Portugal continua a ser um país onde se paga “tarde e a más horas”. As melhorias ligeiras, verificadas ao nível dos prazos de pagamentos, relativamente a 2013, não permitem ainda uma previsão optimista para os próximos tempos. Os números são claros: mais de 70% dos gestores não sentiram as mudanças positivas da anunciada recuperação económica. Estas são algumas conclusões de um estudo da Intrum Justitia sobre o Índice de Risco em Portugal, que surgiu na sequência do Índice Europeu de Pagamentos 2014
POR MÁRIA POMBO

Apesar da suposta recuperação económica, que tem sido lenta mas bastante anunciada nos últimos tempos, a maioria dos gestores não viu ainda melhorias significativas para as suas empresas, segundo um estudo da Intrum Justitia sobre o risco causado pelos atrasos nos pagamentos, em Maio do presente ano. Este estudo anual foi realizado na sequência do Índice Europeu de Pagamentos 2014, um inquérito a mais de 10 mil gestores, a nível europeu, e os resultados referentes a Portugal foram recentemente divulgados.A juntar à percentagem elevada de gestores que não viram progressos nas suas empresas, 46% dos respondentes prevêem um aumento dos riscos de atraso ou não pagamento, para os próximos tempos. A verificar-se, esta previsão pode pôr em causa o funcionamento de muitas empresas que não encontram forma de saldar as suas dívidas, ficando consequentemente afectado o bem-estar social da Europa, assim como a sua competitividade.

[pull_quote_left]46% dos gestores prevêem um aumento dos riscos de pagamento, o que põe em causa a competitividade da Europa[/pull_quote_left]

Quanto aos indicadores que permitem avaliar o desenvolvimento económico, Portugal encontra-se ainda bastante aquém da média europeia, quer no que diz respeito ao crescimento do Produto Interno Bruto (que está a -1,4 contra os -0,3 europeus), quer relativamente à Inflação (com 0,4 contra 2,5). Também a taxa de desemprego apresenta uma diferença considerável, com Portugal a ultrapassar os 16% contra os menos de 11% europeus.

Relativamente à duração dos pagamentos, é perceptível que desde 2008, ano em que despoletou a crise, Portugal tem tido diversas, mas suaves, oscilações. Em 2008, cerca de um quarto dos créditos fazia-se a mais de 90 dias, e em 2009 este valor subiu para os 29%, mantendo-se elevado entre os anos 2011 e 2013 e decaindo para os 27% no presente ano. Contrariando a tendência, em 2010, existiam apenas 21% de créditos, no referido intervalo temporal. É ligeiramente maior a percentagem de créditos a mais de 90 dias e a menos de 30 dias, mas significativamente menor a percentagem de créditos de 31 a 90 dias, comparativamente a 2008. A partir destes dados, conclui-se que a distribuição das contas a receber está a estabilizar, sendo possível ter uma visão optimista sobre a mesma.

10122014_PagarTardeEtardeReceberUm olhar sobre o prazo médio de pagamentos permite deduzir que também aqui se registam melhorias, relativamente a 2009, embora o cenário continue a ser preocupante. Apesar do seu impacto reduzido, esta tendência revela um esforço em acelerar o processo de pagamentos de contas, tanto por parte das empresas (que em 2009 registavam atrasos de, em média, 35 dias e actualmente registam 33) como das entidades públicas (que no início da crise ultrapassavam em 72 dias e hoje em dia excedem em 69 dias o prazo de pagamentos).

A evolução é, de facto, pouco significativa e este atraso continua bastante elevado e muito longe de respeitar as condições estipuladas por lei. No entanto, não nos devemos esquecer que as entidades públicas já registaram, em 2010, atrasos de 84 dias e as empresas já demoraram (em 2011) mais 41 dias a efectuar os pagamentos do que aqueles que estão determinados. São os consumidores aqueles que, ao longo destes anos, têm apresentado atrasos de pagamento mais reduzidos e mais estáveis, rondando quase sempre os 30 dias.

Uma questão igualmente perturbadora está relacionada com o número de dias que os gestores inquiridos demoram a recorrer a uma empresa profissional de Serviços de Gestão de Crédito e Cobranças, para que os seus devedores lhes paguem. A nível europeu, mais de metade das empresas esperam cerca de 80 dias, mas em Portugal 43% dos inquiridos assumem aguardar, em média, 125 dias (mais de quatro meses) até solicitarem estes serviços.

O mal de não pagar

Se receber com atrasos é trágico, não receber de todo é inconcebível. No entanto, a verdade é que tem vindo a aumentar a percentagem de créditos que já não podem ser cobrados. Desde 2008, este valor passou de 2,7% para 4%, sempre de forma crescente e gradual. Uma vez consideradas incobráveis, estas dívidas “serão contabilizadas pelas empresas como custos”, segundo salienta o estudo em causa. É evidente o impacto negativo destas perdas, as quais obrigam as empresas a compensar os prejuízos com vendas extraordinárias, o que requer um esforço adicional relacionado, por exemplo, com número de funcionários e horas de trabalho.

Desta forma, tornam-se claras as consequências dos atrasos ou não pagamentos. A falta de liquidez e as perdas de rendimentos foram reportadas por 84% e por 70% dos inquiridos, respectivamente, seguindo-se o não crescimento das empresas. Igualmente preocupantes são os 40% de respondentes que sentem ameaçada a sobrevivência das empresas que gerem. Embora continue elevado, este factor diminuiu 20 pontos percentuais, tal como o da reputação, face a 2009. Os números permitem perceber que, apesar de inquietantes, estas consequências não se agravaram com a crise, tendo em conta que não se verificaram diferenças significativas nas escolhas feitas pelos gestores, no que a esta questão diz respeito.

As dificuldades financeiras foram a causa mais apontada pela quase totalidade (99%) dos respondentes para justificar os atrasos nos pagamentos. Mais de 60% dos gestores consideram intencionais os atrasos de pagamentos. Esta causa foi mencionada por um número crescente de inquiridos, entre 2009 e 2013. No entanto, no presente ano baixou em dez pontos percentuais.

[pull_quote_right]Tem vindo a aumentar a percentagem de créditos que já não podem ser cobrados[/pull_quote_right]

Para o próximo ano, as previsões dos gestores não são positivas. Dos participantes, 85% prevêem que vai aumentar o risco de atraso ou não pagamento, por parte dos seus clientes, enquanto 16% esperam que este se mantenha. Registam-se apenas 2% de inquiridos optimistas que acreditam na diminuição do risco.

Em Portugal, os negócios ficaram francamente afectados com a recessão económica. A redução de vendas foi sentida de norte a sul do País, tendo aumentado a percentagem de gestores que a mencionaram, comparando com o ano de 2013, mas também relativamente a 2009. Com a redução das vendas e com o aumento do atraso dos pagamentos, a liquidez sofreu igualmente um abalo, tendo sido mencionada por 81% dos inquiridos.

Adicionalmente, mais de metade dos respondentes assume que não tenciona contratar novos funcionários e quase 40% consideram despedir empregados, o que torna ainda mais evidente o impacto negativo da quebra do poder económico. A inovação e as exportações ficaram igualmente afectadas, tendo caído ligeiramente. Todos estes factores contribuíram, assim, para o aumento do número de empresas que não registaram crescimento orgânico, isto é, que não conseguiram expandir o seu negócio a partir do incremento da produção e das vendas.

A (não) aplicação da lei

Um dado curioso diz respeito ao conhecimento e à aplicação da directiva europeia sobre os atrasos nos pagamentos, já em vigor em Portugal desde 2013. Esta norma, a qual dá aos credores o direito de reclamar 40 euros e um mínimo de 8% de juros pelos pagamentos efectuados fora do prazo estipulado, é conhecida por 65% dos inquiridos, mas apenas 1% a aplicam sempre (sendo que 40% nunca o fazem). Quase três quartos dos respondentes considera que a sua aplicação iria destruir ou enfraquecer seriamente a relação com os clientes, e 13% não acreditam que os pagamentos vão ser efectuados, mesmo se a aplicarem. Cerca de um ano depois da sua implementação, 76% dos inquiridos não sentiram qualquer impacto ao nível da diminuição ou cumprimento dos prazos de pagamentos.

Ainda assim, a Europa foi considerada por 50% dos inquiridos portugueses como “um local privilegiado para a realização de negócios”. O impacto de uma possível recuperação económica foi sentido por apenas um quarto dos respondentes. Mais de 70% não sentiram quaisquer mudanças positivas, acompanhando a tendência europeia. Igualmente elevada é a percentagem de inquiridos (quer portugueses, quer a nível europeu) que consideraram que os legisladores e a classe política deveriam dar mais suporte, para que os prazos de pagamentos fossem cumpridos. Abalada está, também, a confiança dos portugueses relativamente ao apoio da banca na expansão dos seus negócios: 86% dos inquiridos sentem-se, actualmente, inseguros relativamente a esta questão.

O estudo da Intrum Justitia permite concluir que, apesar de se sentir alguma estabilidade e melhoria em factores como os atrasos nos pagamentos ou a percentagem de contas a receber, há ainda um esforço geral que precisa de ser feito. Em Portugal as contas são pagas tardiamente, com melhorias ligeiras que dão alguma esperança mas que não permitem prever as tendências para os próximos anos.

Os inquiridos não se sentem confiantes no que respeita às medidas adoptadas para o cumprimento de prazos. Os passos estão a ser lentos e as melhorias resultantes da possível recuperação económica são sentidas por uma minoria ainda bastante reduzida.

Mária Pombo

Jornalista