O PartilhadaMente – projeto vencedor da competição de empreendedorismo social da Fundação Eugénio de Almeida e atualmente nas meias-finais do Concurso Banco Montepio Acredita Portugal – é a plataforma que faltava para abordar a temática da saúde mental sem complexos ou tabus. Partilhada por terapeutas e cidadãos, não se dirige apenas a quem sofre de algum tipo de doença mental, mas ao público em geral
POR JOSÉ BOURBON

O objetivo é olhar, de diversas formas, para a saúde psicológica como se olha para a saúde física, abordando de forma descomplexada várias questões de vida para as quais não somos educados na escola nem em casa, mas que a longo prazo têm impacto na nossa saúde mental: autoconhecimento, competências emocionais, sexualidade, dependências, gestão do trabalho, entre outras. Neste artigo, o fundador deste recém-criado projeto, conta a história do mesmo, desde o nascimento da ideia até aos dias de hoje.

Em Março de 2020 decidi sair do trabalho em que me encontrava, em abril veio a pandemia ou, pelo menos, intensificou-se, e o processo de recrutamento em que me encontrava, no qual estava já na fase final do recrutamento, foi cancelado.

Ao contrário do que se poderia pensar, nunca me arrependi da decisão tomada, nem mesmo depois de receber essa triste notícia do cancelamento. Para além disso, este também não foi um período de desespero, nem de resignação, mas sim um período de enorme aprendizagem. Fiz vários cursos relacionados com a área da Comunicação e, foi num desses cursos que o PartilhadaMente começou a ganhar forma.

Pela primeira vez, em junho de 2020, durante o curso “Jornalismo Empreendedor” do Cenjor, era obrigado a olhar para o jornalismo não como um mero ofício que quer mudar o mundo, mas também de uma forma realista, ou seja, com a consciência de que não se muda o mundo sem negócios sustentáveis. Elaborei o meu primeiro Business Model Canvas mas, na verdade, o primeiro não foi para o PartilhadaMente, mas sim para o “Podcast Banco Alimentar”.

Foi este o nome que eu dei na altura à minha primeira ideia. Estávamos em plena pandemia e eu achei que faria todo o sentido tentar fazer uma parceria com o Banco Alimentar para falar sobre o tema da pobreza num Podcast. Então porque é que não avancei? Porque sentia que a ideia, a que na altura dei o nome de “FragilMente” – o PartilhadaMente só vinha a ganhar forma mais tarde (mérito do meu atual colega de casa) – apesar de não ter um timing tão bom como o “Podcast Banco Alimentar”, era sem dúvida a ideia que mais me apaixonava (e continua a apaixonar).

Assim, durante esse mês e meio, pensei em parceiros, receitas, custos, proposta de valor e tudo aquilo em que um empreendedor tem de pensar no lançamento de qualquer negócio e, que na verdade, tem de estar constantemente a atualizar.

Apresentei o meu primeiro Pitch e no final terminámos em beleza com um brinde virtual na esperança que aquele não tivesse sido um mero exercício platónico.

Felizmente o meu não foi. E sei que não fui o único a avançar com a sua ideia. Ao longo do tempo de desenvolvimento da mesma, fui conciliando com alguns trabalhos freelancer mas cheguei a um ponto em que sentia que já não estava a ser muito produtivo. O calor e os convites para a praia não ajudavam, mas uma ida a um centro de testes Covid mudou o cenário. Ia fazer uma viagem aos Açores com o meu grande amigo Francesco Ricci e era obrigatório levar um teste negativo. E foi aí que, depois de fazer o teste, dei de caras com o “Well and Work”, um espaço de cowork com o qual me identifiquei desde o início e que foi o mês espaço de trabalho até ao seguinte lockdown.

Acho que esta foi, mesmo sem o saber na altura, uma decisão que me permitiu levar o meu projeto a bom porto: foi aqui que ganhei regularidade no trabalho, cumpria o horário do cowork (das 9h às 18h), conheci pessoas que ou eram freelancers ou estavam em situações semelhantes à minha e comecei a apresentar o projeto a algumas pessoas.

Um dos meus focos nesta altura era candidatar-me a várias competições de empreendedorismo e sinto que não teria conseguido cumprir com esses objetivos se tivesse continuado em casa. Felizmente a candidatura ao CIS Empreende, um concurso do Centro de Inovação Social da Fundação Eugénio de Almeida, uma das várias candidaturas que fiz na altura, correu bem, cheguei à final e acabei mesmo por vencer numa das categorias. Isto não foi só um enorme boost de motivação para o novo ano que se adivinhava – apesar de que, confesso, não o ter sentido assim, porque acho que a minha saúde mental na altura não me permitia – mas sem dúvida que hoje em dia e desde que tanto a mentoria como a consultoria começaram, em virtude de ter vencido o concurso, têm sido parte do sucesso de termos conseguido tornar este projeto realidade.

Recebi sessões regulares para melhoria do website com o fundador da 3WX Digital Creative Agency, Fábio Jesuíno, com quem ainda mantenho contacto e com o qual aprendi muito, e também sessões sobre o modelo de negócios e marketing com vários elementos da BTEN, que ainda estão a decorrer. Para além disto e, apesar de infelizmente estes tempos não serem propícios ao contacto direto e ao networking, a Fundação contornou muito bem este problema criando um grupo de whatsapp com todos os empreendedores da Fundação, o qual tem sido de uma enorme mais-valia, visto que não só o usamos para nos apoiarmos mutuamente e darmos a conhecer novas iniciativas, como recebemos regularmente convites e updates da Fundação de novos eventos e concursos, tanto internos, como de outras organizações.

Mas voltando ao Cowork, foi também durante este período, que durou até meados de janeiro, que comecei a abordar os primeiros colaboradores – os psicólogos – e a formar uma equipa que me permitisse tornar este projeto sustentável. Comecei obviamente por psicólogos que conhecia e a quem reconhecia credibilidade e qualidade – sendo eu um ‘praticante’ regular de psicoterapia e um leitor ávido destes temas não foi difícil – para além de que, apesar de já ter ouvido o contrário, a minha experiência mostra-me que os psicólogos são pessoas que gostam de novos projetos, gostam de colaborar e que gostam de ajudar novos projetos a crescer. Um contacto com um desses psicólogos, acabou por resultar em conhecer o Brian, que foi a primeira pessoa a entrar no projeto. A enorme experiência do Brian, tendo trabalhado para muitas multinacionais, tem sido realmente uma mais-valia para o projeto. Depois do Brian falei com o Pedro, o meu braço direito neste projeto, que partilha da minha visão e paixão pelo projeto e que tem sido essencial, principalmente ao lidar com uma área em que sou um confesso amador: finanças e contabilidade.

Rapidamente juntou-se também o Pedro Arsénio que, estando a realizar um mestrado em marketing e tendo também já um interesse pessoal nestas temáticas, começou a colaborar para o projeto, na parte de otimização de conteúdos. Mais tarde encontrei a Marta Abreu, que se candidatou como psicóloga para produzir conteúdo, mas que acabou por colaborar de outra forma, ajudando-me na parte de recrutamento (área em que trabalha atualmente). Mesmo antes do lançamento, juntou-se outra Marta, a Marta Simões – também ela a estudar Psicologia – e a Carlota Portugal, que junta os conhecimentos de jornalismo, à parte de webdeveloping e tudo o que são ‘novos media’.

Penso que foi na semana em que a Carlota entrou que lancei o PartilhadaMente, no dia 10 abril. Nestes cerca de dois meses e meio de PartilhadaMente que passaram a correr já conseguimos as primeiras vendas, tanto de workshops – temos mais dois workshops a caminho, um para cuidadores informais (dia 28 e 30 de Junho) e outro sobre resiliência no trabalho (no dia 30 de junho), ambos online, como de serviços como eneagrama, hipnose e aulas de yoga.

Temos também vindo a aumentar de uma forma sustentada a nossa gama de colaboradores – tendo já nove profissionais de saúde na plataforma, com diferentes formações e que oferecem diferentes tipos de terapias (individual ou de casal e familiar) e de serviços complementares como gestão de carreira, orientação vocacional, eneagrama, coaching para jovens líderes e yoga.

Para além disto tudo, oferecemos também ao nosso público, um blog de partilha de histórias, o SinceraMente, convidando todas as pessoas a demonstrarem a sua vulnerabilidade – um ato que nós consideramos ser um sinal de coragem e não de fraqueza – ao partilharem a sua própria história, experiências e desafios ao lidarem com a sua saúde mental.

Para o futuro, pretendemos também em breve arrancar com um Podcast que, acreditamos, terá um conceito inovador e uma abordagem ao tema não muito recorrente – podem esperar novidades durante o próximo mês – e temos outras ideias a ser implementadas, como uma campanha de crowdfunding (que também será divulgada durante o próximo mês) e outras ideias para o verão, que ainda não podemos partilhar, por ainda não passarem de ideias. Ao mesmo tempo, pretendemos consolidar aquilo que já foi feito: aumentar o número de serviços (temos já 13 distintos), aumentando também o número de colaboradores, mas fazendo isto de uma forma sustentada e garantindo sempre qualidade, a diferentes preços e em diferentes locais, com sessões tanto online, como presenciais.