Consciente de que o sector privado é um parceiro fundamental na mudança para um novo modelo de crescimento sustentável, o BCSD Portugal lançou em 19 países europeus duas publicações onde são apresentados mais de 70 exemplos de projectos empresariais que estão a contribuir para que se alcancem as metas previstas pelos ODS. A par de muitas outras na Europa, em Portugal dez empresas distinguem-se por boas práticas que contribuem para a Agenda 2030, e que podem – e devem – ser replicadas em todo o mundo
POR GABRIELA COSTA

“Os ODS constituem uma inspiração para transformar os actuais riscos em oportunidades lucrativas. Cidades sustentáveis, soluções inteligentes para o clima e para a agricultura, energia limpa ou saúde universal são algumas das muitas áreas que exigem inovação e dinamismo por parte do sector privado” – Ban Ki-moon, ex-Secretário Geral da ONU

A bem do planeta e da humanidade, os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) devem ser implementados por todos os países do mundo, até 2030. A convicção, das Nações Unidas, só pode traduzir-se em resultados concretos mediante a adopção de um novo modelo de crescimento sustentável que “implique o reconhecimento, por parte dos decisores públicos, de que o sector privado é um parceiro fundamental nesta mudança”.

E é essa a principal mensagem do relatório “Uma visão inspiradora para uma economia sustentável na Europa: assumir as metas de desenvolvimento sustentável”, que está a ser divulgado entre os decisores políticos e entidades públicas de vários países na Europa.

Coordenada pelo BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, a publicação agrega e concilia a visão de 19 associações europeias empresariais sobre a relevância dos ODS. O objectivo é incentivar os governos dos países europeus e as instituições da União Europeia (UE) a considerar os ODS e a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável como o “quadro prioritário de desenvolvimento de políticas públicas para promover o crescimento económico e a criação de emprego, respeitando em simultâneo o ambiente e a obrigatoriedade em diminuir as emissões de CO2”, como assumido no Acordo de Paris.

Os ODS devem ser o quadro prioritário de políticas públicas para promover o crescimento económico e a criação de emprego

Consciente de que o meio empresarial é “um parceiro fundamental” neste processo, o BCSD faz acompanhar este relatório de outra publicação, com mais de 70 exemplos de projectos empresariais portugueses e europeus – incluindo da Áustria, Bélgica, Croácia, Dinamarca, Espanha, Finlândia, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Noruega, Polónia, Reino Unido, República Checa, Suíça, Turquia, Ucrânia – que estão a contribuir para alcançar as metas dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, demonstrando assim que as empresas não só estão “disponíveis” para integrar o tema na sua gestão como “têm vontade em participar activamente” na implementação dos ODS.

Empresas portuguesas assumem Agenda 2030 como referencial de gestão

Os contributos de mais de 70 empresas europeias para alcançar os ODS foram compilados pelas 19 organizações que colaboram no relatório “An inspirational view for a sustainable economy in Europe: taking on the Sustainable Development Goals”, as quais representam uma rede, a nível nacional e regional, de conselhos empresariais independentes cujos membros fomentam negócios comunitários a fim de criar um futuro sustentável.

Os projectos apresentados representam a vontade, por parte das empresas, de contribuir para a Agenda 2030 e demonstram boas práticas que podem – e devem – ser replicadas em todo o mundo.

As empresas europeias não só estão disponíveis para integrar os ODS na sua gestão como têm vontade em participar activamente na sua implementação

Em Portugal, este compromisso é firmado por empresas como os CTT – Correios de Portugal, EDP – Energias de Portugal, Fidelidade (incluindo a seguradora de saúde Multicare), Jerónimo Martins, Lipor – Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto, Nestlé Portugal, PT Portugal, Sonae MC e The Navigator Company. A exemplo de empresas de outros países da Europa como a Alpro, Coca-Cola Belgium and Luxemburg, Colruyt Group, D’Ieteren, Delhaize, Hellenic Petroleum, Iba, Infrabel, Elia, Lifecell, Polyeco Group, Proximus, Raycap, Sekerbank, Spadel, SCM Group, Solvay, Thalys, Titan Cement, UMICORE, Ukrtelecom ou Van Marcke, estas organizações partilharam as boas práticas que desenvolvem no âmbito da sua responsabilidade social corporativa, e que contribuem para atingir as metas previstas na quase totalidade dos 17 ODS, desde o segundo – Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável -, ao último – Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Em causa estão projectos tão díspares como os programas de nutrição e alimentação saudável da Nestlé Portugal dirigidos a crianças (no âmbito do ODS 3 – Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades); os programas de educação ambiental da LIPOR (ODS 4 – Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos); as iniciativas de energia sustentável e as soluções ambientais da EDP (ODS 7 – Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos); os projectos de inclusão e diversidade no trabalho, também da empresa do sector energético, como a iniciativa “Tagga o teu Futuro”, para jovens (ODS 8 – Promover o crescimento económico inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos); os produtos ecológicos dos CTT e os programas de combate ao desperdício alimentar da Jerónimo Martins e da Sonae (ODS 12 – Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis); a gestão ambiental sustentável da Navigator (ODS 13 – Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e os seus impactos); o programa de consumo eficiente da EDP e o programa de desflorestação zero, até 2020, da Jerónimo Martins (ODS 15 – Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade); ou o programa educativo para a eficiência energética, alterações climáticas, energias renováveis e desenvolvimento sustentável também da EDP, no âmbito do ODS 17 – Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Harmonizar prosperidade económica com justiça social e ambiental

Através destas boas práticas, as empresas associadas do BCSD Portugal defendem os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável enquanto um “referencial de temas a incorporar na política pública de qualquer sociedade civilizada”. Como sublinha a secretária geral do BCSD Portugal, “é dos ODS que resulta o verdadeiro bem-estar das populações”. Segundo Sofia Santos, “como o sector privado faz parte integrante da dinâmica das sociedades, os ODS vêm reforçar o importante papel das empresas na indução de mudanças na sociedade, seja através do impacto que têm nas cadeias de valor ou na capacidade de melhorar os modos e processos de produção”.

O facto de estarmos, actualmente, a enfrentar baixos níveis de confiança nas instituições europeias e nos Governos nacionais é motivo de apreensão mas constitui também uma oportunidade para avaliar a fundo o caminho futuro, e realizar as melhorias necessárias para permitir que as nações e os cidadãos façam prevalecer, com sucesso, o aumento do bem-estar das populações, num mundo efectivamente sustentável, defende o BCSD Portugal na publicação “Uma visão inspiradora para uma economia sustentável na Europa: assumir as metas de desenvolvimento sustentável”.

É neste contexto que o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável sublinha o papel central que a União Europeia desempenhou na adopção dos ODS e da Agenda 2030 por parte de 193 países membros das Nações Unidas, em Setembro de 2015. Porque, e afinal, estes objectivos e esta agenda “materializam os valores fundamentais que juntam os Estados-membro da UE”. São estes princípios e valores que sustém a sólida ligação entre a UE e os restantes países europeus, considera ainda o BCSD Portugal, para quem os ODS são um conjunto de objectivos inclusivos e centrados nas pessoas, de âmbito universal.

É necessário encontrar modelos de governance inclusivos, encorajando políticos e decisores a reconhecer o sector privado como um parceiro essencial para o sucesso da Agenda 2030

Adoptados com a missão de acelerar o crescimento económico e social e o desenvolvimento sustentável e inclusivo, os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável constituem uma ferramenta da qual “só podemos beneficiar, ao colocá-la na linha da frente do desenvolvimento das políticas europeias”, conclui o BCSD Portugal.

E é com base neste fundamento que a publicação agora lançada em vários países da Europa pretende apelar às instituições europeias (quer de países da UE, quer de outros) para que promovam os contextos necessários para harmonizar a prosperidade económica com os direitos humanos, a justiça social, a protecção ambiental e a estabilidade financeira.

Enquanto representante de uma fatia significativa do sector privado europeu, o BCSD reitera o interesse da comunidade empresarial em ser um parceiro activo capaz de trabalhar em colaboração com as instituições públicas, na prossecução da implementação dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, a nível mundial. E destaca, por isso, a necessidade de encontrar modelos de governance inclusivos, encorajando políticos e decisores a reconhecer o sector privado como um parceiro essencial para o sucesso da Agenda 2030.

Atingir os ODS representa a criação de 380 mil empregos até 2030

Para impulsionar essa sinergia entre as empresas e as instituições europeias, o World Business Council for Sustainable Development  (WBCSD) criou o SDG Business Hub, um portal que dá voz a negócios visionários na área da sustentabilidade e que fornece um acesso privilegiado a recursos, ferramentas, case studies e outros contributos do sector empresarial que sustentam a dinâmica Agenda 2030.


Guia do CEO para os ODS

O World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) lançou recentemente o Guia do CEO para os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, uma ferramenta que visa sensibilizar e envolver os líderes empresariais com os ODS. O Guia fornece um conjunto de indicações e acções claras que os CEO podem implementar, no sentido de alinhar as empresas com os ODS.

A publicação tem como base o relatório Better Business Better World, da Business and Sustainable Development Commission, que evidencia que atingir os ODS representa oportunidades de negócio de, pelo menos, 12 mil milhões de dólares por ano em quatro dos sectores analisados – alimentação e agricultura, cidades, energia e materiais, e saúde e bem-estar –, bem como a criação de 380 mil empregos até 2030.

Como se lê no prefácio, “há muito tempo que as empresas líderes têm envidado esforços para integrar a sustentabilidade no centro da estratégia, no processo de tomada de decisões e na governação empresarial”. Neste contexto, os ODS “concedem uma nova perspectiva para converter as necessidades e ambições a nível mundial em soluções empresariais” que deverão permitir às sociedades “gerir melhor os respectivos riscos, prever a procura do consumidor, cimentar posições em mercados em expansão, garantir o acesso a recursos necessários e reforçar as cadeias de abastecimento”.

Traduzido em várias línguas, incluindo português, o documento destaca o papel crítico dos ODS para as empresas ao nível do risco, oportunidade, governance, transparência e colaboração.