É bem conhecido que atravessamos um período adverso e muito exigente para toda a sociedade europeia e, muito em especial, para a sociedade portuguesa. Esta situação impõe um apelo adicional a determinadas alterações nos comportamentos, nas responsabilidades e nas expectativas de desempenho dos diversos agentes económicos.

Nestas circunstâncias, é importante reconhecer que as empresas em geral, e muito em particular as PME, têm sido protagonistas de uma dinâmica de resistência, senão mesmo de controlo e superação de um pesado conjunto de adversidades.

Entre estas, impõe-se, desde logo, a referência à falta de liquidez da economia e às dificuldades acrescidas no acesso ao crédito, aliadas à forte contracção dos mercados, nomeadamente do mercado interno, e às expressivas quebras verificadas na actividade económica em geral.

Hoje, felizmente, é possível reconhecer alguns sinais mais positivos, mas a realidade que vivemos exibe ainda características muito específicas – algumas das quais inéditas – que apelam a uma maior ousadia, mais determinação mas também a um maior sentido de responsabilidade social na definição das estratégias empresariais e nas práticas de negócio.

A ausência de pontualidade nos pagamentos manifesta-se, com intensidades variáveis, um pouco por toda a Europa, mas assume uma expressão particularmente significativa em Portugal. Trata-se, como é amplamente reconhecido, de uma “má-prática” que introduz fortes condicionantes ao desempenho da economia, com consequências evidentes ao nível da reputação e da qualidade do ambiente de negócios mas também ao nível da riqueza criada, do emprego e da produtividade.

Apesar de todo o trabalho já realizado para sensibilização e divulgação do tema, e do seu forte – e muito negativo – impacto na economia, é ainda muito preocupante verificar que um ano após a entrada em vigor do Dec. Lei nº 62/2013 de 10 de maio (que transpôs a Directiva Europeia sobre pagamentos pontuais[1]), a maioria das empresas refere não sentir, ainda, melhorias significativas no cumprimento dos prazos de pagamento por parte dos seus clientes e, muitos gestores parecem ainda desconhecer as novas regras, que apontam para prazos de 30 dias.

Importa reconhecer, por isso, que há ainda muito trabalho para fazer!

No IAPMEI apostamos em conhecer bem as necessidades das empresas, e reconhecemos o seu esforço contínuo para reforçar a sua capacidade inovadora e competitiva.

Sabemos que se assiste a um irreversível alargamento dos mercados e a um intensificar da concorrência global. A economia portuguesa está inserida num mercado altamente concorrencial e de forte intensidade tecnológica, e precisa de assegurar um crescimento mais rápido e sustentável, com mais e melhor emprego.

No essencial, podemos afirmar que nos encontramos perante um conjunto de desafios cada vez mais exigentes. Mas a verdade é que estes desafios decorrem, desde logo, dos movimentos associados ao processo de globalização, ao desenvolvimento das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e, às mudanças contínuas nos comportamentos dos consumidores. Há que saber enfrentá-los!

Ora, para responder com sucesso a estas realidades, as empresas – em particular as PME – precisam de se envolver em estratégias mais ambiciosas e, sobretudo, mais inovadoras, suportadas no conhecimento e na informação, mas também em modelos e procedimentos de gestão mais eficientes, mais transparentes e mais responsáveis.

Num quadro de acrescida exigência competitiva, será muito difícil às empresas – em particular às PME – assegurar desempenhos sustentáveis com base em atitudes menos responsáveis e indutoras de um conjunto de problemas com sérias repercussões na saúde financeira das empresas.

A prática generalizada de incumprimento dos prazos de pagamento tende a gerar um ciclo vicioso que compromete a sustentabilidade e a própria sobrevivência de muitas PME. Todos acreditamos nos benefícios da inversão desta situação, pelo que importa agir em conformidade. Com o envolvimento do IAPMEI neste programa, queremos afirmar o nosso contributo para uma ampla adesão das PME e para uma rápida correcção desta situação.

As empresas sabem que precisam de se afirmar de forma distintiva e inovadora nos mercados em que se inserem. Acreditamos por isso que, perante uma situação tão exigente como a actual, saberão reconhecer as práticas de pontualidade nos pagamentos como elementos de um desempenho responsável, capaz de contribuir para uma notoriedade mais positiva junto do mercado e para um acréscimo da sua competitividade. Todos sabemos como estes factores diferenciadores, baseados na responsabilidade e na ética empresarial, são importantes para as empresas que actuam (ou que pretendem actuar) nos mercados externos mais exigentes e sofisticados e, sobretudo, mais atentos ao impacto da actividade dos seus fornecedores numa sociedade mais equilibrada e sustentável.

Quando falamos de PME, e precisamente pelas características decorrentes da sua dimensão, importa ainda sublinhar a relevância da pontualidade de pagamento para a sua função de tesouraria!

É amplamente reconhecido que uma parte significativa das PME enfrenta dificuldades acrescidas na hora da gestão da sua função financeira, assim como significativas desvantagens no acesso ao mercado de crédito.

Não será demais referir que, também neste domínio, as questões da transparência nos modelos de gestão, da reputação e notoriedade jogam um papel muito importante, por vezes mesmo decisivo, na capacidade de obter melhores condições de diálogo com as instituições financeiras e, de financiamento.

No IAPMEI, estamos empenhados num contributo decisivo para a rápida ampliação do conjunto de empresas portuguesas mais competitivas e inovadoras mas, também, financeiramente mais robustas e consolidadas.

Neste contexto, procurando responder às preocupações com a componente financeira nas PME, e no âmbito das competências que nos estão atribuídas[2], gostaria ainda de deixar uma breve referência a um mecanismo de autodiagnóstico financeiro que estamos a preparar e que estará disponível na página web do IAPMEI, muito em breve.

Trata-se de uma aplicação que incorpora um mecanismo de cálculo que, a partir do carregamento de alguma da informação económica e financeira mais relevante e relativa aos últimos exercícios, permite às empresas obter de forma automática um diagnóstico sumário da sua situação económica e financeira.

Em termos gerais, e para além de funcionar como uma ferramenta de autodiagnóstico da situação económica e financeira da empresa, esta iniciativa visa dotar as empresas de um quadro de referência que lhes permite identificar eventuais debilidades da sua estrutura financeira, ou da sua performance económica, incluindo sugestões de reflexão sobre algumas variáveis críticas do seu desempenho.

Acreditamos que a utilização deste tipo de ferramentas ajuda a um melhor domínio da informação económico-financeira disponível, permite a detecção precoce de fragilidades e facilita uma intervenção mais focada e mais eficaz.

Uma melhor gestão da função financeira permitirá uma mais rápida superação das más práticas de recurso aos atrasos nos pagamentos como suporte à gestão.

É com esta convicção que permanecemos comprometidos com a AGECE, a CIP e a APIFARMA, nestas iniciativas.

“Quando não se paga a horas é toda a economia e, Portugal, que se atrasa!”… E pagar a horas é uma variável que depende – apenas – de nós!

Para ouvir o discurso de Miguel Cruz, presidente do IAPMEI, clique aqui

[1] Directiva nº 2011/7/EU do PE e do CE de 16 de Fevereiro

[2] A obrigatoriedade de disponibilização deste instrumento às empresas consta do Decreto-Lei n.º 26/2015, de 6 de fevereiro, que procedeu à revisão do regime legal do SIREVE (Sistema de Incentivos à Recuperação de Empresas por Via Extrajudicial).