O mais recente estudo da Accenture, intitulado #ListenLearnLead, revela que é mais difícil saber ouvir na era digital. A tecnologia facilita a comunicação (à distância) entre as pessoas, mas aumenta as distracções no meio laboral, as quais impedem os trabalhadores de serem melhores profissionais. A análise revela ainda que, sem surpresas, a geração Y é a mais descontente com a actual conjuntura, dados os baixos salários e as demasiadas exigências com que é confrontada
POR
MÁRIA POMBO

A capacidade de saber ouvir está comprometida no actual mundo digital. Adicionalmente, o multitasking permite ter melhores resultados, mas proporciona demasiadas distracções no dia-a-dia dos trabalhadores. Estas são algumas das principais conclusões do estudo #ListenLearnLead, realizado no final de 2014 e apresentado recentemente pela Accenture. A pesquisa incluiu 3600 inquiridos, de 30 países dos diversos continentes e inseridos em pequenas, médias e grandes empresas.

A partir de um questionário online, foram inquiridos 1800 homens e 1800 mulheres, de vários grupos etários, representativos das três gerações que coabitam, actualmente, no ambiente empresarial. Sem fronteiras completamente definidas, a generalidade dos estudiosos identifica os baby boomers como aqueles que nasceram nas décadas de 50/60 e que estão já na fase final da sua carreira; a geração X como aquela que agrupa os nascidos entre os anos 60 e 70, os quais, não estando ainda no fim de carreira, já somam vários anos de experiência profissional e, finalmente, os Millennials, também conhecidos por geração Y, ou aqueles que nasceram entre os finais dos anos 70 e o início da década de 90, estando ainda a dar os primeiros passos na estrada laboral.

A análise revela que a larga maioria dos inquiridos (96%) se considera boa ouvinte e que 98% desempenham várias tarefas em simultâneo. Do universo de respondentes, são 64% os que admitem que é mais difícil ouvir no local de trabalho, devido às distracções inerentes ao mundo digital, sendo que 36% admitem que essas distracções os impedem facilmente de ser melhores profissionais, originando um incremento das dificuldades de concentração e uma diminuição das relações que se estabelecem entre os membros da equipa.

Chamadas telefónicas e reuniões ou visitas não agendadas são os principais factores que potenciam a falta de atenção no trabalho, com 79% e 72% dos inquiridos a apontá-los. Embora com uma percentagem menor, o envio e a recepção de mensagens instantâneas (Facebook, Twitter, Skype, entre outros) e de SMS foram igualmente assinalados como motivos de interrupção das actividades laborais, com 30% e 28%, respectivamente.

As conference calls são os “momentos ideais” para a realização de várias tarefas em simultâneo. Quem o diz são os 80% de participantes nesta análise que afirmaram desempenhar várias tarefas em simultâneo nessas ocasiões. Ler e enviar emails de trabalho é a principal “ocupação” apontada, com 66% de escolhas, seguindo-se a troca de mensagens instantâneas (35%) e de emails pessoais (34%). As redes sociais fazem, igualmente, parte do grupo de tarefas desempenhadas pelos inquiridos, com 22%, em conjunto com a leitura de notícias e entretenimento, que atinge os 21%. Só os que têm de liderar [as conference calls] ou que necessitam de informações específicas é que ouvem atentamente ou participam de forma activa nas mesmas.

Pensar antes de falar, fazer perguntas e tomar notas foram apontadas como as principais características que um bom ouvinte deve ter. Curioso, mas não surpreendente, é o facto de a geração Y ser a mais predisposta (64%) às multitarefas, não estando, ainda assim, muito distante da geração X (com 54%) nem dos Baby Boomers (que somaram 49%).

Apesar das desvantagens aferidas, o mundo digital oferece inúmeras vantagens em termos de comunicação. Mais de metade (58%) dos inquiridos acredita que a tecnologia permite que os líderes das empresas comuniquem com as equipas de forma mais rápida e fácil, sendo que 46% apontam o aumento da acessibilidade como o seu principal benefício. Todavia, é igualmente apontado o reverso desta medalha: a quase inexistência de fronteiras entre o trabalho e os restantes “momentos” da vida comprova que a acessibilidade em excesso pode revelar-se uma barreira à eficácia da liderança, com 62% das mulheres e 54% dos homens a confirmá-lo. Adicionalmente, mais de metade dos inquiridos revela que a sobrecarga de informação é o principal desafio desta era.

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Saber ser versus saber executar

As soft skills foram identificadas como cruciais para distinguir os bons trabalhadores e os bons líderes dos restantes. As competências interpessoais e relacionais foram eleitas por metade dos inquiridos como os requisitos necessários a uma boa liderança; e, para 44% dos inquiridos, quem não tem boas capacidades de comunicação e não sabe distinguir claramente as suas funções, responsabilidades e expectativas (39%) não deve exercer funções de liderança.

Adicionalmente, a comunicação efectiva, a capacidade de gerir a mudança e o talento para inspirar os outros foram apontadas como as principais soft skills inerentes a um cargo de chefia de uma empresa ou equipa. No entanto, e apesar de nos últimos anos as empresas reforçarem a importância desta componente mais pessoal, apenas 38% dos inquiridos referiram que as empresas onde trabalham oferecem formação e acompanhamento a este nível, contra os 53% que assumiram a existência de formação em competências puramente técnicas.

E como as competências não dependem do género, 71% dos inquiridos prevêem um aumento do número de mulheres a ocupar o cargo de CTO (chief technology officer) em 2030, e mais de metade (52%) assume que as empresas onde trabalham estão a preparar mais mulheres do que há um ano para posições de liderança.

A capacitação/aprendizagem foi outro tema abordado no estudo. Sem grandes surpresas, a larga maioria (80%) concorda que a formação on-the-job é a mais eficaz. A aprendizagem de competências técnicas foi também apontada como uma das mais eficazes, tendo obtido 68% das escolhas dos inquiridos. As conferências/workshops e o mentoring obtiveram pouco mais de metade dos “votos”, sendo que a capacitação de soft skills não ultrapassou os 49%.

Independentemente da sua forma (on-the-job ou qualquer uma das restantes), a formação que as empresas proporcionam é valorizada pelos inquiridos. São 85% os que a consideram útil, sendo que, destes, 26% reconhecem a sua elevada utilidade. Para 42%, esta representa uma oportunidade (por exemplo, de satisfação pessoal), e para 23% uma necessidade (sendo obrigados a tal). As duas opções (oportunidade e necessidade) foram assinaladas por 32% dos inquiridos. Mais de metade (59%) dos respondentes assume que foi a formação que tiveram que lhes permitiu a sua promoção e/ou crescimento dentro da empresa. A capacidade de ouvir os outros, a qual deu o mote a este estudo, foi “ensinada” a menos de metade do total dos entrevistados (45%).

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Geração Y: atrevida, descrente e descontente

No que respeita à análise relativa às remunerações e às promoções dentro das empresas, a comparação entre os dados deste ano e do transacto apresenta diferenças significativas. E é nesta secção também que as respostas, do ponto de vista geracional e de género, são mais divergentes.

Os dados deste ano revelam que os trabalhadores conseguiram aumentos salariais mais elevados face a anos anteriores. Foram 20% os que, em 2015, receberam um valor superior ao esperado, contra os 15% de 2014. Por outro lado, uma menor percentagem de trabalhadores (11%) não recebeu aumento algum, nem incentivos adicionais, comparativamente a 14% do ano anterior. Foi também em 2015 que se notou uma maior “coragem”, por parte dos inquiridos para negociar uma promoção na carreira (54%), face aos 44% que o fizeram em 2014 e os 43% de 2013.

Do total, 67% de homens e 61% de mulheres já negociaram um aumento salarial [este ano]. Em termos geracionais, os Millennials são claramente os mais “atrevidos”, com 68% a assumirem já o ter feito, contra os 64% da geração X e os 59% dos Baby boomers.

Este ano, 25% das mulheres e 17% dos homens inquiridos obtiveram um aumento salarial superior ao esperado. Por outro lado, 29% dos inquiridos masculinos e 22% das trabalhadoras receberam um aumento do seu rendimento mensal inferior ao previsto.

Entre 2013 e 2015, os níveis de satisfação laboral acusaram um declínio de 8%: em 2013, 52% dos inquiridos revelaram estar satisfeitos com o seu trabalho, valor que desceu para 44% na actualidade. Cerca de um quinto (22%) dos trabalhadores procura uma oportunidade fora da empresa onde exerce actividade, e não ultrapassa os 8% a população que planeia iniciar o seu próprio negócio (percentagem que, ainda assim, é superior à do ano passado e à de 2013). A justificação para este cenário é simples: empregos mal pagos e excesso de trabalho.

A geração dos baby boomers é a mais conformada com a sua situação no trabalho. Apenas 31% consideram ser mal remunerados, contra 39% da geração X e 38% da geração Y. Os mais velhos são igualmente aqueles que, apesar de já terem alcançado tendencialmente cargos mais “confortáveis”, mais acreditam na progressão na carreira e também nos progressos que podem ter na função que ocupam (como aprender ou ter novas responsabilidades). Mais inconformados, os trabalhadores da geração Y são os que mais “queixumes” revelam relativamente aos horários prolongados e ao esforço que lhes é exigido nas empresas, e também aqueles que menor entusiasmo apresentam ao nível da progressão na carreira e/ou na função que desempenham.

Um dado que merece reflexão prende-se com o facto de os inquiridos manifestarem maior abertura para largar o emprego em prol da família, caso o/a parceiro(a) conseguisse garantir a sobrevivência financeira do seu agregado. Em 2014, eram apenas 37% os respondentes que colocavam esta hipótese, mas este número aumentou para 51%, este ano, sendo cada vez mais aproximada a percentagem entre homens e mulheres.

Como principais conclusões, o estudo da Accenture revelou que, apesar das mais variadas facilidades que a era digital proporciona, importa não se perderem algumas faculdades (como saber ouvir e pensar antes de falar) que eram necessárias a qualquer trabalhador antes da existência da tecnologia, e que mantêm a sua importância. A capacidade de ouvir está, de facto e de acordo com a análise, comprometida e é importante que as empresas tomem medidas para que se possa reverter esta situação e usufruir do melhor que esta era tem para oferecer.

Outra conclusão importante diz respeito à descrença, notada especialmente na geração mais nova, relativa às oportunidades de trabalho e à valorização das competências técnicas e interrelacionais. É crescente o número de trabalhadores que cita a inexistência de boas oportunidades no actual mercado de trabalho, sublinhando igualmente a exploração em termos de salários reduzidos, horários alargados, níveis de exigência e volume de trabalho.

Mária Pombo

Jornalista