É uma das questões centrais quando tentamos conciliar os nossos diversos mundos, integrando vida pessoal com vida profissional. Em tempo de crise, essa tarefa afigura-se ainda mais complicada, mas possível. A especialista em questões de conciliação, Nuria Chinchilla, esteve na AESE onde, mais uma vez, nos fez acreditar que, basta querer, para tal ser exequível
POR HELENA OLIVEIRA

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© AESE
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A propósito do relançamento do Prémio de Empresa mais Familiarmente Responsável (E+FR) para 2010, a AESE – Escola de Direcção e Negócios, convidou a especialista em questões de conciliação entre vida pessoal e profissional, Nuria Chinchilla, para uma conferência que, face ao contexto actual em que vivemos, faz ainda mais sentido. “Como liderar a nossa vida em tempos de crise”, o título da intervenção daquela que foi nomeada como um(a) dos 10 melhores gestores espanhóis, levou a audiência ao universo de Nuria Chinchilla que, com apresentações sempre brilhantes, nos permite verdadeiramente acreditar que a conciliação entre os nossos vários mundos é possível e que, tal como indica o título do seu livro –já publicado em Portugal – podemos ser donos do nosso próprio destino.

Como a professora do IESE humoristicamente parafraseou, “em tempo de crise há que estar disposto a trabalhar o dobro, a receber metade e a continuar a vida com um sorriso nos lábios”. Contudo, todos sabemos que se sem crise, já é difícil nos posicionarmos no chamado triângulo da conciliação – empresa, família e sociedade – com ela a invadir empresas, lares e espíritos, tal tarefa parece ainda mais monumental. Mas não para Nuria Chinchilla, que aponta como maior incongruência o facto de colocarmos o trabalho para um lado e a vida para o outro quando, no fundo, da sua integração poderão nascer vários benefícios tanto para empresas como para os seus trabalhadores. A tarefa, é contudo, um desafio para ambos os termos da equação.

Como contextualizou Nuria, são várias as realidades sociais que contribuem para que, cada vez mais, vivamos numa cultura de “distância”, em empresas mecanicistas e famílias empobrecidas. As principais causas do conflito trabalho-família e apesar de grande parte das empresas (e também do Estado) clamar que tem atitudes responsáveis e que leva em conta o bem-estar dos seus trabalhadores, continuam a ser as mesmas que, de uma forma ou outra, todos nós já vivenciámos: a incompatibilidade dos horários laborais e escolares, a falta de políticas empresariais que promovam esta conciliação, as habituais pressões quotidianas, a falta de apoio por parte de superiores e colegas mas, não menos importante, a própria forma que cada um de nós constrói para combinar trabalho e família. É que todos estes factores combinados geram um enorme desequilíbrio no ser humano. Que pode ter, contudo, solução.

Saber o que nos move

É outra questão que acompanha a humanidade desde o seu início. Quem somos e para onde vamos? Nesta pergunta sempre actual, estão compreendidos os motivos pelos quais fazemos as coisas e os tipos de motivações subjacentes aos nossos actos. De acordo com Nuria Chinchilla e bem expresso no seu livro, podemos agrupar os principais motivos que nos estimulam a agir em três grandes categorias: os extrínsecos, que obviamente são os que vêm, de fora, e que incluem o dinheiro, fama, o reconhecimento, etc; os intrínsecos, que estão ligados à própria acção e cuja origem é interna, na qual se inclui a aprendizagem, os desafios ou o prazer que se retira dessa mesma acção; e, por último, os denominados motivos transcendentes, cuja origem é igualmente interior mas o seu destinatário está no exterior e as acções repercutem-se positivamente nos outros. E a pessoa que se move por motivos transcendentes tem uma forma muito mais completa da compreensão da vida, porque a decisão surge de si mesma, está no centro, mas irradia para o seu ambiente externo.

Estes motivos estão inter-relacionados não só com as motivações – que podem ser espontâneas ou racionais por motivos transcendentes, isto é, aquilo que consideramos racionalmente conveniente para os outros – e também com os tipos de aprendizagem que fazemos, que podem ser negativos ou positivos.

A aprendizagem negativa, na qual o peso dos motivos transcendentes é diminuto, é como um ciclo vicioso e que pressupõe um envolvimento significativo com tudo aquilo que está relacionado com o extrínseco, com o “ter”, com o poder, com a fama, etc e que, como consequência, relega para segundo plano certos aspectos importantíssimos da realidade, tal como preferir jogar golf, porque dá estatuto, em vez de passar esse tempo livro com a família, por exemplo. Ou seja, a aprendizagem negativa não toma em linha de conta as consequências internas das nossas decisões, “seca” o nosso coração e torna extremamente selectivos tanto a visão como o cérebro. O que fica expresso na famosa frase que diz “se não actuas como pensas, acabas pensando como actuas”, ou seja, com um empobrecimento real, e muitas vezes, crónico, da realidade.

Assim e como circuito alternativo existe a denominada aprendizagem positiva ou virtuosa, ou a consequência de adiar satisfações actuais pela mudança interior que nos permitirá desfrutar de níveis superiores de afectividade e satisfação no futuro. Tal postura gera um hábito positivo que se ajusta à realidade, pois o processo de aprendizagem está ancorado no ser e são as coisas e os meios – não os fins – para servir os outros e a nós mesmos que se elevam.

Todos os motivos e motivações que preenchem as nossas vidas estão fortemente ligados com a missão que pretendemos ter no mundo. E é aqui que a conciliação é mais uma vez chamada para papel principal. Saber identificar qual a nossa missão pessoal, familiar, profissional e social – como afirma Nuria, somos uma só pessoa, mas que faz malabarismos com vários pratos, sendo que uns são de plástico e outros de porcelana, o que faz toda a diferença quando caem no chão – confere um sentido profundo à vida pois temos consciência de que caminhamos para um lugar concreto. E a forma como cumprimos a nossa missão produz a percepção satisfatória ou insatisfatória da nossa trajectória vital. Contudo e como alerta a professora do IESE, não são apenas os indivíduos que têm de descobrir a sua missão, mas também cada família, cada empresa, para saberem o papel que devem desempenhar em cada momento e que critérios conduzirão as suas decisões.

E, em termos pessoais e de conciliação, há que descobrir, acima de tudo, para quem somos insubstituíveis.

Da conciliação à integração
Fazer um diagnóstico individual pode constituir meio caminho andado para se chegar ao destino da integração saudável das nossas diferentes mas complementares vidas. Começando pelo número de horas de trabalho por dia – Nuria tem por hábito dizer que cumprimos um horário religioso, pois entramos quando Deus manda e saímos quando Deus quer -, passando pelo número de horas que passamos em família e o tempo livre ou de recuperação que sobra para nós mesmos, poderá servir-nos como guia para uma melhor integração dos diferentes “pratos” com os quais, todos os dias, fazemos o nosso malabarismo.

No que respeita à mulher em particular, visto que pelas suas características “multi-tarefas” se desdobra em inúmeros papeis, Nuria aponta o exemplo da “slastic girl”, ou a bombeira que é obrigada a apagar todos os fogos . Depois existem aqueles que estão 24 horas ligados e que dormem com o blackberry por baixo da almofada. Há os que separam totalmente o ambiente profissional e os que integram, adequadamente, ambos os cenários nas suas vidas. O ideal da integração será, contudo, sentirmo-nos felizes enquanto trabalhamos e sentirmo-nos felizes quando estamos com a família. O que há a sublinhar é que a protagonista da conciliação é sempre a própria pessoa, que vai construindo o seu destino.

Existem, obviamente, actores principais que nos acompanham nesta viagem, a par de actores secundários ou figurantes que nos proporcionam o ambiente propício para chegarmos a bom porto ou ficarmos à deriva num mar de incertezas e obstáculos.

E tal como já foi referido anteriormente, é igualmente imprescindível  descobrir a nossa missão familiar interna que, em termos de características, muito se assemelha às competências de liderança mais valorizadas na empresa.

Senão vejamos: a orientação para o cliente tem o seu equivalente no ambiente familiar quando pensamos e actuamos em conformidade com as necessidades dos membros da família; ser líder é constituir uma referência a seguir, na empresa ou na família; a integridade, valor tão prezado nas organizações, nada mais é do se ganhar confiança por se ser coerente entre o que se pensa, se diz e se faz; a iniciativa traduz-se, em ambos os cenários, pela pró-actividade, ou seja antecipar as necessidades dos outros e poder satisfazê-las; o famoso trabalho em equipa, cada vez mais insubstituível nas empresas, nada mais é do que o contributo para o projecto comum familiar, de acordo com as capacidades e competências de cada um dos intervenientes; a comunicação implicar saber escutar, no trabalho ou em casa; a visão de negócio traduz-se, simplesmente, pela descoberta das necessidades e oportunidades nos outros; a constante luta pelo aperfeiçoamento pessoal implica, em ambos os palcos, o autoconhecimento, a autocrítica e vontade constante de aprender; a tomada de decisões implica a racionalidade e a prudência, sempre com vista a manter e/ou aperfeiçoar os valores que dão corpo ao nosso carácter; por último, a orientação inter-funcional obriga a uma antecipação das consequências das acções e omissões próprias que incidirão nos demais.

Ao vivermos neste conjunto de subsistemas que formam o sistema global – a nossa vida – e de acordo com a noção de “coração inteligente”, defendida por Nuria Chinchilla, há assim que identificar os ladrões do nosso tempo, lutar contra a dispersão, saber estabelecer prioridades e cumprir, de forma plena, as nossas diferentes missões. E, parafraseando W.G.Ward, ter em mente que “o pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que este mude e o realista ajusta as velas”. É que a vida é o barco que todos temos de conduzir.

© 2009 – Todos os direitos reservados. Publicado em 3 de Novembro de 2009