Portugal foi abençoado com o património natural sobre o qual tem conseguido construir um património cultural igualmente valorizável. No entanto, nem por isso nos tornámos mais felizes, mais equilibrados e mais produtivos. Como mudaram os tempos mas não mudaram as vontades, a ineficiência está instalada e existe um desfasamento entre as necessidades do sistema e a sua capacidade para as satisfazer
POR SOFIA SANTOS*

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Sofia Santos é economista
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De uma forma geral, penso poder afirmar que viver em Portugal e em Lisboa (minha cidade) é um luxo, pois consegue-se ter uma qualidade de vida que, noutros países, implicaria um salário muito mais elevado. Quem vive em Lisboa, ou arredores, rapidamente está na praia, no campo e consegue desfrutar desta externalidade fantástica que é a nossa paisagem, o nosso mar e floresta, que nos proporciona um sentimento de felicidade e bem-estar com consequências positivas para todos os ângulos da nossa vida.

A luz fantástica de Lisboa, e reconhecida por fotógrafos, contribui para a existência de menos depressões, para a existência de um sentimento de “estar bem para com a vida”, que origina cidadãos felizes e, consequentemente, mais produtivos. Todos nós conseguimos constatar que, quando estamos em harmonia interior, somos mais produtivos e estamos mais interessados em ajudar a organização a caminhar no mesmo sentido. Muitas das vezes, aqueles que parecem puxar a empresa para outro lado, são pessoas obscuras, tristes e infelizes. Essas são normalmente as menos produtivas apesar de se acharem as mais espertas.

Portugal foi abençoado com o património natural sobre o qual tem conseguido construir um património cultural igualmente valorizável. No entanto, nem por isso nos tornámos mais felizes, mais equilibrados e mais produtivos. O número de divórcios tem aumentado exponencialmente desde final dos anos 80, sendo que em 2010, por cada 100 casamentos, existiram 70 divórcios. Hoje, em 2012, a situação é ainda mais estranha, quando casais já separados emocionalmente ainda continuam na mesma casa pelo facto de terem contraído tamanhos empréstimos no passado, que os obriga a lidar com os sentimentos de frustração, ansiedade, entre muitos outros que os tornam mais infelizes e logo menos produtivos. Por outro lado, a venda de antidepressivos nos últimos dez anos teve um aumento de 110%, uma vez que as pessoas precisam de “algo” para diminuir a sua tristeza e abatimento.

Hoje temos uma população triste, frustrada e sem esperança. Deveríamos ter precisamente o oposto. A democracia deu a oportunidade de existir progressão social àqueles que nasceram nas classes médias/baixas, ou seja, à maioria de outros tempos. A democracia deu a oportunidade da educação das massas.

A democracia deu a possibilidade de, no início do século XX, ser possível juntar à mesa uns avós que não sabiam ler nem escrever devido à sua vivência da agricultura, tendo as visitas a Lisboa sido acontecimentos da vida que se contava nos dedos de uma mão, uns pais com a 4ª classe e ensino técnico-profissional que criaram o seu negócio nos anos áureos da década de 90, com uma filha doutorada em Londres que também teve uma aventura pelo empreendedorismo em Portugal. Uma simples apresentação da minha família. Como estas há muitas. E existem também aquelas que com a democracia perderam tudo … desde o material ao emocional.

Qual será o nível de felicidade daqueles que progrediram com a democracia e aqueles que regrediram com ela? Não tenho dados científicos, mas atrevo-me a intuir que a grande maioria de ambos não são felizes e que sentem uma grande frustração ou desilusão.

Os que “regrediram” com a democracia sentem o eterno abandono e falta de respeito pela situação vivida, sem nunca terem tido nada que ver com ela. Sentem a falta de respeito pela contribuição feita através da vida corrente e a falta de preocupação cívica com a reestruturação necessária que se deparou com obstáculos ainda hoje presentes.

Os que “progrediram” com a democracia sentem-se hoje defraudados com a impossibilidade de conseguirem ser reconhecidos pelo conhecimento e capacidades adquiridas, dada a estrutura instalada que teima em não sair e que teima em não dar a oportunidade natural que caracteriza uma verdadeira democracia. Como mudaram os tempos mas não mudaram as vontades, a ineficiência está instalada e existe um desfasamento entre as necessidades do sistema e a capacidade do sistema em as satisfazer.

Por tudo isto, a geração actual dos 35-40 anos está a questionar-se sobre o seu papel neste lindíssimo e ineficiente país. Os mais novos já começaram a sair, pois a liberdade familiar assim o permite. Também a geração de 74 está agora a reflectir sobre “o que andamos nós aqui a fazer”. A mudança não é tão fácil, mas poderá ser muito compensadora ao nível do “sentido da vida” que todos procuramos.

E se assim for, o que vai ser deste pais? Quem ficará por cá? Aqueles que gerem? Mas ficam a gerir o quê? Ficam a gerir o vazio cerebral.

Sofia Santos

Sustainability Champion in Chief @ Systemic