Se as teorias da ética fossem mais ensinadas nas universidades de economia e gestão, e estivessem sempre presentes em todos os cursos para executivos, talvez se tornasse mais claro, para cada um de nós, identificar o nosso tipo de perfil quando tomamos decisões: se somos egoístas, utilitaristas, deontológicos ou virtuosos. Com a consciência do nosso efetivo perfil podemos ou viver felizes com isso, ou querer mudar. A escolha cabe à consciência, ao coração e à forma como cada um gosta de ser visto pelos outros… e por si mesmo
POR SOFIA SANTOS

A Ética do Egoísmo na tomada de decisão

A Ética do Egoísmo na decisão, implica que o decisor pense que, o que faz algo ser bom ou mau, certo ou errado, é aquilo que satisfaz os seus desejos ou que cumpra as necessidades de alguém; ou que a pessoa tenha como princípio básico o auto-interesse de si próprio ou de quem será impactado pela decisão e que a ação escolhida vá ao encontro do seu próprio interesse.

A Ética Deontológica na tomada de decisão

A Ética Deontológica ocorre naqueles comportamentos em que o que faz algo ser bom ou mau, certo ou errado, é o facto desse algo estar, ou não, em conformidade com algum dever ou lei. Neste caso, o princípio base de atuação está relacionado com os deveres para consigo e para com os outros, e a ação escolhida deverá estar mais em conformidade com os deveres reconhecidos.

A Ética Utilitarista na tomada de decisão

Nesta ética, para o decisor, o que faz ser algo bom ou mau, certo ou errado, é a decisão que produz a maior quantidade de prazer, ou ausência de dor, a um maior número de pessoas. O princípio básico associado é o “Princípio Felicidade Global”, uma vez que se pretende maximizar os resultados positivos para o maior número de pessoas, e obter resultados negativos para menor número de pessoas. Assim,  deve-se escolher a ação que levará à maior felicidade (a ausência de dor) global. Ou seja, o nosso prazer e a nossa dor são tão importantes como as dos outros.

A Ética da Virtude na tomada de decisão

Nesta ética, o decisor considera que o que faz algo ser bom ou mau, certo ou errado, é aquela ação que realmente encarna ou promove traços culturalmente reconhecidos como bons ou maus.

A teoria da ética da “virtude” enfatiza o caráter moral das ações do Homem e a capacidade das pessoas desenvolverem um bom caráter que lhes permita serem bondosas, generosas e com vontade de ajudar o outro. Enfatiza a pessoa e não a ação em si: esta teoria foca-se na virtude ou no carácter moral da pessoa que está a tomar a decisão/fazer a ação, e não se foca nos deveres e regras éticas, ou nas consequências das ações tomadas.

Esta teoria também enfatiza a necessidade que existe em saber quebrar com os maus hábitos de caráter do passado, como por exemplo a ganância e a inveja. Nesta teoria, as regras e as leis não constituem o fator principal de garantia de um comportamento ético. O conceito da ética da virtude está assente na ideia de que o indivíduo deveria escolher o seu caráter interno, o seu eu, em vez de o fazer com base exclusiva nas regras existentes, na cultura e nos costumes. Se o caráter de uma pessoa é bom, então as escolhas dessa pessoa são também boas. Esta teoria focaliza a atenção no indivíduo e não nas opiniões populares vigentes na sociedade. A ética da virtude está preocupada com toda a vida de uma pessoa, e não com episódios ou ações particulares.

Os princípios da ética da virtude:

  • Uma ação só é correta se for uma ação que uma pessoa virtuosa realizaria nas mesmas circunstâncias;
  • Uma pessoa virtuosa é uma pessoa que age virtualmente;
  • Uma pessoa age virtuosamente se “possuir e viver as virtudes” e,
  • Uma virtude é uma característica moral que uma pessoa precisa para viver bem.

Esta teoria sugere que a maneira de construir uma boa sociedade é ajudar os seus membros a serem boas pessoas, em vez de usar leis e punições para impedir as más ações.

Sofia Santos, Economista

Faz sentido refletir sobre esta simplicidade de pensamento. Ensinar a ser boa pessoa, e não ensinar a ser má pessoa. Ensinar a respeitar os outros, o trabalho dos outros, o ambiente, as gerações futuras. Ensinar a valorizar o longo prazo e não a maximização do lucro a curto prazo que distorce a lucidez do pensamento. Não é utopia. É a constatação de um facto: um ensino assim, não teria originado a crise do subprime, nem teria originado a tirania do lucro para o acionista.

Assim, em vez de ensinarmos nas escolas de gestão a teoria do Principal e do Agente deveríamos ensinar a teoria da Gestão Humanista. Em vez de ensinarmos a teoria do acionista, deveríamos ensinar a teoria do acionista iluminado. Em vez de ensinarmos estratégia empresarial, deveríamos ensinar estratégia empresarial para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

No final do dia, nós temos o mundo que construímos. E é anacrónico estarmos a construir comportamentos que sabemos poderem originar impactos societais negativos, e que podem ser ultrapassados. Deveríamos estar a ensinar conteúdos com base numa ética da virtude… Mas não estamos, pois não? E o que diz a nossa consciência sobre isso? Se disser “nada”, é porque estamos ocos por dentro e com falta de propósito.

1 COMENTÁRIO

Comments are closed.