A empresa é uma realidade muito complexa e que pode ser contemplada a partir de muitos pontos de vista. Os filósofos, por exemplo, tentaram explicar o que faria Aristóteles se tivesse que gerir a General Motors. E também a teologia tem feito incursões no mundo da empresa, tendo como base a doutrina social da Igreja
POR ANTÓNIO ARGANDOÑA

Enquanto economista, sempre me interessei por tentar perceber essas “outras maneiras” de compreender a empresa, para descobrir outros fundamentos que vão mais além do mercado e das transacções e que me levam a conclusões que, por vezes, me obrigam a repensar o que a economia me oferece.

No passado dia 5 de Julho, tive ocasião de escutar um desses contributos. O seu autor foi o Monsenhor Fernando Ocáriz, professor emérito de Teologia e prelado do Opus Dei que, enquanto Grão Chanceler da Universidade de Navarra, participou num congresso sobre A Empresa e as suas responsabilidades sociais que teve lugar no IESE, a Escola de Direcção desta mesma universidade e que celebra este ano o 60ª aniversário da sua fundação. 

Uma comunidade de pessoas

Nós, economistas, costumamos dizer que a empresa é uma rede de contratos, um participante no mercado, um capital em busca de rentabilidade. Mas Monsenhor Ocáriz encara-a de outro ângulo, como uma comunidade de pessoas que se unem para alcançar um propósito comum, que é a satisfação de outras pessoas mediante a produção de bens e serviços. Com eficiência, porque é uma instituição económica.

De acordo com as palavras de Monsenhor Ocáriz na conferência que proferiu, “a empresa é uma expressão da sociabilidade que necessita da relação com outras pessoas para satisfazer as suas necessidades materiais e espirituais, para dar sentido ao seu trabalho, para prestar um serviço aos demais e à sociedade e, em definitivo, para conhecer-se a si mesma e alcançar assim a plenitude como pessoa e como filho de Deus”.

“A empresa é uma comunidade de pessoas que serve a outras pessoas dentro de uma sociedade de pessoas”

E acrescentou: “a empresa é uma comunidade de pessoas que serve a outras pessoas dentro de uma sociedade de pessoas; só depois de se considerar esta ideia é que têm lugar os capitais, as instalações, a tecnologia e as realidades jurídicas”. Uma vez estabelecido esse fundamento, as consequências começam a fluir. A sua função social é derivada da liberdade e da capacidade criativa das pessoas: e essa é a origem da visão humanista e cristã da empresa. Assim, é evidente que a empresa consiste num âmbito privilegiado para o exercício do trabalho humano… Com razão afirmava João Paulo II quando defendia que “o principal recurso do homem é, em conjunto com a terra, o próprio homem”, convidando-nos a elevar o ponto de mira e a olhar para além da técnica, do dinheiro, da organização ou da eficiência. 

A função social da empresa deriva da liberdade e da capacidade criativa das pessoas

E prosseguiu: “a função da empresa na sociedade, há que a buscar no serviço à pessoa, que é, por sua vez, o destinatário, o promotor, o criador e o realizador de tudo o que levam a cabo as nossas organizações. Porque, ao mesmo tempo que a pessoa domina a natureza, fabrica coisas e gera riqueza, faz-se a si mesma: realiza-se e desenvolve-se… Temos aqui todos os componentes da função social das empresas: as pessoas, o propósito ou o objectivo que as move, a direcção do projecto e a inserção no âmbito amplo da sociedade em que participam, em que a servem, de cujos recursos se nutrem e para cuja prosperidade contribuem”. 

Transferência de prestações

Aprofundada essa dimensão humana da empresa, Mosenhor Ocáriz assinalava que, mais do que diz o contrato de trabalho ou o acordo colectivo, o trabalho das pessoas na empresa é “uma contínua transferência de prestações” Recebe-se muito, não só um salário, uma felicitação pelo desempenho ou uma possibilidade de promoção, mas também conhecimentos, relacionamentos, amizades. E, ao mesmo tempo, dá-se muito: tempo, esforço, esperança, conhecimentos, experiência (…). De modo que até os mais egoístas, que possivelmente concebem o seu trabalho exclusivamente como um meio para satisfazer os seus interesses pessoais, acabam por servir os clientes, por ajudar os seus colegas, esforçando-se para melhorar o desempenho dos talentos que Deus lhes deu”. E concluiu: “A empresa é, sem dúvida, uma grande transformadora de pessoas… para o bem e para o mal”.

Esta maneira de olhar para a empresa não é algo de utópico, idealizado, mesmo que, muitas vezes, tenhamos que julgar com crueza tantos comportamentos materialistas e egoístas. O actual Grão Chanceler da Universidade de Navarra recordou uma reunião que o primeiro Grão Chanceler, São Josemaria Escrivá, teve com empresários na mesma sede do IESE, em Barcelona, em 1972, numa altura em que a empresa não gozava da boa imprensa, pelo menos em Espanha. “Aos que têm de gerir, olham-nos com receio. Eu não. A vocês deve a sociedade esta quantidade de postos de trabalho que criais. O país deve-vos a prosperidade. A vocês o devem, tanta gente, esta promoção da vida nacional. Fazeis, portanto, um trabalho muito cristão”. 

“A empresa é, em última instância, um lugar de convivência, e esta depende de todos, mas principalmente dos que a dirigem”

Mas depois de esses elogios, São Josemaria recordava-lhes os seus deveres: “Não esqueceis o sentido cristão da vida. Não vos regozijeis com os vossos êxitos. Não vos sintais como desesperados se alguma coisa fracassar”. E continuando, Monsenhor Ocáriz recordou também: “quando naquela reunião em 1972, um antigo aluno perguntou a São Josemaria qual era a primeira virtude que um empresário deveria esforçar-se por adquirir, este respondeu imediatamente, como algo que tinha há muito assumido: “a caridade, porque só com a justiça não chega (…) a justiça é uma coisa seca, deixando muitos espaços por preencher. E acrescentou: “mas não faleis de caridade, antes a vivam!”

Lugar de convivência

Uns anos depois e Bento XVI escreveria algo parecido na encíclica Caritas in veritate (nr.6):

“A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é ‘meu »; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é ‘dele’ (…). Não posso ‘dar’ ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça”. 

Quase no final da sua conferência, Monsenhor Ocàriz dirigiu-se aos empresários e dirigentes que o escutavam na Aula Magna do IESE: “não há que esquecer outras tarefas fundamentais habitualmente encomendadas a um gestor, como planear, organizar, encarregar, coordenar e controlar. Mas também essas tarefas têm lugar, e sempre, mediante relações interpessoais.

As empresas são, em última instância, um lugar de convivência, e esta depende de todos, mas principalmente dos que a dirigem. Daí a necessidade de todos os dirigentes terem muito presente que todas as pessoas são importantes, não só nem principalmente porque contribuem para a empresa, mas sim porque o são em si mesmas. E se isto é assim a partir de uma perspectiva simplesmente humana, mais decisivo é para uma perspectiva cristã… com palavras de são Josemaria. “Um homem ou uma sociedade que não reage perante atribulações ou injustiças, e que não se esforça para as aliviar, não é um homem ou uma sociedade à medida do Coração de Cristo”.