Numa altura em que o desemprego em Portugal está em redor dos 40% e em que as indefinições económicas subsistem, o que se pode dizer a um jovem sobre que passos dar? E o que podem e devem fazer os jovens para se valorizarem pessoalmente e de forma visível face aos outros, mais adultos, possíveis parceiros, empregadores, sócios ou colegas?
POR CARLOS VIEIRA*

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*Carlos Vieira é Administrador do Grupo Ensinus
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Numa altura em que o desemprego jovem (identificado para os trabalhadores entre os 15 e os 24 anos) em Portugal está em redor dos 40% e em que as indefinições económicas subsistem, o que se pode dizer a um jovem, na flor da idade, sobre que passos dar? Obviamente que qualquer pessoa pode opinar sobre as razões ou sobre os efeitos perniciosos da situação política, mas as soluções passarão necessariamente por um desenvolvimento económico conjunto da economia mundial e, muito especificamente, europeia. Mas devemos assumir e devemo-nos preparar para um modelo que dificilmente se afastará dos seguintes princípios:

  • O desenvolvimento terá de ser mais sustentável ao nível da exploração dos recursos, não sendo admissível que se continuem a obter crescimentos sustentados do PIB mundial com a manutenção da exploração de recursos como nos últimos dois séculos;
  • A propósito de PIB, estão em curso mudanças de avaliação da riqueza das nações, imputando nos cálculos outras medidas que (re)calculam e permitem uma avaliação mais sustentável da mesma;
  • O prolongamento da vida de trabalho das populações, associado à maior longevidade  que se tem vindo a adquirir, levanta questões sobre qual o espaço destinado aos jovens.

O pouco que posso escrever no presente artigo passa por tentar expressar um conjunto de conselhos para a juventude que, hoje, se vê um pouco (ou muito, nalguns casos) perdida. Assim, na situação actual, o que podem e devem fazer os jovens para se valorizarem pessoalmente e de forma visível face aos outros, mais adultos, possíveis parceiros, empregadores, sócios ou colegas?

Conselho nº 1: Autonomia
Os mais jovens têm de perceber que a protecção e controlo por parte dos seus tutores existem em níveis que não têm similitude com qualquer outro período da história da vida humana. A autonomia que muitas vezes os jovens afirmam ter é falsa, seja pelos mecanismos tecnológicos de controlo (os telefones móveis, por exemplo), seja porque o nível de dependência financeira é significativo, existindo muitos estímulos para que os jovens se mantenham na já famosa “zona de conforto” que a psicologia poderá explicar com maior acuidade. O mesmo se passa nas instituições escolares em que tudo está tutelado, regulado e controlado. Assim, são os jovens mais “confortáveis” que têm de perceber que essa situação lhes retira capacidade de empoderamento e que têm de se afirmar como indivíduos com capacidade empreendedora e criativa.

Conselho nº 2: Aprendizagem
A aprendizagem deverá decorrer ao longo da vida. E aprender não é só do ponto de vista escolar. Aprender passa por vivenciar experiências e por querer conhecer, seja viajando, seja trabalhando e assumindo sempre que se aprende com tudo e com todos. Aqui são importantes os processos de estágio em empresas, a participação em associações de índole laica ou religiosa, a participação em juventudes partidárias (valorizando o potencial das mesmas num Estado democrático), a colaboração em organizações de beneficência e a conveniente sistematização dos conhecimentos adquiridos – e.g. escrever tudo em “diários de bordo” é um bom exercício (não esquecer nunca o caderninho para registar as ideias que vão surgindo). E faço notar que, cada vez mais, as avaliações escolares estão a ser descartadas nas análises de currículos, se esses mesmos currículos apresentarem outras capacidades (as chamadas soft skills) adquiridas através das actividades desenvolvidas.

Conselho nº 3: Aventura
Ter vontade de conhecer, de empreender, de avançar para o desconhecido (sempre com backup, claro) é algo que existe na juventude e que tende a desaparecer com a falta de estímulos. Assim, ir estudar para o estrangeiro ou para outra cidade, aproveitar os projectos internacionais como Erasmus e Leonardo da Vinci para enriquecer os conhecimentos é uma obrigação. Dir-me-ão que para isso é necessário dinheiro e ter o apoio da família é fundamental. Nem sempre, digo. E por vezes há família ou amigos em lugares mais distantes! Mas as conquistas fazem-se com coragem. Ter um part-time aos 16 anos é também uma aventura!

Conselho nº 4: Ambição
Neste ponto faço uma remissão para os pontos anteriores e acrescento que é fundamental quereremos participar em actividades que nos fortaleçam física e mentalmente. Praticar um desporto é fonte de ambição, de desejo de superação das nossas limitações. Adquire-se respeito pelos nossos oponentes e capacidade de trabalho em grupo (mesmo em desportos individuais em que, muitas vezes, não se percebe todo o trabalho de equipa que existe por detrás). E não precisamos de querer ser sempre os melhores. Precisamos de ter gosto em participar, em criar valor e em nos tentarmos superar todos os dias. O mesmo se passa na estratégia de uma organização. As organizações precisam de colaboradores que tragam inovação, empreendedorismo, cultura de trabalho e de aprendizagem contínua. A crítica fácil, destrutiva e invejosa tem de sair das nossas mentes! A nossa vitória não deve vir simplesmente da derrota do nosso oponente!

E, como ponto final, não entendam este texto como um meio para atingir um fim. Assumam sempre princípios de sustentabilidade, de ética e de valorização da pessoa humana naquilo que fazem. Não porque se melhora o currículo e se “abrem portas”, mas porque esse é o modelo de cidadania que se deve procurar – liderando pelo exemplo e acreditando que vivendo numa família, numa organização, numa região, podemos todos criar valor para nós e para quem nos rodeia.

 

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