Quem o diz é Richard Edelman, presidente e CEO da organização com o mesmo nome e responsável pela 18ª edição do Barómetro da Confiança, apresentado recentemente. A queda acentuada da fé que milhares de pessoas depositam no sector dos media e nas diversas instituições dos Estados Unidos (principalmente no governo), e o facto de a população geral de 20 países (em 28 analisados) apresentar percentagens de confiança abaixo dos 50%, são as principais conclusões da análise. Neste sentido, o gestor alerta para a necessidade que os líderes têm de restabelecer a confiança e o entendimento, junto da população, sublinhando que “a inércia não é uma opção” e que é necessário agir depressa
POR
MÁRIA POMBO

É nos Estados Unidos e nos media que a população deposita actualmente menos confiança, e muito por culpa dos motores de busca e das redes sociais. Quem o diz é a Edelman no seu mais recente Trust Barometer (Barómetro da Confiança) que, pelo 18º ano consecutivo, analisa a confiança que milhares de pessoas a nível mundial depositam nos governos, nas empresas, nas organizações não-governamentais (ONG) e na comunicação social.

De facto, e comparando com os resultados das edições anteriores, 2018 representa uma mudança no panorama da confiança, já que a enorme quantidade de fake news que invadem as redes sociais levam os cidadãos a desconfiar da informação que é transmitida por parte de diversos canais informativos. De acordo com o barómetro deste ano, os media são, pela primeira vez, a instituição menos credível para a maioria, o que se explica pela onda de desinformação que invadiu – e invade constantemente – a internet. Neste sentido, metade dos inquiridos revela aceder menos de uma vez por semana aos meios de comunicação mais populares, 60% consideram que este sector está politizado e cerca de uma em cada duas pessoas concorda que o mesmo é elitista.

Complementarmente, 66% dos respondentes consideram que os órgãos de comunicação social (OCS) estão mais focados em atrair consumidores de notícias e aumentar as audiências do que em reportar os factos, e 65% julgam que estes procuram dar as notícias com mais rapidez do que com rigor e veracidade. Um dado preocupante é o facto de aproximadamente sete em cada dez respondentes recearem que as notícias falsas possam estar a ser utilizadas como “armas de arremesso”, o que faz com que a origem das notícias (mais do que as notícias em si) passe a ter uma importância maior do que teria em tempos. Por fim, dois terços dos respondentes sentem que o cidadão comum não tem a capacidade de distinguir o bom jornalismo das notícias falsas.

Tudo isto justifica que em 22 (de um total de 28) países, os media são um sector no qual a população não confia, existindo um sentimento generalizado de que este satisfaz cada vez menos as expectativas sociais relacionadas com a divulgação de informação com qualidade, a educação da população no que respeita a assuntos importantes e a ajuda na tomada de decisões mais informadas. Importa ainda explicar que os inquiridos definem os media como o conjunto das entidades que divulgam conteúdos, incluindo tanto as plataformas (redes sociais, motores de busca e meios de comunicação) como aqueles que nelas trabalham (influencers, jornalistas e marcas).

[quote_center]2018 representa uma mudança no panorama da confiança, dada a enorme quantidade de fake news que invadem as redes sociais[/quote_center]

A instabilidade, a polarização social e a diminuição da confiança nas estruturas que governam a sociedade são as principais consequências da perda de crédito na informação e nos meios que a transmitem, o que leva a um abrandamento económico e à necessidade de medidas por parte dos líderes nacionais para restabelecer a fé da população nas instituições, e para voltar a ter bons níveis de prosperidade económica e desenvolvimento social.

Uma outra conclusão deste estudo é o facto de a credibilidade entre pares ter decaído substancialmente, o que significa que os inquiridos não só perderam a confiança nos meios de comunicação social como também começaram a duvidar daquilo que as pessoas próximas (como familiares e colegas de trabalho) lhes transmitem, tendo, por oposição, renovado a sua confiança junto de especialistas (nomeadamente técnicos e académicos). Este facto revela uma grande necessidade de consumo de conhecimento e de informação verdadeira, isenta e fidedigna.

Adicionalmente, os CEO melhoraram a sua credibilidade e, com 72%, são considerados uma fonte de informação mais segura do que eram há um ano. Para 64% dos respondentes, os CEO deveriam até “tomar as rédeas” (por exemplo, em termos de investimento na inovação, prosperidade económica e protecção dos consumidores), ao invés de esperarem que sejam os governos a tomarem algumas decisões. E se, em tempos, as ONG eram consideradas como as soluções e os remédios para tratar dos problemas sociais que os governos não conseguiam resolver, actualmente estas surgem lado a lado com as empresas, dando ambas esperança aos cidadãos.


China em ascensão e EUA em “queda livre”

Em termos geográficos, conclui-se que os dois países actualmente mais poderosos do mundo estão a caminhar em direcções opostas: por um lado a China ganha adeptos a uma velocidade incrível, e por outro lado os Estados Unidos assistem a um momento de “queda livre” no que à confiança da população diz respeito.

A China tem tido boas percentagens de credibilidade, e este ano, com 74%, não é excepção. Apresentando uma percentagem de 84% (mais oito pontos percentuais face ao ano passado), o governo é a instituição mais credível para os chineses, seguindo-se as empresas (que, com mais sete pontos que em 2017, apresentam 74%), os media (com 71%) e as ONG (com 66%). Contrariamente ao que se verifica por exemplo nos Estados Unidos, os jovens adultos entre os 18 e os 34 anos revelam ser mais crentes, o que se assume como um sinal de que estão satisfeitos com a vida no seu país. Uma outra conclusão, comparativamente à edição anterior, aponta para o facto de que tanto os mais ricos como os mais desfavorecidos revelam confiar mais nas empresas, na comunicação social, nos governos e nas organizações não-governamentais.

[quote_center]Os CEO melhoraram a sua credibilidade e, com 72%, são considerados uma fonte de informação segura[/quote_center]

Para além desta nação, a Indonésia (com 71%), a índia (com 68%) e os Emirados Árabes Unidos (com 66%) são os únicos países a registar um nível de confiança acima dos 59%, sendo que em quatro (Singapura, México, Holanda e Malásia) este se encontra entre os 50% e os 59%.

No pólo oposto, e sem surpresas, os Estados Unidos vêem decair fortemente a confiança dos seus cidadãos, passando de 68%, em 2017, para 43%, este ano – o que se assume como uma das maiores quedas a que este país já assistiu. Esta queda revela ser bastante mais acentuada entre os cidadãos informados (que, no estudo, são definidos como aqueles que têm maiores rendimentos e educação), e com idades compreendidas entre os 35 e os 54 anos, do que na população em geral. Neste país, o governo é a instituição que mais decaiu face ao ano passado e aquela cuja percentagem de confiança é menor, num claro reflexo da governação desleal e nada transparente de Trump.

De acordo com os autores do documento, esta crise deve levar os líderes (de governo e não só) a tomar medidas, com o objectivo de voltarem a ser merecedores da confiança dos cidadãos, contrariando o medo e a incerteza que se sentem actualmente. É que, na edição deste ano, existe uma palavra comum a todos os grupos e instituições dos Estados Unidos: perda. Perdeu-se a confiança na verdade, a fé num futuro melhor e a certeza de que o Estado, as empresas e as organizações não-governamentais existem para proteger os cidadãos e zelar pelo seu bem-estar.

[quote_center]Os Estados Unidos assistem a um momento de “queda livre” no que à confiança da população diz respeito[/quote_center]

É por este motivo que os líderes devem assumir o compromisso de restabelecer a confiança e o entendimento junto da população, devendo adoptar novos padrões de ética e transparência e pondo fim à onda de desinformação e manipulação que predomina um pouco por toda a parte. Para os autores, o “silêncio e a inércia não são uma opção” e é necessário agir depressa. E tudo isto exige coragem e convicção, e um compromisso forte e sério por parte de todos.

Todavia, e apesar de os Estados Unidos serem a nação onde a queda da confiança foi mais acentuada, entre 2017 e 2018 e por parte da população em geral, é a Rússia que ocupa o último lugar (com apenas 36%) no que respeita à confiança dos cidadãos, seguindo-se o Japão (com 37%), a África do Sul e a Irlanda (ambas com 38%).

Importa aliás reforçar que, dos 28 países, 20 têm nota negativa (com percentagens abaixo dos 50%) no que respeita a este tema, o que revela que é definitivamente necessária uma tomada de atitude urgente para que a população em geral volte a acreditar nos líderes (públicos e privados) e nas instituições que estes representam. Neste sentido, e de acordo com Richard Edelman, “as instituições devem responder à necessidade de informação precisa e factual sentida pelos inquiridos, promovendo o debate público e contribuindo para a educação da população”. O presidente e CEO da organização que realiza este barómetro não tem dúvidas: “o silêncio é um imposto sobre a verdade”.