Vemos o desfile dos peões mortais a ficar cada vez mais curto e queremos, e também não queremos, vê-lo ainda mais pequeno, o que é conseguido com brincadeiras de crianças. Mesmo quando os jogadores tentam formar equipas, naufragam muitas vezes em divergências mesquinhas. Tudo é mortal em Squid Game, até uma fatia de pão escuro
POR PEDRO COTRIM

O Rolhas era um pândego melancólico. Gostava de andar com os cinco filhos pela aldeia e mostrar assim que era homem.

O Rolhas tinha tom. Trabalhava a terra e fazia pela vida. Por não ter posses, alugara uma pequena parcela para cultivar o seu milho. A sua sorte estava à sorte dos céus, que ora fazem míngua de água, ora dela fazem um excesso.

A mulher do Rolhas disse ao Rolhas que iam ter o sexto filho e o Rolhas despedaçou-se com a notícia, pois no seu entendimento o seis era o número da miséria porque era um número humano. Não havia como sustentar a boca que estava na barriga da mulher. O Rolhas seria pois um desgraçado.

O bebé saudável nasceu com a sexta boca saudável e com os quarenta e seis dentes dentro das gengivas. A mulher do Rolhas quase não gritara no parto, mas gritou quando o sexto, já menino, deu um trambolhão e partiu uma perna.

O Rolhas mandou chamar o endireita. A mulher do Rolhas não se acalmava e o Rolhas ordenou-lhe que se fosse embora para deixar o homem trabalhar.

O Rolhas, a sós com o endireita e o sexto, pediu ao primeiro que não tratasse o segundo, pois que não queria que vivesse muito. O endireita recusou-se a não fazer nada e alvitrou que era crime. O Rolhas chorou-se da miséria, rechorou-se do desfado e o endireita condoeu-se. Do Rolhas, não do menino, e por não o tratar, condenou o sexto a ser um aleijado para a vida se lhe coubesse sobreviver. Coube.

O Rolhas era um bruto em desespero. Começou a levar o sexto às feiras das aldeias e às romarias para mostrar as habilidades do entrevadinho e conseguiu assim algum sustento para as oito bocas que tinha de alimentar. E durou isto uns anos. Quando o sexto, anos mais tarde, vem saber do que se passara, mata o Rolhas com uma muleta.

O Rolhas é real, a mulher do Rolhas é real, o endireita é real e os outros cinco filhos que nunca vimos também sejam talvez reais. São nossas estas pegadas na tinta angustiada de Vergílio Ferreira.

A miséria, a indolência, a violência, o desespero, o jogo e restantes fatalismos estiveram sempre connosco. A era da informação, do aqui e agora e do mundo sempre ruidoso tirou-os do banco do lado, onde está sentado aquele próximo que vive uma desgraça que fingimos não ver, e pôs-nos tudo nos dedos que deslizamos para cima e para baixo à frente da cara que tem os olhos colados ao ecrã e que nos põem esta vista resultante dentro da cabeça. Estamos mais perto da Coreia que daquela velhinha fraquita que viaja em pé e a quem ninguém cede um lugar sentado.

Antes do Google entrávamos em teimas com os amigos. Fazíamos apostas engraçadas, do género «eu sei que é assim, que o Ford T foi lançado em 1908. Se não tiver razão, pago-te um jantar. Se for como eu digo, pagas tu». Parece, ou parecia, uma forma benigna de jogar. Hoje levanta-se a indeterminação prontamente no telemóvel e uma aposta engraçada entra directamente no lume das boas intenções. Passou tudo a ser muito sério. Põem-se em causa afirmações, mesmo em sala de aula, por causa da caixinha que a tudo responde e que nos conecta instantaneamente com o mundo. E o mundo passou a ter menos de 15 centímetros de comprimento – é portanto cem milhões de vezes mais pequeno do que há poucos anos. E na era de modificar o tamanho de tudo inventaram-se os pacotes de séries já acabadas. E o Squid Game.

Squid Game não é nada de novo. É este conto de Vergílio Ferreira esticado de modo a uma página corresponder a um episódio e às expectativas de quem aprecia as séries, essa décima segunda arte hoje em dia mais popular que a sétima e todas as outras juntas.

Ingredientes: dívida, miséria, já instalada ou iminente, desespero, dinheiro fácil/dinheiro difícil e até onde nos dispomos a ir na luta pela sobrevivência. Vemos, como sabemos, que vale tudo.

Personagens: um bom cheio de defeitos, um amigo do bom que não é tão bom como parece, um amigo do bom que é realmente bom, um mau que é afinal bom, um mau que é realmente mau, vários maus piores que as cobras e a morte aos borbotões e sempre violenta para atender às vontades do público do streaming, termo que ainda não mereceu entrada dicionarística mas que não deverá tardar.

Enredo: o bom tem tudo e não tem nada. Tem dívidas e não tem dinheiro. Tem uma filha que ama e a quem pouco pode dar além do amor, também porque a ex-mulher não lhe facilita a vida. Tem uma mãe que ama e que o sustenta e a quem, mesmo assim, tem de roubar. Não tem nada e nada tem a perder, ou talvez tenha tudo e tudo tenha a perder, mas entra no Squid Game quando um desconhecido lhe oferece flores.

Percebe que o jogo é mortal. A flor azul meteu-o no rol dos que têm de disputar as provas. Nós sabemos, pois o espectador está sempre numa perspectiva de vantagem em relação ao actor, mas queremos ver e vamos a jogo com ele, que também quer ir a jogo. Vemos o desfile dos peões mortais a ficar cada vez mais curto e queremos, e também não queremos, vê-lo ainda mais pequeno, o que é conseguido com brincadeiras de crianças. Mesmo quando os jogadores tentam formar equipas, naufragam muitas vezes em divergências mesquinhas. Tudo é mortal em Squid Game, até uma fatia de pão escuro.

E em Portugal também jogamos. Jogamos muito. Não apostamos em corridas de cavalos, mas investimos com entusiasmo cavalar no euromilhões e nos futebóis. Somos o país da Europa que mais gasta em raspadinhas. Há estudos anuais fáceis de consultar e os resultados desaquietam mais que qualquer papa de Francis Bacon. Estes estudos colocam as mãos que raspam na extremidades dos braços das classes mais desfavorecidas. É trágico; ou antes, é cínico. Bem sabemos da existência, nas nossas funduras, da zona onde a esperança e o desespero se sombreiam. É aí que entra o jogo por necessidade, pois que se não houver qualquer perspectiva de ganho, não haverá aposta. Mas as hipóteses são mesmo da ordem do cinicamente pequeno.

Já vimos as contas do euromilhões e não vale a pena trazê-las para aqui. Há comparações gastas para todos os gostos. Sabemos que acertar na lotaria é mil vezes mais fácil que dar o golpe no euromihões, mas que o prémio também é mil vezes mais baixo, e ainda assim metemos mais dinheiro no jogo mais difícil. É complicada a nossa cabeça.

Mas lotarias e euromilhões são também cristalinos. E justos, pois sabemos que assim é e bastam as contas. Resumindo, é meter umas moedas num sorteio que irá decorrer no futuro e ao qual não podemos concorrer se não entrarmos na aposta. Talvez se compare às lojas e às revistas que sorteiam casas ou carros, mas escusamos de encher o frigorífico com alimentos que se vão estragar ou de comprar mais exemplares de uma revista que nunca leremos para concorrer a uma casa que irá ser sorteada entre os clientes ou leitores. Talvez valha a pena meter poucos dinheiros nestes sorteios, mas sempre com a ideia de que não se ganhará nada.

Já na raspadinha as contas são complicadas e o desespero é maior devido à recompensa imediata, ou, mais comummente, à falta dela. Quem joga sabe logo se ganha o ou não, o que traveste a raspadinha de jogo de casino. Igualmente cristalina é a realidade, e já todos vimos na compra do jornal ou do café, ou mesmo do quase inofensivo euromilhões, cidadãos a rasparem os bolsos para comprarem mais cartõezinhos às cores à lá Squid Game. Sentimos pena e vergonha alheia. Temos vontade de ajudar mas não podemos, pois tudo é legal, mas pena é que a legalidade permita actos abomináveis. Sabemos que as leis foram feitas para quando falta a sensibilidade, como tão bem se afirmou na Grécia Antiga. E na Grécia Antiga também se jogava, inclusivamente com apostas nos antigos jogos olímpicos. Lei é lei, para o bem e para quem nela se escuda.

Claro que há também o assustador jogo por diversão, das roletas e dos blackjacks, mas que nada tem que ver o glamour de Hollywood. O poker de casino royale nem sequer é parente dos pokeres reais, em que pós-adolescentes de óculos escuros e bonés mexem afocinhados nas cartas e com uma nervoseira que impediria qualquer carreira no MI6. Um passeio pelas slots dos nossos casinos dá pena e vergonha alheia, como no caso das raspadinhas. É jogo, é mau, e há então que legislar melhor.

Temos redes neurológicas suficientes e membranas bioquímicas que nos podem impedir de actuar por impulso. Talvez devam ser ginasticadas para não fazermos figura de grande plantígrado na estrada quando outro cidadão motorizado nos entala os ouvidos numa buzinadela malcriadona ou para não apertar o nosso cláxon quando levamos um inadvertido chega para lá. As ruas não são para arruaceiros nem para fangios, pois para esses há ringues e autódromos. Precisamos da razão e da emoção, como mostrou António Damásio. Descartes estava errado e não há razões para alarme, que apenas deve disparar se formos presas de uma ou da outra. É fácil, afinal, e está sob os nossos propósitos.

Termino o artigo e vou aspirar a casa. As gatas vão fugir, mas depois escovo-as e dou-lhes uma latinha. Há de salmão, vaca, coelho e frango. Acho que serão capazes de  ter vaca: vai uma aposta?

Na semana passada fizemos todos 59 anos e não sabíamos

No dia 27 de Outubro de 1962, durante a crise dos misseis de Cuba, um submarino soviético com ogivas nucleares estava sem comunicações com Moscovo devido a uma avaria. A marinha americana detectou o vaso de guerra. Foram lançadas cargas de profundidade de baixa potência para obrigar o submarino milhões de vezes mortal a emergir para lhe ser dada ordem de saída da zona. Os americanos não sabiam que lidavam com o apocalipse e os soviéticos, perante os estampidos que se faziam ouvir no casco como martelos de cem quilos, julgaram que a terceira guerra mundial havia já eclodido. A tripulação estava esgotada por várias semanas de léguas submarinas, pela falha no primitivo sistema de ar condicionado, pelo calor insuportável e pelos níveis elevados de dióxido de carbono. E também pelo medo constante de um ataque fatal por uma carga mais potente e certeira.

Havia três oficiais a bordo com autoridade para optar pelo uso do projéctil sem carecer da autorização de Moscovo, mas dependiam uns dos outros. Dois quiseram, um não. Convencidos da inevitabilidade da morte global, pois que um ataque nuclear de qualquer uma das potências conduziria à retaliação sucessiva até o planeta ser destruído umas dezenas de vezes, prontificaram-se a convencer o terceiro. Não havia unanimidade, não haveria lançamento.

O terceiro que não os deixou optar pela medida desesperada chamava-se Vasili Arkhipov. Tinha apenas trinta e quatro anos. Calmamente, advertiu os outros dois oficiais sobre o uso da morte em urânio. Se a terceira guerra já estivesse realmente a deflagrar no mundo que não viam, pois que à profundidade a que estavam era tudo preto, estariam condenados, eles e todos os vivos e vindouros; se ainda houvesse a paz possível neste cume glacial da Guerra Fria, se emergissem seriam apenas escoltados até fora da zona de bloqueio.

Serenados os outros, o terceiro fez valer a sua razão, e submarino emergiu para encontrar navios americanos que os acompanharam até fora da zona de conflito. Regressaram sãos e salvos à URSS.

Esta extraordinária ocorrência foi conhecida em 2000. O relato foi corroborado pelo governo da nova Rússia e por tripulantes do navio, incluindo um dos oficiais que queria apertar o gatilho. Está tudo consagrado nos registos da história.

Se o nosso Vasili tivesse cedido ao instinto belicista e vingativo não estaríamos aqui. Talvez este herói quase esquecido merecesse uma tremenda ovação internacional e este dia 27 de Outubro passasse a figurar como dia mundial da paz na vez do dia um de Janeiro. É que não foi institucional, foi humana, tendo por isso uma valência muito superior.

Não havia raspadinhas na URSS. O jogo fora banido pelo regime comunista, mas mesmo que houvesse, o nosso Vasili provavelmente nunca seria visto a raspar cartões. Se conduzia, nunca foi certamente presa da road rage que tem lugar em todo o mundo, com a muito provável excepção do paraíso tremendamente mau da Coreia do Norte, onde também não se vê certamente o Squid Game dos irmãos do sul, pelo que o país tem afinal, e pelo menos, dois formidáveis atributos.

Ao contrário do que sugerem as artes mais recentes, o bem existe em todo o lado, e por vezes basta refrear os impulsos. É que um dia pode ser a nossa vez de salvar o mundo.

 

Pedro Cotrim

Editor