As razões são várias, entrecruzam-se entre si e combinam a empatia, a fé, a transcendência ou a simples realização pessoal. Mas se é certo que até os bebés reconhecem a generosidade e a sociabilidade, também é verdade que as tendências “pró-sociais” que continuam na nossa vida adulta necessitam de um encorajamento e reforço consistentes
TRADUZIDO E ADAPTADO POR HELENA OLIVEIRA
© Stanford Social innovation Review

A participação nas instituições da sociedade civil, através do voluntariado ou da contribuição de recursos é uma das maiores refutações do conceito darwiniano de auto-interesse, largamente restritivo, que dominou uma parte significativa do pensamento económico e social do século XX. Se a satisfação depende basicamente da acumulação de dinheiro e poder, por que motivo existem tantas pessoas que reduzem ambos em prol dos outros?

A verdade é que o tecido dos nossos interesses pessoais está profundamente entrelaçado com fortes cordões de generosidade. São várias as pesquisas que demonstram que os bebés e as crianças com menos de cinco anos reconhecem a generosidade e a sociabilidadereagindo negativamente aos seus comportamentos opostos. As nossas tendências “pró-sociais” continuam na nossa vida adulta, mas necessitam de um encorajamento e reforço consistente.

Tal como o investigador de políticas públicas Arthur Brooks narra no seu livro Who Really Caresdamos e voluntariamo-nos quando nos sentimos responsáveis pelos outros. Esta responsabilidade é cultivada ao nível do nosso núcleo familiar e da comunidade em que estamos inseridos, e muitas vezes através do envolvimento religioso. Como escreve Brooks, as pessoas ajudam os outros através da sociedade civil não porque desejem um desconto nos impostos, mas porque têm um sentido de dever e se sentem obrigadas a dar de volta às suas comunidades.

Adicionalmente, quanto mais as pessoas sentem que o seu dever está a ser cumprido, servindo os outros através de uma associação civil, mais felizes se sentem, o que é um dado importante se pretendermos compreender melhor de que forma funciona a sociedade civil. É um cliché a afirmação de que o dinheiro não traz felicidade e mesmo que muitos de nós sejamos a prova de que o mesmo é falso, rapidamente descobrimos que, de forma paradoxal, as nossas vidas são muito mais “preenchidas” quando oferecemos o nosso tempo, dinheiro e energia a pessoas ou causas que são exteriores a nós.

Satisfação/realização

Assim, a primeira e mais básica resposta à pergunta “o que nos faz participar na sociedade civil” é simplesmente a busca da felicidade. Ou, para sermos mais específicos, a felicidade percepcionada como uma concretização ou realização pessoal. A felicidade tem menos a ver com ganhos materiais do que com ganhos teleológicos. Os seres humanos são “programados” para encontrar propósito e significado na busca da perfeição e do desenvolvimento. Dar a pessoas que precisam, solucionar problemas que magoam ou inibam outros de fazer algo importante, e procurar o bem das comunidades nas quais vivemos, são formas inter-relacionadas com a busca de um estado “apaziguador” em nós mesmos. Na nossa cruzada para encontrarmos algo que nos preencha, não só tentamos alcançar o nosso maior potencial, como também ajudamos os outros e as suas comunidades a alcançar o deles.

Empatia

A teoria dos sentimentos morais, tal como articulada pelos filósofos escoceses David Hum a Adam Smith, argumenta que os nossos julgamentos morais e acções estão enraizados em experiências de compaixão e identificação. Somos muito mais tocados pelos problemas de alguém que está perto de nós, ou de pessoas com quem nos identificamos, comparativamente a quem está longe ou que nada tenha em comum connosco.

Por outro lado e como demonstrado por várias pesquisas, as pessoas de baixo rendimento estão muito mais dispostas a dar dinheiro para a caridade para ir ao encontro das necessidades básicas e ajudar “as pessoas pobres a ajudarem-se a si mesmas” do que aqueles que possuem rendimentos elevados. Outros estudos concluíram que quanto maior empatia as pessoas sentem por alguém que está em sofrimento ou com dificuldades, mais fazem para ajudar, mesmo sabendo que essa dor ou dificuldade poderá terminar brevemente.

Sensibilização

Estima-se que níveis mais elevados de educação dêem origem a níveis igualmente mais elevados de caridade e voluntariado. As pessoas com maiores níveis académicos têm uma exposição maior às razões que explicam a existência de problemas socioeconómicos, bem como a organizações e redes que ajudem a solucionar esses mesmos problemas. A combinação de uma maior consciencialização de ambos os problemas e possíveis soluções para os mesmos estimula também o envolvimento na sociedade civil. A conclusão de estudos universitários tem um efeito mais expressivo no voluntariado entre os estudantes que têm, em termos socioeconómicos, menos probabilidades de terminar a sua licenciatura, o que sugere que a expansão de horizontes possibilitada por aqueles que têm níveis académicos mais elevados aumente a consciência pública.

Sentir que “fazemos falta”

As pessoas que sentem que têm algo para dar e que acreditam que as suas competências e capacidades específicas podem fazer a diferença são mais propensas a participar em iniciativas da sociedade civil. Pessoas que gostam de ensinar os outros, que sentem que fazem falta a alguém, a quem são pedidos conselhos e que acreditam que contribuem para o bem-estar dos outros são igualmente mais propensas a fazer voluntariado face a outras que não têm estes atributos. A ideia de que “fazemos falta” é, de forma interessante, fortemente associada a doações a organizações seculares. Os que dão por motivos religioso tendem a ser motivados por outras razões.

Fé e transcendência 

As pessoas que têm um maior envolvimento com a religião – que assistem a serviços religiosos e que afirmam que a fé é de extrema importância para si mesmas – dão mais do que pessoas não religiosas. Por vezes, os donativos “religiosamente motivados” têm como objectivo “curar” uma doença social como a pobreza, mas também se prendem com um sentimento de que dar algo a alguém é mais importante do que nós mesmos, ou seja, é algo que nos transcende. Nas tradições teológicas ocidentais, o objectivo de reflectir a personalidade de Deus no mundo envolve o dar, porque Deus é o doador de todas as coisas boas.

Por outro lado, o envolvimento em comunidades religiosas produz também níveis mais elevados de voluntariado. Apesar de a cultura popular e os media retratarem, geralmente, a fé religiosa como uma incubadora de fanatismo e de “mentes fechadas”, é mais legítimo afirmar que a mesma é, sim, uma incubadora, mas de consciencialização e envolvimento. Na verdade, fazer parte de organizações religiosas durante a juventude prevê, de forma positiva, formas múltiplas de actividades de voluntariado ao longo da idade adulta, mesmo que o indivíduo se tenha transformado num adulto não-religioso.

Em contextos não religiosos, as pessoas que têm sentimentos de “inspiração”ou elevação são mais generosas. Estes sentimentos podem simplesmente ser provenientes da visualização de fotos inspiradoras da natureza, mas resultam também do acto de se testemunhar outras pessoas a exercerem actos moralmente exemplares e boas acções. Por outro lado, os adultos mais velhos que se envolvem nas suas comunidades por razões pessoais e profissionais contribuem em maior escala na medida em que desejam transmitir valores morais às gerações mais jovens. O que é, também, uma espécie de transcendência: dar algo que sobreviva a nós mesmos.

Formação moral 

De importância central aos movimentos de participação na sociedade civil são os padrões morais e os valores. Um sentido enraizado do que é certo ou errado, justo ou injusto, predispõe as pessoas a juntarem-se a outras para fazer o bem. Existem pesquisas que demonstram que quem interioriza o princípio do cuidado, ou a crença de que as pessoas com necessidades devem receber ajuda independentemente da empatia que se tem ou não para com elas, optam por oferecer donativos a organizações que ajudam os mais pobres.

Existem vários temas que se entrecruzam na interpretação dos motivos que levam as pessoas a participar na sociedade civil. O primeiro reza que o envolvimento na vida da sociedade civil feito desde tenra idade é a melhor forma de criar uma geração de adultos civicamente envolvidos. Estar presente em situações nas quais a generosidade é experimentada de perto e a nível pessoal possui um impacto duradouro na formação moral, na empatia e na crença de que cada um de nós tem algo para dar. Em segundo lugar, as instituições que inculcam valores morais, e não somente princípios, são de importância extrema. Os valores e os sentimentos morais estimulam a acção mediante formas que a mera noção de algo que é moralmente correcto não consegue. Por esta razão, estar presente em comunidades religiosas ou espirituais, em conjunto com a educação e tempo passado com amigos que participam activamente nas suas comunidades é a melhor fórmula para fortalecer um sentido de elevação moral que nos motiva a sair de casa e ajudar os outros. 

Ryan Streeter, o autor deste artigo, é director de estudos de políticas domésticas no American Enterprise Institute. Antigo director do Center for Politics and Governance na Universidade do Texas, é autor do livro Transforming Charity e co-autor do livro The Soul of Civil Society.

Traduzido, com permissão, de What motivates people to participate in civil society
© Stanford Social Innovation Review 2018