Numa palavra, sim, e tendo em conta um estudo abrangente realizado em 35 países pelo Pew Research Center. E não só mais felizes, como também mais civicamente envolvidas. Todavia, a natureza exacta das ligações existentes entre participação religiosa, felicidade, envolvimento cívico e saúde – os pontos de partida desta análise – permanece ambígua. Mas a verdade é que são várias as pesquisas que sugerem a “veracidade” desta relação, nem que seja porque os relacionamentos que surgem em contexto congregacional ajudam a lidar com o stress e a reforçar comportamentos de saúde positivos
POR
HELENA OLIVEIRA

Pessoas que participam activamente em congregações religiosas tendem a ser mais felizes e mais civicamente envolvidas do que adultos não crentes ou membros inactivos de grupos religiosos. Esta é a principal conclusão de um estudo global e significativamente abrangente publicado recentemente pelo Pew Reserch Center e cujo universo de respondentes incluiu cidadãos dos Estados Unidos e de mais 34 países.

Apesar de existirem inúmeros estudos que têm vindo a explorar as relações existentes entre a religião, a felicidade, a saúde e a participação cívica, esta análise acaba por ser mais abrangente e por via de duas razões em particular. Como explica Conrad Hacket, director associado de pesquisa e demógrafo sénior no Pew Research Center, e que coordenou esta investigação, “este estudo não se confinou a apenas um país ou a uma parcela da população do mesmo, tendo sido analisados padrões alargados de populações adultas no geral em 35 países”, afirma. E, em segundo lugar, os investigadores não olharam apenas para os “religiosos activos” – ou seja, pessoas que se identificam com uma religião e participam em serviços religiosos no mínimo uma vez por mês, mas também para os que são inactivamente religiosos e os que não seguem nenhuma fé.

E, em termos gerais, os resultados foram consistentes com análises anteriores. Como declara, “concluímos que as pessoas activamente religiosas nos Estados Unidos têm uma maior propensão para afirmar que são felizes, votam (mais) nas eleições nacionais e estão mais envolvidas na vida comunitária no sentido em que pertencem a pelo menos uma organização não religiosa”. No que respeita às conclusões relativas à saúde e apesar de os religiosos activos terem menos tendência para comportamentos de risco como fumar ou ingerir regularmente bebidas alcoólicas, os resultados no geral não apresentam diferenças significativas face aos não crentes, em particular no que respeita à frequência com que fazem exercício físico ou à obesidade. Ou seja, a ligação entre religião e felicidade é mais visível do que a que faz corresponder a religião à saúde. Todavia e como também sublinha o coordenador do estudo, apesar dos dados recolhidos num período específico de tempo serem úteis para se encontrar uma associação entre religião e felicidade, os mesmos não s mostraram devidamente adequados para explicar o porquê de tal ligação. O ideal seria recolher esses mesmos dados em diferentes períodos de tempo, o que permitiria testar, por exemplo, se as pessoas que aumentam o seu nível de participação numa determinada congregação se tornam mais felizes com o tempo e vice-versa. Como tal não foi possível, o estudo tenta fazer uma extrapolação das causas possíveis que ajudem a explicar estes mesmos resultados: por exemplo, estudos anteriores sugerem que as relações sociais que existem nas congregações religiosas podem ser responsáveis por algumas destas vantagens encontradas junto das pessoas religiosas na medida em que esses relacionamentos funcionam como redes de apoio, as quais ajudam a lidar com os diferentes desafios da vida.

[quote_center]A ligação entre religião e felicidade é mais visível do que a que faz corresponder a religião à saúde[/quote_center]

No que respeita à saúde, os dados são igualmente controversos. Nos Estados Unidos, foram já realizados diversos estudos que comprovaram que os americanos religiosos que frequentam serviços religiosos com regularidade têm tendência para viver mais tempo, o mesmo acontecendo com outros que se centraram em benefícios para a saúde mais específicos, como o facto de a religião poder ajudar pacientes com cancro na mama a melhor lidar com o stress.

Uma nota também para a relação existente entre religião e participação cívica (em particular no que respeita aos eleitores votantes e aos que se juntam a grupos comunitários ou a outras organizações de voluntariado) e que ficou “ligeiramente” comprovada, o que faz soar também um alerta para as sociedades que apresentam níveis em declínio de envolvimento religioso – de que os Estados Unidos são exemplo -, o que poderá significar um risco em termos de bem-estar pessoal e societal.

Mesmo com os dados recolhidos, a natureza exacta das ligações existentes entre participação religiosa, felicidade, envolvimento cívico e saúde permanece ambígua. Ou seja e mais uma vez, apesar dos dados apresentados neste relatório indicarem relacionamentos benéficos entre a actividade religiosa e alguns indicadores de bem-estar em muitos países, os mesmos números não provam que assistir a um serviço religioso é directamente responsável por melhorar a vida das pessoas. Ao invés, alerta o Pew, poderá acontecer que certos tipos de pessoas tendem a ser mais participativas em múltiplas formas de actividade (tanto seculares como religiosas), o que pode trazer benefícios físicos e psicológicos. Ou e adicionalmente, essas pessoas podem ser mais activas em parte porque são mais felizes e saudáveis, em vez do seu inverso.

Seja qual for a explicação, mais de um terço dos respondentes religiosamente activos nos Estados Unidos (36%) descrevem-se como muito felizes, comparativamente a apenas um quarto dos respondentes “inactivos”e não crentes. Nos 25 países para os quais existem dados relativos a esta questão, os “activos” afirmam-se mais felizes do que os não crentes por uma margem estatística substancialmente superior em 12 países e também face aos adultos religiosos “inactivos” em cerca de um terço dos países auscultados (nove).

[quote_center]A participação religiosa tem um forte impacto na felicidade das pessoas que têm um conjunto significativo de amigos nas congregações a que pertencem, mas não entre as que não os têm[/quote_center]

As diferenças entre países podem também ser significativas. Por exemplo, na Austrália 45% dos entrevistados que são religiosamente comprometidos dizem ser muito felizes, face a apenas 32% dos inactivos e dos que não professam nenhuma fé. E, dado importante, nenhum país consultado revelou dados que demonstram que os “activos” são menos felizes que os demais.

No que respeita à participação cívica, os resultados seguem um padrão similar. No geral, as pessoas que são activamente religiosas são também aquelas que mais tendem a participar em actividades de voluntariado e em grupos comunitários. Nos Estados Unidos, 58% dos religiosos activos afirmam participar em pelo menos uma organização (não religiosa) de voluntariado, incluindo grupos de caridade, grupos desportivos ou sindicatos de trabalhadores. E apenas metade de todos os adultos religiosos não activos (51%) e um número mais reduzido dos não crentes (39%) afirmam o mesmo.

Um padrão similar é comum a muitos dos outros países para os quais existem dados disponíveis. Em 11 de 25 países, os religiosos activos têm maior tendência para se envolver em trabalho voluntário ou em grupos comunitários.

Em termos de participação eleitoral, uma percentagem elevada de adultos dos Estados Unidos (69%) afirmam exercer o seu direito de voto “sempre” comparativamente a apenas 59% dos seus pares inactivos e a uma percentagem inferior de não crentes: 48%.

Nos restantes países, os adultos religiosamente activos são os que mais votam em pelo menos 12 dos 24 países para os quais existem dados, com diferenças muito pouco significativas nos países remanescentes. Os activos afirmaram também exercer o seu direito de voto em nove dos 24 países consultados face aos seus compatriotas inactivos, enquanto o oposto não acontece em nenhum dos países auscultados.

Actividade religiosa, capital social e os dividendos da felicidade

Como já anteriormente citado, se é verdade que em muitos países a actividade religiosa parece estar relacionada com certos benefícios, tais como níveis mais elevados de felicidade, não é claro se essa mesma relação é directa e causal e, se o é, como acontece. Mas vale a pena levar em linha de conta alguns estudos anteriormente realizados.

[quote_center]Vários investigadores argumentam que as virtudes promovidas pela religião, como a compaixão, o perdão e o ajudar os outros podem igualmente melhorar os níveis de felicidade e até a saúde física se forem praticados pelos crentes[/quote_center]

Algumas pesquisas apontam para um factor que sobressai como particularmente importante: as ligações sociais que surgem e se fortalecem com a participação regular em eventos religiosos de grupos, sejam as missas semanais católicas, os grupos de estudo da Bíblia, as refeições do sabat judaico ou do iftar (o nome dado à refeição ingerida durante a noite com a qual se quebra o jejum diário durante o mês islâmico do Ramadão). O Pew Research Center cita um interessante estudo realizado por Chaeyoon Lim, da Universidade de Wisconsin-Madison, e por Robert Putnam, da Universidade de Harvard, e que analisou dados produzidos por uma amostra significativa de adultos dos Estados Unidos auscultados em 2006 e que voltaram a ser entrevistados em 2007.

Os investigadores concluíram que a participação religiosa tem um forte impacto na felicidade das pessoas religiosas que têm um conjunto significativo de amigos nas congregações a que pertencem, mas não entre os que não os têm.

De acordo com o Pew Research Center, estas redes de amizade estimuladas pelas comunidades religiosas criam um activo que Putnam e outros académicos denominam como “capital social” – o qual não só faz as pessoas sentirem-se mais felizes conferindo-lhes um sentido de propósito e um sentimento de pertença, mas também uma maior facilidade em encontrar um emprego, por exemplo, ou um melhor estado de saúde. Ou e por outras palavras, aqueles que frequentam com maior assiduidade um lugar de culto tendem a ter mais pessoas nas quais podem confiar e gozam de maior apoio e ajuda nos bons e nos maus momentos.

Na verdade, e como sublinha o relatório em causa, um conjunto de pesquisa científica sociológica corrobora a ideia de que o apoio social é crucial para outros aspectos do bem-estar, como por exemplo o facto de os relacionamentos que surgem em contexto congregacional ajudarem a lidar com o stress e reforçarem comportamentos de saúde positivos.

[quote_center]Os psicólogos sociais identificaram mecanismos de “amortecimento de stress”, tal como a conexão com entidades divinas, como formas importantíssimas de as pessoas lidarem com eventos da vida difíceis e complexos[/quote_center]

De forma similar, existem também outras pesquisas que analisaram a associação entre a religião e a mortalidade e que apontam a participação em serviços religiosos como um “factor” que estimula uma maior longevidade. Por exemplo, o sociólogo Jibum Kim concluiu que o facto de se assistir a serviços religiosos com frequência está associado a um risco reduzido de mortalidade, enquanto o mesmo não acontece se levarmos apenas em linha de conta a força da afiliação religiosa, as orações e as crenças. Este resultado sugere que esta associação entre a participação em cerimónias religiosas e o risco mais reduzido de mortalidade é, presumivelmente, devido a comportamentos mais saudáveis e à ausência de outros mais arriscados que são comuns a quem vai regularmente à igreja.

Por outro lado, e se a actividade social parece assumir-se como um estímulo para o bem-estar entre as pessoas religiosamente activas, existe também um extenso corpo de pesquisa que aponta para a existência de outros factores que também têm o seu papel. Alguns investigadores argumentam que as virtudes promovidas pela religião, como a compaixão, o perdão e o ajudar os outros podem igualmente melhorar os níveis de felicidade e até a saúde física se forem praticados pelos paroquianos. Adicionalmente, a religião pode igualmente beneficiar o bem-estar psicológico na medida em que encoraja as crenças “sobrenaturais”, o que ajuda também a lidar melhor com o stress. Os psicólogos sociais identificaram mecanismos de “amortecimento de stress”, tal como a conexão com entidades divinas, como formas importantíssimas de as pessoas lidarem com eventos da vida difíceis e complexos. E o significado religioso pode ajudar as pessoas a gerir o sofrimento, tanto seu como dos que lhe são próximos, o que se assume ainda de maior importância junto dos mais velhos na medida em que também, e no geral, são estes os que sentem maiores níveis de sofrimento.

Por último, as pesquisas também sugerem que a actividade religiosa está associada a níveis mais elevados de bem-estar simplesmente porque pessoas mais felizes e saudáveis têm uma maior inclinação e capacidade para serem activas nas suas comunidades, incluindo nos grupos religiosos. Ou e em contraponto, pessoas que se sentem infelizes e que lutam com problemas físicos ou financeiros têm uma maior tendência para se isolarem e menos disposição para se envolverem em actividades sociais.

De acordo com os responsáveis do relatório, todas estas explicações não são mutuamente exclusivas. Se por um lado é possível que pessoas mais felizes e saudáveis tendem a se envolver mais em grupos sociais de todas as espécies – tanto seculares como religiosos – também pode ser verdade o facto de os indivíduos obterem mais benefícios de bem-estar provenientes dos relacionamentos sociais que constroem nas congregações religiosa e de outros aspectos do envolvimento religioso.