O crescimento desordenado da periferia urbana e a decadência nas cidades são racionais. Reuniões intermináveis e injustiças laborais? Absolutamente racionais. Os comportamentos aditivos podem igualmente ser racionais. Esta é a nova economia de tudo o que sempre pensou não ser económico e que o ajudará a ver o mundo com novos olhos. Basta ler o novo livro de Tim Harford, “The Logic of Life”
POR HELENA OLIVEIRA

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O sucesso de Arthur Connan Doyle, o criador do famoso personagem Sherlock Holmes, aplicava uma receita aparentemente simples para cativar os seus leitores: revelava os mistérios do comportamento humano a partir da lógica fria e de uma imaculada observação. Tim Harford, o autor de The Undercover Economist e, mais recentemente do livro que está a dar que falar, intitulado The Logic of Life: The Rational Economics of An Irrational World, é uma espécie de Holmes da economia, mas com uma diferença substancial: ao passo que, enquanto comuns mortais, poucos de nós seríamos capazes de chegar perto das competências do famoso detective, todos podemos aspirar a perceber os episódios da vida, à luz da economia, que o jornalista do Finantial Times nos apresenta ao longo das páginas deste livro.

De uma forma simples, Harford utiliza as ferramentas da economia, a par de estudos e dados estatísticos, para decifrar os mistérios da nossa existência, tendo como motor a teoria da escolha racional e a premissa de que as pessoas racionais respondem a compromissos e incentivos. A partir desta ideia de base, demonstra de seguida de que forma os viciados em drogas, os adolescentes delinquentes, o crescimento desordenado dos subúrbios, a decadência dos centros urbanos, o crescimento económico de longo curso, as políticas no local de trabalho e as intermináveis reuniões no escritório são, todos eles, fenómenos racionais. Como afirmou numa entrevista, “nas mãos dos economistas, a ‘teoria da escolha racional’ produz uma imagem em raio-X da vida humana”.

Questões tão velhas quanto a humanidade (ou quase)

Certamente que já aconteceu a milhões de pessoas quando, por exemplo,  perdem todo o seu dinheiro num  casino ou bebem demasiado perguntarem a si mesmas “o que raio estava eu a pensar quando fiz aquilo?”. De acordo com Harford, estavam a pensar muito mais do que possam imaginar. No seu livro, o autor afirma que quer estejamos a falar de crimes, política, racismo, sexo sem protecção, vícios, entre outros (aos quais dedica um capítulo no seu livro) somos extremamente racionais na nossa tomada de decisão – mesmo que esta pareça imprudente ou repreensível.

Para o autor, considerado um dos melhores jornalistas de economia do mundo (é colunista do Finantial Times e da Slate.com), os seres humanos são criaturas racionais que tomam decisões economicamente lógicas: ou seja, a vida é feita de resoluções cujos termos da equação se resumem a perdas e ganhos, não só em termos materiais, como também no que respeita à saúde, à felicidade e ao bem-estar.

Mistérios do amor, casamento e divórcio

“Nos lugares em que existem poucos homens, as mulheres respondem à situação prologando a sua vida académica. Nas cidades em que existem muitos homens ricos, o número de mulheres é muito significativo”, afirma no capítulo dedicado ao matrimónio, explicando também por que motivo existem menos casais a darem este passo. De acordo com as suas pesquisas, o aparecimento da pílula contraceptiva alterou a sociedade pois mudou os seus incentivos.

Por seu turno, as mulheres respondem a este fenómeno estudando cada vez mais afincadamente, sendo o número de licenciadas, na maioria dos países desenvolvidos, cada vez maior comparativamente ao dos seus pares. “Serem capazes de adiar a maternidade permite-lhes aumentar os seus rendimentos devido “às economias de escala na educação e no trabalho que recompensam aqueles que despendem mais tempo nas faculdades e que depois trabalham longas horas logo a partir do início das suas carreiras”, argumenta.

E chegamos à revolução do divórcio. A família sempre foi uma poderosa unidade, e racional também, devido às forças económicas da divisão do trabalho, das economias de escala e da vantagem comparativa. Mas a emancipação feminina alterou as equações no interior do casamento, na medida em que as mulheres se tornaram mais instruídas, carreiristas e “amigas” dos empregos. Foram também ajudadas pela tecnologia doméstica, que reduz significativamente o tempo necessário para a lida da casa. Mudam os incentivos, altera-se a necessidade de ansiar pelo casamento ou manter-se num que não lhes traga felicidade. Todas estas tendências, como é óbvio, são inteiramente racionais – embora esta racionalidade seja dificilmente um processo consciente.

Harford demonstra também de que forma é possível a economia revelar os mistérios do amor e do “acasalamento”. “Os apaixonados planeiam, usam estratégias, negoceiam e lidam com as brutais realidades da oferta e procura”, escreve. Recapitula a história da evolução na qual homens e mulheres se “ligam” a estímulos diferentes, explicando os motivos devido aos quais as mulheres se sentem mais atraídas por homens com elevados níveis de rendimentos, o que não acontece com os homens em situação contrária (o autor apresenta sempre dados estatísticos para sustentar os seus argumentos). O que também explica por que motivo existem mais mulheres nas cidades do que os seus pares masculinos que são mais passíveis de responder ao aumento do custo dos alugueres mudando para os subúrbios, enquanto as mulheres têm mais razões para se manterem nas cidades, porque têm uma maior propensão a procurar pares desejáveis.

Incentivos escondidos e lógicas inesperadas
De uma certa forma, este livro é uma compilação de outros estudos na mesma área já realizados por outros economistas. São poucas as ideias verdadeiramente novas que Harford apresenta, embora seja inovadora a sua tentativa de as sintetizar numa visão geral do mundo, coesa e exaustiva. Por exemplo, John Von Neumann, o inventor da teoria dos jogos, já tinha apresentado a ideia de que os jogadores de póquer aderem a padrões racionais (o jogo é também um dos capítulos de Harford); Gary Becker poderá ter atribuindo as taxas crescentes de divórcio às alterações dos conceitos básicos de Adam Smith no que respeita à divisão laboral. Contudo, para o autor estes são apenas pormenores de um quadro maior, uma espécie de teoria unificada de todos os comportamentos humanos.

Quando Harford apresentou o primeiro rascunho do livro ao seu editor, este considerou que as pessoas não eram assim tão lógicas quanto ele demonstrava, mandando-o arranjar provas. E Harford não se fez rogado: observou e quantificou jovens delinquentes por todos os Estados Unidos, analisou prostitutas mexicanas, esteve em contacto estreito com homens de negócios em variadas convenções, privou com jogadores de póquer profissionais em Las Vegas e com jogadores de futebol profissionais na Europa, entrevistou esposas violentas, alcoólicos e miúdos que torturam colegas na escola. E, “em todas as histórias encontrei incentivos escondidos e lógicas inesperadas”, afirma, acrescentando que descobriu que este mundo louco em que vivemos faz mais “sentido” do que se possa pensar.

Um outro mistério “menor” que Harford escolheu para se debruçar foi o facto da crescente publicidade aos adesivos ou pastilhas anti-tabágicos. Na verdade e ao contrário do que se poderia esperar, os jovens estão a responder de uma forma inesperada a estas campanhas: são mais aqueles que começam a fumar. E porquê? Porque ao existirem anúncios que afirmam existirem novas formas que os ajudará a deixar o hábito, “racionalmente” é menos arriscado iniciarem-no. Estes são apenas alguns dos temas focados no seu último livro, que está a obter críticas muito favoráveis em diversos universos da sociedade.

E talvez se perceba o porquê de tanto sucesso.Como afirma na mensagem que que envia aos seus leitores na Amazon: “um mundo racional não é necessariamente um mundo bonito. Mas não resolveremos os problemas sociais se fingirmos que eles são apenas causados por pessoas loucas, más, estúpidas ou moralmente degeneradas”. Esta parece ser uma perspectiva racional. E elementar, não, caros Watsons?

A lógica e os benefícios dos CEOS

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Por que motivo é que os executivos de topo ganham tanto dinheiro? Este é um dos capítulos do livro The Logic of Life que, dado constituir uma questão quase obsessiva para todos nós, tem sido tema de dissecação por vários blogs de economia. As discussões sobre a desigualdade de rendimentos conduzem, na maioria das vezes, ao tema dos exagerados pacotes de benefícios auferidos pelos CEOs. Na verdade, todos nós, mesmo que não o admitamos, consideramos que qualquer pessoa que ganhe tanto dinheiro deve meter algum ao bolso. Harford sugere que temos razão. Ou mais ou menos. Mas não necessariamente da forma que provavelmente pensamos.

Muitas das expressões injuriosas que utilizamos contra os abusivos ordenados dos CEOs são simplesmente argumentos repletos de incredulidade: como é que é possível que Michael Eisner, ex-CEO da Disney possa valer 800 milhões de dólares ou, mais intrigante ainda, como é que se pode ter uma ideia se ele vale isso ou não? Harford vai ainda mais longe e explica que Michael Eisner possa valer 800 milhões de dólares mesmo que ele não faça nada de nada – ou valer ainda mais caso passasse o dia a jogar jogos de vídeo. Isso deve-se ao facto de muitos economistas acreditarem que os pacotes salariais dos CEOs são estruturados não para os estimular a atingir picos mais altos de performance, mas sim para encorajar os outros a fazê-lo. Michael Eisner pode trabalhar no duro por um milhão de dólares por ano – mas a gigantesca recompensa de se tornar CEO estimula aqueles que se encontram abaixo dele a maiores níveis de performance. Basicamente, Michael Eisner ganhou a lotaria do emprego e, porque o prémio é tão alto, todos os seus subordinados labutam incansavelmente, competindo para um lugar futuro próximo do vencedor da taluda, numa espécie de torneio, nome dado à teoria racional utilizada por Harford para explicar este “fenómeno”. Para vários críticos deste capítulo, o que o autor não explica com a sua “teoria do torneio” é a alteração dos salários dos CEOs ao longo das últimas décadas. E os candidatos à explicação são muitos: alterações na teoria financeira, o “boom” dos mercados financeiros, a diluição dos lucros dos accionistas devido às mudanças nos mercados de capitais e até uma mudança cultural. A discussão permanece, portanto.

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