Para os optimistas, o documento “histórico”assinado esta semana por Donald Trump e Kim Jong-un e que promete uma “desnuclearização rápida” poderá ser o início de um novo e promissor período de paz. Mas, e de acordo com o Índice de Paz Global 2018, publicado na passada semana, o mundo está menos pacífico hoje do que em qualquer outro período ao longo da última década. Com 92 países a baixarem a sua pontuação e apenas 71 a registarem melhorias, as tensões, conflitos e crises que continuam sem solução são os responsáveis pela queda global dos níveis de paz pelo 4º ano consecutivo, e com uma chamada de atenção particular para a Europa
POR HELENA OLIVEIRA

O terrorismo e os conflitos internos foram os principais motivos para “puxar para baixo” o Índice de Paz Global 2018, publicado a semana passada pelo Institute of Economics & Peace (IEP). Pelo quarto ano consecutivo, o nível global de paz apresentou, em 2017, uma deterioração – de 0,27% – com 92 países em queda versus 71 que apresentaram melhorias. Desde há uma década, a média dos países sofreu uma deterioração de 2,38%, com apenas dois anos a registarem progressos.

Nesta 12ª edição, a Islândia é o país mais pacífico, Portugal figura no top 5 – num excelente 4º lugar – e a Síria continua a fechar a tabela, ocupando a posição 163, a qual mantém há cinco anos.

A queda nos índices de paz ao longo dos últimos 10 anos foi causada por um conjunto alargado de factores, incluindo o aumento da actividade terrorista, a intensificação dos conflitos no Médio Oriente, a ascensão de tensões regionais na Europa de leste e no nordeste asiático, o crescimento do número de refugiados, bem como a intensificação das tensões políticas nos Estados Unidos e na Europa.

O Índice de Paz Global (GPI, na sigla em inglês) cobre 99,7% da população mundial (163 estados e territórios independentes), utilizando 23 indicadores, qualitativos e quantitativos, provenientes de fontes reconhecidas, avaliando o estado da paz a partir de três domínios por excelência: o nível de Segurança e Protecção, a dimensão da continuidade face a Conflitos InternoseInternacionais e o grau de Militarização.

Na área da segurança na sociedade, o IEP analisa, por exemplo, as taxas de homicídio, o número de prisioneiros e de agentes da polícia existentes e também as percepções da população face ao crime. Já no campo da militarização, são contabilizados o número de soldados, as despesas militares face ao desempenho da economia e também a dimensão das exportações de armas.

Adicionalmente e este ano, o GPI apresenta também uma análise de tendências para a denominada Paz Positiva, a qual mede as atitudes, instituições e estruturas que mantêm as sociedades pacificadas, abordando também as formas nas quais elevados níveis de Paz Positiva influenciam os indicadores macroeconómicos.

Assim, o GPI deste ano mostra-nos um mundo no qual as tensões, os conflitos e as crises que emergiram ao longo da última década continuam sem ser resolvidas, especialmente no Médio Oriente, mas com alguns pontos negativos também na Europa, o que explica, em parte, esta queda gradual e sustentada do nível de paz.

De um modo geral, seis das nove regiões do mundo avaliadas sofreram deteriorações no ano passado, sendo que é de sublinhar que destas, as quatro mais pacíficas – Europa, América do Norte, Ásia Pacifico e América do Sul – registaram também uma preocupante quebra nos seus índices de paz. Como já mencionado, a Islândia continua a ser o país mais pacífico do mundo – posição que ocupa desde 2008 -, seguindo-se a Nova Zelândia, a Áustria, Portugal e Dinamarca. Com a Síria em último lugar, o top 5 dos países mais bélicos agrega ainda o Afeganistão, o Sudão do Sul, o Iraque e a Somália.

“O número crescente de refugiados, o terrorismo e o acentuar das tensões políticas são os factores que melhor explicam esta deterioração”, afirmou, em entrevista ao Deutsche Welle, Steve Killelea, o empreendedor e filantropo que fundou, em 2007, o Institute of Economics & Peace, acrescentando ainda que “os refugiados, em conjunto, poderiam formar uma das maiores nações do mundo”.

Por regiões, e deixando a Europa de fora pois merece uma análise mais profunda, o Sul da Ásia é o que mais melhorias regista, com o Butão, o Sri Lanka, a Índia e o Nepal a contribuírem em particular para o clima de maior tranquilidade. Por outro lado, quatro dos maiores progressos em termos de paz ocorreram na África subsaariana, com a Gâmbia a subir 35 lugares para a posição 76 devido a uma menor instabilidade política, menos criminalidade e melhores relações com os países vizinhos, muito graças à eleição do seu novo presidente, Adama Barrow.

A região do Médio Oriente e Norte de África (MENA) mantém-se, desde 2015, como a menos pacífica, com o Qatar a registar a maior quebra em termos de paz, devido ao boicote económico decretado pelos Emirados Árabes Unidos, pela Arábia Saudita, o Egipto e o Bahrain, o qual contribuiu em muito para a deterioração das relações com os países vizinhos e também para a instabilidade política.

100 países registaram um aumento de actividade terrorista

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Ao longo dos últimos 10 anos, o clima global de paz apresentou um “retrocesso” de 2,38% – desde 2008 – com 85 dos países analisados a registarem uma deterioração contra 75 que apresentaram melhorias. No geral, o índice apresentou uma quebra em oito dos últimos 11 anos, com a última melhoria a ser registada em 2014. Na Europa, a região mais pacífica do mundo, 61% dos países viram também os seus índices de paz sofrerem deterioração, o que é significativo e preocupante. E, a título de exemplo, nenhum dos países nórdicos é mais pacífico agora do que o era em 2008.

No que respeita aos domínios utilizados pelo GPI e avaliados ao longo da última década, a deterioração da paz é mais visível na continuidade dos conflitos – com uma queda de seis por cento – e na dimensão da segurança e protecção, que caiu três por cento. O terrorismo e os conflitos internos são os indicadores que mais contribuíram para a deterioração global da paz ao longo da última década.

Os números são dignos de nota: 100 países registam um aumento de actividade terrorista e apenas 38 demonstram melhorias; o número total de mortes relacionadas com os conflitos aumentaram 264% entre 2006 e 2016 e as mortes provenientes de actos de terrorismo acusam um crescimento 203% na última década. Todavia, e muito provavelmente ao contrário da percepção pública, o domínio da militarização registou uma melhoria na ordem dos 3,2% desde 2008, com as despesas militares enquanto percentagem do PIB a caírem em 112 países e a aumentarem em “apenas” 59 e com 115 países a reduzirem as suas forças armadas.

Por último e pela primeira vez na história moderna, os refugiados representam quase 1 por cento da população mundial, tendo crescido a um ritmo 12 vezes superior face a 1951, um ano depois do estabelecimento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR, na sigla em português) e a primeira vez que se fez esta contabilização.

Ainda de acordo com o ACNUR, existiam 68 milhões de refugiados ou deslocados em 2016, o equivalente a 910 pessoas por cada 100 mil ou uma em cada 110 no planeta, sendo que mais de 55% destes são provenientes da Síria, do Afeganistão e do Sudão do Sul. O ACNUR afirma também que em 2005, seis pessoas eram deslocadas por minuto e que em 2015, este número passou para 24 por minuto.

Apesar da maioria dos refugiados estar alojada em países vizinhos, o fluxo de pessoas que fogem dos conflitos ou da pobreza em África ou no Médio Oriente para a Europa tem também contribuído, e como sabemos, para conferir mais poder aos partidos nacionalistas do Velho Continente.

O impacto económico da violência: 14,8 biliões de dólares

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Depois da análise de dados de think tanks, institutos de investigação, governos e instituições académicas, o Institute of Economics & Peace estima que o impacto económico da violência na economia global em 2017 foi de 14,8 biliões de dólares. O número é equivalente a 12,4% da actividade económica mundial e traduz-se em cerca de dois mil dólares por pessoa (ou 1650 euros). Por seu turno, se os países menos pacíficos, incluindo a Síria, o Sudão do Sul e o Iraque apresentassem níveis de estabilidade equivalentes aos dos mais pacíficos – Islândia e Nova Zelândia – tal representaria uma adição extra de 2 mil dólares por pessoa nas suas economias.

Como reportou ao Deutsche Welle Steve Killelea, responsável pelo IEP e salvaguardando que este estudo é o único que estima os impactos económicos da violência, “por cada 1% de melhoria na paz positiva, as receitas do PIB per capita aumentariam 1,8%”. O impacto em causa, que cresceu 2% ao longo de 2017, deve-se a um aumento do impacto económico dos conflitos e do aumento de despesas em segurança interna, com os números mais expressivos a serem provenientes da China, Rússia e África do Sul. Desde 2012, o impacto económico da violência aumentou em 16%, o que coincidiu com o deflagrar do conflito na Síria e com a ascensão da violência no rescaldo da Primavera Árabe.

Nos últimos 70 anos, o crescimento do PIB tem sido três vezes mais elevado em países “muito pacíficos” comparativamente aos “pouco pacíficos”. A diferença é ainda maior quando se analisam as alterações no índice de paz, com o relatório a comprovar que o crescimento do PIB per capitatem sido sete vezes superior, ao longo da última década, em países que aumentaram os seus níveis de paz face aos que os deixaram deteriorar.

Como afirmou Killeleia à Bloomberg, “a paz não diz só respeito a acabar com o sofrimento humano, estando igualmente relacionada com as oportunidades económicas. E os países que estão no fundo da tabela são apanhados num ciclo descendente terrível”.

Paz Positiva, potencial humano e performance macroeconómica

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A avaliação deste domínio descreve o ambiente ideal para que o potencial humano floresça. A Paz Positiva não só está só associada a níveis de paz mais elevados, como também a uma performance macroeconómica mais forte num conjunto de variáveis. As taxas de juro são mais baixas e estáveis em países muito pacíficos, bem como o valor da inflação, sendo que o investimento directo estrangeiro é mais do que duas vezes mais elevado.

Globalmente, a Paz Positiva melhorou 1,85% no período entre 2005 e 2016. Contudo, e de 2013 em diante tem vindo a estagnar, em particular devido a um conjunto de outras tendências negativas e com uma deterioração global do Pilar de Aceitação dos Direitos dos Outros. Esta tendência foi particularmente pronunciada na Europa e na América do Norte – a propósito, os Estados Unidos encontram-se posicionados no lugar 121 da tabela de paz global – regiões onde este indicador tem sofrido uma deterioração mais significativa desde 2005.

O relatório conclui igualmente que, em média, para que a classificação de um país melhore, são necessários progressos num conjunto alargado de pilares e indicadores que compõem a Paz Positiva. Pelo contrário, apenas “uma deterioração na paz” pode desencadear uma queda significativa nos principais indicadores da Paz Positiva. Por exemplo, os Níveis Baixos de Corrupção, o Bom Funcionamento do Governo e o já mencionado Pilar de Aceitação dos Direitos dos Outros são os “gatilhos” mais prováveis, quando deteriorados, para uma queda na pontuação do GPI. De 2005 a 2016 e por exemplo, as pontuações de 101 países pioraram em termos de corrupção. E, no geral, o que o relatório pretende demonstrar é a existência de uma forte associação entre os “movimentos” da Paz Positiva e a pontuação alcançada no GPI.

Europa cada vez menos pacífica

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Das nove regiões avaliadas, o IEP identifica a Europa como a mais pacífica do mundo, algo que acontece desde a 1ª edição do estudo, sendo que os cinco países mais pacíficos do mundo estão também nela localizados. No entanto, e pelo terceiro ano consecutivo, o Velho Continente apresenta sinais de deterioração nos três domínios por excelência do GPI e em onze indicadores, com particular destaque para a intensidade dos conflitos internos e para os relacionamentos com os países vizinhos.

É sabido que esta queda nos níveis de paz está relacionada com a instabilidade política resultante da ascensão de partidos políticos “alternativos” e de um sentimento contra a União Europeia, com o aumento do impacto do terrorismo e também com o crescimento do número de crimes. Com o indicador da intensidade dos conflitos internos a registar a maior deterioração, pela primeira vez na história deste índice, é um país da Europa Ocidental a integrar as cinco maiores deteriorações do mesmo, com a Espanha a cair 10 posições no ranking, para o 30º lugar, devido às tensões que rodearam o referendo para a independência da Catalunha e com os distúrbios que se lhe seguiram.

Adicionalmente, foram 23 os países que pioraram nos seus índices de paz e 14 os que têm uma pontuação de intensidade dos conflitos internos superior a 1. Uma pontuação de 2 neste indicador significa a existência de disputas latentes na sociedade, as quais podem resultar em conflitos mais graves. Um outro indicador que sofreu uma deterioração significativa em todas as regiões, mas particularmente em alguns países europeus, foi o da criminalidade. A título de exemplo, a Suécia e a Dinamarca são os que reportam mais casos e esta última é o único país escandinavo que integra o top 10 do GPI, no 5º lugar e a seguir a Portugal.

A probabilidade de a paz continua a declinar

Para os autores do relatório, esta queda sustentada dos índices de paz ao longo dos últimos 10 anos é explicada pela não resolução das tensões, crises e conflitos que continuam a subsistir no mundo em que vivemos. E se, em alguns casos, os conflitos de longo prazo parecem estar a perder força ou pelo menos a estabilizar, as causas subjacentes aos mesmos continuam a não ser adequadamente abordadas, as probabilidades para os ânimos se exaltarem perigosamente continuam muito reais. Por outro lado, novas tensões emergiram, tal como o aumento da militarização e conflitos políticos no nordeste asiático.

Como já enunciado anteriormente, a ligeira deterioração dos indicadores que compõem a Paz Positiva nos últimos três anos é igualmente uma má notícia. A Paz Positiva apresenta-se como um indicador de excelência na previsão futura dos índices de paz, sendo que deteriorações significativas no mesmo são estatisticamente relacionadas com quedas futuras na paz global.

E, alerta o relatório, a não ser que estas causas subjacentes sejam abordadas de uma forma sistémica, é muito provável que a deterioração geral na paz global que caracterizou a última década esteja para durar.

Helena Oliveira

Editora Executiva