Apresentando-se, no seu estado mais “puro”, como uma solução sustentável para o planeta, a denominada economia da partilha gira em torno do que uns têm de extra que pode ser aproveitado por outros, e vice-versa, incluindo bens materiais, mas também conhecimentos e experiências. Todavia e apesar das boas intenções defendidas pelos que acreditam genuinamente nos seus princípios de base, o conceito tem evoluído e sofrido algumas alterações, permitindo a emergência de novos modelos de negócio que, apesar de terem em comum a ideia de “partilha”, não praticam os seus ideais de gratuidade
POR
MÁRIA POMBO

A economia da partilha (ou sharing economy, em inglês) pode ser definida como “um sistema socioeconómico construído em torno da partilha de recursos humanos e físicos”. Ou, em termos simples, inclui a “criação, produção, distribuição, negociação e consumo de bens e serviços por parte de diferentes pessoas e organizações”. Quem o diz é Benita Matofska, especialista e pioneira nesta área, e fundadora e presidente das plataformas Compare and Share e The People Who Share (estando esta última já presente em Portugal), ambas sediadas no Reino Unido e criadas para explorar e difundir a ‘partilha’ como uma solução para um mundo mais sustentável e colaborativo, levando-a ao maior número de pessoas possível.

Se, à primeira vista, o conceito parece ser “coisa moderna”, protagonizado essencialmente pelas gerações mais jovens, as quais, para além da enorme ajuda da tecnologia no que respeita à troca de “produtos virtuais”, têm um baixo poder de compra, vendo-se obrigadas a procurar alternativas que satisfaçam as suas necessidades, basta recordar os primórdios da existência humana para demonstrar que já nessa altura se trocavam bens e serviços entre quem os detinha e quem deles necessitava.

Mas, em pleno século XXI, as vantagens que um sistema desta natureza oferece são tantas quantas serão as formas que os cidadãos encontrarem para reutilizar materiais ou partilhar experiências, por exemplo, o que explica também a multiplicação de projectos – e também de novas formas de negócio – que, de uma forma ou de outra, têm como base e ponto de partida a mera partilha.

Um bom exemplo deste conceito no seu estado “puro” é o da irlandesa Rosie Mansfield, managing director da plataforma GoCambio, a qual promove a partilha de alojamento em troca de conhecimentos. Para esta empreendedora, a Economia da Partilha “é uma forma alternativa de se viver a vida, não com base no que se possui, mas utilizando apenas o que se precisa e partilhando de seguida que se tem de extra”.

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Pessoas, valor e planeta começaram por ser as premissas base desta economia colaborativa

A fundadora da plataforma The People Who Share explica que são 10 os pilares que sustentam a sharing economy, no seu estado “puro”. Em primeiro lugar, na medida em que são as pessoas que se encontram no centro deste sistema económico, tal significa que são os cidadãos, activos e participativos na sua comunidade e no desenvolvimento da sociedade, que criam, produzem e distribuem bens e serviços entre si. E é também por isso que este sistema é também internacionalmente reconhecido como People’s Economy. A par das pessoas, o planeta é igualmente fundamental: a partilha de bens em segunda mão ou de viagens de automóvel, ou até a compra ou o aluguer em grupo, operam em harmonia com os recursos naturais disponíveis e finitos, promovendo o desenvolvimento humano sem desrespeitar os limites ambientais.

A produção e a distribuição de bens e serviços constituem outros dois pilares que permitem a sustentabilidade deste modelo económico, sendo acessíveis e abertos a todos os que nele queiram participar. Seja a nível local ou aproveitando a inexistência de fronteiras promovida pela internet e pelas novas tecnologias, a produção e distribuição podem ser feitas individualmente, mas também a por parte de grupos de amigos, comunidades locais e até mesmo empresas.

Valor e troca são conceitos que sustentam igualmente o mesmo sistema, tendo importância em termos ambientais e sociais, e não puramente a nível financeiro. É, aliás, pelo seu valor (material e imaterial) e pela mais-valia que confere aos cidadãos que a economia da partilha tem motivado milhares de pessoas em todo o mundo. Neste sentido, a managing director da GoCambio reforça que “individualmente, só podemos comprar uma certa quantidade de itens, mas através da partilha e do aluguer podemos adquirir, emprestar e experimentar muito mais”.

Através do valor criado, este sistema de partilha permite também a redistribuição socioeconómica do poder, encarado mais como capacidade do que como soberania ou autoridade. Tal redistribuição permite equilibrar a sociedade e diminuir as diferenças entre os mais ricos e os mais pobres, estimulando igualmente os cidadãos a serem mais activos e comprometidos com as suas comunidades. Consequentemente, a leis são criadas democraticamente e encorajam a participação dos cidadãos, contribuindo deste modo para uma sociedade mais justa e acessível a todos. Pelo menos na teoria.

Tal como as leis e como sublinha a especialista em sharing economy, a comunicação, e a informação, de que a Wikipedia é um excelente exemplo, é aberta e acessível. Os conhecimentos são facilmente adquiridos e utilizados por todos os que lhes queiram dar uso, sendo a tecnologia um meio de partilha bastante útil e rápido. Desta forma, torna-se mais fácil promover a educação e o acesso à informação.

Na medida em que a economia de partilha confere aos seus utilizadores um sentimento de pertença, torna-se possível a criação de uma cultura “própria”, outro dos seus pilares. Ou, como refere Benita Matofska, o gesto de partilhar é visto como positivo e está presente em diversos sectores, religiões e etnias, bem como nas mais variadas regiões do planeta, e cessível a pessoas com backgrounds económicos distintos. Neste sistema, é evidente o incentivo à diversidade e à partilha entre pessoas de diversos grupos, por este constituir uma via fundamental de ligação entre todos.

Por fim, a sharing economy é construída em torno de uma visão de longo prazo, no sentido em que existe a consciência, por parte dos seus ‘actores’, de que as acções presentes terão consequências no futuro, sendo este o seu último pilar. Adicionalmente, é esta necessidade de fazer futurologia que permite aos cidadãos ver para além do óbvio (ou ver a big picture, como é referido), sendo necessária uma abordagem sistemática para a mudança, a qual é encarada como fundamental para o seu sucesso.

Quem parte e reparte fica mesmo com a melhor parte

14012016_PartilhaFenomeno2Apesar das boas intenções defendidas pelos que acreditam genuinamente nos princípios acima referidos, o conceito tem evoluído e sofrido algumas alterações, permitindo a emergência de novos modelos de negócio que, apesar de terem em comum a ideia de “partilha”, não praticam os seus ideais de gratuidade. Um bom exemplo é a Airbnb, uma das mais conhecidas plataformas de sharing economy em todo o mundo. Criada em 2008 na Califórnia e presente em mais de 34 mil cidades de 190 países, a plataforma funciona como um mercado comunitário gigantesco, no qual as pessoas podem anunciar e reservar alojamentos diversos, desde castelos, a quartos privados ou a meros colchões estendidos na sala de estar, conforme o espaço de que dispõem (no caso de serem anfitriões) ou de que necessitam (tratando-se de hóspedes). O seu modelo assenta na premissa de que são os anfitriões a escolherem os preços que querem praticar e as condições a que os hóspedes estão sujeitos (em termos de acesso a equipamentos como máquinas de lavar, por exemplo), sem que haja troca directa de dinheiro (o pagamento é feito através da plataforma). Incentivar os cidadãos a transformar o seu espaço extra em dinheiro e promover viagens únicas e a preços acessíveis são os grandes objectivos da Airbnb.

Mais coerente com os princípios genuínos da economia da partilha é a recentemente fundada GoCambio, que também incentiva os utilizadores a partilharem o espaço das suas casas, mas apenas com o objectivo de promover a disseminação de culturas e a partilha de experiências. Neste projecto não existe qualquer tipo de pagamento em dinheiro: em troca do alojamento, os hóspedes ensinam aos anfitriões a sua língua ou outro traço específico da sua cultura, por exemplo em termos gastronómicos, durante pelo menos duas horas por dia. Neste reino da informalidade, o divertimento e a troca de experiências são os reis, e partilhar é a palavra de ordem. A sua managing director, Rosie Mansfield, explica que o principal objectivo da plataforma é “tornar o mundo um pouco mais pequeno, mais amigável e mais inteligente, conectando pessoas reais umas com as outras”, e salienta que “se partilharmos o que nos diferencia a nível cultural, removemos barreiras à educação a nível global”.

Esta plataforma nasceu na Irlanda, em 2015, e envolve mais de 8 mil utilizadores de 115 países. Em Portugal, o projecto conta apenas, e para já, com 28 membros, encontrando-se actualmente em fase de divulgação. No entanto, Rosie Mansfield realça que, no nosso país, “as pessoas calorosas, amigáveis, de mente aberta são perfeitas para fazer parte da família GoCambio”.

Um outro exemplo das muitas faces que a economia da partilha pode representar é o do “carsharing”. Foi para promover a partilha de viagens de automóvel e reduzir os custos das mesmas que surgiu a BlaBlaCar. Os promotores desta plataforma, que conta com 20 milhões de membros em 19 países, acreditam que “o acesso é mais importante que a propriedade” e reconhecem “as vantagens de alugar ou emprestar, em alternativa a comprar”. O projecto funciona como agregador de condutores que têm lugares vazios nos seus carros e outros utilizadores que pretendem fazer exatamente a mesma viagem mas não têm viatura própria, carta de condução ou capacidade económica para pagar outro tipo de transporte, sendo possível calcular previamente o custo da viagem e o montante que cada ocupante irá pagar. Este é mais um exemplo das vantagens que a partilha oferece, as quais recaem também sobre a preservação ambiental, considerando o decréscimo do número de automóveis em circulação e a consequente diminuição de emissões de carbono.

Tratando-se de uma bolsa de empréstimos colectivos, ou crowdlending, a Raize é uma plataforma portuguesa na qual as pessoas, a título individual, se predispõem a emprestar dinheiro directamente às empresas. Promover uma economia menos dependente da banca e do sistema financeiro tradicional é a grande missão deste projecto.

Em termos concretos, os investidores podem escolher as empresas que querem apoiar, bem como o montante e a taxa de juro a aplicar. Qualquer pessoa pode investir a partir de 20€ por empresa e sem custos, e receber prestações mensais dos seus empréstimos, minimizando os riscos. Por outro lado, as empresas podem escolher o montante e os prazos de que necessitam, bem como as ofertas que pretendem aceitar, podendo ainda efectuar os pagamentos mensalmente e por débito directo. A Raize exige às empresas uma única comissão de 3% sobre o valor financiado, no momento em que o mesmo é obtido. Adicionalmente, os créditos são aprovados em 48 horas e não são exigidas garantias pessoais. Uma outra vantagem deste modelo é o facto de o mesmo permitir poupanças em comissões bancárias na ordem dos 80%. Esta plataforma tem actualmente mais de 6 mil empresas de diversos sectores e em vários pontos do País.

O modelo de concessão de empréstimos colectivos está a revolucionar a indústria financeira a nível mundial, estando já a ser discutido na Comissão Europeia, a qual lançou inclusivamente um guia sobre empréstimos peer-to-peer, onde revela as suas principais vantagens. Mundialmente, foram já financiados mais de 15 mil milhões de euros através de crowdlending.

O(s) fenómeno(s) da sharing economy tem feito correr litros e litros de tinta e tem despertado a atenção de milhões de pessoas em todo o mundo, principalmente pelas vantagens que oferece aos cidadãos e pela facilidade com que normalmente são realizadas as “trocas”. Afinal, todos temos algo que não utilizamos e haverá sempre alguém que possui algo de que necessitamos. No entanto, e como explicam o The Guardian e a FastCompany, é necessário distinguir os projectos que se enquadram neste sistema daqueles que apenas o aproveitam para lucrar, mesmo estando completamente fora dos parâmetros que o definem.


UBER
Ser ou não ser, é mesmo essa a questão?

14012016_PartilhaFenomeno3A Uber é um exemplo “especial” de sharing economy que tem causado uma grande polémica em diversos países, sendo apreciada por muitos e contestada por outros tantos outros, em particular pelos que concorrem directamente com os serviços por ela prestados. A plataforma que tem estado nas bocas do mundo oferece um serviço semelhante ao do táxi convencional, mas com condições alternativas para os passageiros: custos reduzidos e definidos previamente através de uma app, facilidade de pagamento e de acesso às informações necessárias para identificar a viatura, e também rapidez e comodidade no que respeita à marcação da hora e do local de embarque.

Olhando para a Uber do ponto de vista da partilha, e excluindo as polémicas em torno da legitimidade do seu modelo de negócio, é possível analisar diferentes serviços e perceber que uns podem “pertencer”, em parte, a este sistema económico, enquanto outros não se enquadram, de todo, na sua definição, mesmo que “alargada”.

Um dos serviços que disponibiliza é o Uber Black, que funciona como um autêntico táxi e em que os condutores são funcionários “normais”, remunerados “normalmente” e que operam com uma licença similar à dos táxis convencionais. Ou seja, o seu funcionamento não cabe, claramente, no conceito de sharing economy, na medida em que os utilizadores pagam uma determinada quantia por um serviço, tal acontece numa empresa “normal”. A principal diferença entre este e o táxi convencional estará, então, pura e simplesmente, no tipo de tratamento prestado ao cliente ou no valor pago por este, tal como referido anteriormente.

O serviço que, como é bem explicado na FastCompany ou na Bloomberg, tem causado maior controvérsia e tem sido alvo de polémica é o UberX (Uber Pop, na Europa). Neste caso, qualquer pessoa com carta de condução (e sem uma licença específica para conduzir táxis) pode ser motorista e ganhar uma remuneração pela sua actividade. O paradoxo neste caso reside no facto de ser esta a actividade da Uber que mais se enquadra no modelo de economia da partilha, já que os “comuns” proprietários de automóveis permitem que os lugares vazios sejam ocupados por utilizadores que fazem o mesmo percurso.

Finalmente, a empresa lançou recentemente em São Francisco, a “cidade-natal” do projecto, o Uber Pool, o qual permite que diversos passageiros que fazem o mesmo percurso partilhem a mesma viatura. Neste caso concreto, os viajantes, todos juntos, praticam a ‘partilha’ dos lugares vazios, mas o serviço em si não difere daquele que pode ser prestado por um táxi normal.

Mais do que aferir o possível enquadramento da Uber na economia da partilha, criticando ou defendendo o seu modelo de negócio, importa explicar que esta é uma empresa que oferece um serviço de táxis capaz de concorrer com o convencional, inovando em diversos parâmetros, de que são exemplo o valor reduzido das tarifas e a facilidade de pagamento, para além do rendimento extra que os seus “motoristas” têm a oportunidade de auferir em cada viagem.


Mária Pombo

Jornalista

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