A sociedade está, regra geral, demasiado habituada a “usar e deitar fora”. Para contrariar esta tendência que ameaça a sustentabilidade do planeta, a Ceetrus Portugal, que gere os activos de mais de uma dezena de centros comerciais no País, aposta na redução, valorização e reutilização de resíduos, dando-lhes uma segunda vida com vista a garantir “a eternidade do resíduo”. Em entrevista a propósito da mostra artística “Plastic Age”, que causou impacto na Web Summit, a directora de Desenvolvimento Sustentável desta empresa sublinha que o projecto surge de um alerta mundial que não pode ser silenciado
POR GABRIELA COSTA

Depois de passar pela terceira edição da Web Summit, a mostra “Plastic Age”, que pretende alertar para uma maior consciencialização sobre o impacto do plástico no meio ambiente através da reutilização do mesmo de uma forma artística, está exposta nos centros comerciais Forum Sintra e Forum Montijo, propriedade da Ceetrus Portugal.

Elsa Camacho, directora da área de Desenvolvimento Sustentável da Ceetrus Portugal – © DR

O projecto, com curadoria de Bruno Pereira, integra duas obras: “O Adamastor”, uma criação artística que ganhou forma pelas mãos de João Parrinha do colectivo Skeleton Sea, com inspiração nas ondas surfadas pelo surfista de renome internacional Hugo Vau, e “Over Plastic Sea”, da autoria de Kruella D’Enfer, e que alerta para o perigo do plástico para as aves marinhas. Os dois artistas transformaram em arte mais de 650 quilos de plástico recolhidos nestes centros comerciais, com o objectivo de sensibilizar o público em geral para a emergência de preservar os oceanos através a redução da utilização do plástico.

“Plastic Age” é o 13º projecto do “Arte em Toda a Parte”, uma iniciativa desenvolvida pela Ceetrus Portugal desde 2013, que visa democratizar o acesso à arte e à cultura ao promover diversas formas de exposição artística nos centros comerciais que a empresa gere.

Em entrevista ao VER, Elsa Camacho, directora da área de Desenvolvimento Sustentável da Ceetrus Portugal, defende uma “consciencialização espontânea, livre, mas próxima das pessoas” para gerar “uma maior motivação para agir e fazer a diferença”.

O projecto “Plastic Age” pretende alertar para uma maior consciencialização e sensibilização sobre o impacto do plástico no meio ambiente através da reutilização do mesmo de uma forma artística. Como surgiu esta ideia e como a desenvolveram, em conjunto com vários artistas?

O projecto “Plastic Age” tem como objectivo principal a sensibilização para os riscos inerentes à produção excessiva de plástico no mundo e do seu impacto no meio ambiente, com especial atenção para o problema do plástico presente nos oceanos e que estão a ser ingeridos pelas espécies. O plástico usado está a poluir drasticamente o planeta e é visível para todos, basta tomar em atenção a poluição no litoral, com as praias cada vez mais repletas de resíduos de plásticos presentes no mar.

Existem locais no mundo onde se toma contacto com este problema de forma altamente expressiva, como por exemplo na Tailândia, onde centenas de baleias, tartarugas e golfinhos morrem todos os anos por engolirem resíduos de plásticos. O projecto “Plastic Age” surge precisamente deste alerta mundial, visível, e que não pode ser silenciado, pelo contrário, tem de ser continuamente divulgado junto dos cidadãos – um dos motores da mudança. Uma vez que a Ceetrus Portugal tem desenvolvido nos últimos anos o projecto “Arte em Toda a Parte”, com a missão de sensibilizar as comunidades através da arte, o “Plastic Age” surge integrado neste projecto maior relacionado com a arte, numa ligação muito consciente e sólida para a Ceetrus Portugal.

É muito positivo verificar que a arte está também ao serviço da sustentabilidade

O “Arte em Toda a Parte” teve início aquando da construção do Centro Comercial Alegro Setúbal (em 2013), sendo criadas diversas peças de arte em conjunto com a comunidade local e com cerca de 70 artistas. Desenvolvemos 12 projectos de arte com curadoria de Bruno Pereira. Um exemplo do “Arte em Toda a Parte” é a obra “02.Bisnau”, um golfinho de cinco metros feito a partir de 50 quilos de resíduos recolhidos em duas acções de recolha de limpeza das praias na zona de Setúbal: no Portinho da Arrábida e na Doca dos Pescadores.

Seguindo este caminho, o projecto “Plastic Age” vem também contar com a participação de artistas e integra duas obras produzidas com 650 quilos de plástico usado: “O Adamastor” e “Over Plastic Sea”. Para este projecto o plástico recolhido teve, uma vez mais, várias proveniências, dos centros comerciais Forum Sintra e Forum Montijo e das Câmaras Municipais de Sintra (SMAS) e do Montijo (Amarsul), que representaram um grande apoio.

Como surgiu a oportunidade de lançar esta iniciativa na Web Summit? Que impacto teve a visualização, por milhares de pessoas, da mostra artística de peças de arte realizadas a partir de plástico usado? Em que medida contribuiu para consciencializar o público para a emergência de mudar o paradigma ambiental, reduzindo drasticamente a quantidade de plástico que ameaça a biodiversidade marinha?

Tendo conhecimento do grande foco na sustentabilidade na edição 2018 da Web Summit, fez-nos todo o sentido aproveitar este palco para lançar esta iniciativa, não só pelo seu enquadramento no evento, como também pelo impacto do mesmo junto do público. O objectivo desta iniciativa é sensibilizar as populações e mostrar que a sustentabilidade necessita de todos nós. É muito positivo verificar que a arte está também ao serviço da sustentabilidade, através de artistas que criam as suas peças recorrendo à reutilização de resíduos plásticos. Esta é uma forma muito interessante de lhes dar uma segunda vida e ajuda também a despertar a consciência social de todos para este problema.

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O impacto do projecto “Plastic Age” junto do público da Web Summit mediu-se acima de tudo pelas reacções positivas que se foram captando nos dias do evento. Foram muitos os que pararam junto às obras de arte para perceber do que se tratava e reflectir sobre a importância de se pensar de forma séria neste problema do plástico e do seu efeito nocivo para o planeta. É esta consciencialização espontânea, livre, mas próxima das pessoas, que a Ceetrus Portugal quer estimular, pois acreditamos que a reflexão é mais pessoal, que gera uma maior motivação para agir e fazer-se a diferença.

Temos como ambição actuar de uma forma responsável para o bem do planeta e assumimos como nossa responsabilidade esta sensibilização junto dos cidadãos com quem temos oportunidade de interagir todos os dias. Assumimos também a responsabilidade de procurar reduzir ao máximo o uso do plástico, seja nos centros comerciais propriedade da Ceetrus Portugal, seja junto dos lojistas nossos parceiros e também em união com os milhões de clientes que visitam os nossos espaços anualmente.

É um facto que o plástico existe, que está a contribuir para a destruição dos ecossistemas e é preciso recolhê-lo e reutilizá-lo da melhor forma possível. Todos temos um papel nesta missão.

Em que consistem e o que visam transmitir as duas obras artísticas que o projecto integra? Até quando é que a exposição destas peças estará disponível nos centros comerciais Forum Sintra e Forum Montijo?

As duas obras do “Plastic Age” visam retratar duas representações de uma mesma realidade, o perigo que representa o plástico nos oceanos quer para nós, humanos, quer para as espécies marinhas. Estas duas obras são resultado da leitura que cada um dos artistas fez deste mesmo problema, ou seja, cada um deles utilizou o plástico recolhido para passar uma mensagem.

“O Adamastor”, criado por João Parrinha dos Skeleton Sea (também autor do projecto 02. Bisnau), representa uma onda de plástico gigante inspirada nas ondas da Nazaré surfadas pelo Hugo Vau, e a obra “Over Plastic Sea”, desenvolvida pela Kruella D’Enfer, representa um outro lado do problema, o lado das aves marinhas que são também afectadas pelo plástico que está presente nos oceanos.

Nos últimos três anos a Ceetrus Portugal reduziu o consumo de electricidade nos seus centros comerciais em 21% e a produção de CO2 em 19%

Após o Websummit as duas peças foram deslocadas para dois centros comerciais da propriedade da Ceetrus Portugal, tornando-se acessíveis a um ainda maior número de pessoas. “O Adamastor” está agora em exposição no Forum Sintra e a obra “Over Plastic Sea” pode ser vista no Forum Montijo.

O projecto “Arte em Toda a Parte” visa democratizar o acesso à arte e à cultura ao promover exposições artísticas nos centros comerciais que a Ceetrus gere. Que balanço faz deste projecto iniciado em 2013 como street art,no Alegro Setúbal, e que conta já com mais de uma dezena de intervenções artísticas nesse município, tendo sido premiado internacionalmente?

O “Arte em Toda a Parte” apresenta, ao longo destes anos, um balanço muito positivo. Esta tem sido uma óptima forma de sensibilizar a comunidade para questões actuais através da arte e cultura. Esta iniciativa está perfeitamente alinhada com a nossa Visão 2030 – “We link people creating sustainable, smart and lively places to brighten up everyday life“- e também com a forma como a Ceetrus se posiciona, “With citizens. For citizens”, uma vez que representa a forte envolvência com a comunidade onde os nossos centros comerciais estão inseridos.

É importante também referir o apoio de diversas entidades locais nesta iniciativa, como é o caso das câmaras municipais, que foram essenciais para este projecto acontecer. Não só na agilização de alguns temas como na ajuda à recolha do plástico.

Em que medida se alinham estes projectos com a política de responsabilidade social e ambiental da empresa? Quais são os grandes pilares da mesma?

Este projecto assenta nos pilares base da nossa política de responsabilidade social e ambiental:

por um lado, a questão ambiental, com as certificações dos nossos centros comerciais, representa tudo aquilo que pretendemos ter nos nossos espaços, através da redução ao máximo da utilização de plástico e, havendo resíduos, da criação de ferramentas para que lhes possamos dar uma segunda vida.

Por outro lado, a questão social através da implicação das comunidades envolventes, sem esquecer a participação da própria comunidade Ceetrus Portugal: funcionários, lojistas e outros públicos envolvidos diariamente na nossa vida. Actuamos sempre em permanente ligação com as comunidades, pois é um papel da Ceetrus – Meeting People & Territories Needs. Isto é, trabalhar em conjunto com as comunidades para edificar e desenvolver estes importantes projectos que, na verdade, a todos dizem respeito.

Que metas já atingidas destaca ao nível da estratégia de RSE da Ceetrus, por exemplo ao nível de gestão ambiental, voluntariado, cidadania, soluções urbanas inovadoras e valorização do património ou inclusão social?

Somos ambientalmente certificados pela ISO 14001 nos centros comercias Alegro e está neste momento em marcha o processo de certificação para os nossos novos activos no Forum Sintra e Forum Montijo, assim como a certificação BREEAM IN USE para o Alegro Alfragide. Graças a estas certificações e a todos os projectos desenvolvidos ao longo dos anos, temos sido reconhecidos internacionalmente, tanto a nível interno como externo, pelas nossas conquistas e actuações ambientais.

Nesta questão dos resíduos, temos apostado na sua redução, valorização e reutilização por forma a dar-lhe uma segunda vida, garantindo uma noção de eternidade do resíduo. A sociedade está, regra geral, demasiado habituada ao “usar e deitar fora”, e queremos sensibilizar também para o facto de que o resíduo pode ser aproveitado por um longo período de tempo e, quando possível, até dar origem a novas utilizações.

Efectivamente, na Ceetrus Portugal temos uma forte política de gestão de resíduos, um trabalho diário realizado em total proximidade com as equipas de cada um dos centros comerciais, com os lojistas e parceiros, por forma a garantir que todos os resíduos vão para o local apropriado e que são reciclados. Nos últimos três anos reduzimos 21% em electricidade e a produção de CO2 em 19%. Em 2017 recolhemos cerca de 56 toneladas de plástico. Temos ainda, nos nossos centros comerciais, sistemas que permitem o aproveitamento da água da chuva para uso do espaço, como por exemplo limpeza.

Dentro da nossa política de responsabilidade ambiental, que envolve diversos eixos, a redução do uso do plástico continuará a ser certamente um dos nossos compromissos para os próximos anos.