À medida que a marcha tecnológica avança de uma forma cada vez mais célere, as consequências da automação e da utilização da inteligência artificial no mundo do trabalho constituem uma das maiores preocupações para empresas e trabalhadores. E seguindo o velho ditado de que “mais vale prevenir do que remediar” é crescentemente imperativo que se tracem cenários para o que o futuro nos poderá reservar. A PwC divulgou um estudo em que prevê quatro possíveis “novos mundos do trabalho” com o objectivo de ajudar empregadores e empregados a reflectirem sobre a adaptabilidade necessária para fazer face aos inúmeros desafios que (n)os esperam

POR HELENA OLIVEIRA

 

“Então o que devemos dizer às nossas crianças? Que para nos mantermos um passo à frente, temo-nos de concentrar na nossa capacidade de adaptação contínua, envolvermo-nos com os demais nesse processo e, mais importante que tudo, retermos o nosso sentido de identidade e valores. Para os estudantes, já não é apenas adquirir conhecimentos, mas sim saber como aprender. Para os restantes de nós, devemo-nos lembrar que a complacência não é nossa amiga e que aprender – não só coisas novas, mas também novas formas de pensar – será um empreendimento para toda a vida”, Blair Sheppard, Global Leader, Strategy and Leadership Development, PwC

O ritmo da mudança está cada vez mais célere. A competição pelo talento certo cada vez mais feroz. Sendo que “talento” já não significa o mesmo que há dez anos; muitas das funções, competências e títulos profissionais do amanhã são desconhecidas por nós hoje. Como é que as organizações se podem preparar para um futuro que nenhum de nós consegue definir? De que forma é que o talento precisa de mudar? Como conseguiremos atrair, reter e motivar as pessoas de que precisamos? E o que tudo isto significa para os Recursos Humanos?

Estas e outras questões absolutamente cruciais são feitas num recente e interessante estudo realizado pela PricewaterhouseCoopers (PwC), que teve início em 2007 e que envolveu inquéritos a 10 mil pessoas na China, Índia, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos, com o intuito de produzir conhecimento sobre como as pessoas pensam que o local de trabalho irá evoluir e como irá afectar as suas perspectivas de emprego e vidas profissionais futuras. Com base na premissa “para estar preparado para o futuro, há que o compreender” a consultora desenvolveu, complementarmente, “Quatro Mundos de Trabalho” para 2030 que ajudam a dar o pontapé de saída – ou de entrada – nos cenários mais previsíveis para o futuro próximo, os quais serão aqui sumarizados.

Todavia, e antes dessa apresentação “futurista”, há que explorar um pouco mais o futuro do trabalho, o que nos obriga a formular um conjunto de perguntas no presente. Qual a influência que a marcha contínua da tecnologia, automação e inteligência artificial (IA) terão no sítio onde trabalhamos e na forma como exercemos o nosso trabalho? Quem é que precisará, realmente, de trabalhar? Que lugar ocuparemos no mundo automatizado?

Para os responsáveis do estudo da PwC, e apesar de muitos observadores se focarem na tecnologia e no papel que, previsivelmente, a automação terá nos empregos e nos locais de trabalho, a questão é “menos sobre inovação tecnológica e mais sobre a forma como os humanos decidirão usar essa tecnologia”. A forma que a força laboral tomará no futuro será resultado de força complexas, mutantes e em concorrência. Algumas destas forças são certas, mas a velocidade de acordo com a qual se desenvolverão é muito difícil de prever.

Denominadas”mega-tendências”, estas forças poderosas que estão a reconfigurar a sociedade e, por consequência, o mundo do trabalho são várias: as mudanças económicas que estão a redistribuir o poder, a riqueza, a competição e as oportunidades em todo o globo e as inovações disruptivas, pensamento radical, novos modelos de negócio e escassez de recursos que estão a ter impacto em todos os sectores. E as empresas precisam de um propósito claro e com significado para saberem atrair e reter empregados, clientes e parceiros ao longo da próxima década.

Estas mega-tendências identificadas pela PwC formam os fundamentos para os quatro cenários “imaginados”. E será a forma como os humanos responderão aos seus desafios e oportunidades que irão determinar em que “tipo de mundo” o futuro terá lugar.

Os quatro possíveis mundos do trabalho em 2030

O Mundo Vermelho – é a inovação que comanda

2020: Escândalos pessoais e corrupção entre políticos e líderes de negócios num conjunto alargado de países permanecem por resolver, assinalando que o mundo continua igual a si mesmo nesta matéria;

2021: Uma aplicação de estilo de vida desenvolvida por um estudante do Taiwan com 17 anos para o seu projecto de final de curso é vendida por 49 milhões de dólares num leilão online organizado pela sua escola;

2022: Um tribunal no Reino Unido decreta que ideias desenvolvidas fora das horas de trabalho por colegas da mesma empresa permanecem como propriedade desta, mesmo que os trabalhadores não sejam empregados permanentes;

2030: O número de trabalhadores nos Estados Unidos em emprego “permanente” e com horário completo cai para 90% da força laboral, batendo recordes de “queda”.

Será um mundo de inovação com muito poucas regras e um perfeito incubador de ideias. Novos produtos e modelos de negócios são desenvolvidos à velocidade da luz, a uma velocidade muito mais rápida do que a que os reguladores podem controlar. A tecnologia encoraja a criação de “bolhas” sociais, poderosas, sem fronteiras e compostas por pessoas com opiniões similares. Os negócios inovam no sentido de criarem personalização e encontram novas formas de servir estes nichos.

Existem elevadas recompensas para quem tiver este tipo de ideias, bem como as competências que melhor servem as necessidades das empresas e dos consumidores. Mas num mundo caracterizado por poucas regras, os riscos são elevados. O que é hoje um negócio vencedor poderá estar amanhã nas barras dos tribunais.

A agilidade e a velocidade serão essenciais, com as grandes empresas a serem cercadas pelo mundo digital, o qual formará equipas dedicadas a pequenos empreendimentos. As plataformas digitais serão responsáveis pela correspondência entre empregado e empregador, entre competências e procura, entre o capital e o inovador e entre o consumidor e o fornecedor. Tal irá permitir aos empreendedores em série aumentarem em muito a sua dimensão em termos de influência e escala.

Ansiosos por competir, os empregadores de maior dimensão irão fragmentar-se para criar os seus próprios mercados internos, bem como redes, para eliminar as velhas hierarquias e encorajar e recompensar os trabalhadores a surgirem com novas ideias. O ritmo de desenvolvimento e de testes de novos produtos e serviços será muito acelerado, o que aumentará o risco de danos para a marca, bem como o seu possível fracasso.

A especialização será muito apreciada neste Mundo Vermelho e uma carreira, em vez de ser definida por um empregador ou instituição, será determinada por blocos individuais de competências, experiências e redes de contactos.

Organizações com “quase zero” empregados serão a norma e utilizarão a tecnologia, a cadeia de fornecimento e a propriedade intelectual, em vez do esforço humano e os activos físicos, para gerar valor. O valor comercial da aprendizagem ganha prioridade, com os diplomas universitários a serem considerados menos valiosos do que competências específicas e relevantes, bem como a experiência.

Os trabalhadores saberão que quem tiver competências específicas receberá o maior pacote de recompensas. Muitos estarão em constante movimento e permanecerão apenas enquanto durar um determinado projecto ou negócio. As negociações de contratos serão cruciais e a detenção da propriedade intelectual e a liberdade para trabalhar serão tão importantes quanto os incentivos financeiros.

 

O Mundo Azul – empresas serão rainhas

2020: A riqueza líquida do 1% do topo dos agregados chineses suplantará a do 1% do topo dos norte-americanos;

2021: A fusão do maior site de media social do mundo com as maiores empresas de telecomunicações africanas será o maior acordo comercial do globo;

2025: As Nações Unidas lançam a sua Carta Ética sobre Aperfeiçoamento Humano;

2030: A maior empresa tecnológica da Índia anunciará um aumento de 24% nas suas receitas anuais, largamente atribuído à introdução de fármacos que permitem aperfeiçoar as capacidades cognitivas da sua força de trabalho.

Neste Mundo Azul, as empresas irão encarar a sua dimensão e influência como a melhor forma de proteger as suas valiosas margens de lucro contra uma concorrência feroz por parte dos seus pares e de novos players no mercado. O sucesso dependerá de uma força laboral competitiva com as grandes empresas a rivalizarem pelos melhores talentos. E irão ultrapassar os limites da capacidade humana investindo em tecnologias de aperfeiçoamento, medicação e implantes para conferirem vantagem às suas pessoas.

Apesar de as empresarem dominarem o mundo, as suas forças de trabalho serão “magras”. O talento excepcional terá uma enorme procura, com os empregadores a reterem um grupo central de trabalhadores de elevada performance oferecendo-lhes excelentes recompensas mas, e em simultâneo, apostando no talento flexível e nas competências de acordo com as suas necessidades pontuais.

O esforço humano, a automação, a analytics e a inovação combinar-se-ão para levarem a performance no local de trabalho até ao limite; o esforço humano será maximizado através da utilização sofisticada de técnicas médicas de aperfeiçoamento e a performance e bem-estar dos trabalhadores serão avaliados, monitorizados e analisados continuamente. Uma nova “espécie” de super-trabalhadores emergirá.

Para os trabalhadores no Mundo Azul, a pressão para a performance será implacável. Aqueles que possuem uma função permanente gozarão de excelentes recompensas, o mesmo acontecendo aos trabalhadores contratados para exercer trabalhos especializados – mas ambos terão a noção de que a sua empregabilidade futura dependerá da relevância das suas competências específicas.

As empresas fornecerão muitos serviços, desde a educação das crianças, aos cuidados de saúde e acompanhamento dos mais velhos, previamente prestados pelo Estado.

O preço que os trabalhadores terão de pagar reside nos seus dados. As empresas irão monitorizá-los e avaliá-los de forma obsessiva, desde a sua localização, à sua performance, saúde e bem-estar – tanto no interior como no exterior do local de trabalho. As organizações utilizarão estes dados para prever a performance e para anteciparem possíveis riscos nas suas pessoas.

O Mundo Verde – e as empresas que se importam

2020: As marchas “Parem os bots” contra a perda de postos de trabalho atrai dezenas de milhares de manifestantes em Detroit, Toronto, Bombaim e Londres;

2021: Uma seca com a duração de um ano no Paquistão e no norte da Índia causa a morte de dois milhões de pessoas. Mais de 30 milhões de pessoas são deslocalizadas;

2022: A campanha social #waterwaster tem como alvo organizações que falharam em reduzir o seu consumo de água desde que as orientações internacionais foram acordadas em 2020. O preço por acção e as receitas de uma dúzia de multinacionais caem a pique;

2025: Normas de avaliação internacionais exigem relatórios de “Impacto do Capital Natural e Social” a todas as empresas cotadas em bolsa;

2030: A União Europeia introduz legislação que interdita todas as empresas que têm relações comerciais no interior da UE a usar veículos movidos a gasolina e a gasóleo.

Neste Mundo Verde, a responsabilidade corporativa já não é apenas um “nice-to-have”, mas um imperativo de negócio. As empresas são abertas e colaborativas, vendo-se a si próprias como tendo um papel essencial no desenvolvimento dos seus empregados e no apoio das comunidades locais.

Reagindo à opinião pública, à crescente escassez dos recursos naturais e a regulações internacionais mais severas, as empresas seguem uma agenda cada vez mais ética e verde. Esta é caracterizada por uma forte consciência social, um sentimento de responsabilidade ambiental, um enfoque na diversidade, nos direitos humanos e na justiça mediante todas as suas formas, em conjunto com o reconhecimento de que os negócios têm um impacto que vai bem mais além do financeiro.

A confiança é a moeda corrente que apoia os negócios e o emprego. As empresas têm de posicionar o propósito societal no centro das suas estratégias comerciais.

A automação e a tecnologia são um elemento essencial do Mundo Verde na medida em que ajudam a proteger recursos escassos e a minimizar os danos ambientais. A tecnologia é crescentemente utilizada para substituir a necessidade de viajar, dando origem a uma rápida inovação nas tecnologias de comunicação.

Todavia, saber como é que as pessoas se encaixam neste Mundo Verde automatizado é uma questão ainda por responder. A tecnologia é uma espada de dois bicos para os empregados do Mundo Verde: permite-lhes seguir uma agenda ética e ambiental, mas a que custo para si mesmos enquanto humanos?

Neste “mundo”, os trabalhadores gozam de um ambiente de equilíbrio entre vida profissional e pessoal, de horários flexíveis e são encorajados a tomar parte em projectos socialmente úteis. Os empregados confiam no seu empregador para que sejam tratados de forma justa em termos de salário, desenvolvimento e condições laborais e, em troca, estes deverão reflectir a cultura da empresa nas suas abordagens e comportamento.

As elevadas normas éticas pelas quais as empresas se regerão têm um efeito cascata nos empregados. A boa conduta e a ética são levadas muito a sério no trabalho e a performance será avaliada de acordo com um amplo conjunto de acções, incluindo o quão eficientemente os trabalhadores gerem as suas viagens e recursos.

O Mundo Amarelo – os humanos primeiro

2020: A Comissão Europeia aprova a Directiva do Pagamento Justo;

2021: A maior empresa de táxis do mundo cede à pressão do público e introduz a opção “um condutor humano, por favor” na sua app;

2022: A Bolsa de Valores de Xangai anuncia que todas as empresas cotadas serão proibidas de utilizar os “minérios do conflito” até 2025;

2025: O Brasil torna-se no último país do G22 a renacionalizar os seus fornecimentos de água e energia;

2030: A marca de qualidade “Feito por mim” – que indica que nenhuma máquina foi envolvida na produção – alcança reconhecimento mundial.

Neste Mundo Amarelo, trabalhadores e empresas procuram um maior significado e relevância naquilo que fazem.

Um forte desejo de “justiça” na distribuição da riqueza, dos recursos e privilégios conduz as políticas públicas, o que resultará numa intervenção crescente por parte dos governos.

Os trabalhadores encontram flexibilidade, autonomia e realização pessoal, trabalhando para organizações com registos éticos e sociais fortes. Esta será a resposta colectiva à fragmentação dos negócios: o desejo de fazer o bem, para o bem comum. Um leque mais vasto de trabalho é regulado pelo conceito de “trabalhos bons” e trabalho decente, afastando-se dos relacionamentos tradicionais empregador/empregado.

A tecnologia já terá ajudado a criar este vibrante Mundo Amarelo diminuindo as barreiras à entrada através do fornecimento de acesso facilitado a capital “crowdfunded” e a um mercado global. Isto permite que negócios ligados ao empreendedorismo possam competir em áreas que, previamente, eram apenas do domínio das grandes organizações.

Todavia, existirá um conflito central em torno da tecnologia e da automação: no Mundo Amarelo, as pessoas estarão mais dispostas a lutar contra o lado negro da automação. E à medida que mais pessoas sofrem com o impacto doa avanços tecnológicos e assistem à obsolescência das suas competências, o descontentamento e as insurgências contra as políticas que parecem favorecer as elites crescem.

Por seu turno, os trabalhadores sentem a mais forte das lealdades não relativamente aos seus empregadores, mas às pessoas cujas competências ou causas defendidas são similares às suas.

O Mundo Amarelo será o terreno perfeito para fazer emergir novas associações de trabalhadores semelhantes às guildas existente na Idade Média. Estas associações desenvolver-se-ão para proteger, apoiar e relacionar trabalhadores independentes, podendo igualmente oferecer formação e outros benefícios tradicionalmente fornecidos pelos empregadores.

E quais as consequências de tudo isto para o emprego e para os trabalhadores?

Todos os quatro cenários acima reproduzidos têm as suas próprias especificidades, mas em comum partilham a automação e as implicações da robótica e da IA. Será que os robots vão mesmo substituir os humanos no trabalho? Ou seremos nós, humanos, a criar um novo mundo onde pessoas e máquinas poderão trabalhar eficazmente lado a lado? Esta é a mais fundamental – e difícil – questão que podemos formular sobre o futuro do trabalho.

À medida que mais tarefas individuais se tornam automatizadas através da IA e de algoritmos sofisticados, os empregos estão a ser redefinidos e recategorizados. De acordo com um outro estudo realizado pela PwC, um terço dos trabalhadores em todo o mundo está preocupado com a possibilidade de perder o seu emprego devido à automação, sendo claro que esta última irá resultar numa reclassificação massificada do trabalho. Alguns sectores e funções, e até secções inteiras da força laboral irão desaparecer, apesar de outras que serão criadas.

A automação não só irá alterar os tipos de trabalho disponíveis, bem como o seu número e a percepção do seu valor. Ao substituir os trabalhadores que exercem funções rotineiras e metódicas, as máquinas podem ampliar a vantagem comparativa desses mesmos trabalhadores com competências que envolvam a resolução de problemas, a liderança, o quociente emocional (QE), a empatia e a criatividade.

Quanto aos trabalhadores cujas funções as máquinas ainda não são capazes de substituir, tornar-se-ão cada vez mais cruciais, desde que possuam elevados níveis de criatividade, inovação, imaginação e competências de design, as quais serão a prioridade dos empregadores.

Esta visão é apoiada por líderes de negócios em todo o mundo e que responderam ao mais recente inquérito a CEOs desenvolvido pela PwC. Apesar de os CEOs estarem ansiosos por maximizar os benefícios da automação – 52% afirmaram estar já a explorar as vantagens do trabalho conjunto de humanos e máquinas e 39% estão a considerar o impacto da IA nas suas necessidades futuras de competências – mais de metade (52%) está igualmente a considerar aumentar a sua força de trabalho nos próximos 12 meses.

Encontrar as competências de que precisam assume-se como a maior ameaça para os negócios, afirmam os executivos de topo inquiridos, mas essas mesmas competências estão devidamente identificadas: resolução de problemas, adaptabilidade, colaboração, liderança, criatividade e inovação estão no topo da lista.