O apelo é do vice-presidente da ACEGE e foi feito no discurso de inauguração do 4º Congresso da Associação. Como pilar principal da sua oratória, António Pinto Leite teceu os pontos de intersecção entre a missão dos empresários cristãos e as formas de intervenção necessárias para transformar a ética no melhor investimento de longo prazo possível
POR HELENA OLIVEIRA

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© Teresa Carvalho
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Servem os congressos não só para debater ideias ou preocupações legítimas, mas para traçar caminhos possíveis para que da palavra se passe à acção. O 4º Congresso Nacional da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), que teve lugar nos passados dias 17 e 18 de Abril, na Universidade Católica Portuguesa, reuniu, entre um conjunto de prestigiados oradores, cerca de 400 pessoas, oriundas dos mais diversos quadrantes da sociedade. Como afirmou o vice-presidente da Associação, “não representamos interesses empresariais, nem representamos sequer os interesses dos nossos associados”, uma ideia que expressa um espaço de diálogo que a ACEGE já conseguiu alargar e que, a título de exemplo, reuniu na mesma sala os representantes da CGTP e da UGT.

Tendo como mote a “Missão e Valores perante os desafios de hoje”, leia-se perante a avassaladora crise que acomete o mundo globalizado e que afecta um Portugal já há muito em forte divergência com os destinos da Europa, o Congresso não se limitou a debater as já mais que faladas origens do problema, mas convidou a um debate sério sobre o que empresários e gestores podem fazer para inverter os destinos de um país que se encontra à beira do abismo.

Para além do discurso acutilante do Presidente da República, que alertou para a imprudência e mesmo incompetência reveladas na avaliação e tomada de riscos, já para não falar na perda do sentido de decência dos gestores financeiros, entre outras considerações directamente relacionadas com a ineficiente resposta à crise que está a ser dada pelo Estado, o painel de abertura do Congresso contou igualmente com a mensagem de D. José Policarpo que exortou os empresários e gestores a “não terem medo de ousar”. Já o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, focou o seu discurso nas formas de resposta da Europa à crise, nomeadamente as que emanaram da recente cimeira do G20. No dia seguinte, os painéis centraram-se fundamentalmente nos principais desafios que empresários e gestores têm de enfrentar, com intervenções que misturaram a macroeconomia e a importância central da ética, e no que representa liderar em tempos conturbados, com uma excelente intervenção de Raul Diniz, presidente da AESE, focada na primazia do carácter. As principais ideias resultantes do Congresso serão apresentadas em artigos conexos. Contudo, é objectivo desta peça em particular referir qual a razão de ser da ACEGE, o que significa ética cristã, qual a sua intervenção na avaliação das políticas públicas, e, por último, mas não menos importante, a ligação entre os líderes empresariais cristãos e a crise.

A razão de ser da ACEGE e a ética cristã
António Pinto Leite começou por referir que a ACEGE assenta em duas fés, a do Homem em Deus e a de Deus no Homem, sendo que a primeira serve para reunir, no mesmo espaço de reflexão e acção, os líderes empresariais cristãos e, a segunda, para estimular a que cada um faça a diferença no mundo onde intervém. É, portanto, missão da ACEGE ajudar cada empresário a fazer a diferença na sua área de actuação. Assim, a visão da Associação assenta na crença de que “não existem empresas éticas nem generosas” mas sim pessoas que reúnem ambas as qualidades, através das quais conseguem transformar, ética e generosamente, as organizações em que se inserem.

No que respeita ao núcleo vital da ética cristã – o amor – ele é simultaneamente simples e exigente, o que “obriga cada um de nós, num mundo empresarial tão stressante, tão concorrencial e tão tentador, a um enorme discernimento e a uma cuidada formação da consciência”, sublinha o vice-presidente. Negar a corrupção, pagar os impostos, respeitar os salários legais e agir com boa-fé relativamente a clientes e fornecedores constituem os mínimos éticos, que não suficientes à luz da ética cristã, exigindo esta um dever adicional, o da generosidade. “Confrontar o exercício da racionalidade económica com a generosidade” é, para António Pinto Leite, imprescindível.

O vice-presidente da ACEGE alertou igualmente para a tentação de se tirar partido da crise e, a coberto dela, atrasar pagamentos aos fornecedores, por exemplo, o que apenas coloca maior sofrimento e dificuldades acrescidas para o tecido económico, já de si altamente flagelado pelas condições internas e globais que caracterizam a presente crise. “Transformar as desculpas do Estado numa desculpa ainda maior para todas as empresas” deve, de acordo com a visão da Associação, ser absolutamente evitado.
António Pinto Leite elegeu ainda o “amor ao próximo” – tratar os outros como gostaria de ser tratado por eles caso as posições fossem inversas – como a única forma que os líderes empresariais cristãos devem tratar todos os seus stakeholders, referindo ainda que a ética é o melhor dos investimentos a longo prazo.

Reforma do Estado: um imperativo não meramente económico, mas fundamentalmente ético
Desde que, em 2005, lançou o seu Código de Ética, a ACEGE tem vindo a denunciar o desperdício do Estado como o mais grave pecado social da sociedade portuguesa. Como afirma o vice-presidente, “a incapacidade do Estado de se sujeitar às melhores práticas públicas, aplicadas noutros Estados, tal como as nossas empresas se têm de ajustar às melhores práticas da concorrência, consome sem moral nem misericórdia as energias do país e os impostos dos portugueses”. António Pinto Leite alertou também para o máximo sustentável atingido pela carga fiscal, sublinhando que o desperdício significa que a riqueza, ao invés de ser aplicada na melhoria de vida dos verdadeiramente necessitados, é desviada para manter “uma organização ineficiente, caríssima e, ao que parece, de reforma inacessível aos cidadãos que a pagam”. Daí que seja em nome de todos os excluídos, que a reforma do Estado deixou de ser penas um imperativo económico mas, sobretudo, um imperativo ético.

A crítica formulada ao despesismo do Estado foi ilustrada por António Pinto Leite com algumas questões pertinentes: por que razão um estudante húngaro custa cerca de 30 mil dólares e o seu “homónimo” português custa sensivelmente o dobro, quando o sistema educativo húngaro apresenta resultados muito melhores quando comparado com o de Portugal? Ou, por que razão os tribunais portugueses têm quase o dobro dos funcionários relativamente à média europeia e a justiça portuguesa apresenta um dos piores desempenhos da União Europeia?

A resposta a estas questões reside na relação profundamente injusta existente entre Estado e economia, sendo que a “solidariedade em Portugal está sem estratégia e sem correctas prioridades”.
Assim, o que se pede aos líderes empresariais cristão que façam em tempo de crise?

Para o vice-presidente da ACEGE, não é possível pedir aos líderes empresariais que coloquem na gaveta as ciências empresariais e a racionalidade e que não lhes peçam igualmente milagres. Há sim, que enfrentar esta era conturbada com firmeza e mostrar que os líderes empresariais – a tropa de elite da economia – transformem este enorme desafio numa excelente oportunidade para mostrar o que valem.
Para tal, é necessário que não esqueçam, em momento algum, a “expectativa e a confiança que milhares e milhares de trabalhadores e as suas famílias neles depositam” e que a solidariedade exista também entre as empresas. “Saibamos ser parceiros da crise uns dos outros”, exortou António Pinto Leite.

Para terminar, o vice-presidente da ACEGE alertou ainda: “podemos viver de duas formas: preocupados com a posteridade ou preocupados com a eternidade”. E dirigindo-se aos gestores cristãos que o ouviam, apelou “nós que, com maior ou menor nitidez, acreditamos que um dia teremos um encontro eterno, ajudemo-nos uns aos outros a preparar esse encontro”.

4º Congresso: o resultado de uma acção em crescimento contínuo

António Pinto Leite inaugurou o seu discurso de abertura enumerando as principais acções que a ACEGE tem vindo a desenvolver e outras que constam da sua lista de prioridades, a saber:

  • A par da oferta de acompanhamento espiritual dos cerca de 1000 associados, a Associação realizou já centenas de debates com diversos prestigiados economistas, empresários e gestores sobre os temas centrais da gestão e da ética nos negócios
  • O aumento do número de associados foi potenciado pela deslocalização da ACEGE, que conta já com 13 núcleos regionais, de forma a ajustar a sua actividade às diferentes realidades da economia portuguesa
  • O lançamento, em Agosto de 2008, do Compromisso Pagamento Pontual, conta já com mais de 70 empresas aderentes e foi feito em colaboração com a CIP e com a CAP
  • A aprovação do Código de Ética levou à assinatura do mesmo por cerca de 1000 empresários e gestores
  • Lançamento do portal VER, em colaboração com a Accenture, um projecto independente que veicula informação actual, para mais de 10 mil gestores, sobre valores, ética e responsabilidade na gestão empresarial
  • A ACEGE está igualmente a apoiar o desenvolvimento da Associação Cristã de Dirigentes e Gestores em Angola
  • Projecto Bem Comum: em colaboração com a McKinsey, e tendo já como parceiros os Grupos José de Mello, Santander, Espírito Santo e Caixa Geral de Depósitos, tem como objectivo a criação de um fundo destinado a apoiar iniciativas empresariais de desempregados com mais de 40 anos e com um perfil empreendedor. Em falta está apenas um quinto investidor.
  • Também em conjunto com a McKinsey, foi lançado o “Projecto Igreja”, destinado a criar condições para ajudar a Igreja católica a optimizar os seus recursos e libertar os padres para a vida pastoral e para o bem comum

© 2009 – Todos os direitos reservados. Publicado em 21 de Abril de 2009