O nome da fundação liderada por Manoj Kumar – Naandi – significa, em sânscrito, “um novo recomeço”. E essa é a principal missão desta organização social, sedeada na Índia, mas a expandir-se já para África e que procura encontrar o equilíbrio desejável entre os dois “ismos” – do capitalismo e socialismo – para erradicar a pobreza mundial. Em entrevista ao VER, Kumar oferece a sua visão sobre os desafios e oportunidades do que mais comummente se denomina como “negócios sociais”
POR HELENA OLIVEIRA

Manoj Kumar é um empreendedor social e CEO da Naandi Foundation, uma fundação sedeada na Índia, que emprega mais de 5 mil pessoas e que no currículo se orgulha de poder afirmar que cinco milhões de vida já foram completamente mudadas graças à sua intervenção. Acreditando que a única forma de erradicar a pobreza é alterando a estrutura mental e estratégica das organizações não-governamentais, transformando-as em negócios com impacte social, Kumar foi um dos oradores da mesa redonda que incluiu a sessão de abertura do Greenfest e também, a convite da Sair da Casca, da conferência subordinada ao tema “Como mudar o mundo”. Traduzindo o seu impacto em números, a Naandi Foundation consegue alimentar um milhão de crianças por dia, fornecer apoio académico a duas mil escolas públicas, demonstrar a milhares de miúdos pobres que conseguem atingir tão bons resultados quanto os “outros”, que a água potável para todos é algo exequível, entre outras proezas. Mas, para o CEO e empreendedor social apaixonado, “ o verdadeiro feito é garantir aos jovens que lhes é permitido sonhar” e que é possível alcançar um novo enquadramento que não é (nem pode ser) nem puro capitalismo nem puro socialismo. Mas antes uma mistura “dourada” de ambos.

© Naandi Foundation

 

A Naandi foi fundada em 1998, numa altura em que as organização não-governamentais não eram, de todo e ainda, geridas como um negócio. Como é que “redefiniu”, entretanto, o conceito da Fundação a que preside?
Num país como a Índia, com mais de mil milhões de habitantes, sempre me surpreendeu o facto de ser tão fácil produzir milionários e multimilionários comparativamente ao número escasso de empreendedores sociais. Mas a principal razão acabou por me surgir como óbvia: mentes brilhantes optam por vender sabonetes, champôs, cola e títulos e fazer disso as suas carreiras em vez de tentarem resolver os problemas sociais como a subnutrição, a desigualdade de géneros, a ausência de acesso a água potável, etc…

Tornou-se igualmente claro que uma educação académica de maior qualidade é demasiado dispendiosa e que a maioria dos estudantes fica com dívidas para saldar depois da conclusão dos seus estudos. E, por isso, precisam de dinheiro extra que a venda de sabonetes e de títulos especulativos garantem. E, na altura em que finalmente se acaba de pagar esses empréstimos em dívida, estes jovens encontram-se no meio de uma conturbada corrida de “ratazanas” empresarial, sem tempo para parar e pensar, e abandonando qualquer tipo de reflexão ou “iluminação”.

Assim, decidi “redefinir” a Naandi Foundation, de forma a fazê-la funcionar como uma empresa em termos de escala e de concepção, mas com uma ética não lucrativa no seu âmago. Desta forma, conseguimos criar um modelo de receitas com base na escala, na eficiência, nos resultados e nas recompensas que, gradualmente, começaram a atrair mentes brilhantes para o nosso lado. E assim é possível afirmar que começámos a trabalhar como organizações sociais que procuram o lucro!

No seguimento desta nova definição, que lições têm os demais empreendedores sociais que aprender para transformarem os seus projectos a partir de uma mentalidade mais virada para o negócio?
Lidar com os problemas sociais de forma frontal e tentar alcançar alguma escala, contratar mentes brilhantes e nunca comprometer a integridade, a eficiência ou a sustentabilidade do projecto quando este é concebido. E permitir que o cerne de tudo resida no facto de ser você [o empreendedor social] o fiduciário dos pobres a quem tem a sorte de servir.

Nos últimos dois anos, dividiu a Naandi Foundation em quatro projectos sociais distintos, com vista ao lucro, apoiados por investidores de peso. É possível partilhar os principais desafios que tem enfrentado até agora para envolver estes “gigantes” [de que são exemplo a Michael and Susan Dell Foundation, dos Estados Unidos e as Danone Communities, em França], nos seus projectos sociais?
Em todos os quatro casos, possuía comprovação suficiente do conceito em termos de eficácia para oferecer aos investidores. Os novos negócios eram ideias que já tinham funcionado em escala e comprovadas pela Naandi. O verdadeiro desafio foi o facto de a Naandi já ter oferecido estes serviços aos seus clientes sem quaisquer custos e, no novo formato, eu estava a pedir aos pobres para pagarem um fee de utilização. E tal não se afigurava fácil dada a natureza humana que pretende ter tudo gratuitamente. Assim, todos os investidores queriam esperar até que eu provasse que era possível. E apenas os grandes, os corajosos e os que depositaram a sua fé na Naandi concordaram em investir o seu dinheiro.

Que principais feitos foram até agora atingidos pela fundação que lidera?
No meu ponto de vista, o principal feito consistiu na prova de que é possível, no nosso tempo de vida, criar e viver num mundo livre de pobreza.

Quanto ao resto que pode ser considerado também como “proezas” – alimentar um milhão de crianças por dia, fornecer apoio académico a duas mil escolas públicas, demonstrar a milhares de miúdos pobres que conseguem atingir tão bons resultados quanto os “outros”, que a água potável para todos é algo exequível, etc, são apenas estatísticas que demonstram que a escala é comprovadamente possível. Mas insisto que o verdadeiro feito é garantir aos jovens que lhes é permitido sonhar, que é possível alcançar um novo enquadramento que não é nem puro capitalismo nem puro socialismo.

Demonstra uma convicção firme de que a economia indiana está agora pronta para erradicar a pobreza através deste enquadramento dos denominados negócios sociais. Mas não serão necessárias mais evidências para demonstrar que este é o melhor caminho para abordar a pobreza a uma escala global?
Considera que é ainda necessário provar que tanto o capitalismo como o socialismo falharam na erradicação da pobreza? Quantos mais anos teremos de viver em ciclos de altos e baixos? Projectos sociais com lucro constituem uma combinação de ouro entre os “ismos” acima mencionados. Este novo modelo combina os princípios da eficiência e da conservação para criar sustentabilidade. Enquanto o fornecedor de serviço ou a entidade social com vista a gerar lucro têm de inovar para serem eficientes, aos consumidores e aos clientes é ensinado os valores da conservação através de fees de utilização em substituição da gratuitidade.

© Naandi Foundation

 

Existem também muitas definições dos denominados “negócios sociais”. Qual é a que pratica?
A que eu pratico é aquela em que o negócio é concebido para criar excedentes, por um lado e, por outro, acessibilidade, de forma a maximizar a eficiência e o impacto através da escala. De forma similar, acredito que estes excedentes devem ser redistribuídos entre todas as pessoas da cadeia de valor. Dos investidores aos empreendedores sociais, sem esquecer as comunidades ou os demais stakeholders. Entre estes, os investidores devem acordar num valor limite do seu retorno e, em alguns casos, concordarem até que o mesmo seja nulo, dependendo da natureza do negócio. E esta quantia limitada do retorno do investimento poderá constituir uma minúscula percentagem do mesmo.

Com a crise financeira que deflagrou em 2008 e que continua a disseminar-se, não só na Europa, mas um pouco por todo o mundo, os empreendedores sociais estão também a enfrentar novos desafios, nomeadamente na criação de organizações sustentáveis que apenas podem ter retorno do investimento se alterações profundas forem aplicadas no “sistema tradicional”. Que alterações mais urgentes são necessárias encetar?
Encorajar o fluxo de capital social para os empreendedores sociais. O que, para tal acontecer, teremos de considerar novas políticas com reduções significativas de impostos para os investidores que desejem canalizar os seus investimentos para projectos sociais lucrativos, que oferecem retornos baixos ou nulos mas com enorme impacto social.

Por outro lado, os governos deverão alterar a “trajectória” dos subsídios das empresas para os utilizadores finais. Basta pensarmos no exemplo dos subsídios para fertilizantes na Índia: o agricultor é obrigado a comprar muito mais fertilizantes e químicos do que aqueles que são necessários e os lucros vão para as indústrias que os vendem. Por que motivo não é possível dar esses subsídios, em dinheiro, aos próprios agricultores e deixá-los decidir de que forma é que os poderiam utilizar na agricultura? Para além de que existem muitos agricultores que preferem estrume orgânico que não é financiado pelos subsídios neste momento! Precisamos igualmente de mais capital humano e as escolas de negócios não ensinam necessariamente as competências de empreendedorismo social para seduzir os alunos a trilharem esse caminho. Precisamos de alargar a escala e criar formas de transformar os jovens em profissionais prontos para gerirem os negócios sociais e mudar o mundo.

Ou seja e em suma, precisamos de criar um ambiente político global que seja favorável à tomada de riscos, que incentive os investidores, que ofereça uma cobertura social ou opções para Planos B aos jovens que possam falhar nas tentativas de resolver os problemas sociais e subsidiar certos serviços para os pobres. Não nos podemos esquecer que estamos a falar de problemas sociais que existem desde sempre e que se os resolvêssemos poderiam assegurar a paz mundial através da redução da desigualdade e da injustiça.

Quando analisamos o conceito de responsabilidade social corporativa ao longo da última década, que principais evoluções apontaria no que respeita à forma como as empresas estão a lidar com este “dar de volta” aos seus stakeholders?
Existe um padrão emergente no qual as empresas estão, em primeiro lugar, a alocar recursos humanos e financeiros para esta questão. Algumas estão também já a usá-la em termos estratégicos e a pensar em termos de escala, resultados e impacto. Outras estão a tentar reinventar alguns dos seus negócios principais para funcionarem como projectos sociais lucrativos e chegar aos gigantescos e inexplorados mercados dos consumidores pobres.

Em que é que se baseia o vosso Modelo Araku?
O Modelo Araku é o nosso template para erradicar a pobreza através de práticas de agricultura orgânica que são agro e ecologicamente sustentáveis e que são praticadas por inúmeros pequenos agricultores em regime colectivo e cooperativo. É apoiado por uma empresa de marketing profissional (sou o responsável por esta social venture e que se chama Araku Originals Limited) que retira os produtos dos agricultores, adiciona-lhes valor, coloca-os em mercados globais e distribui os lucros ao longo da cadeia de valor, tal como já descrito anteriormente na minha definição de negócio social.

Em Araku, parte de uma cordilheira montanhosa no este da Índia, onde mais de 200 mil pessoas viviam em absoluta pobreza, conseguimos transformar as suas vidas através deste esquema de agricultura sustentável, de transferência de conhecimento para as comunidades locais, de negócios sociais para comercializar produtos e até influenciar a redistribuição do retorno excedente para a educação, a saúde, etc..

Quais são os próximos passos da Fundação Naandi?
Queremos replicar o nosso Modelo Araku em África e, no mês passado, já registámos a Naandi Foundation Africa em Joanesburgo. Juntámos as mãos com a Fundação Chissano em Moçambique para replicarmos o modelo com capital humano local. Pretendemos também concentrarmo-nos na nutrição e na segurança dos rendimentos de agregados agrícolas, assegurando que as colheitas nutritivas e comercializáveis (principalmente os frutos) sejam produzidas e consumidas. Será a Araku Originals a estabelecer um escritório em África, bem como a adicionar valor e criar a marca para os produtos.

Acredito firmemente que Moçambique tem os recursos necessários para alimentar todo o continente africano e até o mundo. E eu quero durar até que tal aconteça.

Helena Oliveira

Editora Executiva