Para os americanos é a Segunda Cidade, mas é a terceira em população. Muitas lendas urbanas permanecem no tempo, mas a resposta a esta pergunta de algibeira será sempre a mesma. Está nas margens do lago Michigan, mas fica no estado do Illinois do qual nem sequer é capital. É mais fria que Helsínquia ou Kiev, mas está tão a sul como Viana ou Bragança.
POR PEDRO COTRIM

Em setenta anos multiplicou-se setecentas vezes, passando de três mil habitantes a quase três milhões. Passou portanto do tamanho de Mértola para o de Lisboa em apenas três gerações e vale a pena ler esta frase novamente. Tem três sílabas e diz-se quase do mesmo modo em português e em inglês. O nome é indígena americano ou o afrancesamento dum que os colonos juraram ouvir, sendo que neste caso significa um tubérculo muito muito aromático, para o bem e para o mal. É Chicago, para muitos o coração da «verdadeira América», um conceito que não o chega a ser por impossibilidade de definição.

Deve esta expansão aos modos de reino monera devido à situação geográfica. Começou por se desenvolver como um entreposto de comunicações entre o nordeste desenvolvido e a frente pioneira do oeste que conhecia uma espantosa expansão agrícola a reboque da febre do ouro. Claro também que também havia rotas e estradões para sul, mas bastante menos percorridos. Houve mais crescimento devido à construção de vias navegáveis, e a partir de 1848, graças ao Canal Illinois-Michigan, os cereais e o gado do oeste chegavam aos portos de Chicago e podiam ser transportados para Nova Iorque pelos Grandes Lagos e pelo Canal Erie, inaugurado vinte anos antes.

Em meados do século XIX tudo sucedeu para o crescimento da metrópole, com linhas para cá e para lá para nesta expansão férrea. E ainda o telégrafo, esse espantoso twitter de há cento e cinquenta anos. Na década de 1850 a cidade nucleava uma rede densa de toda a matéria e em 1869 o comboio já ia e vinha da Califórnia. No final do século XIX, numa altura em que as ferrovias já estavam bastante estruturadas, Chicago evidenciava-se como principal centro do país e a capacidade do caminho-de-ferro ultrapassou a dos canais. Em 1930 havia mais linhas ferroviárias na zona urbana da cidade do que na Bélgica inteira.

Chicago não foi mais uma metrópole ribeirinha que se desenvolveu virando costas ao hinterland. Alimentou-se das riquezas do Midwest e retribuiu-as: as produções da agricultura, da pecuária e de rebanho florestal eram levadas para a cidade, que as transformava e fornecia em contrapartida produtos processados para oeste, para o resto do país e mesmo para exportação.

A madeira foi uma matéria-prima que fez fortunas, sendo essencial para a construção e linhas ferroviárias, grandes consumidores de dormentes. Durante várias décadas, Chicago foi o maior mercado de madeira do mundo. As coníferas das lindas florestas do Michigan e do Wisconsin eram abatidas como palitos e os troncos flutuavam pelos milhares de rios e riachos até às zonas de serração nas margens do Lago Michigan, ou então eram transportados do rio Chicago para o centro da cidade para serem cortadas em tábuas e vigas.

As ferrovias adentravam-se em quilómetros de armazéns e docas para carregarem a madeira destinada às cidades longínquas e aos agricultores da pradaria que a usavam nas casas, celeiros e cercas. Sucedeu a sobreexploração e a míngua florestal no final do século XIX.

Está tudo? Não, não está. Falta a carne e os matadouros: depois da Guerra Civil, este comércio assumiu uma escala esmagadora. Os comboios levavam as manadas aos currais, que em meados do século XIX ocupavam centenas de hectares na zona sudoeste da cidade. Tudo se fazia no processamento, aproveitando, além da carne, a gordura e os ossos para a produção de colas e sabões. O trabalho em linha de produção, muito antes de Henri Ford, era feito em condições tremendas, sobretudo devido à falta de higiene. As condições sanitárias foram melhorando e ficando aliviadas devido à introdução de máquinas, mas continuava a ser um esforço sobrenatural, com dezenas de milhares de trabalhadores para tratarem uns dez mil animais por dia numa sequência de corte, esquartejamento e estripação. Um mundo para alimentar um mundo.

Está tudo? Não, não está. Na bolsa de Chicago de comerciavam-se cereais desde 1848, mas a fundação da Bolsa de Derivados ocorreu cinquenta anos depois, com ovos e lacticínios a juntarem-se aos negócios de compra e venda. Hoje em dia negoceiam-se futuros e derivados sobre as condições meteorológicas e quem quiser saber mais pode procurar com facilidade. Um furacão ou um nevão que soterre as ruas podem afinal ser boas apostas num seguro blindado. Os preços das commodities que ali se acertam têm repercussões em todo o mundo, enquanto o Dow Jones e o NASDAQ de Wall Street afectam «apenas» quem neles negoceia e os planos de reforma dos americanos, que não usufruem de Segurança Social.

Está tudo? Não, não está. A zona adjacente a Chicago é também um centro siderúrgico e metalúrgico, que embora nunca tenha sido o mais importante dos Estados Unidos, também nunca deixou de ser fundamental. Além de muitas outras responsabilidades, fornecia ferramentas e máquinas agrícolas e aos agricultores. O ferro do Minnesota e o carvão da Pensilvânia alimentavam as siderurgias perto de Gary, uma cidade que faz parte da zona urbana de Chicago mas que se encontra no Indiana. Pode afirmar-se que foi «gerada» pela U.S. Steel em 1906, pelas grandes fábricas de tractores e autocarros. Além disso, a zona industrial de Chicago forneceu a maioria das peças para a outrora resplendente motor city, Detroit. Esta irmã na fronteira está 400 quilómetros a leste de Chicago e apresenta o curiosíssimo facto de se passar do Canadá para os EUA de sul para norte.

Está tudo? Não, não está. Chicago foi um centro de refúgio e trabalho para os negros que fugiam do sul esclavagista. Apesar de o Illinois ser oficialmente abolicionista e de ter permitido cenários impensáveis aos sulistas no século XIX e da primeira metade do século XX, na cidade os negros estavam oficiosamente separados dos brancos. Podiam sentar-se nos mesmos transportes, mas o racismo permanecia latente: se os negros começavam a instalar-se numa rua, os brancos saíam. Formou-se assim um grande bairro a sul do centro de Chicago de maioria afro-americana e que hoje ainda persiste, tendo Barack Obama crescido politicamente neste South Side.

Viviam assim longe do seu local de trabalho numa população sempre crescente. Os sucessivos booms industriais, as guerras mundiais e as restrições à imigração europeia fomentaram um grande aumento da população negra, que resistiu ancorada na solidariedade entre as famílias e muitas vezes mantida pelas igrejas deste South Side. A qualidade moral desta comunidade foi sempre notória e estava muitas vezes expressa na explosão musical que a animou, desde os coros gospel às pequenas bandas de jazz que animaram sempre a cidade nos clubes mais cool que se podem imaginar. Claro que havia álcool, houve Lei Seca e Al Capone. Houve tudo nesta cidade que afinal tanto significa.

No crash de 1929 não pode surpreender que os negros tenham sido as primeiras vítimas do desemprego desenfreado que percorreu transversalmente a sociedade americana. Aquela imagem dos filmes, em que diversas pessoas se juntam perto de um cilindro de latão com lenha a arder, foi sempre muito comum em Chicago, uma cidade que permanece fria com a Primavera adentrada: em metade dos dias deste Abril que agora se fecha a temperatura máxima não chegou sequer aos dez graus. Na época de depressão, e mesmo no pós guerra, era comum ver cidadãos impecavelmente trajados à volta destas fogueiras quase acolhedoras. Eram desempregados vestidos a rigor que procuravam trabalho durante o dia e que à noite não tinham onde dormir, protegendo-se como podiam das baixas temperaturas.

Está tudo? Não, não está. Chicago não tem as luzes de Nova Iorque nem a luz da Califórnia e não é misteriosa como New Orleans. Não tem, a uma hora de caminho, os cenários de assombro que ficam nas periferias das cidades do Colorado, do Arizona ou do Utah. Não tem os ranchos nem os poços de petróleo do Texas nem o ambiente tropical de Miami. Não tem o MIT nem Harvard como Boston e nem sequer o seu Brainpower Triangle. Não tem nada disto, mas tem tudo isto. É uma cidade fascinante nas artes, na música, no ambiente, na arquitectura, no sentido de cidadania, igualdade e justiça. Para muitos, como se disse no começo, é o coração da América, e se houver aqui falhas de ritmo, todo o corpo irá sofrer.

Percebe-se assim que Chicago tenha sido um centro mundial do trabalho e dos direitos dos trabalhadores e que conte, na sua história, datas incontornáveis, particularmente o dia 4 de Maio de 1886. Durante uma manifestação na Haymarket Square, em que se exigiam oito horas de trabalho por dia, uma bomba lançada por pretensos anarquistas conduziu a um tumulto com mortos e condenados à morte. Os movimentos sindicalistas persistiram na senda da jornada menos extensa e de melhores condições de trabalho, e três anos depois a Internacional Socialista conseguiu consagrar o dia um de Maio como o Dia do Internacional do Trabalhador. Um de Maio de 1889 foi o primeiro e teve a sua génese na cidade mais laboriosa do mundo, mas apenas mais de cem anos após o início da Revolução Industrial.

Hoje em dia é uma data menos politizada, pois que realmente não é propriedade de nenhuma ideologia. O direito ao trabalho figura na carta de direitos humanos das Nações Unidas e vamos tendo notícia do que se passa em todo o mundo. O trabalho é o nosso traje social e é uma das primeiras perguntas que fazemos a alguém que acabamos de conhecer. É-nos demasiado intrínseco para que o esqueçamos e está sempre connosco.

É o nosso dia. Um viva a nós, trabalhadores. Viva o Primeiro de Maio.

Pedro Cotrim

Editor

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