Meio século passado sobre a publicação do ensaio pelo economista Milton Friedman, o qual influenciou várias gerações de executivos e políticos, o debate sobre a sua ideia central – a de que o principal objectivo das empresas é gerar lucro para os seus accionistas – ainda persiste. Para muitos, a sua morte já foi mais do que anunciada, para outros tantos continua, mesmo que de forma inconfessável, bem viva. Em tempos de pandemia, e para os optimistas, espera-se que a crise sirva para reformular os negócios do futuro, impulsionados pelo tão actualmente aclamado novo modelo de gestão, assente no propósito e que serve os interesses de todos os stakeholders e não somente – ou em primeiro lugar – os dos accionistas. Mas o contrário também pode acontecer
POR HELENA OLIVEIRA

É mais do que expectável que o ano de 2020 seja recordado como uma conjuntura momentânea que deu origem à exposição do verdadeiro “carácter” das empresas. A confluência da pandemia da COVID-19 e a turbulência económica está a desafiar as organizações, e mais uma vez, a repensar o seu propósito e a sua influência na cultura, estratégias e práticas que definem colectivamente a sua raison d’être. Por outras palavras, a pandemia pôs ainda mais a nu a profunda interligação existente entre as empresas e o mundo mais vasto em que operam, e todos os stakeholders esperam que os seus respectivos líderes exponham claramente a posição da empresa no que respeita a questões críticas.

E, por mera coincidência, o ano que marca o surgimento da pandemia global assinala igualmente meio século passado sobre o famoso artigo publicado no The New York Times por Milton Friedman. Intitulado “The Social Responsibility of Business is to Increase Its Profits” e publicado a 13 de Setembro de 1970, o famoso (nem sempre pelas melhores razões) ensaio é ainda tema de debate obrigatório nas escolas de gestão, continuando a exercer influência também nos círculos empresariais e políticos.

O economista que leccionou na Universidade de Chicago durante mais de três décadas e que ganhou o Nobel para as Ciências Económicas em 1976, expôs o que ficou conhecido como a Doutrina Friedman – um apelo às armas para o capitalismo de livre mercado que influenciou uma ou mais gerações de executivos e líderes políticos (como Ronald Reagan e Margaret Thatcher) e que, 50 anos mais tarde, continua a prevalecer em algumas partes do mundo empresarial. A primazia dos accionistas e o lucro como principal objectivo das empresas – hoje chamar-lhe-íamos “propósito” – constituíram matéria central no pensamento de Friedman, o que resultou, na opinião dos seus opositores, numa profunda insegurança económica, acompanhada de uma crescente desigualdade, por uma resposta lenta às alterações climáticas e por um enfraquecimento das instituições públicas.

Como escreve Marianne Bertrand, professora de Economia na Booth School of Business da Universidade de Chicago, e numa edição especial que o The New York Times lançou para assinalar os 50 anos do ensaio, convidando CEOs, laureados com o Nobel e outros pensadores “de prestígio”para comentarem excertos do famoso ensaio, “ a visão de primazia dos accionistas da empresa – que dá pouca voz aos trabalhadores, clientes e comunidades que são afectados pelas decisões empresariais – tem sido o modus operandi do capitalismo”. E por que motivo se tornou esta visão tão dominante? “Uma das razões era de ordem prática”, afirma a professora. “Em vez de ser pedido para se equilibrar interesses múltiplos, muitas vezes contraditórios, entre as partes interessadas, é atribuída ao gestor uma simples função objectiva [a de gerar lucros para o accionista]”. E, acrescenta, “mais importante, porém, era a crença ingénua, dominante na altura na Escola de Chicago, de que o que é bom para os accionistas é bom para a sociedade – uma crença que assentava no pressuposto do funcionamento perfeito dos mercados”, sendo que e como remata, “infelizmente, tais mercados perfeitos existem apenas nos manuais de economia”.

Para Allen White, co-fundador da Global Reporting Initiative e num artigo publicado pela GreenBiz, a doutrina Friedman tornou-se, nas últimas décadas, no mantra adoptado tanto pelas empresas como pelos governos, “lançando as bases para a ascensão da primazia dos accionistas e seus cúmplices – desregulamentação, baixa tributação e cadeias e mercados de abastecimento global sem restrições”, ao mesmo tempo que este foco inabalável no “deus-lucro” forneceu “a base para a emergência dos mercados financeiros como árbitro do bem-estar aos olhos dos líderes empresariais e dos decisores políticos”.

Recordando que, logo no início dos anos de 1990, surgiria o movimento da responsabilidade social das empresas (RSE) como uma espécie de antídoto para o domínio do primado dos accionistas defendido por Friedman, Allen White acrescenta também que, se por um lado, a RSE aliviou este domínio, por outro “e porque se focou nos sintomas a não nas causas fundamentais”, ficou muito aquém da mudança transformadora “por aqueles que procuravam destronar a métrica financeira como a medida primordial do desempenho das empresas”. E a doutrina de Friedman continuaria a imperar nas empresas que rejeitavam em conduzir uma mudança sistémica na sua conduta. Prova disso é o contributo de Ken Langone – um dos fundadores da gigantesca Home Depot – para o especial do The New York Times acima mencionado. O também autor do livro “I Love Capitalism” defende que “se ignorarmos a percepção cristalina de Friedman – de que os lucros são o foco principal das empresas – então toda a missão, incluindo a boa vontade, desmorona”. Langone acrescenta ainda que “quando transformamos a ideia de lucro num insulto insensível, como os críticos mais preguiçosos de Friedman frequentemente fazem, estamos a rebaixar a força propulsora essencial que permite que todas estas boas obras interligadas ocorram”.

Uma verdade inconveniente?

Apesar das críticas ao ensaio de Friedman, há uma verdade inconveniente que continua a persistir para todos os que procuram uma versão mais “suave” do capitalismo: a de que se uma empresa não está a obter lucros para os accionistas, é muito difícil cuidar dos seus outros constituintes. E mesmo os que empunham bem alto a bandeira do fim do primado do accionista, clamando, ao invés, para se beneficiar os demais stakeholders, acabam por cair em contradição.

Um bom exemplo é Marc Benioff, o CEO da Salesforce e um dos ferozes defensores do denominado “stakeholder capitalism”. Também convidado para comentar o ensaio de Friedman no The New York Times, Benioff assegura que, nos seus tempos de aluno de gestão, já discordava com a sua doutrina. Atentemos ao seu comentário: “Não concordei na altura com Friedman, e as décadas que se seguiram apenas expuseram a sua miopia. Basta saber até onde a obsessão de maximizar os lucros para os accionistas nos trouxe: as terríveis desigualdades económicas, raciais e de saúde, a par da catástrofe das alterações climáticas. Não é de admirar que tantos jovens acreditem agora que o capitalismo não pode proporcionar o futuro igual, inclusivo e sustentável que eles querem”. A verdade é que no mês passado, e depois da sua gigantesca tecnológica ter reportado lucros recordistas, Benioff despediu cerca de mil empregados numa reestruturação “derivada” da pandemia de Covid-19. Inquirido sobre se tal acto não seria hipócrita, na medida em que defende acerrimamente os seus empregados enquanto “parte interessada” da empresa, “Benioff respondeu: “Não é uma parte interessada sem fins lucrativos. É um capitalismo de partes interessadas”. Ou e em última análise, é servir os interesses a longo prazo da empresa, o que, segundo o próprio, servirá melhor os interesses de todas as partes interessadas e, neste caso, privilegiando novamente o interesse dos accionistas.

Covid-19 pode dar origem ao primado do propósito (ou não)

Apesar de todas as contradições, não é possível negar que, meio século depois, tornou-se evidente que esta visão estreita e centrada nos accionistas das empresas tem originado custos elevados para a sociedade. Muito antes da pandemia da COVID-19, já o foco único nos lucros era criticado por causar a degradação da natureza e da biodiversidade, contribuindo para o aquecimento global, estagnando os salários e exacerbando a desigualdade económica.

E, por fim, a América empresarial (e não só) acabou, pelo menos em teoria, por compreender que este raciocínio ameaçava seriamente o pacto social e, entre inúmeras iniciativas, reagiu através da Declaração sobre o Propósito da Empresa, assinada por 181 CEOs pertencentes a um dos mais antigos e poderosos lobbys empresariais dos Estados Unidos – o Business Roundatbale (BRT) -, uma espécie de távola redonda dos (grandes) negócios fundada em 1972 e que inclui, exclusivamente, os líderes das maiores empresas da América ( inclusive Marc Benioff) e responsáveis por mais de 15 milhões de empregados e com mais de sete biliões de dólares em receitas anuais. Em paralelo, também o Fórum Económico Mundial defendeu, em 2019, a ideia de um capitalismo mais consciente e dirigido a todos os stakeholders, publicando um manifesto que sustentava que este deveria ser um “propósito universal para as empresas na Quarta Revolução Industrial” e cujos pontos centrais em muito se assemelham ao “compromisso” dos membros do Business Roundtable, ao mesmo tempo que popularizava igualmente o conceito de “stakeholder capitalism”.

Todavia, o fracasso de muitos signatários no que respeita a proteger os seus stakeholders durante a pandemia do novo coronavírus tem vindo a alimentar as críticas de que as (boas) intenções proclamadas não passam disso mesmo, continuando a existir uma enorme diferença entre palavras e actos. E, na verdade, apesar de se assinalar a “morte” da doutrina de Friedman, muitas empresas continuam a ser vistas como “sociopatas”, na medida em que continuam indiferentes a tudo com excepção dos lucros que perseguem, em conjunto com os seus líderes igualmente alheios ao que os rodeia e apenas preocupados com os seus próprios interesses.

Mas nem todas podem ser acusadas destes pecados, em particular no exacto momento histórico em que vivemos. A Covid-19, e infelizmente por diversos motivos, acabou por se traduzir num complexo “teste de pressão”para as empresas que abandonaram os princípios definidos por Friedman e são muitas as que estão genuinamente a agir de acordo com o “novo propósito” que orienta organizações de várias partes do mundo. Estas “empresas com propósito” têm conseguido responder rápida e adequadamente às complexas perturbações relacionadas com a pandemia, trabalhando para apoiar os seus empregados, operações e comunidades. Muitas delas suspenderam até a sua actividade para proteger os seus empregados, renunciando a milhões de dólares ou euros em lucros para manter o seu pessoal em segurança, ao passo que outras implementaram medidas sem precedentes, desde o pagamento de horas de trabalho aos empregados, independentemente das horas trabalhadas, até à concessão de licenças prolongadas por doença e benefícios de saúde. Outras ainda investiram milhões em soluções para a pandemia, fabricando ventiladores, máscaras, componentes de vacinas, entre outras iniciativas.

Estes esforços resultam numa força de trabalho mais segura, empenhada e leal, em conjunto com um verdadeiro apreço por parte de clientes, parceiros da cadeia de abastecimento e comunidades.

Mas será que 2020 marcará uma viragem para o verdadeiro primado do propósito? Sendo ainda prematuro tirar conclusões sobre a crise que não passou e que continuará indubitavelmente a grassar nos tempos mais próximos, a pergunta é, naturalmente, de difícil resposta, sendo que os primeiros indicadores também não ajudam. Se, por um lado, a crise gerou volumosas declarações empresariais de empatia, compromissos e, em alguns casos, acções concretas para aliviar os efeitos adversos da crise nos trabalhadores e comunidades, por outro, a resposta das empresas revela uma reafirmação da primazia dos accionistas manifestada no aumento do pagamento de dividendos, na recompra de acções e nos chorudos salários dos CEOs.

Adicionalmente e como reporta o Financial Times, nos finais de Maio, a senadora americana Elizabeth Warren interrogava o secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, sobre a razão pela qual a administração Trump não tinha estipulado que as grandes empresas que recebessem apoio governamental teriam de manter os seus trabalhadores. A verdade é que a história parece repetir-se: na crise financeira de 2008, Washington resgatou os maiores bancos do país, sendo que hoje são as grandes empresas que têm estado em primeiro lugar na fila dos apoios concedidos pelo governo. E se há CEOs que estão a abdicar de 100% dos seus salários como forma de salvar as suas empresas e continuarem a servir todos os seus stakeholders, outros há que são recompensados com aumentos nas suas remunerações.

O manifesto de Friedman pode estar fora de moda e ter caído em desgraça. Adicionalmente, e como qualquer doutrina importante, pode ser denunciada, mas não ignorada. A verdade é que quando a crise passar, trabalhadores, clientes, investidores e demais stakeholders não esquecerão as empresas que colocaram a sociedade, e não o lucro, em primeiro lugar. E só a História relatará se, em tempos de pandemia, “existe apenas uma e só uma responsabilidade social dos negócios – a de utilizar os seus recursos e envolver-se em actividades concebidas para aumentar os seus lucros”, como defendia Milton Friedman, ou se esta crise terá servido como o momento oportuno para se reformular os negócios do futuro, impulsionado pelo tão actualmente aclamado novo modelo de gestão, assente no propósito e que serve os interesses de todos os stakeholders e não somente – ou em primeiro lugar – os dos accionistas.

1 COMENTÁRIO

  1. Milton Friedman: um defensor disfarçado do Capitalismo dos Stakeholders?
    Ou de como a maximização da riqueza dos accionistas poderá, afinal, ser amiga dos demais interessados.

    Há ideias que fazem história e que são tema recorrente do debate público. O problema é quando essas ideias passam para o domínio das falsas ideias claras, perdendo qualquer significação relevante e tornando-se em afirmações de que ninguém discorda, próximo, portanto, da banalidade.

    Afinal, a mão invisível que celebra a superioridade dos mercados, foi criação do filósofo moral Adam Smith ou do provocador-malévolo Bernard de Mandeville, da Fable of Bees que celebra a irrelevância da ética privada, ou de como os vícios privados contribuem para o bem público? Ou, como no cinema, vícios privados, públicas virtudes são

    Quando M. Friedman profetizou que The business of the business is the business, ou o pronúncio do shareholder capitalism que celebra a primazia dos accionista, cuja riqueza deve ser maximizada, quis com isso dizer que os demais interessados, os fornecedores, os trabalhadores, a banca, o Estado, deveriam ver minimizada a sua parcela da repartição do rendimento gerado pelas empresas de modo a que o rácio resultado liquido do período sobre o rendimento fosse o mais próximo possível de um (1)?

    Ou quis o Professor de Chicago dizer que a política de distribuição de resultados deveria menosprezar, ou mesmo ignorar, a vertente da sustentabilidade a longo prazo por via do autofinanciamento, negando à sobrevivência a longo prazo com independência estratégica dos negócios a etiqueta de principal indicador de boa gestão, que o aqui autor acolhe sem restrições?

    Como nada disto parece fazer sentido, resta a ideologia para manter acesa a chama que sempre justifica uma revisitação ao Economista de Chicago, como em “Os 50 anos da Doutrina de Friedman e o propósito em tempos de Covid” (agora que tudo parece poder ser Covid-indexado), cujo subtítulo ”Apesar das críticas ao ensaio de Friedman, há uma verdade inconveniente que continua a persistir para todos os que procuram uma versão mais “suave” do capitalismo: a de que se uma empresa não está a obter lucros para os accionistas, é muito difícil cuidar dos seus outros constituintes.” é deveras equívoco.

    É que a parcela de lucros dos accionistas é, nem mais nem menos, o que resta depois de os ou-tros constituintes terem subtraído a respectiva fatia da repartição do rendimento. Sem a pretensão a fazer escola, porventura um singelo exercício de back to basic aos números de onde emerge a criação, ou destruição, de riqueza possa ajudar. Veja-se abaixo.
    Demonstração dos resultados Repartição dos rendimentos
    +Total dos rendimentos O que há repartir
    – Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas Fornecedores
    – Fornecimentos e serviços externos Fornecedores
    – Gastos com o pessoal Trabalhores
    – Gastos de depreciação e de amortização Empresa
    – Gastos de financiamento Banca / sistema financeiro
    – Imposto sobre o rendimento do período Estado
    = Resultado líquido do período Detentores do capital (lucros distribuídos)
    Fonte: Criação do Autor

    Então, ao contrário da forma escolhida para a versão mais “suave” do capitalismo, se uma em-presa não está a maximizar a remuneração dos accionistas é porque está a cuidar excessivamente bem dos demais constituintes

    Ou talvez seja possível uma outra leitura, não ideológica (nem panfletária), isto, evidentemente, sem negar o papel das ideologias enquanto construções racionalizadoras e legitimadoras de opções políticas e económicas, moldando assim os nossos modelos societais

    O quadro acima pode ler-se segundo duas vias para maximizar a riqueza dos accionistas, quais sejam:
    ‒ A via destrutiva do descuido dos “outros constituintes”, os quais, naturalmente, não apreciarão por aí ali além o descuido e, dependendo da capacidade de pressão específica de que sejam detentores, irão deixando de alimentar o ciclo do negócio.
    Sendo certo que num mercado concorrencial poderão sempre ser substituídos por novos constituintes, o grau de substituibilidade não é, porém, ilimitado. Mais cedo ou mais tarde, a teoria dos sinais fará o seu curso e produzirá os seus efeitos; metaforizando os filmes de índios e cowboys, deixa de ser apenas fumo e passa a ser mesmo fogo, nomeadamente, através do agravamento das condições de acesso aos diferentes factores.
    ‒ A via construtiva do aumento da produtividade total dos factores, o que numa óptica de longo prazo apenas é possível cuidando bem dos outros constituintes para além dos accionistas, em particular do Capital Humano.

    Num outro registo conceptual, o da economia de casino, poderá ainda aventar-se uma espécie de via farfetchiana, por esta altura nas paragonas dos jornais, que louvam entusiasticamente o filantropo gesto de desprendimento material do doador de dois terços da riqueza criada por uma empresa que nunca gerou lucros. Doa, portanto, 2/3 da riqueza criada pelas expectativas, ou o chamado valor de mercado.

    Ora, sabe-se o suficiente acerca dos humores dos mercados, em particular na acepção que dá voz, e conteúdo, à tese de que o porta-moedas é o órgão mais sensível do organismo dos accionistas.

    Num registo hilariantemente sério, Alexandre Versignassi discorre acerca daquela que terá sido a primeira, ou das primeiras, bolha especulativa – a das tulipas holandesas pelo Sé. XVII,

    “O mercado das tulipas tinha pegado fogo: se uma pessoa adquiria um título de bolbo, pelo preço que fosse, aparecia sempre alguém para o
    comprar por um valor maior. Só que o fogo não é eterno, posto que é chama…
    Esse mercado só se sustentaria se os preços continuassem a subir sempre. Mas, às tantas, os valores já não tinham mais nada a ver com a procura de flores como artigos de luxo. Não havia uma quantidade infinita de nobres dispostos a gastar o preço de uma mansão por numa florzinha para mostrar aos amigos. A quantidade de pessoas assim é um recurso finito.”

    O Autor discorre ainda sobre “otários” e sobre a finitude de tal recurso disponível para comprar tulipas quando já tinham passado de moda.

    São assim as modas, a das tulipas, como a das dot.com; como as do vestuário de luxo. São passageiras e, em geral, não deixam registos de criação de riqueza no balanço; mas deixam, em geral, outros registos, que uns considerarão como o preço do risco e outros considerarão os estilhaços das expectativas que, por mais bem alimentadas que sejam, nunca deixaram de ser isso mesmo. Balões com elasticidade limitada, dotados de extrema sensibilidade ao toque do alfinete do medo; afinal, o bipolarismo da eufórica ganância do ganho versus pânico da perda.

    Mas, voltando a M. Friedman e aos seus tão acarinhados accionistas, parece poder concluir-se que apenas pela acima designada via construtiva é possível, numa óptica sustentável de longo prazo, alcançar a maximização da riqueza dos accionistas.

    Ou seja, o capitalismo dos accionistas é, afinal, subsidiário do capitalismo dos demais interessados; a maximização da riqueza do acionista decorre da maximização da satisfação dos demais stakeholders.

    Mesmo que tal tese tivesse pernas para andar, isso não retiraria, nem disso se tem a veleidade, o charme ao debate, que continuará ad eternum, acerca do desvelo com que o Professor Friedman embalava os accionistas, na razão inversa do que fustigava o Estado-perturbador-dos-mercados. E, sabe-se lá que conciliábulos acerca da guerra Estado-Mercados terá tido o Professor Friedman com o amigo J. M. Keynes!

    Lisboa, Outubro de 2020
    Gualter Agrochão
    Mestrado (ISCTE) e Especialista (IPL) em Gestão. Sócio fundador de mico empresa há 30 anos no mercado, professor do ensino superior e consultor de empresas. segue o antigo acordo ortográfico.

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