolas apostem mesmo na criação de “gabinetes de dor e perda”, nos quais os alunos possam encontrar respostas e ajudas em momentos de crise.

© DR - Eu gostava que a minha professora soubesse que não tenho amigos com quem brincar.
© DR – Eu gostava que a minha professora soubesse que não tenho amigos com quem brincar.

Entre elogios e críticas negativas, a verdade é que os comentários e as partilhas nas redes sociais acerca deste tema não têm parado de aumentar. Considerando que é elevado o número de crianças por turma, nos Estados Unidos e não só (veja-se o exemplo de Portugal, onde raras são as turmas que têm menos de 25 alunos), muitos comentadores questionam se um professor terá mesmo disponibilidade, capacidade e meios para acompanhar, de forma mais próxima e adequada, cada aluno, ou se este será apenas um exercício sem continuidade nem resultados.

No entanto, muitas das reacções têm chegado de outros docentes que, levando a ideia para a sua própria sala de aula, divulgam também algumas das respostas dos alunos e os resultados alcançados com esta dinâmica, demonstrando o seu apreço pelo gesto de Schwartz e confirmando a utilidade e os benefícios deste exercício, nomeadamente na aproximação entre as crianças e os professores, a qual revela ser bastante importante para as cativar e criar um maior interesse pelas matérias leccionadas. E haverá melhor forma de iniciar o ano lectivo do que apoiar, o mais possível, os professores na difícil tarefa que é educar as nossas crianças?

Mária Pombo

Jornalista