Quando, em 1986, se deu o acidente nuclear de Chernobyl viviam ali aproximadamente 14 mil pessoas. Hoje vivem por lá cerca de 3 mil, com autorização especial. As informações detalhadas sobre a quantidade de vítimas fatais e doentes desde aquele fatídico ano fazem parte de um enigma difícil de decifrar. A primeira impressão ao chegar lá, mesmo depois de tantos anos, foi a de que o tempo parou
POR SORAHYA SACRAMENTO

Existem várias formas de ‘turistar’ e a escolha do destino sempre aponta para um estilo diferente de viagem: Natureza? História e cultura? Vida nocturna? Cada viajante segue uma trilha ou mais de uma.

Particularmente, adoro aventurar-me e as escolhas que faço sempre envolvem duas prioridades: observar a cultura e buscar as lições que podem ser apreendidas, pelas semelhanças ou pelas diferenças.

Em Outubro realizei um antigo desejo e fiz uma visita a Chernobyl, na Ucrânia. O que dizer dessa experiência? Vários sentimentos misturados. Mas antes de contar a aventura é preciso voltar um pouco atrás no tempo.

26 de Abril de 1986. Chernobyl ficava famosa no mundo inteiro por uma tragédia: um acidente nuclear que é considerado, até hoje, como um dos mais graves da História. A primeira impressão ao chegar lá, mesmo depois de tantos anos, foi a de que o tempo parou.

O acidente aconteceu em função de uma explosão no reactor nuclear 4, que provocou uma enorme liberação de partículas radioactivas para a atmosfera, que rapidamente se espalharam. As áreas próximas mais atingidas foram a Bielorrússia, a Ucrânia e a Rússia.

Na ocasião, viviam em Chernobyl aproximadamente 14 mil pessoas. Hoje vivem por lá cerca de três mil, com autorização especial. As informações detalhadas sobre a quantidade de vítimas fatais e doentes desde aquele fatídico ano fazem parte de um enigma difícil de decifrar. Se por um lado há números oficiais registados durante a fase crítica do acidente, por outro não é tão matemático definir quantas das mortes por doenças, que ocorreram ao longo dos anos seguintes, estariam ligadas a radioactividade.

O reactor nuclear 4 de Chernobyl, Ucrânia

Depois do acidente vários países trabalharam em conjunto para conter as possibilidades de contínua contaminação. Milhões de euros foram gastos na cobertura de chumbo, para conter os estragos do vazamento de 5% do material radioactivo de Chernobyl. Essa cobertura, conhecida como Sarcófago 1, foi construída com carácter de emergência. Em 2002 iniciou-se a construção do chamado Sarcófago 2, inaugurado em 2017 com um investimento na ordem de mais de 700 milhões de euros, suportado por 43 países doadores.

Existem várias versões sobre as causas do acidente, mas o facto é que, por trás de tragédias como estas, há inúmeras falhas, sejam de ordem humana, do projecto, das condições de risco não dimensionado ou mesmo de gestão.

[quote_center]O chamado Sarcófago 2 foi inaugurado em 2017 com um investimento na ordem de mais de 700 milhões de euros, suportado por 43 países doadores[/quote_center]

O prejuízo ambiental, social, de saúde e psicológico ocorrido ali foi sem precedentes. De acordo com alguns especialistas, estima-se que o reactor 4 permaneça com níveis elevados de contaminação pelos próximos mil anos. Desde 2011, a região mais afectada tornou-se numa atracção turística e, mais do que fazer parte das estatísticas de turistas curiosos, fui até lá para vivenciar aquele cenário e tentar trazer aprendizagens para a minha vida. E que bom é ter a oportunidade de partilhar essa experiência neste artigo.

Quando cheguei à cidade de Prypiat, que fica a quatro quilómetros de Chernobyl, foi difícil acreditar que 50 mil pessoas viviam ali até ao momento da tragédia. Hoje é uma cidade fantasma, um cenário de ficção. Fiquei perplexa. A intervenção da guia turística com as explicações e o detector de radioactividade que tinha consigo trouxeram-me para a realidade e fizeram-me lembrar: “Não coloques a mão em nada, não te iludas, há contaminação, é real, aconteceu mesmo!”

A sensação é de tristeza. Objectos que fizeram parte do dia-a-dia das pessoas permanecem por lá, deteriorando-se. Há prédios abandonados, com vegetação bonita, mas intocável… a sensação é muito forte. Os moradores que vivem por lá convivem com o cenário de total destruição, não sendo possível identificar qualquer leveza ou alegria nos seus olhares.

[quote_center]Estima-se que o reactor 4 permaneça com níveis elevados de contaminação durante os próximos mil anos[/quote_center]

Segundo informações que recolhi, a Rússia cortou a subvenção de 383 localidades entre as 4413 atingidas pelo acidente. De acordo com o Biólogo Anton Korsakov esta atitude é uma negação dos factos por ele apontados, e que ditam que são necessários 2 mil anos, e não trinta, para garantir a descontaminação de uma zona.

Para mim, ficou a confirmação de que precisamos ser vigilantes e que assumir o nosso papel nessa palavrinha chamada “sustentabilidade” é urgente. Fica o desejo de que as nossas escolhas sejam conscientes, desde o consumo diário às responsabilidades enquanto profissionais e cidadãos, lembrando sempre que não existem muros que possam proteger um país dos efeitos danosos que estamos a impor ao ambiente e que nos afectam a todos.

Chernobyl é uma prova disto: os prédios estão lá, a natureza está se reinventando, mas não tem mais o que oferecer para nós, porque isso é o que foi plantado. É preciso que sejamos coerentes, mudando nosso comportamento, entendendo que o universo fica, quem sai de cena somos nós. É como diria o sábio Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”.

Nota:
Este artigo contou com a colaboração de Vinícius Dias, Director Artístico do Ecocriativos

Sorahya Sacramento

Consultora e palestrante na área da Sustentabilidade e mestranda no ISCTE (Estudo do Ambiente e Sustentabilidade)