Os rápidos progressos na área da inteligência artificial, da robótica e em outras inovações tecnológicas terão impactos, positivos e negativos, em toda a sociedade. E se este progresso sem precedentes não pode, nem deve, ser travado, a verdade é que são necessários princípios éticos que sejam cumpridos ao longo de todo o seu processo de desenvolvimento. Num ensaio recentemente publicado pela UNIPAC e assinado pelo seu presidente, Rolando Medeiros, é analisada de que forma é que as empresas, e os seus líderes, podem contribuir para acompanhar este progresso à luz dos três pilares que compõem o bem comum: os bens bons, o trabalho bom e a riqueza boa. Para que as novas tecnologias sejam um garante do bem, e não do mal
Traduzido e adaptado por ACEGE

A ciência, a tecnologia e, em particular, o livre mercado, permitiram alcançar conquistas sem precedentes, as quais se posicionam entre as mais importantes do mundo e devem ser defendidas e apreciadas. Todavia, têm igualmente de ser sujeitas a uma análise crítica, na medida em que, e na actualidade, muitos são os problemas que surgem e que têm origem num quase endeusamento destas mesmas instituições.

Num ensaio recentemente divulgado pela UNIAPAC, o seu presidente, Rolando Medeiros, analisa de que forma é que as empresas, através dos três pilares que servem o bem comum – o trabalho bom, os bens bons e a riqueza boa -, podem contribuir positivamente para a implementação ética das novas tecnologias, nomeadamente da inteligência artificial, da robótica e de outras inovações tecnológicas. O mesmo ensaio sublinha ainda a ideia de que estes três pilares oferecem os fundamentos para transformar o dia-a-dia dos negócios numa nobre vocação.

Na medida em que as inovações tecnológicas são imprevisíveis e envolvem esferas e âmbitos inimagináveis há, contudo, que estabelecer certos princípios invioláveis para que cada um destes três pilares do “bem” possa ser alcançado e mantido.

Em termos gerais, o enquadramento de directivas éticas deve ter como base os princípios da beneficência (as construções tecnológicas deverão beneficiar a humanidade), a não-maleficência (não prejudicar as pessoas), a autonomia (a capacidade de tomar decisões independentes e informadas sobre como interagir com estas mesmas construções tecnológicas) e a justiça (devem ser acessíveis a todos e os seus benefícios justamente distribuídos). O enquadramento ético deverá ainda ter como base o respeito pelos direitos humanos básicos como a dignidade humana, a igualdade, a justiça e a equidade, a não-discriminação, o consentimento informado, a vida privada e familiar e a segurança dos dados, em conjunto com outros princípios como o da não estigmatização e a responsabilidade individual e social. Em simultâneo, a pesquisa tecnológica deverá ser perseguida com precaução e prever os impactos potenciais que os avanços tecnológicos poderão ter na segurança, promovendo o progresso ao serviço da sociedade e do ambiente.

Segue-se um resumo dos principais elementos defendidos por Rolando Medeiros no que respeita aos três pilares acima referidos e a sua intersecção com os mais recentes avanços tecnológicos.

Os bens bons: este pilar refere-se à concepção e produção de bens que são genuinamente bons e serviços que realmente funcionam, e tem como conceito subjacente o princípio do destino universal dos bens e o direito do seu uso comum.

As construções tecnológicas devem estar ao serviço da humanidade, respeitando a dignidade e a autonomia humana, tanto física como psicológica. Apesar do seu design, implementação e utilização terem o potencial para transformar a nossa forma de vida e as nossas formas de trabalho, para aumentar a eficiência e melhorar a qualidade dos serviços nas mais diversas áreas, estas tecnologias devem ir ao encontro dos seguintes requisitos: não devem provocar mal a um ser humano ou, através da inacção, permitir que um ser humano seja prejudicado; devem obedecer às ordens estipuladas pelos seres humanos, excepto quando essas mesmas ordem contradizem o ponto anterior; devem proteger a sua própria existência, desde que esta protecção não entre em conflito com os dois pontos anteriores.

Os avanços tecnológicos deverão proteger os seres humanos de qualquer dano e concentrarem-se em melhorar, em vez de substituir, as capacidades humanas

Para que as novas tecnologias cumpram estes mesmos requisitos, é necessário assegurar (entre muitas outras coisas), as seguintes situações:

  • Que os humanos sejam protegidos de qualquer que seja o dano que estas possam causar, e que se concentrem em melhorar, em vez de substituir, as capacidades humanas; e, caso surjam falhas que provoquem danos, ser possível determinar o seu porquê;
  • Proteger a liberdade humana, garantindo o controlo humano sobre as mesmas e tomando particular atenção aos problemas que o desenvolvimento de laços emocionais entre os humanos e estas novas tecnologias poderá causar;
  • Proteger a humanidade da manipulação por parte destas novas tecnologias, bem como a privacidade e a utilização dos dados e evitar que estas consigam, de alguma forma, monopolizar os relacionamentos entre certos grupos e, consequentemente, provocar uma disrupção nos laços sociais.

O presidente da UNIAPAC sublinha ainda que toda a pesquisa e desenvolvimento nestas áreas sejam caracterizados pela transparência, reversibilidade e rastreamento dos seus processos.

Rolando Medeiros é o presidente da UNIAPAC

O trabalho bom: este pilar refere-se à organização do trabalho para que os trabalhadores possam desenvolver as suas competências e talentos. O objectivo de criar produtos e serviços não poderá ser alcançado às custas do trabalho bom e do desenvolvimento integral dos trabalhadores (ou seja, a dimensão subjectiva do trabalho).

O impacto desta nova revolução industrial em muitas funções laborais que são actualmente realizadas pelos humanos não é só previsível, no futuro próximo, como está já a acontecer. A ideia de o ser humano vir a ser substituído pelas mais recentes inovações é real e, por isso mesmo, deve ser abordada com urgência e a partir de ângulos variados.

Por um lado, os avanços tecnológicos não podem ser travados, nem devemos tentar proteger artificialmente os postos de trabalho “por decreto”. Perseguir este equívoco iria apenas conduzir a uma perda de competitividade, bem como à perda de empregos. Adicionalmente, as inovações tecnológicas também criam postos de trabalho que forçam as pessoas a utilizar as suas mais humanas faculdades: criatividade, inteligência, capacidade de julgamento, liderança, trabalho em equipa e ética. Por outro lado, a automação do trabalho poderá libertar as pessoas de tarefas rotineiras e monótonas, permitindo que estes se devotem a funções com maior significado. Em outros casos, poderá igualmente conduzir a benefícios ao nível organizacional, tal como o aumentar da segurança através da utilização de robots para a realização de tarefas perigosas e arriscadas, actualmente levadas a cabo por humanos. A chave é, então, não substituir, mas adaptar a força laboral a estes novos tipos de trabalho.

As empresas podem fazer muito mais do que simplesmente contribuir para a formação, preparação e reafectação dos seus empregados para que estes possam ser capazes de enfrentar os desafios colocados pelas novas tecnologias

Consequentemente, o maior dos desafios será o de garantir a empregabilidade daqueles que trabalham. Tal exige esforços substanciais em termos de educação e formação para melhorar a redistribuição dos tipos de competências que serão necessárias no futuro. E irá envolver igualmente grandes reformas no mercado laboral para que este se torne mais flexível e permita a reafectação dos trabalhadores a outros tipos de emprego. Estes desafios não absolvem as empresas de responsabilidades, pelo contrário, tendo estas muito que contribuir para uma melhor e maior empregabilidade dos seus trabalhadores.

Como sublinha Rolando Medeiros, esta é uma responsabilidade que as empresas não podem evitar se realmente estiverem comprometidas a criar e a manter o “trabalho bom”.

As empresas podem fazer muito mais do que simplesmente contribuir para a formação, preparação e reafectação dos seus empregados para que estes possam ser capazes de enfrentar os desafios colocados pelas novas tecnologias. O desafio de se ser “empregável” vai além da formação constante e da aprendizagem contínua de competências profissionais. Em primeiro lugar, há que não esquecer que as empresas são comunidades de pessoas e, como tal, funcionam como escolas que ensinam um conjunto de virtudes humanas que serão crescentemente necessárias no mundo do trabalho: a disponibilidade, o respeito, a excelência, a honestidade, a justiça, etc.. Assim, as empresas deverão criar espaço para o desenvolvimento humano integral para aqueles que nelas trabalham. Ao mesmo tempo, este desenvolvimento é um enorme contributo para os próprios trabalhadores na medida em que os capacita convenientemente para enfrentar os desafios desta nova revolução industrial e lhes permite fazer parte da mesma como uma maior e melhor empregabilidade.

Para que atinjam benefícios reais de longo prazo através da utilização destas inovações, os líderes de negócios terão de exercer os seus talentos, competências, criatividade e experiência para evitar que as interacções sociais se tornem desumanizadas – tanto no interior da empresa como entre os seus stakeholders

Por outro lado, quando considerarem as oportunidades de automação, as empresas deverão levar em linha de conta que o contacto humano é um dos principais aspectos das relações humanas. Substituir o factor humano por máquinas, independentemente de quão inteligentes estas são, poderá desumanizar e destruir uma fonte de interacção social que é impossível de ser substituída na totalidade. Em muitos casos, esta substituição poderá conduzir a consequências devastadoras que afectam a sua capacidade para o sucesso a longo prazo. Assim, as novas tecnologias colocam um desafio muito maior aos líderes de negócios. Para que atinjam benefícios reais de longo prazo através da utilização destas inovações, estes terão de exercer os seus talentos, competências, criatividade e experiência para evitar que as interacções sociais se tornem desumanizadas – tanto no interior da empresa como entre os seus stakeholders.

Todavia, as novas tecnologias também oferecem oportunidades para modelos de negócio inovadores que abrem portas a novas perspectivas e a novos mercados laborais. Este é o caso da denominada “economia gig”, ou seja, a criação de trabalhos temporários que permitem a realização de tarefas ou projectos específicos. E nestes casos a questão vai mais além do que a mera prestação de um serviço. São muitas as vezes em que um empregador não tem possibilidade de contratar um trabalhador a tempo inteiro para completar uma certa tarefa e existem também muitas pessoas que estão apenas dispostas a trabalhar em part-time ou que até preferem mesmo este tipo de emprego, com as aplicações digitais a poder “juntá-los” a todos. Este novo tipo de trabalho não só permite uma maior participação na força laboral, como também possibilita enfrentar melhor os desafios relacionados com a flexibilidade imposta pela nova revolução industrial que está já em curso.

Por último, o presidente da UNIAPAC alerta que é imperativo analisar de perto e supervisionar a evolução de médio e longo prazo do emprego, tomando-se especial atenção à criação de postos de trabalho, à recolocação e às perdas que terão lugar em vários sectores relevantes. Ao fazê-lo, será possível identificar as áreas nas quais os empregos estão a ser criados e perdidos como resultado de uma maior utilização das construções tecnológicas.

A boa riqueza: este pilar diz respeito à criação da riqueza sustentável e com a sua justa distribuição. O princípio da justa distribuição requer que a riqueza seja alocada de forma a gerar “relações apropriadas” com aqueles que participam na sua criação.

A inteligência artificial, os robots e outras inovações tecnológicas devem ser criadas para o bem da humanidade e para beneficiar o maior número de pessoas, na medida em que é importante reduzir o risco de exclusão. Assim, é essencial o estabelecimento de princípios éticos que têm de ser respeitados quando se desenvolve, se programa, se implementa e se utiliza construções tecnológicas, exactamente para garantir que estas estarão ao serviço da humanidade. Se assim for, os benefícios são mais amplamente distribuídos, evitando potenciais obstáculos à distribuição inclusiva.

Respeitar o princípio da justiça refere-se à redistribuição justa dos benefícios associados às construções tecnológicas e a torná-las acessíveis para todos. Estas novas tecnologias devem beneficiar e apoiar o maior número possível de pessoas e, da mesma forma, a prosperidade económica que delas emana tem de ser largamente partilhada, para benefício de toda a humanidade. Adicionalmente, devem igualmente ser desenvolvidas para estarem ao serviço de ideais éticos amplamente disseminados, e não se limitarem a beneficiar apenas um estado ou uma organização.

Estas novas tecnologias devem beneficiar e apoiar o maior número possível de pessoas e, da mesma forma, a prosperidade económica que delas emana tem de ser largamente partilhada, para benefício de toda a humanidade

Por outro lado, a inteligência artificial, os robots e outras inovações tecnológicas têm potencial para contribuir significativamente para o bem da humanidade. A Cimeira Global IA para o Bem, organizada pela ONU e que teve lugar em Genebra, na Suíça, em 2017, reuniu vários especialistas que sublinharam a importância das novas tecnologias para a diminuição das diferenças sociais, para a redução da pobreza e da fome, para a melhoria dos cuidados médicos e de saúde e para a prevenção da má nutrição infantil. Por exemplo, uma das iniciativas mais interessantes apresentada na cimeira incluía a utilização da inteligência artificial para medir a avaliar com maior precisão as condições de vida dos três mil milhões de pessoas que continuam a viver na pobreza, bem como o desenvolvimento de políticas públicas para lidar com esta situação. Ao mesmo tempo, a cimeira discutiu igualmente formas de se democratizar as soluções de IA em todo o mundo.

De forma similar, o estudo Artificial Intelligence and Life in 2030, publicado pela Universidade do Texas, pelo Instituto Allen para a Inteligência Artificial, pela Microsoft e por académicos do MIT, de Harvard, de Columbia e da UC Berkeley, confirma os potenciais contributos da inteligência artificial para o desenvolvimento sustentável e inclusivo. O paper enfatiza igualmente que estas inovações tecnológicas poderão ajudar o desenvolvimento económico de comunidades de baixos rendimentos, tornando-as mais eficientes e que o data mining poderá ajudar a alocar da melhor forma os recursos públicos. Por exemplo, os algoritmos podem conectar os restaurantes aos bancos alimentares e evitar o desperdício alimentar. Por outro lado, a inteligência artificial está a mudar também a medicina moderna. Nesta mesma cimeira, a UNICEF apresentou um projecto que está a desenvolver para diagnosticar a má nutrição através de fotografias e vídeos de crianças. Finalmente, e ao analisar largos volumes de dados, a inteligência artificial pode ajudar a melhorar as previsões, a evitar crimes e a apoiar os governos para estes melhor servirem as suas pessoas.

Assim, e desta forma, a inteligência artificial, os robots e as inovações tecnológicas poderão contribuir substancialmente para gerar “riqueza boa”.

Para ler o ensaio na íntegra, clique aqui.