Existe uma convicção generalizada de que os critérios ambientais, sociais e de governação (ASG) afetam positivamente os resultados e a sustentabilidade da empresa. E esta evidência explica o facto de os mesmos fazerem hoje parte das prioridades e preocupações da maioria dos líderes empresariais. Todavia, existem ainda algumas barreiras que têm de ser ultrapassadas para que a sua integração nas estratégias empresariais seja uma realidade
POR MIGUEL RIBEIRINHO

Os investidores estão a conseguir acelerar muitas mudanças nas organizações e nos seus líderes. E a perceção dos líderes empresarias sobre os resultados da integração na gestão dos temas ambientais, sociais e de governação (ASG) no que respeita à performance da empresa está a mudar.

Existe uma convicção generalizada de que os ASG afetam positivamente os resultados e a sustentabilidade da empresa, o que explica o facto de os mesmos fazerem hoje parte das prioridades e preocupações da maioria dos líderes empresariais.

Muita coisa mudou nos últimos anos, nomeadamente a preocupação por parte dos responsáveis pela gestão dos grandes fundos de investimento, de selecionarem para o seu portefólio empresas com resultados positivos ao nível dos ASG.

Miguel Ribeirinho

A velocidade da mudança é forte e mais de 50% das empresas de gestão de investimentos têm em consideração os temas de ASG para formalizarem as suas decisões de investimento, segundo um estudo publicado pela FTSE Russel em 2018.

Esta abordagem integradora legitimou muitos dos líderes que já queriam integrar estes temas na gestão da empresa a conseguir a sua implementação, provocando mudanças importantes nos objetivos e nas estratégias das empresas.

Existem alguns fatores por excelência que estão a conduzir esta mudança.

  • As empresas gestoras de participações financeiras, que operam num mercado altamente concentrado e por isso adotam estratégias de investimento com uma ótica de longo prazo, para mitigação do risco e assim conseguirem uma rentabilidade estável e positiva. Do lado dos clientes existe, neste mercado, uma procura crescente por produtos financeiros ancorados em investimentos sustentáveis, originando novos desenvolvimentos de produtos.
  • As empresas que integraram os temas da ASG nos seus objetivos e construíram uma estratégia de desenvolvimento em consonância, garantindo a sua gestão, medição e comunicação, obtiveram sempre melhores performances quando comparadas com outras organizações, situadas no respetivo grupo de controlo (de acordo com um estudo elaborado pela Harvard Business School). Assim, torna-se fundamental assegurar a materialidade dos temas de ASG e evidenciar às diversas partes interessadas a respetiva evolução e performance.
  • O mercado é cada vez mais exigente na existência de evidências quantitativas sobre os resultados obtidos e a respetiva progressão nos objetivos da empresa. Sem esta quantificação e comunicação, as empresas têm mais dificuldades em ver reconhecido o seu desempenho nos temas de ASG e, por isso, as diversas partes interessadas não são capazes de tomar decisões racionais sobre as suas preferências, em relação a essa empresa e respetivas marcas, afetando negativamente a sua performance.
  • Começam a aparecer alterações contextuais, ao nível de pareceres legais e regulamentos em alguns países, que responsabilizam a gestão das empresas pela sua capacidade de criar resultados positivos ao nível dos temas de ASG, quebrando assim a miopia tradicional, apenas focada em resultados financeiros de curto prazo. Esta alteração surge porque existe uma pressão cada vez maior no que respeita à responsabilidade atual das organizações perante as gerações futuras. Esta responsabilização é cada vez mais endereçada nos nossos dias, na medida em que os diversos estudos existentes demonstram uma correlação positiva entre os temas de ASG e o aumento da performance ao longo do tempo.

Por estas razões, muitos investidores e empresas de investimento tornaram-se, inclusivamente, ativistas dos temas de ASG, implicando alterações nas empresas e nas suas estratégias.

Mas nem tudo está a contribuir para aumentar a velocidade da mudança e a respetiva transformação nas organizações. Provavelmente, a maior barreira está relacionada com a dificuldade de se reportar, de forma credível e normalizada, o progresso integrado dos temas de ASG na empresa e conseguir ativar essa informação no mercado.

No entanto, muitos progressos têm sido alcançados últimos anos e os esforços dos diversos agentes de mercado originaram mais rigor e qualidade no reporte dos ASG, sendo por isso importante diminuir a dimensão das barreiras, transformar os desafios em oportunidades e acelerar a velocidade da transformação.

Todavia, subsistem ainda alguns desafios para as empresas e sociedade decorrentes desta evolução.

Todas as empresas, independentemente da sua forma jurídica e dimensão, devem lutar para integrar os temas de ASG na estratégia, sendo que o papel e visão dos seus líderes tornam-se fulcrais para o conseguirem, pois tal exige esforço e determinação.

São eles que conseguem construir um propósito ético sobre a razão de ser da empresa, tornando-se um condutor positivo, para atrair a mudança interna, criar valor e facilitar o reconhecimento externo do caminho que vai ser percorrido.

Para se conseguir criar mais valor é necessário internalizar os temas de ASG em todas as áreas da empresa e nas respetivas pessoas, para que as decisões tomadas diariamente na gestão corrente possam produzir ações concretas no ecossistema organizacional.

A sociedade deverá empenhar-se em conseguir desenvolver critérios uniformes que meçam o impacto do investimento em tecnologia social, de forma a avaliarem a criação de valor dos seus investimentos nestas áreas e o impacto para a própria empresa.

A continuidade de um contexto de imaterialidade nesta área, com a consequente falta de reconhecimento externo, por parte dos investidores e outras partes interessadas, poderá originar um desinvestimento progressivo na mesma, com consequências muito negativas para a sociedade.

A sociedade civil e as organizações deverão procurar participar nas principais iniciativas já existentes de reporte dos temas de ASG, para que aumente o número de utilizadores, a aderência à realidade e a uniformização de critérios e metodologias. Desta forma assegura-se uma maior qualidade e credibilidade da informação reportada e uma comunicação material com leitura universal para todas as partes interessadas.

O maior desafio desta revolução é para o Estado, que se financia através do nosso capital (Impostos) e que deveria reportar de forma material a criação de valor nas diversas áreas onde atua e o respetivo impacto transformacional na sociedade.

Se o pedimos a outros agentes porque não ao Estado?

Em termos conclusivos, é possível afirmar que necessitamos de métricas, boas práticas e legislação que contribuam globalmente para uma maior transparência sobre os progressos nos temas de ASG. Pois, e como sabemos, são as decisões dos investidores e dos consumidores que garantem a sustentabilidade das empresas.

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