A edição de 2019 do Portugal Economia Social, que se realizou no início desta semana em Lisboa, contou com a presença do B Lab Portugal. Assim e neste âmbito, o VER conversou com Margarida Couto, membro da direcção B Corp, sobre este movimento crescente de empresas que “querem ser uma força para o bem”. Convencida que estamos a enfrentar uma verdadeira (r)evolução no mundo dos negócios, Margarida Couto considera que, para já, “esta é apenas uma ‘onda’ que começa a desenhar-se no horizonte”, mas que poderá crescer e “inundar” as empresas que continuam a fazer “business as usual”
POR HELENA OLIVEIRA

O lema que une as B Corps afirma que estas “não querem ser as melhores do mundo, mas as melhores para o mundo”. De uma forma geral, como se define uma B Corp?

A definição propriamente dita varia consoante estejamos de falar de B Corps em sentido geral, ou Benefit Corporations, dado que estas últimas correspondem a um estatuto legal próprio, existente em muitos Estados dos EUA. Em termos gerais uma B Corp é uma empresa, ou seja, uma entidade com fins lucrativos que é certificada como cumprindo, de forma voluntária, níveis muito elevados de transparência, de responsabilidade social e ambiental, de envolvimento com a comunidade, entre outros critérios. De forma simples, pode dizer-se que são empresas que querem ser uma “força para o bem”, que representam uma nova forma de capitalismo – muitas vezes referido como “capitalismo consciente”- e que combinam lucro e propósito de forma harmoniosa, tendo um impacto globalmente positivo na sociedade.

Existem, actualmente, mais de 3100 empresas certificadas como B Corps em mais de 70 países. “Ser” uma B Corp exige uma certificação. Como é feita essa certificação [que critérios são levados em conta para tal] –, e por que entidade?

A certificação como B Corp é feita pelo B Lab, uma entidade americana sem fins lucrativos. Para obter essa certificação é necessário obter uma pontuação não inferior a 80 pontos (num máximo de 200), sendo avaliada uma enorme diversidade de critérios, desde a qualidade dos produtos ou serviços da empresa até à forma como esta trata os seus colaboradores, lida com os desafios ambientais ou apoia a sua comunidade. A certificação implica o pagamento de uma quota anual que varia em função do volume de negócios da empresa e tem de ser renovada a cada dois anos.

As B Corps  fazem parte de um estimulante movimento de responsabilidade social corporativa que está a ser bem-sucedido em várias partes do mundo. Até que ponto é possível afirmar que o movimento B Corp está mesmo a fazer a diferença ou, em particular, como está a ajudar, verdadeiramente, as empresas a criar mais valor social, ambiental e também financeiro?

Julgo que ainda é cedo para avaliar em que medida o movimento B Corp está realmente a constituir uma força de mudança positiva, por ser um movimento recente, sobretudo nos países europeus. Mas parece-me indiscutível que é um movimento que leva as empresas nele envolvidas a criar mais valor social e ambiental, sem perda ou diminuição de retorno financeiro.

A comunidade B Corp portuguesa está ainda na sua fase inicial contando com 10 empresas portuguesas certificadas e outras tantas multinacionais, também certificadas, com presença significativa em Portugal. Como se espera que o movimento evolua no nosso país e o que é preciso fazer para que aumente o número de empresas certificadas?

Acredito que em Portugal estão a criar-se condições favoráveis a que o movimento B Corp progrida, porque são cada vez mais as empresas a compreender que o seu papel na sociedade mudou e que o seu único ou principal foco não pode ser o retorno accionista, nem este retorno pode ser obtido à custa de sacrifícios ambientais ou de impactos sociais negativos. O que é preciso é que sejam cada vez mais as empresas a acreditar que se não criarem valor para os seus diversos stakeholders, não são sustentáveis no longo prazo. Admito que, a prazo, muitas delas acabem por querer obter a certificação como B Corp.

A revista Inc. chama à certificação B Corp “o mais elevado standard dos negócios socialmente responsáveis”; o The New York Times escreveu que a “B Corp oferece o que mais falta fazia: provas” e líderes mundiais de diversas esferas, tal como o antigo presidente norte-americano, Bill Clinton ou o laureado com o Nobel da Economia Robert Schiller, “apostam” que as empresas que merecem esta certificação serão mais lucrativas que as demais. Que principais benefícios, e para os vários stakeholders, são passíveis de ser retirados destas empresas em particular?

Dados recentes mostram, de facto, que as empresas que combinam lucro com propósito, que criam valor para todos os seus stakeholders e não apenas para os accionistas, que reportam de forma transparente tudo o que (de bom ou de mau) fazem, acabam por ser mais rentáveis do que aquelas que continuam subjugadas à primazia do retorno accionista. Ou seja, são empresas mais sustentáveis no longo prazo.

Hoje os grandes investidores começam a estar disponíveis para investir mais nestas empresas do que “nas outras”, os colaboradores também preferem trabalhar nestas empresas e os consumidores já escolhem produtos e serviços em função da forma como percepcionam o comportamento da empresa. Uma empresa que já tenha feito esse caminho, tenderá, assim, a atrair mais investimento, o melhor talento e clientes mais “fiéis”. E isso acabará por conduzir a uma maior rentabilidade, ou seja, é um ciclo virtuoso.

E no que respeita aos lucros? Existem dados que confirmem que “ser bom para o mundo” aumenta também os resultados financeiros?

Não sei se se pode dizer que os estudos existentes (que são, de facto, cada vez mais), demonstram que “ser bom para o mundo” aumenta necessariamente os resultados financeiros. Mas mostram, pelo menos, que há uma correlação fortemente positiva entre “ser bom para o mundo” e a obtenção de maiores níveis de rentabilidade.

Katie Hill, porta-voz do órgão ético de certificação B Corp afirmou recentemente [ao The Guardian] que “se as empresas querem realmente fazer parte deste movimento de mudança, esta tem de ser radical e transformacional”. Como é que uma empresa “normal” pode transformar-se numa B Corp?

Não vale a pena dizer que é fácil ou rápido. Se fosse, provavelmente já tinha acontecido. As mudanças “radicais” ou “transformacionais” são por natureza dolorosas e é necessária uma grande dose de coragem e de visão para as pôr em prática. Mas acredito que, de forma mais rápida ou mais gradual, todas as empresas que realmente o pretenderem podem ir operando a mudança necessária.

Nos últimos tempos, temos sido inundados com notícias sobre a necessidade de termos um capitalismo mais consciente e ético, com as empresas a colocarem o propósito no centro das suas operações. Esta agenda de negócios liderada pelo propósito recebeu uma “injecção de popularidade” quando, há poucos meses, o poderoso Business Roundtable publicou uma declaração na qual se compromete a trabalhar em prol de todos os seus stakeholders, alterando o seu propósito e apostando numa maior consciência social que acrescente valor a todos eles e que “substitua” a maximização do lucro pela maximização do propósito. As B Corps podem ser vistas com pioneiras desta “tomada de posição”, mas também é certo que muitas delas são de pequena dimensão [apesar de existirem várias “grandes” que também o são], no sentido de que, quanto maior for a empresa mais difícil se torna manter a sua missão, propósito e valores em consonância com este mesmo propósito. Acredita que este possa ser o início de uma verdadeira (r)evolução nos negócios?

Estou absolutamente convencida de que estamos a enfrentar uma verdadeira (r)evolução “no mundo dos negócios”. Neste momento é apenas uma “onda” que se começa a desenhar no horizonte. Mas temo que essa onda se abata de repente como um “tsunami” sobre as empresas que não compreenderem que o seu papel na sociedade mudou. Pelos vistos até os 181 CEO das maiores empresas americanas, que integram o Business Roudtable, já o compreenderam e fizeram questão de o “anunciar ao mundo”. Ou seja, ser um “gigante” já não é visto como um impedimento ao tal processo de transformação.

Em termos gerais, como avalia a economia social em Portugal?

A economia social em Portugal infelizmente ainda apresenta muitas fragilidades, fruto de diversas circunstâncias, incluindo de políticas públicas que, no meu entender nem sempre são as mais apropriadas. Mas avalio como muito positivo o caminho que tem sido feito nos últimos anos e acredito que o facto de Portugal ter sido o primeiro País europeu a ter um fundo como o “Portugal Inovação Social”, constituiu não apenas um sinal muito positivo, como deflagrou um movimento de mudança positiva, que já se faz sentir junto de muitos agentes da economia social.

Que principais objectivos teve este ambicioso Fórum Portugal Economia Social?

Acredito que um dos principais objectivos foi o de “pôr na agenda” dos diversos stakeholders (incluindo, naturalmente, as empresas) os principais temas e desafios que hoje se colocam. A Economia Social é um sector chave da economia portuguesa e todas as iniciativas que levem os principais agentes a reflectir e discutir sobre a forma de fazer uma melhor interligação entre este sector não lucrativo e os demais sectores – o público e o empresarial – são naturalmente relevantes.